quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Campanhas e piranhas

Há muito que nos habituámos a ver as campanhas eleitorais como um lodaçal em que partidos e candidatos trocam acusações, mostram rostos conhecidos (e mentes ausentes, se nos lembrarmos de Carolina Patrocínio…) e fazem promessas que ou simples e descaradamente não cumprem, culpando o Governo de outro partido que o os tenha antecedido, ou nem sonharam cumprir, porque nunca governarão (PCP) ou porque sabotar é a sua forma de estar na vida (BE).

É, por isso, com simpatia que vejo a decisão tomada pelo PSD de acabar com os comícios, caravanas e brindes. A mais do atentado ao desenvolvimento sustentável, as canetas, sacos e aventais com que os partidos soterravam os transeuntes constituíam pura intoxicação, não acreditando eu que um só voto tenha mudado em função de uma dessas ofertas (mau fora) ou sequer que uma delas tenha servido ao seu detentor como imprescindível lembrete para o dia eleitoral.

Numa altura em que as fontes de informação excedem em muito aquelas que estavam disponíveis acerca de quinze anos (quando fui, pela primeira vez, candidato à Assembleia da República), não faz sentido complementar imagens televisivas e documentos disponíveis na Internet com uma parafernália de objectos, regra geral de qualidade lamentável.

A única dúvida que ainda paira no meu pensamento prende-se com o grau de genuinidade da decisão de acabar com os comícios. Não será uma forma encapotada de disfarçar a falta de capacidade de mobilização dos partidos portugueses?!

Bem sei que as pessoas estão mais comodistas e que podem escutar as palavras daqueles que lhes pedem o voto na televisão, na rádio ou na Internet, sem saírem do conforto do lar!... Porém, também sei que os comícios eram uma ocasião magna para escutar de fio a pavio as propostas e as ideias (estou a ser benevolente, bem sei…) das mais conhecidas personalidades da freguesia, concelho ou mesmo do País. Aliás, se fossem inúteis, fica por perceber por que é que, por exemplo, o PSD afirma não realizar comícios, mas promete sessões em auditórios! Isto se não houver daquelas jantaradas de lombo assado, em que as mesas ajudam a preencher o chão dos pavilhões…

O meu ponto é simples: bem podem os partidos portugueses propor o fim dos comícios e brindes (PSD), o fim dos cartazes gigantescos na via pública (CDS) ou dar-nos fruta sem caroços (se o PS der o Ministério da Educação à empregada de Carolina Patrocínio, como é da mais elementar justiça), pois o essencial reside na credibilidade que lhes é atribuída e na fiabilidade das suas propostas.

Fazer figura de “santinho(a)” não ajuda, enquanto os eleitores persistirem em ver a maioria dos candidatos como um cardume de piranhas à espera do seu naco de poder. E nem se diga que os eleitores é que não se interessam (que o diga a, para mim, triste subida do Bloco de Esquerda que, para vergonha pessoal, está à beira de eleger um deputado por Coimbra)… E não se tente passar a ideia de que jamais haverá mobilização de massas, nos dias de hoje; a campanha de Obama prova o contrário…

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Os Cinco

Com a rentrée, voltamos à apreciação aos cartazes eleitorais que tanta rotunda e cruzamento decoram por este país fora. O da foto acima é o mais recente cartaz do MMS, partido que ousou pegar nos actuais rostos dos cinco principais partidos políticos e mandá-los para a célebre Conchichina*. Repudiam assim aquilo a que chamam a "velha política portuguesa" e falam em "Mudar portugal". Sucede que as aspirações dos MMS'ianos ficar-se-ão pelos cartazes, uma vez que o próximo PM sairá, inevitavelmente, de entre aqueles cinco...

* Podiam ter recorrido ao dicionário, uma vez que se escreve "Cochinchina", não "Conchichina" - confirme-se aqui.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Palpites VII

Há algum tempo, perguntámos aos leitores que não se importam de "clicar" se entendiam que Jorge Jesus era o treinador ideal para o Benfica. Os resultados mostraram que 87% dos votantes (14) entendiam que sim, como eu próprio, aliás.

Embore não aprecie o estilo pessoal do senhor (se calhar porque não posso comer pastilhas elásticas...), sempre achei que, embora estudando o futebol como qualquer treinador, estariamos em presença do último intuitivo do futebol português (por oposição à escola "científica", entre outros, de Mourinho e Queiroz).
O homem transpira futebol e vive o espectáculo como ele deve ser vivido: com paixão.

Outro facto inegável é que a equipa jogo melhor do que na época passada e que as vedetas estão "na linha". A contrario, conclui-se que Quique Flores era mais um modelo de revista social e um bom argumento para os suspiros de muitas senhoras.

Porém, a derrota de ontem com o Poltava é um sinal de mortalidade e de que um campeonato "limpo" nunca está ganho à partida.

Oxalá as desgraças inevitáveis estejam reservadas para os jogos com a Briosa!

Um voto que vale a pena

Sabe o leitor que costuma tolerar a minha prosa que sou um céptico em relação à possibilidade de regeneração da classe política portuguesa e ao surgimento de uma sólida cultura cívica, em Portugal.

A minha mais recente passagem política, aliás, ainda mais me assustou, ao constatar o nascimento de uma espécie de “cientologia” política, que tudo resolve com folhas de cálculo, listagens e sem alma. Não caindo no erro de generalizar – há boa gente na política – creio que não é à toa que dou comigo aos 38 anos a devorar, com sofreguidão e religiosamente, a acidez vertida nas palavras de Vasco Pulido Valente…

Mas, por hoje, falemos de um dos bons exemplos: ao invés do que sucede noutros concelhos, em que o exercício do poder autárquico dá azo ao sectarismo mais cruel, em Penela um jovem autarca refrescou a maneira de exercer o cargo de Presidente da Câmara, reunindo competências, chamando autarquias vizinhas bem como os que, de entre os melhores, se mostraram disponíveis para colaborar, e adoptando a humildade que só assiste aos mais inteligentes como cartão de visita; falo do meu ilustre amigo Paulo Júlio.

A meu ver, a excelência do seu cunho político comprova a necessidade de ter “berço” (não enquanto sinónimo de riqueza, mas sim enquanto espelho de uma educação e de valores que se aprendem em casa), pois já enquanto líder juvenil (foi Presidente da JSD de Penela) sempre soube separar o combate político do respeito pessoal que se deve mesmo àqueles cujas ideias não sufragamos. Acresce que, em lugar de ficar à espera das migalhas da política de carreira, o Paulo completou os seus estudos e tornou-se um profissional de mão cheia, só interrompendo um promissor percurso no mundo empresarial pelo tocante amor que tem pela sua terra, Penela.

E se podia ter repousado à sombra da estima que granjeia entre os seus, bem ao contrário, optou por fazer uma obra de excelência, mudando para melhor o seu concelho. Desde logo, percebeu a importância estratégica da Cultura, oferecendo cinema e teatro aos penelenses e sessões de literatura às crianças, no auditório que inaugurou. Concomitantemente, com arrojo, soube aproveitar a oportunidade perdida por Alcobaça, atraindo um impressionante presépio que anima e divulga Penela, pelo Natal.

E poderíamos continuar a desfiar o rosário das coisas boas que fez por Penela: do fomento da prática desportiva ao incentivo a novos projectos empresariais; da divulgação da marca Penela associada aos produtos regionais à estimulação dos projectos turísticos; da reformulação da Carta Educativa à visão estratégica de planear o futuro, elaborando a Carta Social do Concelho… Em suma, o Paulo Júlio pensou, agregou e fez!

Votar no PSD em Penela, mais do que um dever cívico, deve ser um motivo de orgulho.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Gajo de Gabarito V

Sean Connery faz 79 anos, no dia de hoje.

A meu ver, falamos de um dos mais brilhantes actores de sempre do cinema.

Como esquecer a sua actuação como James Bond ou outros filmes que foram marcando sucessivas gerações?! Por mim, lembro ainda Highlander - Duelo Imortal (com uma não menos imorredoira banda sonora dos Queen), Caça ao Outubro Vermelho (a fotografia pertence a esse desempenho), O Rochedo e Descobrir Forrester, entre outros.

