quarta-feira, 25 de abril de 2012
A ler
Porque é Ibérico. Porque é contemporâneo. Porque tem o peso dos Clássicos. Porque é sucinto e com uma profundidade enorme. E porque me mostrou novas e boas perspectivas sobre a gestão do poder, não só na sua concepção e conquista, mas também na psicologia dos actores subordinados a este.
Uma sugestão para quem o quiser dedilhar na Feira do Livro, que arrancou ontem. A editora é a Esfera dos Livros.
terça-feira, 24 de abril de 2012
Imbecilidades de Abril
A Associação 25 de Abril (A25A) resolveu não marcar presença nas comemorações oficiais do 38º aniversário da Revolução. Em bom rigor, não me surpreende e nem vejo razão para que queiram comemorar uma data que de há uns tempos para cá tudo fazem para denegrir.
Se a abstenção não honra a sua (A25A) história neste domínio, estas comemorações reflectem nem mais, nem menos do que a defesa de um conjunto de direitos, liberdades e garantias essenciais que até então não existiam.
Trata-se de uma marca de solidariedade para com aqueles que não viveram a liberdade que hoje vivemos e o reafirmar de que a Democracia, mesmo com os erros inerentes (que devem ser corrigidos através dos seus próprios mecanismos) é a melhor forma de governação.
Os Capitães de Abril deram-me a possibilidade de nascer em liberdade. Mas também, reconheçamos, lhes deu direitos, nomeadamente o de dizerem e fazerem um conjunto de disparates! É assim a Democracia, e ainda bem...
segunda-feira, 23 de abril de 2012
O Desporto e o Despotismo
Muitos “fãs” das corridas automóveis nem se aperceberão do que se está a passar no Barhreïn.
E portanto, a revolta do povo deste minúsculo reino é o produto de anos e anos de injustiças, de opressão e de humilhações. Pode ser reprimido, mesmo esmagado, mas renascera como o Phénix, das suas cinzas.
Porque nasceu e cresceu no solo do despotismo e do arbitrário.
A organização do Grande Prémio de Formula 1 neste pequeno reino tem como efeito de reforçar a determinação “dos revoltosos da Pérola” a continuar o combate contra um regime ultrapassado, apoiado pelas monarquias do golfo e, claro está, pelos Estados Unidos e a Europa.
O monumento da Pérola, símbolo da resistência à ditadura dos Al Khalifa foi destruído e substituído pelos “tanks” do exército saudita. As mesquitas e minaretes não escaparam à loucura destruidora. Os comissariados do arquipélago foram transformados em salas de tortura. Os tribunais militares julgam e condenam civis. Os feridos não são atendidos no maior desprezo das convenções internacionais.
A dinastia dos Al Khalifa, no poder desde há séculos, o Conselho do Golfo dominado pela Arábia Saudita, os USA e a Europa estão satisfeitos. Eles pensam que as aspirações do povo de Bahrheïn à dignidade e à democracia estão, como o movimento que os caracteriza, enterrados. A ditadura, os privilégios, os interesses de uns e de outros estão salvaguardados. Pode-se anunciar agora ao mundo que a situação é normal. O espectáculo do Grand Prix de Formula 1 pode começar: “Aliás eu conheço gente pacifica que vivem sem problema no Bahreïn”, diz o organizador da corrida, Bernie Ecclestone, homem de negócios e patrão desta famosa corrida. O desporto ao serviço do despotismo!
A exploração política do desporto não data de hoje, evidentemente. A Itália fascista e a Alemanha nazi, já tinham instrumentalizado esta actividade para dar uma certa legitimidade ao poder que detinham. A Itália fascista mussoliniana (1934) e a Alemanha hitleriana ( 1936) tinham organizado respectivamente o Campeonato do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos. A FIFA, ela, tinha confiado a organização do “Mundial” de 1978 à Argentina da junta militar dirigida pelo general Videla. O grande Prémio de F1 era organizado regularmente na África do Sul durante o regime de Apartheid. Bahreïn inscreve-se por conseguinte nesta “tradição”!
Que não venham as autoridades do Bhareïn um dia pedir a intervenção da ONU para suster a revolta do povo. Porque a Primavera vem todos os anos!
Freitas Pereira
Vitor Constâncio no seu melhor
A 22 de Abril
Washington, 22 abr (Lusa) - O vice-presidente do Banco Central Europeu, Vítor Constâncio, afirma que Portugal vai melhorar o acesso aos mercados financeiros cumprindo o programa de ajuda externa, e que regressará aos mercados na data prevista, se a conjuntura económica se mantiver.
Afinal em que é que ficamos, Dr. Constâncio?
Vitor Constâncio é Português, foi indicado por Portugal
para ocupar uma das vice-presidências do BCE e por isso pensava eu, reunia
qualidades impares para exercício de um cargo numa instituição, que hoje é considerada
das mais importantes da União Europeia e do Mundo.
Então, o que leva Vitor Constâncio a afirmar em finais de
Março, que Portugal dificilmente escapará a um novo programa de ajustamento
económico e passadas 3 semanas afirma com a mesma convicção o seu contrário,
quando as condições económicas hoje, são muito piores do que eram na altura.
Recordo, que a Espanha é o principal parceiro ecónomico
de Portugal e que dela dependem quase 50% das nossas exportações, mas nas
últimas semanas não se tem falado de outra coisa senão, num programa de ajustamento
à “Espanhola”.
Cito aqui estas duas intervenções:
A
31 de Março
Vítor
Constâncio, vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), disse hoje que não
se pode pôr de lado a possibilidade de Portugal vir a precisar de um segundo
programa de ajustamento económico, lembrando que tal cenário "tem de estar
sempre em avaliação".A 22 de Abril
Washington, 22 abr (Lusa) - O vice-presidente do Banco Central Europeu, Vítor Constâncio, afirma que Portugal vai melhorar o acesso aos mercados financeiros cumprindo o programa de ajuda externa, e que regressará aos mercados na data prevista, se a conjuntura económica se mantiver.
A mim parece-me, que Vitor Constâncio já aderiu a esta nova técnica de
comunicação, que permite mais tarde e independentemente do desfecho, citar uma
qualquer afirmação que se ajuste ao momento, do tipo: “Tal como eu tinha
previsto há algum tempo....”
