segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Reformas estruturais, é agora ou nunca

Quem já não ouviu vezes sem conta, comentadores e oposição criticarem o governo pela lentidão com que se estão a processar as reformas estruturais?

Daquilo que me apercebo, leio ou ouço, também me junto a esse coro de vozes que acha que as reformas estruturais tardam ou que mais uma vez não vão tão longe como deveriam ir. Estou convencido de que se ultrapassarmos este periodo da nossa história em que a proposito da Troika quase tudo se pode fazer, se não houver empenho e espirito de missão, estaremos condenados a mais tarde ter que passar por um processo idêntico. Porquê sofrer duas vezes, se temos a hipotese de sofrer só uma?

Por outro lado, estou convicto de que a maioria das grandes reformas estruturais, não implicam perda de direitos e regalias do cidadão comum, mas sim, da classe política, das ordens, das corporações e dos grupos de interesse que actuam normalmente na penumbra.

Os partidos ditos do arco da governação, PSD, PS e CDS, tem uma oportunidade única para mostrar que verdadeiramente existem para servir o POVO e não para servir as suas clientelas.

O politicamente correcto pelo qual quase todos os partidos tem pautado a sua acção, tem que ser algo do passado e a verdade tem que imperar. Defender o estado social e nada fazer para o preservar, querer combater a corrupção e chumbar a lei do enriquecimento ilícito, moralizar a vida publica e proteger autarcas e governantes desonestos, defender o interesse publico e assinar contratos de concessão ruinosos para as gerações vindouras (PPP's e rendas excessivas) e fico-me por aqui para não dar a impressão de que tudo é mau, mas vamos por partes:

O PSD e o seu establishment condenam todas estas atrocidades, mas não estão disponíveis para aprovar uma lei que proíba todo o suspeito, arguido ou condenado, de integrar listas a Assembleia da Republica, às Autarquias ou a quaisquer órgãos ou listas a organismos e empresas públicas

O CDS acredita que a melhor forma de defender o capital e os capitalistas é não inverter o ónus da prova na questão do enriquecimento ilícito

O PS por sua vez para além das duas anteriores, acha que a constituição é um documento imutável, uma obra divina ao alcance de poucos e sem a qual o Povo Português  estaria condenado. Aliás, a inspiracao vem de algum lado, Mário Soares  tambem se acha divino, único e omnisciente

O recente episódio protagonizado pelo Tribunal  Constitucional, é a prova de que as corporações são na maior parte das vezes o problema e não a solução. A última decisão e fundamentação apresentada, não é mais do que a defesa de regalias ou não fossem os Juízes também funcionários públicos e como tal, afectados por esta medida. Nao sou licenciado em direito e a licenciatura que tenho não teve por base qualquer equivalência,  mas das poucas cadeiras de direito que tive a oportunidade de frequentar e ter aproveitamento, ensinaram-me que não era curial ou até licito, ser juiz num processo em que possa obter ganhos de causa. Seguindo a mesma lógica, não entendo como é que o Tribunal Constitucional, ainda não se pronunciou sobre o facto de numa mesma repartição pública, a efectuarem a mesma função, possam coexistir dois tipos de situação tão dispares como: O funcionário mais antigo tem ADSE e condições de reforma pela CGA com todas as benesses que isso acarreta e o mais recente, está ao abrigo da Segurança Social, com todos os handicaps que isso representa. É caso para perguntar , anda distraído o Trubunal Constitucional? A resposta é obvia, os Juizes do tribunal constitucional estão na primeira categoria, a das benesses e se alguêm tem dúvidas, consulte o sitio da CGA e veja as simpáticas reformas com que estes Senhores se deleitam.

Voltemos então à questão das reformas estruturais e citarei apenas algumas e como elas afectam muito mais os políticos, corporações e grupos de interesse, do que o cidadão comum.

- reforma profunda na produção legislativa (leis mais simples, entendíveis, aplicáveis, que produzam consequencias e sem duplas interpretações)
Principais prejudicados com a reforma: Poder político e/ou económico

- Legislação do ambiente (fundamentalista e muito restritiva, um dos entraves ao investimento e desenvolvimento económico)
Principais prejudicados com a reforma: Autarcas, poder político e económico

- Equiparação da legislação laboral da função pública ao sector privado
Principais prejudicados com a reforma: Funcionários públicos e políticos de carreira

- Limitação e o fim das reformas acumuladas ao abrigo dos sistemas públicos
Principais prejudicados com a reforma: Políticos em geral

- O fim do pagamento de 14 meses  para reformas superiores a 2.000€ e a redistribuição de parte das poupanças pelas reformas mais baixas
Principais beneficiários: Quadros médios e superiores da função pública e políticos de carreira

- O fim do ADSE, ADME e outros sistemas públicos, por reforço de um sistema  único, a “Segurança Social”
Principais prejudicados com a reforma:  Funcionários públicos e políticos de carreira

- Promover a redução de Camaras Municipais  e não tanto de Juntas de Freguesia.
Principais prejudicados com a reforma:  Autarcas e poder político

- Extinção e/ou fusão de fundações, empresas publicas e institutos
Principais prejudicados com a reforma: poder político, grupos de interesse, etc...

- Mais isenção e mais poder para os reguladores. À justiça o que é da justiça e aos políticos o que é da política. Não podemos continuar a assistir aos tribunais a tomar decisões políticas e aos políticos a comentarem e a condicionarem decisões dos tribunais
Principais prejudicados com a reforma: políticos e grupos de interesse

Não sou naífe ao ponto de pensar que todas estas reformas poderiam ser executadas na sua plenitude, com o alcance desejado e produzindo os efeitos planeados, mas, sonhar e imaginar que um dia poderemos vir a ter um País mais justo, onde a igualdade de oportunidades possa ser uma realidade, é um direito inalienável.

A propósito da ultima edição do Expresso, creio ser de toda a justiça,  que todas as fundações sem cariz social, como os casos da família Soares, Standley Ho etc..., percam todos ou praticamente todos os apoios de que gozam, neste momento em que os  sacrifícios  pedidos aqueles que menos podem é uma realidade. Estes são os tais grupos de interesse a quem menos interessa um País mais justo

O tempo é bom conselheiro e o nosso Primeiro Ministro, podia aproveitar este período de férias bem merecidas, para relaxar e para esboçar um plano ou um conjunto de medidas que nos levem a acreditar que o País tem futuro, um futuro mais justo e com mais equidade.

Não me canso de repetir, que uma das principais características de um LÍDER é governar em prol de todos e não só de alguns. Tomar medidas fáceis, mesmo que impopulares atingindo os mais desprotegidos é uma prática banal, a que os nossos governantes nos habituaram nos últimos anos.

Acredito e continuo a acreditar, que Pedro Passos Coelho é esse LÍDER, em quem devemos confiar e depositar as nossas esperanças.

Esqueçamos por momentos as dificuldades e gozemos com especial prazer estas tão desejadas férias.

sábado, 4 de agosto de 2012

O Espírito Olímpico, please...

Já escrevi num «blog» amigo – “Depois Falamos”-, o que penso da abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, do hastear da bandeira olímpica, bandeira dos cinco anéis, símbolo da paz, por 16 militares britânicos, heróis dos massacres do Iraque, Afeganistão, Líbia e Balcãs, e do custo exagerado desta “festa” do desporto que pôs a Grécia na falência.

Os principais sponsors dos Jogos Olímpicos, as grandes marcas do desporto e muitas outras firmas internacionais são também os principais coveiros dos direitos do homem.

Estas sociedades que deslocalisam por causa de “competitividade” (compreenda-se competição entre duas misérias de nível diferente), e de rentabilidade são as causas maiores do não-respeito dos direitos do homem nos países onde elas instalam a produção.

Mão de obra baratíssima significa, entre outros, baixos salários, direito do trabalho e direito social inexistentes, direito da infância desprezado, etc., etc.