Que o tempo conserve este escocês, como conserva o uísque das mesmas paragens!

Regular

A velha maneira americana dar um lado romântico aos criminosos mais conhecidos...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

"Fácil de entender"

Procurando evitar melindres, não resisto a um primeiro relance sobre alguma polémica que se tem gerado em torno das listas do PSD à Assembleia da República.

Começo por alguns aspectos da lista de Coimbra, para destacar a excelência dos dois primeiros nomes. Paulo Mota Pinto e Pedro Saraiva, a mais de docentes de craveira, são personalidades que sempre viram a política como uma missão nobre que justificou que, a espaços, dessem algum do seu tempo à causa pública. Para além disso, tratamos de pessoas que jamais renegaram o Partido Social Democrata como a sua “casa ideológica”, enquanto outros, por conveniência do momento, acompanharam os momentos de oposição de uma discrição táctica ilucidativa. Em suma, falamos de duas escolhas acertadas e de pessoas que, seguramente, não vão para o Parlamento em busca de emprego ou de oportunidade de negócio.

Com o que fica dito e em consequência, sublinho ainda a injustiça de algum jornalismo pouco esclarecido que fala da presença de “filhos de seus pais” nas listas do PSD. No caso de Paulo Mota Pinto, a ressalva devia ser imediatamente feito pelos pseudo-jornalistas que procuram meter tudo no mesmo saco: sendo filho do Prof. Mota Pinto (algo de que o próprio muito se orgulhará e com toda a propriedade), o Paulo (sei que ele me perdoará a informalidade) tem um percurso intelectual, profissional e cívico (desde logo e até na Académica) que fala por si e é justo título para qualquer cargo público. O mesmo não poderei dizer de todos os demais exemplos debatidos, mas seria quase “profano” misturar o regozijo que aqui exprimo com detalhes típicos dos aparelhos partidários.

Outro dos casos quer tem feito a delícia dos jornais tem a ver com a lista de Lisboa, designadamente, no que toca à inclusão dos nomes de Helena Lopes da Costa e de António Preto, a braços com processos judiciais, e à exclusão dos nomes indicados pela Comissão Política Distrital (estão colocados do 17º lugar para baixo, sendo que o próprio colocado nesse lugar, lugar oblige, já se demarcou das críticas de quem o indicou, solidarizando-se com a Líder nacional). Começando pelo primeiro aspecto – os nomes controversos – sou, por princípio, favorável à presunção da inocência atá ao trânsito em julgado da sentença. Tal não quer, porém, dizer que os próprios não devessem ponderar se, a bem da credibilização da política, não seria benéfico fazerem uma pausa voluntária até ao esclarecimento cabal dos assuntos que os afectam e, mais do que isso, se não deveriam pensar se, ao desejarem integrar as listas, não estarão a prejudicar a votação no Partido de que gostam e em que militam. Repito: a sua inclusão é lícita e as pessoas em causa são indubitáveis militantes do PSD, sendo que respeito a decisão pessoal, apesar de não estar seguro da sua bondade intrínseca.Justificar completamente

Já o caso muda de figura se virmos os dois assuntos – os dois nomes e a exclusão dos nomes da Distrital lisboeta – pelo lado da decisão de Manuela Ferreira Leite. Neste prisma a decisão é natural e “fácil de entender” (como cantam Sónia Tavares e os The Gift): equilíbrios partidários e nada mais. Mesmo a nossa “Dama de Ferro” tem que fazer alianças; António Preto “levou-a” ao poder, há anos, em Lisboa e a actual Distrital de Lisboa, apesar de intitucionalmente leal, apoiou maioritariamente Passos Coelho. Assim, a exclusão de Passos Coelho e dos nomes da Distrital é uma opção táctica que enjeita a alternativa maquiavélica, que se traduziria em manter os “inimigos” dentro de portas para melhor os controlar. Esta leitura é, aliás, a mesma que explica a aliança não escrita com Santana Lopes, que recebe a candidatura em Lisboa e vê os seus seguidores permanecer na Assembleia da República; desta sorte, Manuela Ferreira Leite encosta a ala de Passos Coelho às cordas.

É mesmo “fácil de entender”, acreditem...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Onde pára a polícia?


Parece que há meia dúzia de dias as autoridades acordaram para o consumo de droga nos festivais de verão, tendo então apreendido avultadas quantidades de estupefacientes no Sudoeste (Zambujeira) e no Freedom Festival (Elvas). E que tal trazer até à Capital aqueles comandos da GNR? É que ao contrário dos lisboetas, aqueles dão provas de serem mais actuantes nesta matéria (contrariando muito aquela ideia de que os alentejanos são preguiçosos..!).

Passo a explicar: Numa das ruas mais emblemáticas desta cidade, Rua Augusta, vende-se droga a cada esquina, sem que alguém se maçe com isso. Há dezenas de homens com mau aspecto (facilmente identificáveis) a abordar jovens, particularmente os turistas. À luz do dia, sem medos ou preocupações, uma vez que os polícias nos seus segways parecem estar a milhas da realidade.

Numa rua por onde passa diariamente uma imensidão de turistas, a imagem que se dá do país é esta. E o problema não é de agora. Já há uns anos um grupo de amigos italianos me dizia que nunca tinha visto tal coisa numa zona nobre de uma cidade. É preocupante, é vergonhoso e é um sinal claro da incúria das autoridades. O que não se percebe, uma vez que estes marginais estão mesmo ali de baixo do nariz da polícia. Volta não volta vangloriam-se de desmantelar redes, mas apanhar os tipos que com a venda ao consumidor sustentam essas mesmas redes, é que não. Vá se lá entender.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Como combater a abstenção IV

Parece que a silly season veio mesmo para ficar... O PS então, delirou por completo. Então não é que convidaram esta moça para Mandatária da Juventude da recandidatura de José Sócrates?!! À primeira vista juventude é coisa que tem para dar e vender e atributos parecem não lhe faltar, mas na verdade a Carolina Patrocínio nunca se lhe viu uma opinião sobre actualidade, um contributo cívico ou coisa que o valha. Experimentem googlar a apresentadora de televisão e comprovem que o discurso passa sempre por filhos, tv, bikinis, casamento, praia, festas e por aí fora. Se googlarem imagens, a coisa não melhora. (Okay, depende dos pontos de vista.) Dirão alguns que uma mandatária é sempre uma mandatária, não serve para coisa alguma, nem discurso se lhe pede, só precisa de estar lá para a foto e meia dúzia de beijinhos. Sucede que Patrocínio nem para isso serve. Noticiava o DN que no dia da apresentação do programa eleitoral a menina rejeitou as chamadas aos assessores do Secretário Geral do PS e acabou por desligar o telemóvel para que não fosse incomodada na noite algarvia. Ora aí está um exemplo de responsabilidade para os mais jovens, esses que desta feita vão dar tréguas à abstenção e votar em massa no partido sexy (não o CDS...). Se eu fosse a Dr.ª Manuela começava já a tratar de garantir a Luciana Abreu...
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terça-feira, 4 de agosto de 2009

Quase uma brincadeira

Ele são decisões estranhas, ele são autarcas para a prisão.
Sacos azuis e um sem número de outras destrezas prezadas pelas populações!

A minha proposta para nos safarmos da infâmia:

Vamos trocar as placas de identificação para baralhar os turistas, tapar o nariz e mergulhar estes próximos tempos para mantermos alguma sanidade mental. E mudar a cor da bandeira nacional para azul.

Eu cá vou trocar a imprensa pela Máxima, Cosmopolitan, Vogue e aprender a conjugar os sapatos com as malas. Sempre se aprende algo com utilidade

Reforço de um pequeno núcleo

Parece que Manuela Ferreira Leite recusou a indicação da distrital de Vila Real para que Pedro Passos Coelho fosse o cabeça de lista local às legislativas, receando criar cisões no grupo parlamentar laranja. 3 Julho
Hoje, passado um mês, veio rejeitar liminarmente esta possibilidade.