O que se exige a um Vice-Presidente do BCE, é tenha uma visão mais dilatada
no tempo, que seja coerente e que seja um factor de estabilidade e de esperança.
Este ziguezag irracional, que se traduz em mais incerteza e em mais imprevisibilidade,
só alimenta especuladores ávidos de razões para intervir nos mercados em sinal
contrário, aquele que todos desejaríamos.
Bem esteve Mariano Rajoy quando há umas semanas pediu ao BCE contenção nas
palavras. Quando os protagonistas não tem qualidade, o silêncio é sempre a melhor
opção. Aprenda Dr. Constâncio...
P.S
Com a provável vitória de François Hollande, assistiremos
mais uma vez à esquerda Portuguesa a embandeirar em arco. Ao contrário, não
tenho dúvidas de que Hollande, fará o que os mercados financeiros internacionais
o deixarem fazer, manterá a “entente” Paris-Berlim e dentro destas limitações, colocará
sempre os interesses da França acima de quaisquer outros. “Liberté Égalité,
Fraternité”, é coisa do passado.
Obrigado pelo convite
Ao longo destes anos tenho sido um dos muitos leitores deste blog e por isso ocupado uma posição invejável e confortável. Ao aceitar trocar um lugar confortável na plateia pelo de actor, fico na “dúvida” se este convite do nosso amigo Gonçalo Capitão, não está embuído daquele espirito muito na moda, de nos desafiar a sair da nossa zona de conforto. Felizmente, a tecnologia de hoje, permite-nos estar em todo o lado sem termos que emigrar.
Espero que o tempo disponível me permita intervir tanto quanto gostariaADEUS SARKO
Em princípio, ele vai-se embora! Se Jacques Brel fosse vivo, cantaria «on t’aimait pas, tu sais»! (Não gostávamos de ti, sabes ?) Mas que ninguém tenha ilusões: Quando o malabarista e candidato dos ricos for embora, e que o balanço do seu reinado for feito, com todas as decepções que ele causou aos seus próprios adeptos, a vida vai continuar. Mas, repito, que ninguém tenha ilusões, porque outras decepções virão, não por causa das palhaçadas e das contradições instantâneas nas quais Sarko era um especialista, mas porque o mundo sendo o que ele é agora, as medidas que permitiriam a verdadeira mudança de rumo, não serão tomadas.
A social democracia vai continuar a gerir à sua maneira. E mesmo que o novo presidente seja mais representativo de certos valores da democracia francesa, o mundo da finança internacional continuará a impor a política económica que pôs o mundo na situação em que se encontra hoje. Paraísos fiscais, deslocalizações de empresas, globalização, procura de lucros fáceis e substanciais através da mão de obra barata do quarto mundo, injustiça social organizada, redução da segurança social e mercantilização dos serviços públicos, incluindo a saúde, que será cada vez mais a duas velocidades, precariedade, austeridade, continuarão a modelar o mundo de amanhã.
Estes últimos cinco anos foram particularmente nefastos para os Franceses. E portanto, esta eleição da primeira volta trouxe uma surpresa: Muitos eram os que esperavam uma abstenção recorde! Ora mais de 80% dos Franceses foram votar! Mais que em 2007! Talvez porque em 2012 eles estão mais pobres que em 2007! A França é um dos países da Europa comunitária onde as desigualdades aumentaram mais fortemente, com a excepção da Espanha e de Portugal. E da Grécia! A degradação do ratio da renda média dos 20% mais ricos em relação aos 20% mais pobres é devida essencialmente à política fiscal de Sarkozy. Ele, que tinha como slogan de campanha em 2007: “Serei o presidente do poder de compra”! Os pobres pensavam que ele lhes falava do poder de compra... dos pobres! Mas enganaram-se: Ele falava dos outros, daqueles que estão mais ricos hoje que em 2007!
Claro, sejamos honestos: Os sinais de empobrecimento relativo dos Franceses não têm nada a ver com aqueles que verifiquei há dias na minha terra de Guimarães, que fui visitar rapidamente. Ainda não se vêm por cá “menus” a 5 euros nos restaurantes, com sopa, prato, pão e bebida! Perguntei a mim mesmo como é que é possível viver, tanto o restaurador como o cliente! Mas cá, os “clientes” dos restaurantes de Coluche, onde os pobres e não só, vão alimentar-se gratuitamente, estão cada vez mais cheios. Mesmo alguns membros outrora da classe média, lá vão agora também!
Mas há outros sinais negativos: a degradação das condições de trabalho nas administrações e nas empresas. Tudo isto sendo o resultado previsível do impacto crescente das condições financeiras do Mercado desregulado, impostas às políticas públicas pela renuncia dos “eleitos do povo” a resistir. O que é compreensível: O gesticulador chefe francês é o amigo da maioria dos patrões do “CAC 40”, índice da bolsa de Paris!
Evidentemente que seria necessário acabar com tudo isso. O vencedor do 6 de Maio próximo não o fará. Ele será o novo porta voz do Pacto Financeiro Europeu criado pelos Merkozy, pacto que se fosse denunciado condenaria a França a sair do Euro! Por conseguinte, ele será obrigado a continuar, e mesmo a amplificar, a liberalização dos mercados. E a próxima etapa poderá ser a dinamitagem do pilar central do código do trabalho: O contrato com duração indeterminada. A Itália e a Espanha fizeram-no e, em nome da harmonização europeia e da livre circulação dos trabalhadores, ele fará o mesmo. E em frente para a precariedade generalizada!
Trata-se portanto de continuar a negar a realidade dos perigos que pairam sobre o mundo contemporâneo. O capitalismo perpetua-se tragicamente, incapaz de ultrapassar as suas próprias contradições internas. A crise maior do regime de acumulação do capital, que os artifícios cada vez mais grosseiros da finança globalizada não conseguem dissimular, é irremediável.
Abandonar a nossa sociedade ao autoritarismo de regimes essencialmente preocupados da defesa mortífera dos interesses de oligarquias riquíssimas, pode gerar o regresso de movimentos políticos fundados exclusivamente na designação de bodes expiatórios. Marine Le Pen é o exemplo. Aceitá-lo é abrir o caminho ao regresso do fascismo. Creio que é realmente mais que tempo para acordar.