Nike e Adidas são, entre as marcas mais modernas, apontados pela exploração das crianças pelos seus fornecedores. Por outro lado, as duas sociedades preparam-se já a transferir a produção para outros paraísos de exploração abjecta mais acolhedores que a China, onde, segundo parece, o governo chinês pensaria criar um espécie de salário mínimo fixado pelo Estado, o qual, seria inaceitável para Nike e Adidas.

Pessoalmente, decidi boicotar estas duas marcas. E talvez tenha um “look” menos “in” quando faço o meu jogging, mas pelo menos tenho a consciência tranquila e será por uma boa causa. Porque são estas empresas, que através as “oficinas” dedicadas, como a OMC, O Banco Mundial e o FMI que instauram esta ordem do mundo que tanto detesto.

Ah os sponsors! Que, todos sob o mesmo espirito olímpico, verdadeiros arautos do liberalismo corrompido e corruptor, tiveram o direito de enviar os seus representantes para correr com o facho olímpica até ao estádio!

Dow Chemicals, fornecedor do agente laranja e do napalm que deixou o Vietname num estado lastimoso, com milhares de crianças deformadas, mesmo ainda hoje. Recordam-se de Bhopal, na Índia em 1984 – 2000 mortos, envenenados pelo dioxido! Thank you Dow!

British Petroleum, a maré negra do Golfo do México e a exploração do betume no Alasca!
E Arcelor Mittal, o monstro indiano do aço, que despede neste momento 70.000 trabalhadores! Foi o filho do proprietário que desfilou com o facho nos bairros burgueses de Kensington e Chelsea!

Numa outra ordem de ideias, pergunto a mim mesmo qual é o valor simbólico dos Jogos quando realizados graças a esta batalha do dinheiro sob todas as formas, (Nike investiu 200 milhões de $ e Adidas o mesmo no sponsoring dos atletas, do Comité Olímpico, etc.) e quando para assegurar a organização dos jogos se mobilizaram 40.000 soldados de Sua Majestade, especialistas de tiro nos sítios estratégicos, navios de guerra no Tamisa, lança-missiles sobre o telhado dos imóveis, aviões de combate, helicópteros de ataque...etc. Como diz o PM britânico David Cameron “nunca visto em tempo de paz”!

Estive há algumas semanas em Olímpia. E ao contemplar este sitio disse cá comigo, que os mesmos eram capazes de sponsorizar Zeus, para comprarem a sua alma!

Freitas Pereira

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A Lei que compromete

Recentemente, o gabinete de estatísticas da União Europeia  (UE) veio dizer que a dívida pública portuguesa é a terceira mais elevada da UE em termos percentuais, apenas  superada pela Grécia e a Itália. Ou seja, o país está endividado até à medula dos ossos (vulgo tutano).

Endividaram-se as gerações futuras com a justificação que estas também deveriam pagar por investimentos que viessem a usufruir, aplicando o chamado princípio da equidade intergeracional, que poderá ser utilizado como case study da má gestão da coisa pública.
Face ao descontrolo e à falta de “cautela” na gestão das finanças públicas tornou-se imperativo travar a fundo, algo que este Governo fez com a chamada Lei dos Compromissos e Pagamentos em Atraso (LCPA), trazendo assim um conjunto de desafios a toda a administração pública.

Enquadrando a Lei num ângulo mais local, o das autarquias, a revolução será enorme e vai obrigar a práticas diferentes em muitos concelhos, a começar no empolamento das receitas ou as falsas expetativas orçamentais.
Os orçamentos tenderão a caminhar para a chamada “base zero”, devendo assegurar excedentes orçamentais no pior cenário e ser capaz de aproveitar as oportunidades que os melhores cenários poderão proporcionar.

Vai obrigar a escolhas fundamentadas. Haverá o chamado custo de oportunidade, que é o que acontece a quem tem apenas 20€ e quer ir jantar fora e descer o rio mondego de canoa. Terá de escolher porque os 20€ não darão para fazer as duas coisas. Quanto ao QREN, terão que ter uma visão além das taxas de comparticipação e analisar de forma cuidadosa a real necessidade dos investimentos. A despesa vai ter de diminuir.
Há naturalmente quem concorde e o seu inverso. Aparte disso, convém perceber que esta Lei não compromete nada, desde as festas da cidade de Penacova como noticiado num jornal local, até a aquisição de X ou o subsídio a Y.

O que compromete, isso sim, é a falta de dinheiro. Aliás, foi precisamente a falta de dinheiro que esteve na origem desta Lei.

Que se lixe a hipocrisia

Ando pasmado com a hipócrita indignação da esquerda em torno da expressão do Primeiro-Ministro “que se lixem as eleições” (como sabeis, dita por contraposição à possibilidade de, com medidas impopulares, resgatar o País da situação actual)…

Antes de nos condoermos com o facto de os partidos da oposição perderem tempo com coisas secundaríssimas num tempo tão sombrio, vejamos, ab initio, que se trata de uma questão de estilo coloquial que o Pedro Passos Coelho sempre adoptou com visível sucesso comunicativo. Ninguém poderá esquecer que, na mesma altura e brincando com comentários preocupados, o nosso Premier disse que estava magro apenas porque fazia dieta. Sei bem o que são estas “falsas virgens pudicas” da nossa esquerda, pois o meu estilo de expressão sempre me deu algumas gostosas dores de cabeça, inclusive na defesa da minha tese de mestrado (“Telecomandos, ratos e votos”).

Ainda mais boquiaberto me quedo quando vejo acusações de populismo ou desrespeito pela democracia por parte do PCP e do Bloco de Esquerda! Estaremos a falar dos partidos que empurram sindicalistas para enxovalhar governantes em qualquer lugar onde estes se desloquem, pretendendo que os cidadãos comuns pensem tratar-se de genuínas erupções populares de indignação?! Tenham juízo e decoro!...

Deixem-me, aliás, dizer-vos que se a forma de expressão pagasse imposto de cada vez que a língua portuguesa é vilipendiada ou que a vontade de dormir ataca qualquer ouvinte que tenha acabado de beber um café ou um Red Bull, creio que a colecta fiscal de 80% dos nossos parlamentares (incluindo a esquerda) pagaria grande parte do défice.

Dito o isto, sublinho ainda que os nossos parlamentares vivem na era do Twitter, que subscreveram um lamentável Acordo Ortográfico que aponta no sentido de uma simplificação desbragada e que os costumes evoluem! Será que ainda se levantam quando a Presidente da Assembleia da República entra na sala? De onde vem tanto choque a não ser, aqui sim, de um populismo idiota?

Se a memória me não falha, foi Shimon Peres que disse que era preferível lutar por uma causa do que ganhar eleições. Eu continuo a concordar com essa ideia e fico tranquilo por saber (algo que não me surpreende) que Passos Coelho afina pelo mesmo diapasão.



Post-scriptum: o que deveria ter indignado esquerda, centro e direita foi o filme pornográfico que vi na RTP sobre os lucros da Galp, que parecem ter crescido 56,7% (cifrando-se em 178 milhões de euros), no primeiro semestre de 2012. Isto só mostra que, se fosse solidária com o esforço dos portugueses, a empresa poderia encurtar as suas margens, assumindo parte dos dantescos aumentos dos combustíveis. É uma vergonha que parece não seduzir tanto a esquerda como o folclore político…

terça-feira, 31 de julho de 2012

Como sempre, na fronteira da hilaridade com o mau gosto

Borat fez-me rir (mormente porque não nasci no Cazaquistão), Bruno quase me fazia vomitar e O Ditador parece-me uma sátira notável a alguns regimes do Médio Oriente, pese embora com duas ou três cenas escusadas, para não fugir à regra do protagonista.

Pesado no tema, mas muito bom na interpretação

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O estado dos Estados


Tendo como princípio que todas as profissões são importantes, pois dependemos uns dos outros para a vivência em sociedade, queria todavia realçar o que disse a Daniela Mercury numa entrevista à RTP aquando da sua passagem por Portugal para promover o Rock in Rio 2012: “em democracia, a profissão mais importante é a de político”.

