O mês que passei em Angola foi sem sombra de dúvida a melhor e mais marcante experiência dos meus curtos 19 anos. Angola marcou-me de diferentes formas, marcou-me pela coexistência de bairros de lata com imponentes mansões, de esgostos a céu aberto com carros blindados em Luanda, marcou-me pela beleza natural da foz do rio Kuanza, das cascatas de Calandula e das suas imensas planícies mas marcou-me sobretudo pelas pessoas conheci no Luau. Uma pequena cidade fronteiriça onde durante três semanas ajudei a montar uma biblioteca, a única no raio de centenas de quilómetros e a melhorar, dentro do possível, a formação dos professores primários da região.
Os angolanos que conheci ali não me ensinaram os grandes tratados da física ou da química, não me explicaram a infinitude do universo e muito menos as razões da minha existência mas mostraram-me uma forma completamente diferente de viver a vida e olhar o mundo. O sofrimento e as privações a que estas pessoas estão sujeitas vê-se nas expressões das mulheres mais velhas, no olhar das crianças ou mesmo nos cânticos que entoam nas missas. O que é surpreendente é que mesmo depois de terem sido discriminadas durante o colonialismo, de terem passado por uma terrível guerra civil e de se verem sujeitas às imposições de um estado profundamente manipulador e corrupto, estas pessoas conseguem sorrir e exteriorizar uma alegria sem paralelo, como que marginalizando todas as aspirações que aos olhos de um ocidental parecem indispensáveis, sejam elas uma carreira de sucesso ou um bom ordenado.
Nunca me esquecerei do respeito e da gratidão que estas pessoas demonstraram por mim de uma forma completamente espontânea, revogando qualquer sentimento de rancor ou raiva que julgava existir face aos portugueses. Da mesma forma que guardarei sempre na memória, a abertura com que os padres da missão católica do Luau me receberam mesmo sabendo do meu agnosticismo e o empenho e dedicação ímpares que colocam no trabalho que fazem para melhorar as condições de vida daquela comunidade.
Angola, não obstante todos os seus recursos e potencialidades, é um país que necessita de ser ajudado para que o desenvolvimento chegue a quem realmente necessita dele. No entanto, as missões de voluntariado não podem constituir a única forma de canalizar esta ajuda, é imprescindível que os nossos empresários e governantes colaborem não compactuando com os vícios do estado angolano, exigindo mudanças para que de uma forma gradual haja uma efectiva democratização quer do sistema político quer da distribuição da riqueza e do desenvolvimento.
p.s. shindelle quer dizer “branco” em tchokwe, a língua falada na província do Mochico, onde se insere a cidade do Luau. A foto foi tirada durante a viagem.