Freitas Pereira
domingo, 22 de abril de 2012
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Corda ao pescoço
Apesar da analogia, não é sobre a crise económica que vos falo hoje… Falo de outra; da crise de algum do nosso futebol…
Deixo de parte a questão de salários em atraso e dívidas ao Estado, que também seria assunto cardinal…
Começo, assim, pela Briosa. Sei que sou apenas um adepto de sofá (tirando os jogos com a União de Leiria e a segunda partida com a Oliveirense, já nem treinador de bancada posso ser), mas, tendo as quotas em dia, tenho direito a uma opinião que, admito ab initio, pode ser disparatada; a saber: creio que a Académica e Pedro Emanuel deveriam ter rescindido o contrato de trabalho deste último há quatro ou cinco jornadas atrás.
Não estão em causa o homem – parece-me um cavalheiro – ou sequer o profissional – sei que é trabalhador e nem excluo que venha a ser um treinador de sucesso, no futuro. Todavia, parece-me claro que, há muito, deixou de ter ascendente emocional (leia-se, liderança) sobre os jogadores e vejo-o sem força interior à altura da hercúlea tarefa que se lhe depara (uma das poucas vantagens de ver os jogos na televisão é poder reparar em detalhes como o que vi na escandalosa derrota com o Beira-Mar; após o segundo golo aveirense, o treinador enfiou-se no banco de suplentes com o ar mais desapontado do planeta).
Além disso, entendo que muitas opções tácticas têm sido erradas e que um ou dois jogadores seriam candidatos à dispensa imediata… Não consigo esquecer, no mesmo jogo, a cara sorridente e displicente de Édinho, depois de ter feito um dos mais desastrosos e absurdos remates da partida (daqueles que só se perdoa a um iniciado), com a equipa em desvantagem!...
Seria o maior paradoxo que já vi vencer a Taça de Portugal (honestamente, tenho fé) e descer de divisão. Creio, todavia, que não chegaremos a tal catástrofe, ganhando a tranquilidade merecida com uma vitória sobre o Olhanense (esperança para a qual em nada contribui a derrota de sexta-feira com o Arouca, em jogo de treino). Com a manutenção garantida, espero que a Direcção tire ilações de tudo isto.
A nota derradeira tem a ver com o Benfica e, sobretudo, com o treinador Jorge Jesus. Com a arrogância e boçalidade que o distinguem aquém e além fronteiras e a propósito de um elogio a Sérgio Conceição, o treinador encarnado afirmou que os treinadores não se formavam nas universidades, mas sim no campo, como ele e Conceição. Ora bem, com uma equipa fantástica, tendo tido cinco pontos de vantagem, diria que a situação actual (quatro pontos de atraso e eliminação da Taça de Portugal e da Liga dos Campeões) não deixa ao Presidente do Benfica outra solução que não a de correr com o mais caro e grotesco treinador da história encarnada… Bastava, diga-se de passagem, uma mera comparação com a gestão do Porto para chegar a esta conclusão, visto que, cirurgicamente, comprou dois jogadores (Lucho e Janko), reposicionou algumas pedras e lançou-se para um título quase certo (e "sem treinador"!!!).
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Ambição & ignorância
Eis um caso de oportunismo idiota! Parece que os estudantes de Coimbra querem usar a Final da Taça para protestarem politicamente.
Em primeiro lugar, a final de 69 jogou-se em ditadura e o protesto foi feito no Jamor, pois seria uma forma d...e evitar a repressão. De tal modo isto foi compreendido, que o próprio adversário de então(Benfica) entrou em campo mostrando evidentes sinais de respeito para com a VERDADEIRA crise que se vivia na academia coimbrã.
Em segundo lugar, "fecharia os olhos" ao aproveitamento da festa do futebol se os estudantes e a sua direcção associativa tivessem, como no meu tempo e ainda mais em tempos anteriores, o hábito de vestir a sua capa e a sua batina e irem apoiar a Briosa (não só não vestem, como são raros os que vão aos jogos, mesmo quando os bilhetes custam cinco euros). Ao invés, o que vejo muito nesta juventude agora tão civicamente activa é muitos cachecóis do Benfica, Sporting e Porto (num ou noutro caso com o traje académico, o que, quando eu estudava, valeria um valente "rapanço").
As asneiras que não causa a ambição de alguns aspirantes a políticos ou agentes provocadores...
terça-feira, 17 de abril de 2012
Vender Portugal
"Portugal é uma das melhores comunidades do planeta. As pessoas são uma delícia, o clima é maravilhoso e a sua base ligada à descoberta é surpreendente. Portugal precisa de exportar a sua poderosa história. Alguém tem de trabalhar esta importante plataforma. Passos Coelho tem de fazer disto uma prioridade."
Interessante, esta visão de Joey Reiman, fundador e CEO da BrigtHouse (empresa que detém contas publicitárias da Coca-Cola, McDonalds e Procter & Gamble). Não diz nada que não saibamos já, mas como não damos mostras de o saber, temos um estrangeiro a abanar e alertar este país para as suas potencialidades. Embora algumas marcas portuguesas assegurem um posicionamento no mercado externo assente na portugalidade, ainda há um caminho muito longo a percorrer para demonstrar lá fora que só somos pequenos em termos geográficos. A promoção do país não é tarefa apenas para as empresas, mas também de organismos públicos e da acção diplomática, que lá vão fazendo o que podem. Porém, falta-nos apostar numa certa propaganda cultural que dê uma imagem do que fomos e do que ainda somos. A título de exemplo veja-se que, apesar de esta nação ter praticamente 900 anos de vida para contar aos demais povos, não produzimos cinema que incida sobre a nossa História e enalteça (cá e além fronteiras) o nosso prestígio ao longo de séculos. Isto seria importante não só para a auto-estima da nação e dos seus, como para a imagem que lá fora de nós se constrói. Dizia, e bem, Churchill: "a love for tradition has never weakened a nation, indeed it has strengthened nations in their hour of peril." A nossa identidade é reconhecida por muitos, mas a percepção que o Mundo tem de nós poderia ser explorada com mais afinco e vendida com mais sucesso. Como refere Reiman, é urgente vender Portugal: não só as suas gentes, o seu clima, o seu património e tradições, mas novas facetas que vamos talhando... inovação, sofisticação, lifestyle. A ver vamos se Passos Coelho lhe dá ouvidos e se os outros nos deixam de ver como aquele país ao lado de Espanha.