Ângelo Correia já veio lamentar a decisão, questionando onde está a representatividade dos social-democratas que se revêm na linha de PPC. Eu subscrevo e pergunto:

Mais vale manter intocável este núcleo palaciano do que unir todo um partido?
Preferimos ter H. Lopes da Costa e António Preto (da mala) a defender os interesses dos portugueses?

Haverá algo aqui que eu não estou a perceber ou é apenas um sintoma da silly season?

Inocente declarado

Ao recorrer da sentença que o condena a 7 anos de prisão efectiva, o ainda presidente da câmara de Oeiras deverá pretender arrastar a sua cidade até fundo dum poço que é o seu, parece-me.

São sete anos de cadeia, de choldra, a ver o mundo aos quadradinhos e a partilhar a cela com outro indivíduo que não vê uma mulher com frequência... Não é uma multa, uma pulseira ou o controlo do chip bancário para ver que $ mais vai parar à conta do sobrinho. Não é uma pena suspensa. Trata-se de uma condenação dura para crimes económicos e políticos (abuso de poder é um crime político, a meu ver). E não me parece que se tenha feito aplicar esta medida com base numa aproveitação político-mediática ou em provas inconclusivas como o visado nos tentou passar.

Isaltino Morais não tem grande coisa a perder por agora. E vai debater-se até às últimas consequências que a sua animosidade alcançar, sem considerar o bem-estar e o legado que deixa em Oeiras para os seus cidadãos. Não.

(Recordo-me hoje, mais do que nunca, da batalha travada há quatro anos por Marques Mendes para afastar das lideranças de concelhias e candidaturas dirigentes do PSD que se envolvessem em engenharias pouco claras. Recordo-me também do orgulho que tive do meu então líder, quando este retirou a confiança política a Carmona Rodrigues - que custou a câmara de Lisboa e alguns lugares apetecíveis pelos nossos boys, e numa segunda fase, também o seu lugar no partido.)

A ver vamos como ficará Oeiras depois do naufrágio do seu comandante.

Um bom homem nem sempre se vê pela grandiosidade que nos faz alcançar, mas algumas vezes pela honra que nos faz sentir.

Revolucionários e contrabandistas

Passo esta semana na tórrida Baleizão, terra da qual tenho meia costela e que conheço desde sempre.
Por aqui todos os votos são do PCP. Não por ideologia (vá-se perguntar qual é a teoria dominante deste partido...) mas por duas razões:
Baleizão é a terra da Catarina Eufémia, moça que nos seus vinte e poucos anos foi morta numa acção de reivindicação com o filho nos braços e grávida (diz-se) qual ousou pedir ao guarda um pedaço de pão.
Catarina era comunista, esta nossa mártir.

Venho a descobrir aos poucos (nas saídas da noite ao café do 'Vete' e entre uns jogos de bilhar na sociedade cultural) que a população de Baleizão tem tido ao longo das últimas três décadas histórias de contrabando e de tráfico de narcóticos (e talvez caramelos do Rosal de la Frontera, quem sabe...) histórias estas que venho a confirmar pelo número de residentes com as cinco marquinhas pretas tatuadas na mão.
Venho a magicar numa realidade algo complexa. Aqui não há comunistas, antes pessoas que estão bem do lado de fora e para quem um PREC constante vem sempre a calhar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Pela boca morre o peixe (e o pescador...)

Nazaré, 1977

Este país já viveu da pesca e da agricultura e nesse tempo não havia assomos de vergonha por sermos grandes no sector primário, que se diz primário também porque é fundamental, porque é a base de qualquer economia. Contudo, nas últimas décadas viveu-se uma redução drástica da população nesse sector, com os portugueses a abandonarem as actividades primárias por um sem fim de motivos, sobretudo, a tosca ideia de que a modernização de um país se mede pela aposta nos investimentos em áreas ditas de ponta e não tanta na dedicação e fomento de ofícios ditos menores. Esta megalomania tem vindo a prejudicar-nos e os sucessivos governos pouco ou nada fazem para que se inverta a situação. Bem podem os pescadores fazer greve ou os agricultores juntarem-se em manifs, que o Ministério está-se bem nas tintas, conformados que estão com a ideia de que a pesca e a agricultura são os parentes pobres da economia nacional e nada por eles cumpre fazer.

No que respeita à pesca, numa recente reportagem televisiva pude ver como as gentes dela (sobre)vivem, tendo constatado um sector em declínio, onde os pescadores vendem o produto final de 36h de faina a preços miseráveis, sendo que a nós, consumidor, nos chega a preços exorbitantes. Enquanto na lota a sardinha se vendia a 80 cêntimos e, dividido o lucro, dava pouco mais que 5€ a cada um dos pescadores (alguns com 80 e muitos anos de vida), no mercado a sardinha vendia-se a 5€ e as famílias queixavam-se (e bem).

Regulação, fiscalização e reestruturação são coisas que não passam pela cabeça do Sr. Ministro que, nessa mesma reportagem surgia completamente a leste da realidade do país. Quando a jornalista o confrontou com o facto de 200 das 400 familias de pescadores da Caparica passarem fome nos dias de hoje, o Sr. Ministro insistiu em falar de fundos que por descuro nunca se chegam a ver - daí que lhe caia como uma luva a denominação de "Ministro da oportunidade perdida" que Paulo Portas lhe dedicou - e, inacreditável, teve a leviandade de sugerir que essas famílias recorressem a programas para apoio à abertura de negócios sazonais, estilo barracas de gelados e afins. Resumindo, o Sr. Ministro quer pôr gente que não tem que comer a investir..!

Igualmente chocante foi ver uma cadeia de hipermercados a reconhecer, sem qualquer pudor, que na altura dos Santos Populares comprou 150 toneladas de sardinhas a nuestros hermanos ao preço de 2 €/k porque, voilá, a Docapesca fechou nesses dias. É de facto surpreendente como estas coisas (não) funcionam neste país. Como um Ministro continua a mandar areia aos olhos dos portugueses, mostrando que desconhece por completo a situação que se vive no mar e nas lotas e menosprezando um sector que encontra neste país todas as condições naturais para poder ser uma referência a nível europeu. É vergonhoso que numa situação de crise se importem produtos de fora quando se poderia ser auto-sustentável em tanta coisa. E por fim, é ridículo que perante tamanha desgraça a única resposta eu um governo saiba dar passe por linhas de crédito.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Há Lodo em Angola


Dois membros da Lodo SAD (eu próprio e o senhor Gaspar das Colmeias-Diogo) estão de partida para uma mega reportagem a partir de Angola. Vamos reportar a partir de Luanda e do Luau uma "cidade" a 1300km da capital na fronteira com o Congo. Prometemos amplas discrições da cultura, da geografia do país e claro de tudo o acharmos pitoresco. Começamos a explorar já amanhã, até lá.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Como combater a abstenção III

Quando Manuel Alegre veio recentemente defender a possibilidade de candidaturas independentes às legislativas, confesso que foi esta a primeira imagem que se me assomou de um Governo eleito em tais condições. E vai daí, talvez nem fosse assim tão mau. Até porque eles em tempos já experimentaram pisar o campo político e, reconheça-se, é logicamente impossível ser-se mais fedorento que o actual Governo.

Actual, mas monótono

Regular

terça-feira, 28 de julho de 2009

Não cobiçarás a mulher do próximo

"[Joana Amaral Dias] deveria já ter vindo a público esclarecer tudo o que há para esclarecer (...) Não o ter feito ainda, com o avolumar de suspeitas dos últimos dias, está tornar o seu silêncio ensurdecedor"
[Editorial da edição de hoje do Diário de Notícias]

O mesmo PS que aprovou a Lei da Paridade é o mesmo PS que anda por aí a bajular as mulheres dos outros*, tal é o desespero. E bem à semelhança dos relacionamentos amorosos, um affair nem sempre corre bem, arrisca-se a ser desvendado em menos de nada e depois, depois é o filme de sempre, o traído a pedir explicações, o amante a negar que cortejou a moça, a moça a encolher-se perante tamanha vergonha.