Salvo medianas exceções diria que os políticos não costumam ter, por norma, indicadores de confiança esmagadoramente abonatórios junto das suas populações; especialmente depois da chamada democratização e massificação da informação. A consequência óbvia é que no geral os ciclos de governação política passaram a ser cada vez mais curtos, e esta “eurocrise” veio confirmá-lo. 

Esta crise que envolve vários países europeus tem vindo a tornar perigoso (e muito) o estado de alguns Estados! Mudou de forma dramática os seus semblantes em pouco mais de um ano e tem vindo a demonstrar as fragilidades de alguns governos europeus, algo que aliás já seria de esperar, a partir do momento em que se decidiu juntar na mesma equipa jogadores com qualidade para a Liga dos Campeões e outros que muito dificilmente arranjariam lugar na Liga Orangina portuguesa!

Sabia-se que os mercados eram imperfeitos, mas mesmo assim “quisemos” uma União Monetária sem antes salvaguardar uma União Política. O resultado está vista de todos: ficámos com uma Europa que para além de não se entender, está dividida entre ricos e pobres, e normalmente quem é rico, manda.

Hoje temos Estados que gastaram mais do que tinham e acabaram por perder a sua soberania, tendo agora de se curvar perante medidas de ajustamento previstas em documentos/memorandos, aos quais têm de se sujeitar e explicar às suas populações, que legitimamente duvidam das receitas impostas, porque os Estados per si não controlam todas as variáveis e percebem que estes não são problemas resolúveis país a país, mas sim globais, sob pena de estarmos a percorrer as peças do dominó.

Temos Estados sujeitos à especulação dos chamados Mercados (que a esmagadora maioria ainda não percebeu bem o que são!) e da avaliação que umas empresas americanas que entre o seu core business se dedicam a avaliar a capacidade que os Estados têm em pagar as suas dívidas, mas que no entanto mais não são do que uma autêntica gatunagem do “rating” e uma cambada de incompetentes (vejam o documentário “Inside Job” e percebem o que vos digo). Pior ainda, andam à solta e não há quem os coloque em su sítio.

Perante todo este cenário, aqui descrito numa versão minimalista, agora pergunto-vos: qual será a profissão mais importante em Portugal nos dias de hoje? Será que a Daniela Mercury tem razão? Se sim, agora imaginemos o tamanho da empreitada que têm pela frente tendo em consideração a dimensão política e financeira de um país como Portugal?

Há épocas em que precisamos de Estadistas, e não de políticos.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

QUEM REPRESENTA QUEM ?

Porque é que nos regimes democráticos, os governos têm tanto medo de exercer o poder executivo para o qual foram eleitos?
Esta questão suscita-me algumas observações e dúvidas e por isso recorro a alguns exemplos:

Segundo os sindicatos dos transportes públicos, as greves que fazem e as reivindicações que apresentam, são sempre em defesa dos utentes e da qualidade dos transportes públicos.
Dúvida: Estes sindicatos representam os utentes ou os interesses dos trabalhadores dos transportes públicos?

Segundo o sindicato dos médicos, enfermeiros e auxiliares de saúde, as greves que fazem e as reivindicações que apresentam, são sempre em defesa dos utentes, do SNS e da qualidade dos serviços que prestam
Dúvida: Estes sindicatos representam os utentes ou os interesses dos profissionais ligados à saúde?

Por ironia do destino, o resultado da última greve dos profissionais de saúde, inédita porque juntou sindicatos e ordem na defesa de interesses corporativos, redondou em dois dias de excelente negócio para hospitais e clinicas privadas e é assim que que se quer defender o SNS retirando-lhe receitas.

Certeza: Estas observações e dúvidas, aplicam-se a todos os sindicatos e ordens sem excepção e para as quais a maioria do POVO Português não foi chamado a pronunciar-se.

A democracia tem destas coisas. Quando pensamos que votamos e elegemos um governo para conduzir os destinos do País, não estamos mais do que a eleger um conjunto de personalidades em que a principal função é negociar e encontrar equilibrios neste imenso turbilhão de interesses. No fim, quem paga sempre é o elo mais fraco, o POVO.

O preço incerto

Se a vida se resumisse a um concurso televisivo, o preço das coisas seria coisa de somenos importância. Como assim não é, vale a pena perguntarmo-nos, ainda que retoricamente, por que é que o dinheiro adquiriu um papel que o passou de meio de pagamento a centro da nossa existência. Volto a dizer que o “ter”, tristemente, manda no “ser”…

Vem isto, evidentemente, a propósito da crise que vivemos e sobre cuja dimensão gostaria de dizer que, apesar de a angústia ser a sensação dominante, estará bem longe de significar o fim do nosso modelo civilizacional ou sequer a rendição de um povo que sempre arranjou maneira de superar as piores dificuldades, tenham elas a forma de exércitos castelhanos ou napoleónicos ou mesmo a actual roupagem engravatada do FMI que, ao que sei, veio e foi com naturalidade nas anteriores passagens pelo nosso País.

Porém, algumas questões vão ficar como marcas desta “guerra”. Em primeiro lugar, creio que, dada a inversão da pirâmide etária (cada vez menos gente a trabalhar para suportar cada vez mais gente que atinge a idade da reforma), teremos todos que trabalhar até mais tarde, acompanhando aliás a maior longevidade que nos deu a extraordinária evolução da medicina. É, neste caso, a sustentabilidade da segurança social que se joga.

Onde a compreensão me começa a falhar em relação ao que tenho ouvido e lido é quando se diz que temos salários altos. Se me dizem que se limitaram a olhar os recibos de vencimento de alguns jogadores de futebol ou dos gestores de topo, mesmo aí direi que o problema reside na generalização, pois se alguns valem o dinheiro que ganham, muitos mereceriam pouco mais do que o salário mínimo. O problema é que me parece que os doutrinadores da “tesourada” no vencimento falam da população portuguesa activa em geral, o que me sugere uma pergunta com assumido e alto teor de ignorância: se a maioria das pessoas já tem que cortar em coisas essenciais e tem dificuldade para viver com conforto (só me vem à cabeça, por exemplo, o gasóleo a quase euro e meio!...), como propõem os génios da finança que as pessoas façam mais do que sobreviver, se um qualquer governo os levar a sério?!

E, depois, surge o meu eterno dilema em relação à Saúde: se todos concordamos que o nosso Sistema Nacional de Saúde é de elevada qualidade (depois de viver no estrangeiro, confirmo-o sem rodeios), por que razão não encontramos alternativas para o financiar? Bem sei que todos pagamos impostos para o suportar. Contudo, se tal se revela insuficiente, por que não pensar num pagamento adicional por utilização devidamente adequado ao nível de rendimento do utente? Creio que é preferível do que a rendição ao mercantilismo dos seguros de saúde…

Divertido

Muito divertido

domingo, 22 de julho de 2012

Será que conseguimos separar o trigo do joio?


Há uma história que ouvi há uns anos numa conferência que nunca mais esqueci e que tem a ver com este vídeo que gostaria que assistissem (demora cerca de dois minutos e meio).



Tudo parece normal. Quantas vezes nos deparamos com os chamados “artistas de rua”, alguns com muito talento mas que devido ao stress do dia-a-dia os ignoramos, seguindo nosso caminho.

Com este violinista aconteceu precisamente o mesmo no metro de Washington, e nem as 6 peças de Bach que tocou durante 45 minutos fez com que as cerca de 1100 (aprox.) pessoas que passaram pela estação fossem dissuadidas de irem onde quer que fossem.

Esta seria uma história igual a tantas outras, não fosse o violinista… Joshua Bell, um dos músicos mas conhecidos e talentosos do mundo que esgota salas por onde quer que passe e cujos bilhetes por espectáculo rondam os 100 USD.


A experiência, organizada pelo Washington Post pode ser lida aqui com mais detalhe.