* espantem-se mas a imagem acima foi obtida numa loja portuguesa, Meio da Praça, em Lisboa...
sábado, 14 de abril de 2012
DIREITA ? ESQUERDA ?
Caríssimo Amigo Gonçalo Capitao
Aproveitando a abertura do «post » precedente no qual me “encaixa” naquela corrente ideológica que se chama “esquerda”, que não renego, gostaria, se me permite, não de explicar esta tendência, explicação que não se impõe, mas de ir um bocadinho mais longe na análise da noção de “esquerda” e “direita”, como a concebo.
As eleições presidenciais em França oferecem um quadro ideal para esta análise. Mas se estas eleições fossem em Portugal, a conclusão seria a mesma.
Qualquer que seja a facção política que se apresenta ao voto dos eleitores, todas têm , em principio, um programa estratégico de desenvolvimento económico.
Este programa vai condicionar a política social no sentido mais largo do termo, sendo a educação , a justiça social e o emprego, os pontos essenciais que vão interessar a grande maioria dos eleitores de base. A maioria ignora, de facto, os aspectos fundamentais da economia política. Só a vida de todos os dias os sensibiliza..
Por traz dos efeitos de tribuna e do ambiente escaldante das reuniões publicas incensadoras, nada permite de assegurar que este programa vai ser respeitado pelas facções políticas em luta pelo poder.
Hoje, mais que nunca, os políticos procuram esconder a verdade sobre o poder real de que dispõem para conduzirem uma política governamental.
Se olhamos para o caso da França, existem exemplos flagrantes para provar que qualquer que seja o vencedor, “esquerda” ou “direita”, o problema do poder real é patente.
Assim, quando o candidato da esquerda, provável vencedor, diz em Paris que o seu adversário principal é a “finança” e diz em Londres que este adversário é finalmente aceitável, nada o diferencia da direita.
Quando o mesmo diz que vai aplicar uma “taxa nas transacções financeiras”, ele não diz como o fará, e ainda menos quais são os países que vão aceitar de aplicar uma tal taxa. Sim, porque isso não será possível que ao nível, pelos menos, europeu. A direita diz a mesma coisa.
A ideia da criação da “Agência Publica de Notação Financeira” é um gadget comparada às outras agências privadas, autónomas, que continuarão de existir. Qual será aquela que os mercados vão crer? A direita propõe a mesma coisa.
O pacto de “responsabilidade de governança e de crescimento” ( que Portugal assinou!) é uma concha vazia! Ninguém sabe como ela se poderá encher! Tudo depende dos parceiros da Europa e da finança internacional... Tudo hipotético como as “euro-obrigações”! A direita também assinou.
Proibir a criação de filiais dos bancos nos paraísos fiscais e limitar certos produtos financeiros, é francamente risível! Sarkozy prometeu quantas vezes estas medidas ? A esquerda promete agora!
Ninguém tem a possibilidade de lutar contra a especulação financeira, sem mudar o sistema económico mundial, e as medidas anunciadas são picadelas de alfinete nas costas do monstro! Na finança tudo é interligado.
Reindustrializar o pais, prometido pela direita e pela esquerda. Muito bem. Para Portugal como para a França, a ideia é premente. Mas como fazer regressar as industrias que partiram para longe, estas deslocações de empresas que mais não são que um puro produto da globalização mundial?
Quanto à Republica e às instituições, esquerda como direita, prometem coisas que não custam nada a anunciar.. e eventualmente não serão realizadas ! Reduzir o numero de funcionários? Quem o ousará , sabendo que existem lacunas em vários serviços públicos, que o Estado abandona!
E porquê? Porque o novo presidente e o seu governo vão continuar a gerir o sistema mercantil como ele é, sem mexer no seu mecanismo de fundo, sem pôr em questão a maneira de funcionar, respeitando as regras do salariado, da rentabilidade, da circulação e da acumulação do capital, do essencial das regras dos tratados europeus ... e submetendo-se aos constrangimentos internacionais.
Vamos assistir ao “merchandising” de todas as actividades económicas e sociais, com alguns retoques, certo, mas sem perturbar o seu curso.
Vamos assistir a uma gestão “social-democrata”, na realidade “liberal”, do capitalismo, como os outros países europeus. Não será uma gestão de “direita” mas não será melhor! E isto porque a “ideia” liberal contaminou completamente a “ideia” socialista.
Os problemas, os verdadeiros problemas, aqueles que se põem aos cidadãos na vida de todos os dias ( poder de compra, emprego, reformas, saúde) vão continuar e não serão resolvidos.. até que o povo desiludido... re-vote pela direita ... e assim de seguida ! Como na Espanha.
E no outro sentido, brevemente, como na Grécia como na Itália, como na Alemanha.
Gostaria de deixar aqui, se me permite, estas palavras de Mitterrand: “ Os socialistas que se apresentaram como “reformadores”, acabaram por colaborar e aderir aos valores capitalistas e portanto à política da direita. A colaboração escapa dificilmente ao seu destino que é o de atraiçoar”.
Alors, Caríssimo Amigo: Direita, esquerda? Onde estão realmente? No interesse individual que se situa acima do interesse colectivo? Talvez.
Freitas Pereira
quarta-feira, 4 de abril de 2012
"Forward"
Creio que todos nós recebemos uma imensidão de mensagens de correio electrónico reencaminhadas (vulgo “fw” ou “forward”); desde as anedotas aos gatinhos e cãezinhos com patéticas mensagens de paz e amor, das bonitas mulheres assim às obesas mulheres assado, dos reclamos com erros aos abaixo-assinados para demitir todos e mais um…
Há, todavia, um tipo de mensagens e anexos que, sempre que posso, me dou ao trabalho de ler: aqueles que versam política. E foi num desses interlúdios de leitura que abri um pequeno filme sobre a pirataria na Somália, enviado por um dos mais cultos cidadãos da diáspora que conheço, que o meu amigo Freitas Pereira, residente em França (um homem cujas ideias se encaixam claramente no que se usa designar por “esquerda”), recomenda no texto do e-mail (que não sei se é seu ou também ele reencaminhado) que vejamos “o outro lado da história”.