Joana Amaral Dias já se havia aproximado da facção socialista em tempos idos, uma vez mandatária da candidatura presidencial de Mário Soares. Louçã não terá gostado e o certo é que três anos depois afastou-a da direcção do Bloco. E vai daí José Sócrates pensou que era uma óptima oportunidade para galantear a ex-deputada bloquista. Parece que levou um não, mas na lei do bom senso e da sensibilidade partidária a tentativa também é punível.

Já dizia o décimo mandamento do Velho Testamento qualquer coisa como «não cobiçarás a mulher do teu próximo», mas Sócrates parece mais dado às filosofias que à religião e moral. Não obstante, a lição serve para os dois, já que a tentação só se tornou mais irresistível porque Louçã menosprezou uma militante de calibre, tornando-a assim mais cobiçável aos olhos dos outros.


* deixo à V. consideração a inclusão neste epíteto de Miguel Vale de Almeida, defensor LGBT outrora ligado ao Bloco e hoje candidato à AR nas listas do PS ;

terça-feira, 14 de julho de 2009

A tinta que uma morte faz correr

No passado dia 25 a morte de Michael Jackson interrompeu as emissões das televisões de todo o mundo e, sem que alguém o esperasse, viveu-se de perto o desaparecimento do cantor. Nunca a morte de uma celebridade teve tamanha cobertura mediática. Nesse plano, pode até cair-se na tentação de compará-la à da princesa Diana de Gales, mas essa ocorreu há mais de uma década e aí as tecnologias ainda estavam a milhas de chegar onde chegam hoje.

Não se estranhe por isso que o súbito desaparecimento do Rei da Pop tenha tido a maior cobertura da história da internet e um impacto por todo o mundo que não é fácil de estimar. Por cá, sabe-se que Michael Jackson foi a personalidade não fictícia mais pesquisada pelos portugueses no primeiro semestre de 2009, com 84 mil cibernautas a digitar o nome do músico nos motores de busca.

Na tv, os noticiosos de todo o mundo seguiram até à exaustão as reacções de Hollywood, dos fãs e de um sem fim de personalidades - como o Presidente Obama ou até Nelson Mandela - que se pronunciaram com emoção sobre a morte do músico. Recuperaram-se do baú entrevistas com Michael Jackson que vieram ocupar horários nobre usualmente dedicados à ficção. Os canais de música dedicaram horas e horas de videoclips dos tempos áureos do cantor e as vendas dos seus discos dispararam: no Reino Unido seis deles ocupam o Top 10 de vendas e em Portugal o cenário não diverge muito, com três discos nos seis primeiros.

Sucede que, no entretanto, vem-se caindo no exagero e corre-se até o risco de ridicularizar o desaparecimento do músico com tanta notícia supérflua. As polémicas começam logo com as especulações em torno das razões da sua morte, deixadas em branco na respectiva certidão de óbito, sendo que até que a autópsia seja conclusiva, tudo se dirá. Valha-lhes a imaginação.

Inevitável foi também o tema do testamento, um mistério desvendado para desgraça de seu pai, que se viu excluído da herança. E vai daí parece que se lembrou de acautelar a vida, anunciando que vai reunir os netos e formar uma nova banda à semelhança dos Jackson 5. E claro, já cá faltavam as ex-mulheres, essas que vêm à tona sempre que uma celebridade tem um fim trágico. E lá veio uma delas revelar que o pobre Michael não era o pai de Prince e Paris. E a imprensa, sempre atenta, a dar-lhes voz.

A mesma imprensa que, incansável, deu-se ainda ao trabalho de nos revelar que a mãe do Rei da Pop foi ao cabeleireiro antes do funeral do filho, imagine-se! No entretanto disputavam-se entradas para a cerimónia fúnebre e os fãs sorteados lá abanavam os ingressos na mão com um sorriso nos lábios. O showneral, mais festa que outra coisa, teve direito a cantorias e muitos óculos escuros, um espectáculo que as nossas prezadas tv's transmitiram em directo. Tudo muito bonito. Só Mariah Carey veio pedir desculpas pela sua performance, que disse ter sido medíocre. Estávamos todos ainda a pensar nisso, darling... Do que ninguém se lembrou foi dos milhões que custou a cerimónia, milhões esses que sairão do bolso do contribuinte. Parece que a procissão ainda vai no adro...

Mas se julga que não há mais tema de conversa em torno de cantor, atente ao que se segue: numa reportagem feita pela CNN em Neverland, para o programa Larry King Live, há quem diga que pelos corredores da casa andava o fantasma do cantor. Já o "The Sun" publicou uma fotografia de um carro onde o seu dono afirma ver reflectida a imagem de Jackson. E no Brasil, circula uma foto de um tabuleiro de carne assada cujos restos formaram o seu rosto. Sim, isso mesmo, um tabuleiro de carne assada!

Enfim, parece que vale tudo. Benditos os media deste século XXI que nos trazem a informação a uma velocidade que nunca antes se pensara. O problema é que o mediatismo da coisa conduz ao exagero, ao ridículo e até à desinformação. A imprensa bebe tudo quanto jorra sobre a vida e a morte do cantor, sem pingo de critério. Falta um filtro, falta sensibilidade e falta bom senso. E assim se transforma a morte de uma estrela num folhetim sem fim à vista. Muita tinta já correu e muita tinta irá correr.

sábado, 11 de julho de 2009

As causas do nosso atraso

Numa reunião havida num órgão regional da Administração Central, para justificar o facto de, há mais de um mês, ter em sua posse um processo de interesse comum, sem que tivesse lido uma linha, antes da dita, pude ouvir um dirigente intermédio da identidade em causa proferir a seguinte pérola:

"Pois é... O tempo passa e as coisas são assim!..."

E ainda vai ter uma boa avaliação, não me admiro...

Quem sopra assim não é gago

O CoolJazzFest mantém alta a bitola!

Este ano, começámos com Joshua Redman, um saxofonista de um talento impressionante, que, com o seu trio, empolgou a assistência que, na Cidadela de Cascais, aguentou o frio que deu ares da sua graça, graças ao calor que brota da sua música e da que, não sendo da sua lavra, interpreta sempre com um cunho pessoal.

A ouvir e ler aqui e além.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Idiota e repugnante


Se Borat passava no exame com algumas reprimendas, as poucas partes engraçadas de "Bruno", o mais recente filme de Sacha Baren Cohen, perdem-se em cenas cretinas e nojentas que ofendem hetero e homossexuais, estou seguro (na sessão que vi, cinco pessoas sairam da sala... E eram 50% da sala!).

Não creiam que a minha repugnãncia tem a ver com o tema da homossexualidade; "Milk" é um bom filme e eu disse-o. É mesmo a estupidez de um filme de piada fácil e brejeira que me incomoda...

Se não sabe o que há-de fazer ao dinheiro, vá jantar fora ou dê-o aos bombeiros!

Altíssimo nível

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Abençoada alma lusa

Para quem tema que a globalização esteja a desvituar a nossa alma lusa, a "Vivenda Rodrigues", na Cela Nova (terra de "Dulsalves Dassela"), é um porto de abrigo. Estamos salvos!!!

Gajo de Gabarito IV


"No hay nada más eficaz para corromper la palabra 'honor' que ponerla en boca de un político: una ministra de Educación, un ministro de Economía, un presidente de Gobierno. Pasados, presentes o futuros, todos ellos, sean cuales fueren sus partidos e ideologías. Igualados en la misma desvergüenza."


Arturo Pérez-Reverte, in XLSemanal, 29 de Março a 4 de Abril

terça-feira, 7 de julho de 2009

Portugal 1 - Espanha 0

80 mil espanhóis a curvar-se diante de um português.
[confessem lá que não rebolaram de orgulho...]

Leituras cistercienses

Não há dúvida de que a decisão de lanchar na Benedita (concelho de Alcobaça) pode revelar-se frutuosa.

De facto, o repasto até deixou a desejar, mas a imprensa gratuita excedeu os meus mais delirantes sonhos!