As interpretações podem ser várias… Como referido em epígrafe, podemos perguntar se conseguimos separar o trigo do joio? Ou então, se temos a capacidade de distinguir o talento em locais inesperados? Porém, para mim, a conclusão é muito simples: “um bom produto não é suficiente”.

terça-feira, 17 de julho de 2012

LIDERAR PELO EXEMPLO

Longe vão os tempos em que embuídos de um espirito de missão, PSD e CDS acordaram numa coligação com o grande objectivo de tirar Portugal da bancarrota. Esta grande cruzada, implicava sérias e profundas reformas estruturais, que para uns representariam o fim de algumas regalias injustificadas e para outros, a oportunidade de actuar num mercado mais justo e mais transparente. Passado 1 ano, aquilo que esteve na base desta grande cruzada e que implicou grandes sacrifícios por parte do povo Português, mostra sinais preocupantes de desagregação, senão vejamos:

- O governo é uma equipa, que para ter sucesso, tem que comungar dos mesmos princípios,  valores e objectivos. Percebemos hoje, que no seio do governo a partilha destes valores é inexistente e a escassa presença de governantes no último conselho Nacional do PSD é bem uma prova disso. De um lado governantes ainda imbuídos do espírito de missão que comungam dos mesmos valores e do outro, governantes com maior peso político e consequentemente com vícios, hábitos e procedimentos numa lógica partidária que acreditávamos estar em decadência.

- O chumbo do Tribunal Constitucional é mais um motivo de desagregação. De um lado o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças, querem cumprir as metas do défice através de medidas que ofereçam mais garantias, entenda-se distribuir o esforço pelo público e pelo privado e do outro Paulo Portas e o CDS, dando a entender que os privados não devem ser chamados a mais sacrifícios e que os esforço tem que ser feito só do lado da despesa publica. Alias esta opção teve muito recentemente um apoio de peso, o FMI.

- O fim das empresas públicas, fundações, institutos e afins, que não cumpram determinados critérios e rácios, no fundo que não tenham razão de existir. A oposição no seio dos 2 partidos é enorme, porque se acabam os lugares de nomeação política e consequentemente as oportunidades para os que não tem curriculum ou experiência profissional, aspirarem a uma vida melhor sem que para isso lhes seja exigido qualquer competência.

 - Finalmente, o caso Miguel Relvas, que o Primeiro-Ministro tarda em perceber que quanto mais tarde o substituir, maiores vão ser os estragos. Sem querer cometer alguma injustiça e corrijam-me se estiver errado, a fama vem de longe. Numa rápida pesquisa pela internet, é fácil descobrir notícias e fotocópias de jornais com mais de 20 anos, que atestam o quão habilidoso é este político. Desde moradas falsas enquanto deputado para compor um pouco mais o salário, ao envolvimento na famosa questão das viagens fantasmas e agora, passados 20 anos e com apenas 1 ano de governo, já se lhe conhecem outras façanhas pouco recomendáveis e das quais cito apenas algumas:
a indicação de inúmeros Jotas e PSD's sem qualquer curriculum para lugares chave deste governo, o infeliz episódio das secretas, em que as contradições foram o que de mais relevante ficou na memória dos Portugueses, a questão do Jornal Público e o relatório da ERC, que depois de muito esforço para demonstrar alguma independência não deixa de condenar a atitude do Ministro, imiscuiu-se na escolha do gestores para o Metro do Porto e STCP, desautorizando o Ministro Alvaro Santos Pereira que tutela esta área e finalmente o episódio das equivalências e da  licenciatura "Batman".

Miguel Relvas não é só um mau exemplo para a sociedade, como também não deixa confortáveis muitos dos seus colegas de governo, que não se identificam com estas práticas menos próprias e recomendáveis. Com esta atitude muito Portuguesa ao estilo de governos de má memória, não é parte da solução mas sim o problema, que Pedro Passos Coelho terá que resolver rapidamente.

Se o Primeiro-Ministro é o líder que penso que é, não deixará de colocar o interesse Nacional à frente de qualquer outro, porque numa altura em que são pedidos tantos sacrifícios, em que o horizonte é incerto e as dúvidas são muitas, tem que surgir alguém que lidere pelo exemplo, aglutinando o Povo Português em torno de um objectivo comum, debaixo de princípios como o rigor e a transparência, tão enunciados durante a campanha eleitoral.

 Inconscientemente, Miguel Relvas está a resistir tanto e a tal um ponto, que quando sair, sairá pela porta dos fundos, a tal ponto, que quando regressarmos de férias nos fique a sensação de que foi de férias e já não voltou.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Alemanha vs. Grécia [2nd round]



A Chanceller alemã começou por recusar-se a pôr os pés no Euro 2012 em solidariedade com a causa Timoshenko, tendo inclusive aconselhado os seus ministros a actuar no mesmo sentido. Porém, volvidos os primeiros jogos e agora que a Alemanha  leva com a Grécia também no campo futebolístico, parece que Angela Merkel decidiu ir ao jogo dos quartos-de-final que decorre já amanhã. É certo que o jogo não vai ter lugar na Ucrânia, mas sim em Gdansk, Polónia. Porém, não deixa de ser curiosa que a única presença da chanceler alemã vai ser - até ver -  no jogo que opõe aquelas duas nações que estão em posições bem diferentes no que respeita à crise europeia mas que podem inverter os papéis no que ao futebol diz respeito. A ver vamos quem é que sobrevive ao duelo.
*cartoon daqui

Somos menos

Partiu o Abel… Para os amigos, carinhosamente, o “Abelha”, companheiro de tantas lutas “laranjas”…

É normal que o nome diga algo a muito poucos leitores… Para já atesto que, a mais de um amigo, era um tipo bem humorado, criativo e dedicado e lembro que, em 92, fez parte de um grupo minúsculo que, com uma média de vinte anos ou menos, passou uma noite a passar a “fava” de quem teria que enfrentar a geração dos vinte e muitos/trinta anos na luta de duas concepções distintas para a JSD. A tarefa parecia impossível, mas daí sairia o meu primeiro mandato distrital…

Já a propósito de muitos não saberem quem foi o Abel Ferreira, dei comigo a pensar em nomes de uma geração para quem a política parecia ser vício eterno, mas que estão hoje fora da política; além de mim, lembro o Nuno Freitas, o “Manel” Gouveia, a Maria João Matos Cabo, a Catarina Monteiro, o Ramiro Pastorinho, o “Jopa”, os Cerejo, os Africano, os Casimiro, o Leonel e tantos outros que ficam por mencionar e que, salvo excepções que desconheço, foram saindo de uma vida partidária que parecia uma segunda pele.

Existe, é claro, uma explicação parcial que é benigna: com a participação enorme do pós 25 de Abril, havia acima da nossa várias gerações (algumas pouco mais velhas) que congestionavam as oportunidades daquilo que chamámos a segunda “Geração de 70”. Ao invés do futebol, neste caso, não podíamos ir fazer política para o Chipre, para a Grécia ou para a Roménia, até haver oportunidades no “onze titular”…

Bastar-nos com esta ideia seria, porém, pouco. A meu ver, como venho escrevendo, a parte de leão do alheamento de uma ou duas gerações de partisans que tiraram os seus cursos ou/e começaram as suas carreiras profissionais é que o paradigma é diferente daqueles tempos das noitadas na sede até às cinco da manhã, da colagem de cartazes ao frio e à chuva (esperando que alguém do partido passasse com umas sandes e bebidas; geralmente a D.ª Graça não falhava), dos saques ao armazém de campanha do Sr. Pinto (o partido chegou a reunir sobre uma mesa debaixo de cujo tampo estava uma porta misteriosamente desaparecida, altura que marcou o bem humorado nascimento dos HSD – Hooligans Social Democratas), das campanhas feitas com stencil, tudo num ambiente que gerava camaradagem e que fazia com que se respeitassem regras e com que, mesmo nos conflitos, a dignidade das pessoas fosse preservada.