Vejamos, então: o filme de realização espanhola começa por um enquadramento da noção romântica de piratas que herdámos de aventuras em livros e filmes, para depois balizar o conceito. Segundo os autores, um pirata é alguém que rouba no mar, fortemente armado e, por vezes com a protecção de um Estado (relembremos as cartas de corso e os corsários...).
Seguidamente, somos elucidados sobre a pesca massiva e predadora realizada por potências ocidentais, bem como sobre o depósito ilegal de matérias radioactivas e de outros lixos tóxicos (por exemplo, resíduos hospitalares). Tudo isto se passa na zona económica exclusiva da Somália, país que a não pode vigiar por estar devassado pela guerra e pela miséria.
As consequências destes actos são evidentes: os recursos alimentares marítimos escasseiam e muita da matéria radioactiva deu à costa, por altura de uma das mais recentes e dramáticas calamidades naturais.
Pelo meio, imagens da fome que faz sofrer o povo somali e censuras aos gastos ocidentais no patrulhamento bélico da área… Segundo os seus autores, aliás, os piratas mais não são do que pescadores desesperados aliados a alguns combatentes tribais, como tudo pudesse ser justificado desta forma.
O cenário é pungente e nada pode ser mais atroz: pesca ilegal, depósitos de lixo tóxico, fome e guerra…
Contudo, cumpre olhar o " também verdadeiro" outro lado. Comecemos pelo lado da guerra: com intervenção da Etiópia na zona da Somalilândia, quem está em guerra?! Tribos somalis. São somalis que massacram o seu povo. Acresce que quando os EUA, no início dos anos 90, quiseram pôr alguma ordem no caos gerado, as Nações Unidas entenderam que não valia a pena ajudar da única forma viável: a força.
Depois, se não fosse trágico, era quase hilariante a ideia de que a pirataria pode ser justificada por depósitos e pesca. Os indivíduos que a praticam, como sabem, são vulgares bandidos que, à custa de tantos resgates (indevidamente) pagos, estão hoje fortemente armados e visam o enriquecimento ilícito e fácil.
O que, em meu entender, tem andado mal é o alheamento dos países ocidentais, designadamente das antigas potências coloniais (Reino Unido e Itália) que deveriam ajudar a repor alguma ordem no país, permitindo restaurar a ordem pública e o renascer da economia local.
Tudo o resto é propaganda para nos causar remorsos que, com franqueza, não tenho e que não devem confundir-se com preocupação, que todos devemos nutrir.
segunda-feira, 26 de março de 2012
Fox News ou como ter fama (de mau jornalismo) sem proveito
Esta imagem que de há dias para cá circula pela internet deixou muitos quase em estado de choque e propiciou a muita troça. Razões paracem não faltar: Toolooz será Toulouse? E fica mesmo em França ou ali para os lados da Roménia, como parece indicar o mapa? Quanto ao sujeito que levou a cabo os homicídios no sul de França, era budista ou muçulmano? E o que dizer de Claude Gueant: é Presidente ou... Ministro do Interior?! E lamentou o sucedido junto da comunidade asiática ou judaica?!!!
Enfim, o rigor da informação da Fox sempre deixou a desejar, mas isto é um claro exagero. Alguém se lembrou de parodiar com o canal televisivo e a brincadeira espalhou-se por todo o lado, fazendo muitos acreditar que a Fox News seria capaz de tais atrocidades. A explicação encontram-na aqui.
Mais uma vez, convém ter noção de que nem toda a informação que veicula por estas paragens é credível e, portanto, não será má ideia escavar um bocadinho antes de tirarmos as nossas (muitas vezes precipitadas) conclusões.
A Liberdade é de TODOS!!!!! (mas para alguns é só às vezes!)
Não consigo perceber o rigor da esquerda no uso do património nacional.
Afinal lutaram contra a ditadura, assim como todos os que não se identificavam com o Estado Novo. Não foi uma luta exclusiva da esquerda nem dos cantores irreverentes desse tempo. Se assim fosse, não teríamos as comemorações do 25 de Abril na Assembleia da Republica com todos os representantes do Povo…
Hoje, fiquei a saber por aqui que os militantes do PSD não podem “cantar”/citar as músicas e letras do Zeca Afonso! Não percebo esta forma de adivinhar o futuro do pensamento das pessoas… começa a ser comum ouvir “se fosse vivo faria isto… ou aquilo”!!! Por outro lado direi, se Zeca Afonso fosse vivo talvez nos surpreendesse a todos… assim como Zita Seabra fez!
quinta-feira, 22 de março de 2012
Kony e os bastidores do Marketing de Causas
Nas últimas semanas o nome Joseph Kony correu o Mundo e continua a dar muito que falar (não será por acaso que faz a capa da Time desta semana). Kony é um criminoso de guerra que durante anos liderou, no interior do Uganda, um grupo rebelde armado, usando crianças como soldados para espalhar o terror por aquele território, não tendo sido até à data julgado pelos crimes que perpetrou. Em face disso, a organização americana Invisible Children criou um vídeo de «caça ao homem» que se propagou à velocidade da luz e foi visto por mais de 80 milhões de pessoas em apenas duas semanas. A aparente estratégia era a de tornar Joseph Kony mundialmente conhecido e lograr a sua captura. Porém, já diz o povo que «nem tudo o que parece é».
Se por um lado é interessante analisar este fenómeno e perceber como as redes sociais e plataformas como o Youtube podem ser hoje os novos média, com capacidade para pôr na agenda mundial questões a que ninguém fica indiferente, por outro cumpre analisar a forma como o fazem.
Desde logo o conteúdo do vídeo parece carecer de alguma actualidade e seriedade: segundo investigadores que há muito acompanham o conflito no norte do Uganda, Joseph Kony e os seus companheiros do Lord's Resistance Army deixaram o país em 2006 e desde então não mais se verificaram ataques da sua autoria naquela região. Crê-se que Joseph Kony e os membros do LRA se reduzem agora a menos de uma centena e actuam em território vizinho, na República Democrática do Congo e Sudão do Sul. As imagens que correm ao longo do vídeo têm mais de uma década e sustentam a dicotomia primária de «bons contra maus», simplificando a realidade do Uganda. Ignoram, por exemplo, que o próprio exército ugandês tem também a sua quota parte de responsabilidade no conflito que por ali lavra, tendo cometido ao longo do tempo uma vasta lista de atrocidades contra os civis que era suposto proteger. Mais, na década de 90 e já na primeira década do séc. XXI, foi o exército responsável pela deslocação forçada de aproximadamente um milhão e meio de pessoas para autênticos campos de concentração, onde escasseiam condições de vida e onde aquelas estavam mais expostas aos ataques.