Embora editado em Rio Maior, o semanário "Volta e Meia 2", títula sem rodeios "Região Alcobaça - Nazaré".

Vejamos, então, o que os conterrâneos de Dulce Alves lêem... A começar, a primeira página oferece-nos 6 anedotas e 7 anúncios. Passo a citar a segunda (sem correcção ortográfica para que possa apreciar o nível deste concorrente do Expresso):

"Cão que chupa?!
Ia Asdrubal no seu carro quando rapara numa placa.
'Cão que chupa pau a 1000m' - fica intrigado mas continua a sua viagem.
Mais à frente vê uma nova placa
- ' Cão chupa pau a 10m'.
Pára o carro e vai ver o que se passa. Ao bater a porta aparece um homem:
Asdrubal: É aqui que o cao chupa o pau?
Homem: É sim senhor.
Asdrubal: Tenho que pagar alguma coisa?
Homem: 50 euros.
Então o homem chama pelo seu cão.
Homem,: Rex, Rex anda cá...
Aparece um caniche.
Homem: Rex chupa o pau ao moço.
E Rex nada...
O homem ajoelha-se e diz para o rex:
Vê lá se aprendes... é a última vez que te ensino".

Ao longo das seis literárias páginas (que fariam corar de modéstia Miguel Sousa Tavares, Vasco Pulido Valente, António Barreto ou outra ilustre pena), podemos ainda aprender com mais 14 anedotas (20 no total), uma notícia sobre os contadores da água, uma adaptação de um conto dos irmão Grimm (a página 3 é infantil), a previsão astrológica para o signo Gémeos, alguns passatempos, 3 pensamentos subordinados ao tema "Amor" e 3 provérbios. Anúncios, com os já referidos, chegam aos 31.

Correndo o risco de habituar mal os nossos leitores, que não estão habituados a tanta qualidade e que podem passar a ler apenas o jornal sub judice, cá vai outra:

"Assaltantes
Três ladrões vão assaltar um banco.
Quando chegam à primeira caixa encontram iogurtes. Dizem uns para os outros: "Iogurtes"? Resolvem comê-los. Nasegunda caixa encontrara mais iogurtes. Muito espantados comeram-nos de novo. Na terceira caixaencontraram mais iogurtes diz um para o outro:" (estou a citar literalmente) "- Vai la´fora e vê qual é o nome deste banco para nunca mais o virmos assaltar!
- É banco... de esperma".

Havia mais e melhor, mas sossobra-me a coragem...

Quando à publicidade, também ela oferece motivos de regalo, a começar pela "Danceteria Dom Pirata", em Porto de Mós, que oferece "Noites de Kizomba", às quartas-feira, e "Ladys Nigth" (continuo a citar literalmente), presume-se que na mesma noite... Depois, por que não trajar-se a rigor na "Cindy Jovem" para depois deleitar-se com um repasto régio no "Snack-Bar/Cafetaria Franganito 2", em Alcobaça?! Contudo, a meu ver e dado o teor do periódico, a mais útil passagem publicitária tem mesmo a ver com a "Agência Funerária Alcobacense, Lda.", que anúncia um muito tranquilizador "Auto Fúnebre próprio", não vá o cliente temer o ir à boleia!...

Em suma, alcobacenses e nazarenos não podem queixar-se pois é farta a informação com a qual podem animar a sua vida cívica.

Curiosa metáfora sobre extremos

Bem representado, um enredo improvável faz pensar sobre os malefícios da civilização e o erro do isolamento. A ver...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

All that jazz...

Terminou ontem mais uma edição do Estoril Jazz, e terminou muitíssimo bem! Christian McBride (o cavalheiro da direita) com o seu quinteto deu um espectáculo pleno de boa música e de interacção com o público. Aos 37 anos e descendente de uma linhagem de baixistas, McBride já tocou com os nomes grandes do Jazz contemporâneo, sendo um dos nomes grandes do presente e do futuro do género musical.

Já na sexta-feira, o saxofonista oriundo do free jazz David Murray (à esquerda na imagem) com o seu "Black Saint Quartet" fizera vibrar uma plateia que, sem lotar totalmente o Centro de Congressos do Estoril, estava repleta de apreciadores e conhecedores (creio mesmo que, igualmente rendido, era o mais leigo dos presentes).

Cultura de qualidade, num cartaz que já merecera o nosso aplauso.

Como combater a abstenção II

Já diz o ditado que depois da tempestade vem a bonança. Em 2007 o furacão Katrina devastou a cidade de Nova Orleães e desde então o trabalho de reconstrução da cidade tem sido intenso. À frente da construção de centenas de habitações esteve a incansável Make it right Foundation, fundada por Brad Pitt. O actor mantém uma estreita relação com a cidade desde 1980, altura em que ali foi rodada Entrevista com o Vampiro e agora há quem o queira ver como Mayor da maior cidade do Louisiana. Dizem que há 13 razões para eleger Pitt. (Treze?!!!) Sortudos, hein..! Nós por cá continuamos na senda dos Isaltinos, dos Moita Flores, dos Narcisos Miranda. Não aprendemos com as Europeias. Depois queixem-se das taxas de abstenção e do desinteresse dos portugueses pela política. Pudera!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Touro de morte

Finalmente, Cristiano Ronaldo, Paula Rego, Manoel de Oliveira e Saramago têm rival na luta pela divulgação do nome pátrio além fronteiras.

De facto, ao dirigir o taurino gesto a Bernardino Soares, Manuel Pinho, impossibilitado que estava de cortar orelhas e rabo, despiu o traje de luces e deixou-se projectar para o galarim dos media internacionais. Efectivamente ("gosto de aparências", cantariam os GNR), a fazer fé da edição electrónica do "Público", a fama da faena parlamentar de Pinho já ecoa em Espanha, França, Brasil, Macau e até na Rússia (agência noticiosa da Sibéria incluída), onde os nacionais devem ter vertido uma lágrima de saudade ao recordarem a mais do que certa alma mater do gesto ministerial, Boris Ieltsin.

Convenhamos que a história nem é nova, como recorda a sibilina nota do Diogo (vulgo, Senhor Gaspar, das Colmeias); há anos, o então Premier (Cavaco Silva) luso demitira o seu Ministro do Ambiente, Carlos Borrego, após uma inenarrável anedota sobre a reciclagem de cadáveres de hemodialisados (recordando, falamos da presença de alumínio na água utilizada para o tratamento de doentes, num hospital português). Contudo, Manuel Pinho tinha obrigação acrescida de cuidar da postura, pois nos quase vinte anos que medeiam as duas situações, a mediatização da acção pública foi avassaladora e conhecida.

E nem se diga que Pinho "não era político"... Todo o "ocupante" de um cargo na política, no mundo empresarial ou no futebol sabe que, neste mediático e mediatizado século XXI, há que "ser e parecer", como de resto era exigido à cara-metade do imperador...
Sobre a adequação da demissão do autor da inusitada fosquinha já muito se escreveu e quase tudo parece de sufragar. Procuro, por isso, tirar algumas ilações paralelas: em primeiro lugar, continua a parecer surreal como um Ministro que havia liderado políticas de aplauso quase unânime (maxime no caso das energias renováveis) "desgraça" um percurso político com uma parvoíce que só a um cachopo se aturaria e, mesmo aí, sem escapar à galheta da ordem...

Depois, cimenta-se no meu espírito a ideia de que, hoje em dia, quem queira ter um lugar com alguma exposição pública, designadamente em funções de Estado, tem de vencer o preconceito e, salvo honrosas excepções, sujeitar-se à aprendizagem da "arte" de comunicar.

Em terceiro lugar, involuntariamente, Pinho roubou a Sócrates a oportunidade de ganhar um debate, que até estava a correr-lhe de feição; para o confirmar basta ver a prioridade noticiosa: o chifres ministeriais (salvo seja) sempre com honras de destaque. Se os portugueses já pareciam pouco afoites a emprestar ao Governo os seus tímpanos, a coisa parece ter entrado em espiral descendente.