Já o modus faciendi de alguma da política actual é bem diverso: a boa escolha mede-se em quantidade de votos arregimentados, a hierarquia é crua (boas ideias devem vir dos submissos e os bons lugares ocupam-se com força), a difamação é arma legítima e a profissionalização política é aliada a um “cientismo” despido de alma.

É assim, Abel… Cada vez somos menos…

terça-feira, 19 de junho de 2012

Joana Vasconcelos | Rainha em Versalhes

A tão aguardada exposição de Joana Vasconcelos no Palácio de Versalhes, em Paris, inaugurou ontem e está aberta ao público de hoje até 30 de Setembro. Note-se que a artista plástica portuguesa é a primeira mulher a expor naquele ilustre espaço que, de há uns tempos para cá, decidiu abraçar a arte contemporânea. As suas imponentes obras estão dispostas nos jardins e em espaços interiores como a bela sala de espelhos, convivendo harmoniosamente com o luxo daquele histórico palácio. 


É uma honra para a própria e para os portugueses, sendo que por estes dias a crítica francesa tem sido bastante positiva e a imprensa tem feito regular destaque à artista e à sua obra ímpar. Claro está que há sempre uma franja mais conservadora que contesta o uso do espaço para estes fins, e outra ainda que contesta o próprio trabalho de Joana Vasconcelos - cá em Portugal há quem ache que se resume a arte kistch. É tudo uma questão de gosto, ou de preconceito, digo eu, que muito gostava de poder rumar a Versalhes e ver com os meus próprios olhos a marca portuguesa que sobressai das obras da artista (da filigrana e da renda à louça de Bordallo Pinheiro, dos tachos Silampos às tapeçarias de Portalegre, etc). Quem não puder visitar in loco, pode sempre optar pela visita virtual, aqui


Uma nota final: a fabulosa obra A Noiva, um gigantesco lustre feito com tampões higiénicos que arrecadou inúmeros aplausos além fronteiras (sobretudo na Bienal de Veneza  em 2005) e conferiu a Joana uma enorme visibilidade internacional, não foi, estranhamente, aceite. Sabemos que em Versalhes não faltam lustres, mas este tem uma carga simbólica única e merecia um lugar de destaque. Porém, «A Noiva» acabou por ficar «solteira», como chegou mesmo a desabafar a artista





* todas as imagens daqui

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Europeu de Futebol com sotaque do outro lado do Atlântico

Ontem, depois do golaço que a Polónia marcou à Rússia tive (compreensíveis) dificuldades em pronunciar o nome do marcador, Błaszczykowski, e recorri a este site, uma página criada pelo BBVA para a divulgação e correcta pronunciação do nome dos jogadores, árbitros e corpo técnico das selecções que lutam pelo título. A ideia é interessante e dá muito jeito para selecções como a da Polónia, a da República Checa, etc etc. Por curiosidade, espreitei a de Portugal. E não é que foram buscar um brasileiro para pronunciar os nomes da selecção portuguesa?! Surreal! Nós não temos o Miguel Veloso, temos o «Miguéu Béloso», o «Nélson Uliveira» e o «Nâni», entre outros... enfim. A ideia é muito boa, mas estragaram tudo com isto. E não acredito que seja difícil encontrar um português em terras de nuestros hermanos. Aliás, não sei como não foram buscar um mexicano ou um colombiano para fazer a correcta pronunciação dos jogadores de La Roja!!! Imbecis. 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

É amor


E numa altura em que se diz que o futebol se resume a actos de violência, aqui fica uma prova em contrário. Um adepto entrou em campo no jogo entre a Croácia e a Irlanda e deixou claro o sentimento que nutre por Bilic, o seleccionador croata. Com ou sem beijo, a verdade é que a Croácia levou a melhor neste seu primeiro confronto no Euro 2012. Se calhar o que nos faltou no passado sábado foi alguém que espetasse um beijo no Paulo Bento...

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Na cama com…

Duas ocasiões voltaram a centrar a minha atenção no poder de fixação da agenda (agenda setting, para os técnicos) dos meios de comunicação de massas.

O primeiro e mais recente foi a partida da Selecção Nacional. Não é de hoje o poder do futebol e, por isso, não estranho (até aprecio) a cobertura detalhada do que se passa no mundo do “pontapé na bola”. Porém, o que vimos na quarta-feira foi de tirar o fôlego; era Hugo Almeida de saco às costas, Coentrão a dar autógrafos, não sei bem quem a comprar revistas e Ronaldo a tratar o Presidente da República por “você” e a selar a conversa com um eloquente “tá?”, entre muitos outros detalhes… Com franqueza, cheguei a recear que fossem com Postiga ao quarto-de-banho, que transmitissem a última noite de Bruno Alves ou que mostrassem Paulo Bento a lavar os dentes ou João Pereira a bater em alguém.

Quero com isto referir-me à cupidez com que câmaras e microfones seguiram os jogadores e às horas de directos em que, a dado passo, já nada havia a dizer senão quantos minutos de atraso tinha o voo e a carga que ia nos bancos do avião, obrigando os comentadores a justificarem o recibo, tecendo asserções sobre o vácuo noticioso que sugava as emissões.

Aliás, prova da busca incessante de notícias de que enfermam empresas que, mais do que informar, visam vender mercadoria (seja ela sobre a forma de “notícia” ou de algo que os anunciantes queiram colocar no mercado) – facto bem atestado pelo Eng. Belmiro de Azevedo, “dono” do Público, que, a propósito do “Caso Relvas”, comentou que o que queria “era que o jornal desse dinheiro” (cito de cor) – é uma notícia de segunda-feira, no mesmo jornal, que dizia que um dos juízes do processo contra Beivik (o autor do massacre de Utoya) tinha sido apanhado por um jornal a jogar uma “paciência” no computador. Não é que seja correcto faze-lo, mas fica por perceber a importância de o noticiar dado o risco de descredibilizar quem tem que sentenciar um monstro, favorecendo este. Contornos nebulosos de que, aliás e a meu ver, se revestiu o tempo de antena que, salvo erro, a televisão pública deu aos golpistas da Guiné Bissau para insultar Portugal e os seus estadistas… Que ética presidiu a semelhante falta de sentido de Estado?

O segundo episódio que me deixa pensativo é o já referido caso que, alegadamente, envolve Miguel Relvas e uma jornalista. Estando impedido de fazer juízos muito detalhados, concentro-me naquilo que me parece a interpretação enviesada que alguns jornalistas e meios de comunicação me parecem fazer dos limites a que a sua profissão e a sua missão, tal como as outras, estão sujeitas. Começa o espanto pelo facto de ser terem sucedido dias de notícias a massacrar o Ministro sem que, ao invés do que se pede aos políticos, se tenha posto a questão probatória. Parece que, grosso modo, bastou a acusação vir dos media para ser irrefutável.

Em segundo lugar, fica por perceber a pressão que o Ministro teria exercido. Vem a saber-se que os eventuais detalhes privados que Relvas, alegadamente (o próprio desmentiu-o categoricamente), teria ameaçado divulgar teriam a ver com o facto (também desmentido) de que a jornalista viveria com um membro da oposição. Mesmo que tal “ingenuidade” (pouco típica de um político muito experiente como aquele de que falamos) pudesse ter existido, continuo a não descortinar o elemento de pressão! O marido da oposição?! Imaginando que a própria não tivesse vergonhado consorte se tal assim fosse, seria achar que os seus leitores, em particular, e os portugueses, em geral, são demasiado idiotas para passar a entender que o Público se guia por agendas pessoais…

Já que não há auto-regulação eficaz, devia abrir-se o debate sobre a libertinagem de informação que ocupou o espaço da liberdade homónima.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Liberdade e Liberalismo

Nunca os termos «liberalismo e desemprego» estiveram tão intimamente ligados um ao outro que nestes últimos tempos. 