Ora, e ao contrário do que nos convence o referido vídeo, não estamos propriamente perante uma guerra de bons contra maus, estamos sim perante um conflito que não terá fim com a simples detenção de Joseph Kony. E tendo em conta a actuação do governo e das forças armadas do Ruanda, exímias no que toca a violação de direitos humanos, tomar a sua parte nesta causa também não parece muito certeiro... É, além do mais, estender a passadeira para mais violência pela mão dos exércitos do Uganda e do Congo...
No fundo, ao aumentar a pressão internacional e ao incitar a uma intervenção norte-americana, o grupo activista está a clamar por mais violência, concentrando os seus esforços na captura de um só criminoso e esquecendo todos os danos colaterais do conflito na região, ignorando as necessidades das crianças e famílias que nele se viram envolvidas. Não há, assim, uma solução real apresentada pela Invisible Children.
Promover o envio de tropas americanas para o território apresenta-se somente como uma solução idealista para um problema de fundo. Sendo que não se pode ignorar que, à data do lançamento do vídeo, as tropas americanas já se encontravam no Uganda - desde o final de 2011 que por lá estão cerca de 100 militares. Obama justificou esta intervenção com a «promoção de interesses dos EUA de segurança nacional e política externa». Se Kony e o LRA não têm como alvo os americanos ou os interesses americanos, não fica muito clara a razão de ser deste súbito paternalismo. Uma coisa seria puxar do argumento «justiça internacional», mas dela não se ouviu falar...
Note-se, porém, que o envolvimento dos EUA no Uganda não é de agora, remonta aos anos 90, através do United States Africa Command (AFRICOM), que então auxiliou o exército ugandês. À data a neutralização do LRA parecia bem encaminhada, mas não só acabou por fracassar como pôs em risco as conversações de paz que se desenhavam. Disto não fala o vídeo Kony 2012, que negligencia as várias tentativas de negociação de paz entre 2006 e 2008, as quais levaram à já referida retirada do LRA do norte do Uganda.
O objectivo desta campanha parece assim esgotar-se na detenção de Joseph Kony e sequente apresentação perante o Tribunal Penal Internacional, que em 2005 emitiu mandatos de prisão para Kony e outros líderes da guerrilha, por acusações que vão desde o rapto de civis ao abuso de crianças. Ironicamente, esse é o palco internacional de Justiça que os EUA não reconhecem ou, pelo menos, entenderam não reconhecer ao não ratificar o Tratado de Roma que estabeleceu o TPI.
Assim, adensam-se as dúvidas quanto aos (reais) intuitos desta campanha e da concomitante intervenção dos EUA. As teorias mais rebuscadas apontam para interesses que coincidem com a recente descoberta de petróleo na região do lago Albert...
É indiscutível que Joseph Kony deve ser levado a responder perante a Justiça pelos crimes contra a Humanidade que cometeu ao longo de décadas. Não obstante essa premissa, parece-me que neste processo se torna dispensável propaganda como a que a Invisible Children lançou, uma versão enviesada e redutora daquilo que se passa no continente africano, apelando ao emocional e menosprezando uma contextualização séria e fáctica destes conflitos na África Central.
Isto é tão grave que, precisamente na mesma semana em que Kony 2012 cegava meio mundo e usava aquele criminoso como bode expiatório de todos os males que afectam a região, morreram 30 civis em South Kivu, na República Democrática do Congo, vítimas - não do LRA - mas sim de milícias congolesas que operam na área. Mas disto não se ouviu falar. A espectacularidade de produções americanas tem outra repercussão nas massas, sobretudo porque a estas falta cada vez mais capacidade para questionar e aprofundar a informação que lhes é servida. Tratam-se das mesmas massas que têm como expoente máximo do seu activismo o botão «partilhar». E não é assim que vamos lá...
sexta-feira, 16 de março de 2012
Rasgando a Constituição
Não percebo o nosso País. Otelo Saraiva de Carvalho - que, a meu ver, jamais deveria ter sido amnistiado - veio apelar às Forças Armadas para interromperem o curso normal da nossa democracia, e não foi ouvido, de imediato, pelas nossas autoridades policiais e judiciais. Mais ainda, os nossos actores políticos andam a trocar imperceptíveis galhardetes sobre "BPNs" e "troikas" e não viram nisto o apelo à subversão da ordem constitucional, que, claramente, é!
Em nome da decência, Otelo deveria ser ouvido judicialmente e acusado ou declarado inimputável. De uma ou de outra forma, teria (ainda) mais fé em Portugal.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Misérias nacionais
Este País cujos defeitos, lembrando o “Primo Basílio”, nos fornecem “tantas pilhérias”, é pródigo em manter desactualizados os motivos da minha irritação. Assim é que, ainda há dois dias, a Liga de Clubes concretizou a mais populista, cretina e ruinosa promessa de campanha do seu presidente: o alargamento da Liga para 18 clubes.
É aqui e a dois tempos que se vê que somos uma Nação com muita gente mesquinha: desde logo é o velho choradinho dos pequeninos contra os grandes. Tal qual como muitos portugueses preferem olhar à situação dos gestores (em alguns casos com razão) e outros abastados profissionais, em lugar de procurar uma via de melhorar a sua situação, trabalhando mais e melhor (embora também reconheça que, dada a quase total ausência de cultura de mérito, a desculpa para assim proceder é maior), os clubes pequenos decidiram olhar ao que julgam ser o seu interesse, e o alargamento deu-se.