Por fim, parece-me justificada a indignação dos deputados. A Assembleia da República deve ser o relicário da nossa democracia (a par com a Presidência que, no nosso sistema político, tem palavra a dizer) e é incompatível com partes gagas...Porém, escusam agora muitos dos nossos parlamentares de tentar passar por virgens vestais! Só quem nunca tenha ouvido as "bocas" que alguns vociferam e o ócio a que outros se entregam é que pode agora achar que a pureza emergiu na reacção de ontem. Convenhamos: Manuel Pinho deu barraca e muitos cavalgaram a onda.

De saída, não resisto ao sadismo: já que vai a banhos, por que não uma boa leitura?... Talvez um livro de Américo Guerreiro de Sousa...

quinta-feira, 2 de julho de 2009

No princípio era a crise

acabada, depois vieram os sapatos italianos. Pelo meio, o país competitivivo em termos de custos e os inevitáveis mergulhos. Por fim a célebre troca de acusações com Paulo Rangel, em que, num aceso momento politiqueiro, publicitou uma quase esquecida marca de papas. Enquanto a blogosfera vai fervendo, cabe aqui a questão: será Pinho um ser predestinado para o disparate?

Despromovido com justa causa!

MUDE



Lisboa ganhou um espaço muito interessante com a abertura do novo museu do design e da moda. A colecção permanente é bastante diversificada e a exposição sobre cartazes políticos é uma delícia para quem gosta da temática.

Uma nota final para o edifício, é fantástico o contraste entre as peças do museu e o estado em bruto das instalações. Ainda que a situação seja temporária esta particularidade diferencia o museu pela positiva.

Cegos somos nós!

Se na semana transacta disse que ambos os partidos portugueses de governo (PSD e PS) tinham culpas no cartório quanto à miserável aposta na Cultura (nas excepções conhecidas conto apenas os consulados de Pedro Santana Lopes e Manuel Maria Carrilho, mercê das personalidades fortes em apreço), dou comigo a ser repetitivo no que à Justiça concerne.

Vem isto a propósito de uma alocução radiofónica do prestigiado jornalista Nicolau Santos, que ontem ouvi comentar a celeridade e exemplaridade da condenação de Bernard Madoff (a pena é de suaves 150 anos…). Mencionava Nicolau Santos que a acusação do financeiro - que lesara milhares de pessoas e instituições com um esquema piramidal, em que o investidor era remunerado apenas com base no dinheiro de novas entradas de capital e não com qualquer lucro averbado por esta Dona Branca galáctica (era uma questão de tempo até dar asneira, como deu) – tinha meia dúzia de páginas e fora célere (pouco mais de seis meses, sublinho).

Deste ponto partia o jornalista e parto eu para uma comparação óbvia com o sistema judicial português! Dirão os nossos mais ilustres penalistas que o nosso sistema dá mais garantias a quem se senta no banco dos réus, que é mais ressocializador e uma data de frases de inquestionável elegância jurídica, mas de cada vez mais abissal esquizofrenia social… As siglas e nomes que entretém jornalistas e cidadãos são mais do que muitas: aeroporto de Macau, BPN, BPP, Bragaparques, Herdade da Vagem Fresca, Freeport, Apito Dourado e por aí fora…

A diferença para os EUA é que os únicos processos que os portugueses têm a sensação de ser rápidos, em Portugal, são aqueles em que, regra geral, a opinião pública não aplaude o veredicto ou não sabe o que pensar sobre o mesmo: falamos da condenação da mãe de Joana (e respectivas suspeitas de agressão policial) e das tutelas das pequenas Esmeralda Porto (retirada aos pais afectivos e entregue ao pai biológico) e Alexandra (devolvida com a mãe a uma Rússia que desconhecia, até no idioma).

Nem se tente dizer, advirto, que cedo ao argumento populista ao mencionar a relação entre a aprovação popular e o funcionamento da Justiça, pois se esta não deve vogar segundo o desejo de acerto de contas das massas, também o Direito feito não pode dissociar-se da consciência ético-jurídica de cada época. E é aqui que cravo os dois pés no chão e não cedo: os crimes financeiros e/ou relacionados com agentes políticos são mais valorizados negativamente nos dias de hoje e, tanto quanto pode saber-se, são mais frequentes, o que exigiria mão firme e lesta!

Mas nada disso!... Por cá continuamos na modorra das arguições sem fim, da naftalina dos processos com dezenas de volumes e milhares de páginas, do oportunismo político de quem não têm nódoas recentes, do vampirismo jornalístico… Enfim, da impunidade ditada, na pior das hipóteses, pela prescrição.

Cegos continuam os políticos que não vêem a noite cair sobre a Democracia e os cidadãos que, iludidos pelo que podem comprar, não regurgitam tudo isto!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ligações Perigosas

Um bom exercício sobre o 4º poder.

Coco Avant Chanel

Uma história interessante com uma interpretação que não desilude.

Qualidade

No Berço da Nação com o Rei (ninho)

Para um seguidor incondicional como eu foi grande a expectativa que me levou a num "solo" de condução ir de Coimbra a Guimarães para ver o Rei... Ninho.

A mais da admiração que tenho por um cantor incontornável da pop portuguesa, movia-me a vontade de ver e ouvir ao vivo e na íntegra (julgava eu) o seu álbum de estreia, sem a escolta policial do costume (leia-se, os GNR).

E eis que pude assistir a um espectáculo que soube a pouco; o cantor haveria de explicar a limitação a cerca de 75 minutos de cantoria face à curta extensão do repertório próprio. Talvez por isso recuperou temas como "Spanish Bombs" dos Clash, "Anarchy in the UK" dos Sex Pistols, "Space Oddity" de David Bowie, "Sympathy for the Devil" dos Rolling Stones, "Riders on the Storm" dos Doors e "Heartbreak Hotel" de Elvis Presley, lembrando o interessante espectáculo a que assisti no São Luiz.

Do que a "Companhia das Índias" diz respeito, fica o regalo de escutar "Morremos a Rir" em dose dupla, "Dr. Optimista" e "Laika Virgem", mas faltaram à chamada "Lados B" e "Turbina e Moça" (a menos que a ascese me tenha toldado os tímpanos, o que não creio...).

De uma ou de outra forma, valeu a pena, pois a voz de Reininho está "limpa", como há muito não estava, e a sua actuação é sempre de um mimetismo cativante.

Palavra final para o Centro Cultural Vila Flor (que desconhecia): magníficas e modernas instalações, bem enquadradas na envolvente apalaçada e com boa organização, como demonstra a excelente folha de sala (com texto de João Gobern, no verso), que aqui se reproduz .

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Gamba à catalã

Há pouco mais de uma semana, outra Câmara que aposta convincentemente na Cultura (a de Alcobaça), fechou o Cistermúsica de 2009 com chave não de ouro, mas sim de platina: Jordi Savall e a sua viola da gamba (instrumento da Renascença e Barroco, de que Savall, que saiba, é o único executante contemporâneo de nomeada).

Os sons harmoniosos e as partituras de mestres (Bach incluido) encheram a nave central do Mosteiro de Alcobaça (relato mais completo), com apenas uma nota que impediu o brilhantismo da organização: a total ausência de amplificação impediu a audição do preâmbulo de Alexandre Delgado e as, por certo, precisosas explicações do mestre catalão. obrigando a concentração redobrada para escutar a própria música. Por isso deixo um conselho para próximas edições: ou limitam a plateia ou acautelam o som; a escolha é simples, mas fará toda a diferença.

Momentos felizes

Não tinha tido ainda a oportunidade de escutar ao vivo o talentoso compositor, virtuoso teclista e monstro sagrado do jazz contemporâneo Chick Corea.

Mercê da não menos virtuosa política de apoios culturais da Câmara de Cascais e da qualidade habitual do festival Estoril Jazz, ontem foi um dia de regalar os tímpanos e serenar a alma...

Ele, o piano e uma fantástica empatia com o público, que acabou por envolver no seu regresso ao palco!

O resto foram partituras próprias, Bud Powell, Thelonius Monk (um génio!), Duke Ellington (o imenso), entre outros, chegando mesmo a incursões na música clássica, de que destaco Alexander Scriabin.