Mas na realidade é uma historia que data de há muitos anos. O liberalismo impôs-se durante a década de 80 e acabou por ser hegemónico, pelo menos na sociedade ocidental, na década de 90. 

Desde então, as consequências da implantação do liberalismo são visíveis em todos os sectores da sociedade, ao nível económico e social. Não existe nenhuma esfera que tenha escapado a esta revolução que acabou com o mundo que conhecíamos à saída da guerra. 

O liberalismo actual ou neo liberalismo não é humano, não é democrático, ele transformou tudo numa mercadoria, num vasto mercado, criando uma sociedade onde tudo é negociável; ele participou de uma maneira extraordinária à destruição dos valores colectivos e dos elos sociais. 

E quando se pensa que o termo “liberal” é uma herança dos séculos XVIII e XIX, que qualificava as ideias de luta por “mais liberdades” ( de expressão, económica, política e hábitos) , face à aristocracia e à moral católica rígida, podemos dizer que houve uma real usurpação da conotação positiva do liberalismo , que tendo lutado para melhorar a sociedade e estender as liberdades e a democracia política, está hoje na origem de todos os excessos.

A mesma filosofia económica que mergulhou o mundo no caos em 1929, voltou ao comando e aplica agora a mesma teoria dos anos 80 e 90, com Thatcher e Reagan: luta contra a inflação, contra os défices públicos, contra as subvenções do Estado, contra os direitos alfandegários, isto é, livre-câmbio e finança prioritários sobre a produção. 

A construção da União Europeia propôs e impôs medidas económicas e outras, que retiraram aos Estados todo e qualquer poder significativo decisivo:- livre circulação dos capitais e investimentos nocivos, paraísos fiscais, deslocações de empresas, abertura das fronteiras e perda de soberania nacional, monetária entre outros ( Euro ).

Nos anos 80 , todas as barreiras de protecção que impediam o capitalismo de descarrilar foram, uma a uma, desmanteladas. Assim, quando a Europa adoptou o Tratado de Maastricht que tornava obrigatória a economia de mercado, a livre concorrência e a não intervenção do Estado, a França e o resto dos países desenvolvidos mergulharam num mundo novo, um universo estranho onde tudo seria mercadoria...

A solução liberal impôs-se : preeminência do capital sobre o trabalho, o indivíduo sobre o colectivo, valores ou vantagens sociais adquiridas e código do trabalho contestados, etc. A economia de mercado é a única admitida. 

Estamos agora portanto muito longe da luta por “mais liberdades”. 

A ideia de liberdade implica a possibilidade de “escolha” de uma ou outra solução para viver na sociedade. Hoje o indivíduo não escolhe a sua vida. Ele sujeita-se! 

Se decisões urgentes não são tomadas para mudar de sistema económico, ou pelo menos de medidas de regulação severas, permitindo ao Estado de recuperar a sua função original, vamos ouvir dentro em breve dobrar os sinos nas cidades e aldeias desse vasto mundo.

E ninguém perguntará porquê , porque todos sabem que eles dobrarão pela LIBERDADE. Sim, porque sem trabalho não há liberdade. 

 Freitas Pereira

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A outra carta a Ricardo

Meu Caro Amigo:

Cá estou eu de novo, como não podia deixar de ser, a dar seguimento à carta que escrevi antes da gloriosa final de dia 20.

Se na altura me custou encontrar as palavras adequadas, agora modero o verbo para não rebentar de felicidade antes de terminar estas linhas…

Não sei quantos mais anos passarão até ganharmos outra Taça, mas uma certeza já ninguém me tira: se os tiver, posso dizer aos netos que o avô viu a Briosa no Jamor e, ainda por cima, trazendo a “fruteira” de volta a casa!

Confesso que ia com o coração apertado. A mais de o Sporting ter mais argumentos, lendo os jornais desportivos da semana antecedente até parecia que nem valia a pena jogarmos: a vitória estava reservada para as fitas verdes! Até puseram o Cristiano Ronaldo numa capa da véspera, dizendo que apoiava o Sporting. Esperavam o quê?! Que ele apoiasse o árbitro (bem merecia, pois só faltou chutar ele um dos “milhares” de livres que marcou à volta da nossa grande área)?! Que torcesse pelo Dínamo de Tbilisi?! O que me espantaria é que, formado em Alvalade, ele puxasse por nós, pois estaria bêbado, não teria carácter ou indiciaria que a Irina era academista!... Fica por perceber é o que quis o jornal… Espera! Não respondas, que eu digo-te: vender papel a uma multidão de sportinguistas sedentos de um título. Olha, morreram de sede!...

Mais importante que isto é realçar a exibição de gala que a nossa Académica fez. Que entrega, que empenho, que comunhão com os adeptos (que, reconhecerás, não pararam um minuto e foram magníficos, calando a maioria esverdeada), e que solidariedade (jamais esquecerei que, sempre que um adversário passava por um dos nossos, surgiam mais dois ou três “pretos” para lhe “explicar” que o adereço ia para Coimbra, desse por onde desse)! Quanto a ti, enorme Ricardo, fosse eu um tipo presunçoso e diria que leste a “Carta a Ricardo” com dons exegéticos autênticos (ou seja, iguais aos do autor), dado que, como te pedira, foste maior, mais rápido e mais longe e tornaste os leões em gatos de regaço! Foste mesmo “Ricardo Coração de Leão”! Ora, sabendo que o artigo nada mexeu com o talento que já tinhas, fico com a satisfação de ver um amigo consagrado como um dos melhores guarda-redes portugueses, assim mantenhas a mesma confiança em ti próprio!

Éramos mais de vinte colegas de faculdade e amigos e a equipa deu-nos um dia para durar para o resto da vida. À distância segui-vos durante os festejos em Coimbra e creio que, no dia seguinte, ainda vinha “anestesiado”.

Tiro o chapéu ao Pedro Emanuel que trabalhou convosco para que todos fossemos felizes (ao invés do outro treinador que deve ter achado que bastavam as camisolas) e ao Presidente que manteve a fé no primeiro (foi feliz na teimosia, mas lá está: a sorte protege os audazes!).

Agora, é desfrutarem com alegria e humildade a odisseia europeia e ocuparem o tal lugar na história de que te falava.

Aqui vai mais um abraço “africano” com eterna gratidão!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Carta a Ricardo

Meu Caro Amigo:

Espero que me perdoes a ousadia deste formato, mas foi a forma mais pessoal que arranjei de falar desse momento épico que vamos viver no Jamor – a maioria de nós fora do relvado e tu lá dentro, com o que julgo ser uma subida honra de representar a Académica numa final da Taça.

Antes de mais, deixa-me aproveitar estas linhas para dar a mão à palmatória, numa questão que, por ser directiva, sei que está fora do teu âmbito opinativo: se fui dos que critiquei a (tradicional) teimosia do nosso Presidente, sou o primeiro a dar a mão à palmatória, reconhecendo que – apesar dos riscos, que me pareceram excessivos – tudo acabou bem na luta pela manutenção. Aliás, acabou mais do que bem! Esta de irmos às competições europeias é um pacote de cerejas inteirinho, em cima do bolo da permanência na I Liga.

Falando do jogo, eu que sou pródigo em palavras ditas e escritas, sinto-me analfabeto quando toca a explicar o que sinto por ir assistir ao jogo que, desde pequeno (disse-o e escrevi-o bastas vezes), sempre quis ver a Briosa jogar!

Lembro-me das vezes que era levado pelo vizinho de cima, Dr. Manuel Cunha (que já não poderá partilhar connosco esta ocasião), a ver o então Clube Académico de Coimbra (mercê da idiota decisão da “esquerdalha” e anarcas que, durante uns tempos, se apoderaram da A.A.C., casa que deveria ser de todos) em Águeda, na Guarda e por aí fora – hábito que retive, ora à boleia (quando estudante), ora no meu carro e com amigos, depois.

