A notícia que hoje é capa por toda a imprensa e que dá conta de uma idosa que morreu há nove anos e só agora foi encontrada na sua casa, é o reflexo da indiferença e irresponsabilidade social que se vive em Portugal. Como é possível que uma pessoa deixe de aparecer no seu círculo social e/ou familiar e só uma vizinha dê por isso? Não levanta a pensão vitalícia e a Segurança Social parece ignorar o assunto. Não paga as contas de casa e cortam a luz, água e afins. E como se isto já não bastasse, o imóvel vai a hasta pública sem que ninguém o visite e se dê conta do sucedido. Pior, o alerta de uma vizinha foi ridicularizado e ignorado pelas autoridades locais. Família, Segurança Social, Finanças, Autoridades e, por fim, a própria sociedade: eis os responsáveis pela situação.
A cegueira em que vivemos nestes tempos é preocupante, sobretudo, porque passámos a considerar que os idosos, uma vez sujeitos não activos e de diminuto peso social, não são dignos de um investimento político e social por parte da sociedade, instituições e do próprio Estado.
Longe vão os tempos em que um idoso era visto como um sábio, cujas número de rugas se traduzia no seu conhecimento e experiência de vida, atractivo aos olhos dos mais jovens. Mas na sociedade actual, que deifica a juventude, o idoso é agora dado como um inválido e um empecilho no seio familiar. A discriminação surge no círculo familiar e, não raras vezes, desemboca em violência doméstica. Noutros casos a família descarta-se do problema, ou seja, os idosos são votados ao esquecimento e vivem sós, amparados por uma irrisória pensão do Estado. Quando isto se passa nos grandes centros urbanos a situação ainda é mais preocupante, pois as relações de proximidade não são as mesmas que nas pequenas localidades.
Claro que o primeiro responsável pela situação é a família, que mesmo perante as adversidades do quotidiano não deve negligenciar um membro seu apenas porque já não tem as mesmas capacidades de outrora. Mas também as instituições e o próprio Estado têm a sua quota-parte de responsabilidade, cabendo-lhes, no mínimo, estarem atentas a sinais que indiquem maus tratos e/ou solidão. E se puderem elaborar programas de protecção, melhor. Como neste notável exemplo, em Alfândega da Fé. Começar por ajudar os jovens a desmascarar os preconceitos contra a chamada terceira idade é, sem dúvida, um grande passo. Oxalá venham outros...