Momentos felizes, em suma.

domingo, 28 de junho de 2009

Um pastelão de Natal (mas com excelentes interpretações)

Falar, é como quem diz...


Com frequência me cruzo com este cartaz do PSD Oeiras - plantado ali nas redondezas do Shopping da Linha - e, por muito que tente, aindaItálico não percebi o seu intuito. A mensagem cinge-se ao "fale com o seu Vereador", sem se perceber muito bem como - não há uma linha (estilo o cartaz de Manuela Ferreira Leite), não há um endereço de email ou de chat. Há apenas e só o endereço do sítio do PSD local. Quem visita a página e tem bom olho lá descobre num recanto uma ligação para falar com o Sr. Vereador. Falar é como quem diz. O máximo que se permite é que deixe um comentário. Muito interactivo, sem dúvida...

A temática essa, fica à mercê do munícipe. Pode partilhar com mágoa a enterite infecciosa do seu gato, aproveitando o facto do Sr. Vereador ser competente pelo "Projecto de Apoio ao Animal de Oeiras". Pode ainda reclamar sobre o preço da beterraba ou respingar pelo mau gosto das flores de plástico que florescem no Cemitério (sim, também é competente para os Mercados e Cemitérios locais). Bem, e nada ali parece impedi-lo de gentilmente sugerir ao Sr. Vereador que mude de óptica. Talvez seja o que lhe falta para adquirir uma outra mundividência e, de preferência, uma visão mais actual de Marketing político.

É de louvar que os autarcas "saiam do gabinete" e se predisponham ao contacto com os municípes. Contudo, o povo aprecia que tal atenção seja espontânea, ao longo de um mandato e não somente em vésperas de eleições, cingindo-se o "contacto" a uma caixa em branco num site partidário, desconhecendo-se quem é efectivamente o receptor da mensagem, se haverá resposta ou, pelo menos, se leva em conta o que ali se diz.

Depois, é sabido que o Sr. Vereador em causa, Pedro Simões, é o candidato pelo PSD à autarquia do agora independente Isaltino Morais. Talvez fosse mais profícuo aproveitar o cartaz para se assumir candidato, não?

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Um erro de tomo

O Primeiro-Ministro, à saída do debate da moção de censura apresentada pelo CDS, reconheceu que um dos erros que cometera havia sido a fraca aposta na Cultura.

Fora o gesto consequente e asinha me soergueria para um retumbante aplauso ao nosso Premier (do fracasso da abertura de um pólo português do Museu Hermitage ao lento agonizar dos teatros nacionais). Ainda lhe daria o bónus de acrescentar que do mesmo erro padeceram os governos PSD (algo raro na última década, todavia…).

Não sei se o “nosso” Engenheiro teve o gesto para estrear o “novo Sócrates” (algo que o próprio já garantiu ser uma fantasia), se o fez para cativar os agentes culturais, perdidos que parecem estar os votos da maioria dos professores (dois sectores que os mitos urbanos, regra geral, associam à esquerda) ou se acredita mesmo que é necessário investir mais num sector estratégico.

Respeitando a presunção de boa fé devida a um político democraticamente eleito, sugiro, desde já, o primeiro investimento sério na Cultura: escolher um Ministro que “exista”, que tenha uma visão que se conheça para a dita e que seja capaz de mobilizar mais do que meia dúzia de elegantes e engravatados juristas.

Depois, acalento a esperança de que, efectivamente, a promessa não derive de intenções eleitoralistas. Espero que o Primeiro-Ministro esteja realmente cônscio da importância da aposta prometida, pois trata-se, a par com a Educação, da mais segura (e, quiçá, única) via para defender a identidade de um país pequeno como Portugal.

Não tendo nós uma força económica privada forte e sensibilizada para o investimento na Cultura que nos permita sermos exportadores bem sucedidos de produtos culturais que se identifiquem, de imediato, com a nossa língua e o modo de ser português (tirando alguns casos bem sucedidos, como Paula Rego, Manoel de Oliveira e José Saramago), só uma forte aposta estatal poderá, com critérios que a não desliguem do mérito e da democratização da fruição cultural, impor a nossa presença no mundo da criação cultural (algo que o Brasil já começou a fazer com alguns resultados).

Esta aposta é tanto mais crucial quanto mais se aprofundam a integração europeia e a globalização, com o que isso traz de avanço da cultura anglo-saxónica e de esbatimento das formas tradicionais de defesa da independência e da identidade nacionais (designadamente, as opções militares; já não é sequer em Vilar Formoso que se defende militarmente a identidade portuguesa, que este em jogo em Timor-Leste e no Afeganistão).

Sendo o reconhecimento do socrático lapso como o código postal – “é meio caminho andado” – resta desejar que dele seja tomada boa nota pelo autor da contrição ou pela Presidente do PSD, caso venha a suceder-lhe. Portugal não aguenta muitos mais anos com erros destes…

terça-feira, 23 de junho de 2009

Onde pára a ERC?

Uma tarde destas dei-me ao luxo de consumir lixo televisivo, sem dó nem piedade. Das tertúlias cor de rosa às madrugadoras televendas e dos talk shows deprimentes aos concursos fora de horas, em que umas moças curvílineas instam os noctívagos a telefonar para linhas de valor acrescentado, derretendo a mísera pensão em menos de nada... Porém, se pensam que isto é o pior que passa na televisão portuguesa, desenganem-se. Experimentem sintonizar na SIC às cinco da tarde. Vi um episódio da telenovela "Rebelde Way" e, neste preciso momento, ainda me encontro em estado de choque.

Para quem desconhece, faço o enquadramento: trata-se de uma novela juvenil que passa à hora do lanche, horário ideal (leia-se aqui ironia), já que a esta hora a criançada já chegou a casa e pode deliciar-se com a tv, enquanto os progenitores ainda não estão por perto. A trama desenrola-se num colégio interno que se vangloria de ter um enorme prestígio. No episódio que visionei, o número 181, a coisa começava com um adolescente imberbe a envolver-se sexualmente com a sua professora de Química numa bancada do laboratório, com direito a algemas e outros acessórios equiparados. Até um tipo com um coeficiente inferior a 20 percebeu o que se passou a seguir, mas os argumentistas não acharam suficiente. Mais tarde, o rapaz passeava-se feliz pelo colégio e, quando abordado pelos colegas, não teve papas na língua - "Dei uma queca na professora Irene" (ipsis verbis).

Entretanto, situação idêntica desenrolava-se entre um docente e uma aluna que conduziu aquele até ao seu quarto, onde dois colegas espreitavam e fotografavam o momento, com o expresso consentimento da menina. Se acham que a coisa ficou por aqui, atentem ao que se segue: numa outra cena, um grupo preparava-se para dar uma festa com álcool e tudo o mais a que julgam ter direito, até que chegam as atracções principais: duas strippers contratadas que, afinal, acabam por não actuar (deu-lhes - aos argumentistas - um repentino rasgo de bom senso!).

Mas se aqui não houve strip, o mesmo não pode dizer-se quanto a um outro quarto, onde uma aluna festejava a sua despedida de solteira com um stripper masculino, numa cena que só parou quando a tanga voou direitinha à sua face... Enfim, para terminar estes sessenta minutos de conteúdos pedagógicos, dois jovens do sexo masculino beijam-se e de seguida discutem entre si. Um deles sai do quarto e resolve (não alcançei a ligação...) fazer uma aluna refém, barricando-se numa sala de aula, onde lhe encosta uma navalha ao pescoço, ao mesmo tempo que recita mórbidas passagens biblícas. E pronto, amanhã há mais... Sendo que, entretanto, as criancinhas ainda podem deglutir os resumos dos episódios na página oficial dedicada à novela - aqui, onde podem confirmar o episódio que acima relatei.

Sim, já fui adolescente e sei como são os adolescente de hoje. Tenho noção de que, para muitos deles, alguns dos comportamentos acima descritos são encarados com relativa normalidade. Contudo, numa telenovela, tolero cenas de envolvimento entre jovens, desde que não explícitas e desde que o recurso às mesma tenha uma razão pedagógica - por exemplo, uma cena em que os intervenientes fomentem o uso de preservativo e de alguma forma passem a mensagem de incentivo a uma vida sexual saudável.