Recordo com saudade as “batalhas” com o célebre União de Coimbra…

Foi também por essa altura que aprendi as histórias sobre as finais históricas, sobre os jogos memoráveis, sobre os jogadores inesquecíveis, sobre as capas negras, sobre os estudantes… Enfim, sobre a imensa Académica e sobre a sua relação íntima com Coimbra e a Universidade!

E quando comecei a ir sozinho aos jogos – ora entrava de graça, ora me esgueirava entre as largas grades (na verdade, eu é que era magro, nessa altura) do velho Municipal – ficou-me na memória o “puxão de orelhas” da nossa querida Carmo por ter estado uns tempos sem pagar quotas (mal sabia ela que eu ia aos jogos na mesma…), tendo-me dito que, à segunda, perderia o número de sócio… Nem sei se tinha 16 anos, mas ainda me lembro.

Por isso, caro Ricardo, aproveitando para te saudar pelas tuas magníficas e providenciais exibições dos últimos tempos e sendo que (mantendo-se o critério e a prudência) será provável que estejas entre os nossos postes, ouso pedir-te o possível e o impossível… Quando a bola for alta, sê maior do que eles! Quando ela for rápida, supera a velocidade dos felinos! Quando for longe, cresce ainda mais e dá-lhe uma palmada! E, se tivermos que ir ao desempate por grandes penalidades, conquista o teu lugar na história! Qual Ricardo I, de Inglaterra, qual quê! Tu serás o verdadeiro “Ricardo Coração de Leão” e os outros serão felinos esverdeados!

Depois, o Valente, o Marinho, o Édinho ou até tu que marquem com o pé, com a cabeça, com as costelas, com o que lhes apetecer! Está na hora de trazer a Taça de regresso a casa!!!

Aceita um abraço do teu amigo grato, Gonçalo Capitão.

domingo, 13 de maio de 2012

Impunidade Insolente

O mundo inteiro acompanha com uma profunda tristeza e receio (porque pode acontecer a outros, não é assim?) a descida nos abismos da pátria da Democracia, a Grécia, onde a classe política mais corrompida da Europa deixou , durante anos, apodrecer uma situação previsível de bancarrota, quando as estruturas do Estado são inexistentes ou inoperantes, quanto mais não seja para recuperar os impostos!

Mas não é só a Grécia. O mundo conhece a pior crise desde a grande depressão de 1929. A crise provocou dezenas de milhões de desempregados nos Estados Unidos, na Europa e além. A enorme geração de "baby boomers" nos Estados Unidos, proximos da reforma, viu com estupefacção os seus bens imóveis desaparecer em fumo com a derrocada da “bolha imobiliária”. 

Seria difícil de imaginar um desastre económico pior que este. As crises precedentes, como a inflação persistente dos anos 70, parecem bem modestas comparadas à tempestade que varreu a economia mundial.  

Nada de novo, portanto. As pessoas não têm necessidade dum economista para lhes explicar que os tempos são duros ! Entretanto, o que as pessoas não sabem talvez, é que aqueles que provocaram este desastre ainda continuam no comando. Mais precisamente, não houve praticamente nenhuma mudança no pessoal e nenhum reconhecimento dos erros cometidos pelos bancos centrais cuja incompetência provocaram a crise! 

Incrivelmente, este bando de incompetentes ainda pretende deter uma infalibilidade papal e põe os governos e a opinião publica de calças na mão, atemorizada diante do que lhes pode acontecer se vierem a ser controlados de maneira mais estrita. 

Imaginemos Passos Coelho substituído por um “técnico” da finança nomeado pela “Troica”! Como na Itália e na Grécia. 

Claro que eles já ditam as políticas aos governos democraticamente eleitos. São todas as mesmas, porque os objectivos são os mesmos: diminuir as reformas, reduzir o financiamento publico da saude, enfraquecer os sindicatos e impor aos trabalhadores diminuições de salários. 

Mas eu acho, que visto a amplitude dos fracassos desta gente, é realmente incrível que os dirigentes dos bancos centrais ainda tenham o desplante de se mostrarem em publico. Eles têm sorte de ainda ter um emprego – e muito bem pago – o que mais é! (Muitos empregados do FMI podem ir para a reforma aos 50 anos, com uma reforma de 6 dígitos). Os trabalhadores ordinários teriam sido licenciados se tivessem feito tantas asneiras. 

Porque, que diabo, em que é que pensavam quando viram nos USA e na Espanha os preços do imobiliário subir em espiral sem razão? Criam que esta bolha ia crescer indefinidamente? Criam que este milhares de milhões iam simplesmente desaparecer sem impacto na economia?

 E pior ainda: que pensar destes dirigentes dos bancos centrais que permitiram que o Euro fosse imposto a um conjunto heteróclito de países que não tinham grande coisa em comum e sem organismo de controlo governamental? Pensavam que os salários e os preços iam evoluir da mesma maneira na Grécia e na Alemanha? ‘(Quando escrevo Grécia penso também no nosso país!).

No caso contrário, qual mecanismo de ajustamento tinham eles previsto para ligar uma mesma divisa a economias assim tão diferentes? Eliminar as industrias de base e abrir o pais à concorrência sem pára-quedas? 

Pois é, agora, vários dirigentes de bancos centrais e o FMI afirmam que sabiam que o Euro, desde a sua criação, era uma má ideia! Mas em 1998 ainda não impunham directivas aos governos eleitos , enquanto que agora reclamam o desmantelamento do Estado previdência!

Em conclusão, porque é que estes “especialistas” continuam à cabeça das instituições financeiras e porque é que ainda se lhes concede um crédito qualquer?

Se em teoria económica se diz que os trabalhadores são responsáveis do trabalho que executam e que isto é importante para a qualidade, porque é que estes altos dirigentes podem falhar tão lamentavelmente e continuam a receber chorudos salários no fim do mês como se nada se tivesse passado, em vez de serem postos na rua ? Porque sabemos que na próxima vez farao pior! 

 Freitas Pereira

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Gota amarga

Deliberadamente e correndo o risco de apanhar os Leitores pelos cabelos com o assunto, atrasei as minhas reflexões sobre a célebre promoção dos supermercados “Pingo Doce”.

Agora que já li e ouvi milhares de palavras de centenas de pessoas de dezenas de ofícios e inclinações, começo por aí mesmo: este assunto atesta, até mais do que a situação socio-económica de Portugal, o nível intelectual da nossa vida pública. Dias a fio, políticos, analistas, aspirantes a ambos, jornalistas, economistas e toda a gente de que nos possamos lembrar, mais não fizeram do que centrar a existência de uma Pátria de quase novecentos anos numa genial campanha (ninguém o negará, suponho) de uma cadeia de supermercados. Mais elucidativo ainda, mesmo aqueles comentadores com pretensões de elitismo intelectual – os que desprezaram a promoção em causa (algo que não ouso fazer) – prostituíram o seu excelso ego em minutos de exposição televisiva, em círculos mais ou menos quadrados, para nos explicarem a alegada barbárie do evento e a repulsa que a turba lhes causou…

Nos antípodas desta opção estão os que exultaram com a ideia e que a desdramatizam, dizendo que os apertos e confusões registados são comuns em muitas promoções, no estrangeiro. Aqui chegados, refreemos o entusiasmo; que as pessoas se esgadanhem para comprar roupa interior assinada por David Beckham ou Ipad com preços convidativos ainda vá… Não me choca que passem por incomodidades ou façam figuras tristes por bens sem os quais podem bem viver. Já quando toca a bens alimentares e outros essenciais ao quotidiano, preocupa-me constatar que a vida seja tão madrasta que obrigue pessoas a passarem cinco ou mais horas em filas, a descansarem em prateleiras, a saquearem (embora com pagamento a posteriori) os armazéns ou a comerem os alimentos in loco, dadas as provações sentidas.