Em segundo lugar, reside a mesquinhez na esperteza saloia do Presidente da Liga que, por preciosismo ou vontade de nos tomar por parvos, e pese embora reconhecendo o mesmo efeito prático, corrigiu um jornalista afirmando que não podia dizer-se que ninguém descia de divisão; nas palavras deste génio da bola, o que se passava era que a I Liga era alargada e que dois dos quatro lugares que sobrariam (os dois novos e os dois da descida) eram ocupados pelo 15º e 16º classificados deste ano! Sob pena de ser grosseiro, mudo de parágrafo…
A ideia em si – a I Liga com 18 clubes – é errada sob vários prismas. Por um lado, vai aumentar as despesas da maioria dos clubes. Se me não atraiçoa a memória, creio que a Académica só terá lucro quando recebe Benfica, Porto e Sporting; ou seja, todos os outros jogos dão prejuízo (manutenção do estádio, segurança, etc…). Imagine-se este problema com mais dois jogos em casa e – eis outro anátema – com mais duas deslocações! Mais ainda, veja-se tudo isto para os vários clubes que têm menores assistências que a Briosa.
Em segundo lugar, não me custa acreditar que os próprios recursos humanos (vulgo, plantéis) tenham que ser aumentados, com os inerentes gastos. No fim de contas, são mais quatro jogos por temporada e maiores os riscos de lesões e fadiga.
Em terceiro lugar, aumentam também as hipóteses de assistirmos a maus jogos e a lamentáveis arbitragens. Se já temos que aturar valentes secas e autênticos roubos com trinta jornadas, replique o suplício por trinta e quatro.
Por fim, o momento em que a medida pode equivaler a um escândalo: mudar as regras com o jogo a decorrer é coisa que não pertence ao mundo da gente séria e dos cavalheiros! Quem me diz que, sabendo que não descerá, uma equipa não vai facilitar a vida a um candidato ao título ou às competições europeias, a troco de reforços ou sabe Deus que “fruta”? Digo-o com a tranquilidade de quem sabe que a Académica jamais o faria, mesmo que estivesse em risco de descida, de acordo com as regras vigentes e o deixasse de estar com as novas, mas com o alarme de quem gosta de jogos leais!...
RESPOSTA à COMPANHEIRA TÂNIA MORAIS
A companheira Tânia Morais descreve na sua mensagem um quadro extremamente positivo e direi mesmo quase idílico dum grupo humano que partilha o instante que passa e aprecia justamente esse momento de felicidade, de comunhão e de verdadeiro calor humano.
Claro que isso ainda existe na nossa sociedade.
No meu artigo, ao qual se refere e que, constato, vem à sua memória durante os seus passeios de bicicleta, o que me lisonjeia, a ideia de fundo, é que a nossa sociedade se caracteriza cada vez mais pelo seu individualismo, infelizmente, e não pela solidariedade.
Após a leitura do seu comentário, ontem, fui também dar um passeio, não em bicicleta, mas a pé, num planalto próximo, a 2500 metros de altitude, no meio de montanhas alvas de neve, brilhantes ao sol.
A solidão do sítio permite a reflexão. Ideal para a marcha mas também para constatar uma espécie de solidariedade.
Aqui, os humanos... são mais humanos.
Aqui, vivemos nesses momentos, o nosso piquenique “humano”! Partilhamos tudo.
Aqui, entre o céu e a terra, todos, embora desconhecidos ,nacionais e estrangeiros, se saúdam com um “bonjour” caloroso e afável. Tenho observado isto muitíssimas vezes, cada vez que ando pela montanha. Os humanos são mais humanos quando não estão perdidos na massa indiferente da cidade.
Porque nestas paragens, a solidariedade impõe-se. Existe sempre uma probabilidade de necessidade de ajuda da parte daqueles que cruzamos.
No vale, na cidade onde vivo, as pessoas que cruzamos, não nos vêm passar ao lado. Somos todos anónimos.
Sob esta base, pode-se demonstrar como o individualismo e a solidariedade são efectivamente, na sociedade ocidental contemporânea, consumista e materialista, incompatíveis. Tudo depende do meio em que se vive.
No plano jurídico, o indivíduo está munido dum certo numero de direitos ditos subjectivos que o libertam da suas obrigações morais e mais particularmente do respeito das obrigações comunitárias e mesmo do seu meio ambiente natural. Assim o direito organiza a des-responsabilizaçao dos indivíduos.
Mas, como será possível neste mundo de industrialização e de atomizaçao social, desenvolver uma ética colectiva?
Num mundo frenético, onde a acumulação de riquezas, de poderes, de conhecimentos, de procura de crescimento económico, está no centro de todas as preocupações, uma tal visão pode parecer extremamente pessimista ou “naïve”. Mas a atomizaçao da sociedade progrediu de tal maneira, que os indivíduos talvez já não sejam capazes de se desfazer desta necessidade de acumular, para uns, e de sobreviver para outros.
Por isso creio, Cara Tânia, que o tal homem que descreve, voltado para os valores reais, valores que seria necessário de explicar, não só desaparece todos os dias um pouco mais, como nada permite, hoje, de pensar, que o mundo que se aproxima lhe deixará uma “chance” de subsistir.
O todos por um e um por todos, tende a desaparecer debaixo dos golpes duros da concorrência económica.
A nossa sociedade moderna é dominada pelo dogma da performance. Este dogma desenvolve o culto do sucesso individual, obrigado a elaborar estratégias individuais para se distinguir num meio concorrencial.
A evolução individualista da sociedade é, portanto, visível e mesmo fatal, na medida em que o estatuto do indivíduo na sociedade evoluiu. Recorda-se do «Cogito ergo sum» ou "Je pense, donc je suis" de Descartes!
Com o capitalismo, a pressão das instituições e das normas duma sociedade tradicional, é substituída pela pressão económica e concorrencial duma sociedade capitalista, que condiciona o indivíduo. Este já não é pressionado pela igreja ou pela família, mas pelo desemprego.
O tema da família, valor que explodiu na sociedade moderna, poderia ser desenvolvido num comentário ao seu “post” precedente sobre as mulheres na sociedade.
Fica para mais tarde.
Cumprimentos
Freitas Pereira
terça-feira, 13 de março de 2012
O nosso mundo (resposta ao Freitas Pereira)
Quando faço os meus passeios de bicicleta lembro-me frequentemente da preocupação do companheiro Freitas Pereira.