Sucede que, além da leviandade com recorrem a cenas de sexo (ou a circunstâncias que a elas se reportam, como o é a contratação de profissionais da área...), é incompreensível que em momento algum haja o mais leve sinal de pedagogia... No caso do envolvimento entre docentes e alunos, sabemos que haverá casos reais, mas o que ali é por demais reprovável é que não se tenha mostrado uma pontinha de sentimento de erro por parte dos personagens, passando-se assim uma mensagem de que este tipo de envolvimento é permissível e até natural.

A isto acresce a linguagem usada, o álcool sempre presente (ao menos punham os míudos a beber umas cervejas sem álcool, ou isso já não é cool?!), a referência a seitas religiosas, o fomento ao voyerismo, a violência como meio para atingir fins, as constantes cenas de índole sexual, enfim, tudo vale para tornar a série mais cativante ao olhar ingénuo das crianças e néscio dos adolescentes.

Pergunto-me onde raio pára a Entidade Reguladora para a Comunicação, a tal que "figura como um dos garantes do respeito e protecção do público, em particular o mais jovem e sensível, dos direitos, liberdades e garantias pessoais", como pomposamente anuncia na sua página de internet. Que se saiba, este mecanismo tem funções de fiscalização que não dependem de queixa apresentada pelo telespectador (embora este sempre o possa fazer e eu muito tentada me sinto a fazê-lo). Pelo menos da leitura aos Estatutos daquela entidade não vislumbrei que a sua actividade esteja circunscrita a esse ponto, i.e., que em face de conteúdos televisivos chocantes - mormente, para o público-alvo em apreço - e na ausência de queixa contra eles, a ERC não possa actuar...

Compreende-se que os trejeitos de Manuela Moura Guedes e o jornalismo a que nos habituou sejam alvo de crítica e levem à reprovação da ERC ao Jornal da Noite das sexta-feiras, mas convenhamos: aí, sempre podemos mudar de canal e "calar" a senhora. No presente caso, não só a maioria dos pais está (física ou mentalmente) ausente quando as crianças visionam estes programas - que os pais julgam vocacionados para aquele target - como muitos deles desconhecem os meios de que dispõem para alertar quem de direito.

Precisamente por isso e, sobretudo, porque não quero nem imaginar que a minha sobrinha algum dia possa vir a absorver conteúdos desta espécie, deixo aqui a minha indignação. A televisão está a passar dos limites e nós... nós continuamos a fingir que isso não é connosco.

O grande Martunis

Há algo mais de quatro anos, Portugal comovia-se com a história do pequeno Martunis que, em Banda Aceh, sobrevivera ao tsunami. Figo, Cristiano, Scolari, empresários de Paços de Ferreira e muita e comovida gente foi solidária com o jovem e creio que se mudou a sua vida para melhor.

Em 2009, encontrei este cidadão embarcando num barco de "carreira", em Banguecoque. Apesar de a fotografia ser má, vê-se a camisola da selecção das quinas... Regozijando-me com o facto de não haver tragédia a relatar, surgem, no entanto, algumas hipóteses de trabalho:
  1. Martunis envelheceu 50 anos em apenas 4 decorridos.
  2. Carlos Queirós, Ronaldo e companhia deviam dar-lhe uma casa.
  3. Deviam dar, mas apenas quando ele cair ao rio.
  4. Este tipo, dado o momento actual da Selecção, nem sabe o que traz vestido.
  5. Uma vez que usa óculos, o senhor pensa que está a usar uma camisola do Kentucky Fried Chicken.

domingo, 21 de junho de 2009

O Bloco


Se por um lado é a CDU que avança, com toda a confiança – assim diz o respectivo slogan eleitoral – por outro, foi o BE quem saiu das eleições a cantar de galo.

A corroborar o sucesso de um discurso populista e, acima de tudo, moralizante (para a usar a definição de Clara Ferreira Alves, há umas semanas, no Eixo do Mal de Nuno Artur Silva) está, desta feita, o sucesso eleitoral do passado dia 7 – três deputados eleitos e a categoria de terceira força política nacional. Com dez anos de história e raízes que são a dos pequenos grupos políticos extremistas do PREC, mergulhados no exemplo de romanescos regimes autoritários e muito longes de obter qualquer expressão eleitoral significativa aquando da fundação da III República Portuguesa, o BE alimenta a curiosidade de muitos. Sobre o seu estilo já têm escrito o João Pedro, a Dulce e o Capitão da casa.

Abanão constante da vida política portuguesa, abdicando muitas vezes de falar de políticas, para falar de pessoas (ainda que Miguel Portas ou Ana Drago façam muitas vezes a alternância), o Bloco, sob a voz inflamada do seu líder, protagoniza acusações violentas, ora directa, ora indirectamente. Ainda ontem, Sábado, na senda das duras críticas que fez ao grupo dos economistas – todos eles de pouca fama, diz Louçã – que promovem o manifesto e o fórum Reavaliar Investimentos PúblicosAntena 1 Louçã não falou nem de investimento público nem de endividamento externo, certamente por motivos ideológicos), não deixou escapar o comentário de que Cavaco Silva não aprendia com o que as bolsas lhe tinham feito – uma espécie de provocação à imagem de que goza o Chefe de Estado. Nesta soma "verdades" de que se acham donos, os responsáveis pelo BE, retomam, no entanto, propostas velhas e pouco criativas. João Marques de Almeida abordava, a 9 de Março no Económico, a crença inabalável na nacionalização da banca [e do sector energético, acrescente-se] como a melhor solução económica para o País (e a avaliar o discurso do BE, as razões estão na classe dirigente). Almeida previa assim o início do caminho que levaria ao fim da economia de mercado e da liberdade económica. E dá o exemplo da indústria alimentar, ensaiando o argumento ‘não se admite que haja capitalistas a ganharem dinheiro à custa da alimentação’, em que o Estado seria, “ao fim de poucos anos [e comprovam-no os exemplos históricos] incapaz de assegurar a existência de bens alimentares”. Ressalvando-se, claro, a elite tradicional de um Estado oligárquico.

Mas voltando ao estilo, é também importante averiguar ampliação que sofreu a mensagem bloquista. Se por um lado a sedução dos mais desfavorecidos é previsível (tenha-se em conta o desemprego crescente), bem como de uma boa parcela de jovens que, assim como eu, não auguram um futuro pleno de oportunidades, o BE comporta agora novos eleitores, provenientes de outras áreas políticas e com diferentes funções sociais. A classe média descrente na política (quase toda), mais abstencionista que votante, e que o Bloco já apaixona, sente-se como que parte de um discurso turbulento e impiedoso, face à elite económica e até política que, neste Estado da Arte, é assumida como um sector terceiro e dividido de todos nós – intolerável numa Democracia (em teoria o governo do povo pelo povo). A classe média descrente, demitida do seu papel cívico e interventivo, fica como que satisfeita, sentindo que o inefável verbo do Xico fez por si só, o papel de fiscalização que ela própria não faz.

Para concluir faça-se a ressalva - muitos políticos dão de barato (possibilitando) este discurso moralista. Isto é, muito boa gente, alimenta a descrença que se converte em votos no BE. E assim sendo, resta-nos constantar que, de cimento ou não, o Bloco vai durar...

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Obrigatório!

Repito a recomendação feita aquando da ante-estreia!

Gostei

Mais rio que flores...


Propositadamente, estreei-me na leitura de Miguel Sousa Tavares sem recorrer ao seu maior sucesso, "Equador".

Optei por "Rio das Flores" e confesso que esperava mais...

O livro "dexa-se ler", mas não oferece recorte algum de excelência, nem apresenta algo que nos seduza ao ponto de "devorarmos" as suas páginas.
Parece, aqui e além, pretensioso e cheio dos tradicionais complexos de esquerda que o autor exibe nas suas crónicas.
Não é mau (longe disso), mas não fica na memória.