E, diga-se, também não alinho na censura aos que, aparentemente, terão comprado centenas de euros de mercadoria. Quem aponta o dedo diz que era gente que não precisava; eu, bem ao invés, acho que quem teve “estômago” para tal dia fez bem em aproveitar os descontos imensos que se praticaram. Aprendi bem a lição de um destacado e abastado membro da Comunidade Portuguesa de Joanesburgo que, num dia de bastante frio (aqui também há disso…), saiu à rua para apanhar uma moeda de cinco cêntimos de Rand (cerca de meio cêntimo de Euro); quando por mim confrontado com a maçada inerente ao acto, com a sabedoria dos seus cabelos brancos, logo retorquiu: “sem cinco cêntimos não se faz um Rand!”…

Depois de uma jogada comercialmente brilhante e socialmente útil, fica uma declaração política deliciosa que deixou a extrema-esquerda em autêntica histeria, tal foi o protagonismo que roubou aos tradicionalmente irrazoáveis dizeres do 1 de Maio… Para o PCP e o BE, de certo, o pingo não foi doce, mas sim uma gota amarga…

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Parabéns Gonçalo!


Pois é, hoje é o aniversário do sócio fundador do nosso Lodo, o homem que 
fez corar Tony Blair.


Um beijinho!



terça-feira, 8 de maio de 2012

A França Mudou de Rumo

“Progressivamente , os dirigentes de países democráticos transformam-se em demagogos vulgares que, sob pretexto  de liberdade, aniquilam toda e qualquer referência a uma norma que não seja a selvageria dos apetites privados .” A Republica de Platon.

 
Enfim ...
Bling Bling faz as malas.

Mesmo, se a única revogação de um indivíduo, com o seu bando, não modifica em nada a dominação duma oligarquia ou duma ideologia ...
Mesmo, se o “sistema” e o seu clã podem eventualmente fazê-lo voltar em 2017 ...

Mesmo, se não se pode pressupor, apesar da antecipação dum certo numero de receios, as qualidades, capacidades, autonomia real, do seu sucessor ...

Não posso deixar de saborear a evicção dum presidente da V° Republica, cujo analfabetismo histórico, económico, geopolitico, para me limitar a estes únicos domínios, ficará como uma vergonha para a função. Provando assim que longe de ser “ a eleição do melhor de entre nos”, ela não é frequentemente que a duma marionete dos interesses ocultos duma mão-cheia.

Personagem cujo nível de arrogância, desprezo, cinismo, violência, crueldade, exprimido contra aqueles que ele considerava  como inferiores à sua “casta” ou à sua “raça”, só se podia comparar à demonstração permanente do seu servilismo obsequioso, obessessional e agitado, para com os seus “Mestres””.

Como emigrante e como cidadão só posso esperar que o novo presidente consiga pelo menos, no decurso do seu mandato, a extrair a função presidencial deste aviltamento.

Freitas Pereira

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Celebrando o dia 26

Escutei Mário Soares (o que foi), Manuel Alegre (o que queria ser) e os Capitães de Abril (os que vão sendo) sobre as comemorações do 25 de Abril e não percebi o alarme alimentado pelas televisões…

Desde logo, creio ser inteiramente legítimo e civicamente saudável que figuras conhecidas do panorama político se pronunciem sobre o estado de uma Pátria que é de todos. A abstenção sempre foi, aliás, uma forma de expressão política…

Mas importa perceber que preciosa herança do 25 de Abril estará em jogo para que se agitem os seus alegados donos.

Será a liberdade – a mais propalada jóia da coroa “abrilista” – que corre perigo? Não me parece, pois a democracia portuguesa funciona em pleno. Não se ouvem acusações de fraude eleitoral e os mecanismos constitucionais fornecem adequado sistema de freios e contrapesos, permitindo acorrer a situações de perturbação. Depois, seremos dos países europeus um dos que menos apreço revela por partidos de extrema-direita ou de extrema-esquerda (mesmo o entusiasmo pueril com a encenação bloquista foi corrigida nas últimas eleições).

Ora, não sendo esse o valor em jogo resta-nos ponderar o chamado Estado Social ou a noção de progresso.

Aqui chegados, alguns dizeres à guisa de preâmbulo: é certo que muitos dos fios da teia social que nos amparava em caso de queda estão a ser cortados; sabemos o que perdemos nos salários e subsídios de Natal e férias, nas deduções fiscais, nas reformas, no apoio em caso de despedimento e/ou desemprego, para não falarmos nos aumentos de impostos e tudo aquilo de que precisamos (a começar no escandaloso preço dos combustíveis).

Contudo, se o inventário de maleitas é verídico, já me parece abusivo imputar a sua causa ao rumo do Governo, como fazem as individualidades que boicotaram a evocação do espírito de 1974. Só mesmo por censurável conveniência discursiva ou caducidade intelectual se poderá escamotear o facto de essas forças compressoras do justamente apreciado conforto social europeu serem globais. Este é um jogo nefasto que até os bastiões da ilusão socialista jogam, como pode ver-se pela força económica de Rússia e China.

Dito por outras palavras, seria um exercício estulto pedir a Portugal que reme contra esta maré isoladamente, algo que nos colocaria numa interessante luta pelos padrões de vida observados na Albânia ou no Kosovo, em menos de um fósforo… A solução poderá residir no quadro europeu (veremos se há mudança em França e, posteriormente, na Alemanha) e num subsequente diálogo com EUA e China, mas jamais por um estoicismo poético que, permitindo embora bater no peito e agitar um cravo, levaria ao colapso total de toda e qualquer forma de apoio social que, com as duras reformas em curso, ainda poderá preservar-se.

Encaro, por isso, o boicote como algo normal e saudosista, mas nada mais…

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A Hora da Democracia

O confronto de ontem à noite na televisão francesa, entre Sarkozy e Hollande, foi dos mais violentos que eu vi em França em 50 anos! Sem dúvida, o momento que vivemos na Europa pode explicar esta violência, porque os Europeus constatam as dificuldades criadas pela aplicação do rigor que vem sendo aplicado na Europa há dois anos, ditado pela Frau Merkel, que, se não for combatida na sua posição actual, só pode levar a outros confrontos violentos, mas desta vez não na televisão mas nas ruas das cidades da Europa. 

A hora de travar os danos chegou. Foi o discurso de Hollande neste confronto, faltando saber se ele vai ter a coragem de levar para a frente este combate.

Claro que a Alemanha vive à sombra do Euro forte que lhe vai bem. Aliás, basta ouvir um dos conselheiros do Banco Central Europeu (BCE), e presidente do Bundesbank, amigo de Merkel, Weidemann, que diz muito simplesmente que “taxas de juro de 6% não são "o fim do mundo!(Ele pensava no problema espanhol!) Ele até nem vê que essas taxas de juro põem em causa a existência da EU. 

Aqui está um tecnocrata para quem nem o crescimento nem o emprego contam. 

E depois admiram-se que através toda a Europa,um forte sentimento germanofobo se desenvolve, e que a Alemanha que tanto sofreu das pesadas condições impostas pelo armistício da guerra de 1914/1918 foram o germe do nazismo. E que hoje, é o populismo da extrema direita que, uma vez mais, ameaça a democracia europeia. 

Se o Euro explodir e a Europa se desagregar por falta de sensibilidade e visão, alguém vai escrever um dia que a origem estava nos erros cometidos pela Frau Merkel e o servilismo da França de Sarkozy.

E pois que o nosso compatriota Durão Barroso, que de actor político passou a ser unicamente um funcionário de Bruxelas , deixou fugir a oportunidade de impor uma política europeia, em nome de todos os Estados, permitindo o restabelecimento dos equilíbrio políticos e institucionais na Europa, só uma França agindo como contrapeso ao poder económico e político da Alemanha pode salvar a Europa do colapso. 

Para isso, é preciso que a iniciativa de Hollande, se for eleito, seja imediatamente apoiada pelo resto da Europa.

Portugal só tem a ganhar numa nova política europeia que favoreça o crescimento e permita renegociar as condições de pagamento da divida soberana. 

Senão, é a asfixia lenta dum povo que já não pode mais. 

Freitas Pereira