E compreendendo a sua preocupação apetece-me trazê-lo a estes passeios, onde me cruzo com famílias de portugueses e estrangeiros que estendem a toalha nas mesas de piquenique e brincam com as crianças da família, partilham a feijoada com outras famílias que trazem tartes e passam um dia com aqueles que realmente importam. Estas não são famílias que se demitiram de olhar os outros como a extensão de si próprios. Podem até ser famílias que há uns anos passavam as tardes nos centros comerciais e se deixaram seduzir pelas marcas e pelo consumo em detrimento das coisas que parecendo simples, são as mais preciosas que temos. Mas como a economia e a sociedade se regem por ciclos acredito sempre no homem de bem. E no dia em que ele volta aos valores que promovem uma sociedade coesa e forte. É nestes piqueniques, ou nas famílias que se encontram quando levam as crianças aos escuteiros, à música ou a correr pelo parque que encontramos o nosso mundo, como ele deve ser.
E renovo continuamente nestes meus passeios a fé neste homem e nesta sociedade, que às vezes se deixa seduzir mas termina o seu propósito naquilo que vale realmente a pena.
sábado, 10 de março de 2012
quinta-feira, 8 de março de 2012
Conquistas do 8 de Março. Não, não queremos ser iguais aos homens.
Hoje
celebramos a conquista da mulher sobre o reconhecimento da sua condição social.
Foi na Rússia, despoletando o início da Revolução de 1917, que mulheres
desencadearam um processo de conquista de melhores situações laborais
(equivalentes às dos homens) e iniciaram o processo de reconhecimento enquanto
cidadãs, com direito a voto. Contudo, e sendo esta conquista um processo de
implementação em diversas sociedades com características culturais diferentes,
ainda hoje o 8 de Março está em marcha. Enquanto houver mulheres apedrejadas no
Iémen, enquanto houver a agressão à qualidade de mãe na China ou enquanto
houver a repressão das liberdades individuais em tantos outros países nos quais
a sua mulher teria de andar 10kms para poder alimentar os seus filhos, o 8 de
Março está em marcha.
Mais
próximo de nós, enquanto souber que há mulheres que
em silêncio sofrem as consequências da brutalidade, mulheres que conjugam uma
vida profissional com as suas tarefas familiares sem qualquer apoio ou
reconhecimento, o 8 de Março está em marcha.
De
qualquer forma, e como (com a graça de Deus) a generalidade das relações são
bem diferentes destes exemplos, o foco
da celebração do dia da mulher pode servir para relembrar aos distraídos
algumas das características que fazem as mulheres seres maravilhosos. Começando
pelo essencial, meus caros e estimados homens, não fosse a vossa mãe
transportar-vos 9 dolorosos meses vocês não estariam aqui. É impressionante
como é fácil esquecer ou ignorar este período tão importante na nossa história
pessoal, pois para além da alegria de trazer crianças ao mundo, o período até
ao parto é uma corrida de obstáculos. Todo o nosso corpo se adapta e queixa,
tornamo-nos pesadas e com uma dificuldade imensa em manter a auto-estima no seu
melhor, relativizamos as nossas
características mais femininas, choramos por tudo e por nada, a roupa deixa de
nos servir e face ao óbvio, questionamo-nos sobre a capacidade de continuar a
exalar o sexappeal que provocou a bendita gravidez. Passando pela educação dada às crianças, com
as honrosas excepções masculinas que vão ganhando terreno na divisão destas e
outras tarefas do quotidiano, o que seria de vocês sem as sandes de Nutella que
a vossa mãe vos mandava quando iam jogar à bola? Ou a paciência que tinha para
ouvir as vossas entediantes histórias sobre o João que depois de bater no Manel
fez queixinhas à professora? É a continuação desta mulher que vocês encontram
quando crescem e se apaixonam. E é este o conjunto de mulheres que transportou
a sua sabedoria para o mundo dos dias de hoje. O 8 de Março é uma conquista
nossa, invertendo a superioridade que vocês dominaram à custa da força e
colocando a mulher na disputa da direcção dos destinos do mundo, quer gostem ou
não. O problema foi ainda não termos encontrado o par de sapatos ideal para o
dia em que a nossa sensibilidade e sabedoria forem partilhadas na sua
plenitude.
É
usual, em debates com amigos, ouvir a propósito das queixinhas que fazemos
"Porque é que não me levas ao cinema?", "Já abrias a porta do
carro, não?" que se quisemos a equitativa distribuição de regalias na
sociedade não estejamos à espera de frases galanteadoras e grandes esforços na
conquista das nossas almas. Assumindo que quem utiliza estes argumentos o faz
por falta de inspiração para uma conversa mais interessante, não deixa de ser
preocupante o declínio na relação investimento/expectativas que os homens das
faixas etárias mais jovens demonstram quando lidam com mulheres. Tenho
inclusivamente ideia de que se traçarmos uma correlação entre a utilização de
hidratantes masculinos e o grau de cobardia que encontramos diariamente na
abordagem que fazem ficaríamos assustados com os resultados. Não, meus caros.
Nós não passámos a usar calças em casa nem a ser as criaturas de caça que
imaginam que tenhamos de ser. Nem a mais independente das mulheres deixa de
gostar de manter o pro forma das relações pessoais. Ainda que diga o contrário,
(nesse caso está a enrolar-vos) é uma eterna sonhadora e claro que sonha quando
vê uma comédia romântica ou espera o anel de noivado quando vocês dizem ter uma
surpresa. E quando a surpresa é o bilhete para irmos ver o Benfica convosco
"Um programa com os meus amigos, ela vai gostar!" nós até vamos, mas
se se encontram neste ponto da relação, ainda estão muito longe de verem a
vossa namorada transformada na J.Lo ou na Irina Shayk. Não digo que a
referência esteja nas personagens da Anatomia de Grey, homens cheios de dúvidas
e hiper-sensíveis sobre as questões mais patéticas, peço apenas para se
recordarem de quão bom é o toque da mulher ou, no exercício inverso, como seria
o vosso mundo se nós cá não estivéssemos. Seria esquisito voltarmos aos
comportamentos comuns de Atenas Antiga quando está comprovada a
complementaridade do casal.
O
mesmo se aplica no casamento. Se já chegaram a esta fase, parabéns. Não é
fácil, apesar de tudo, levarem-nos ao altar. Porque se para o homem o casamento
se processa como a consequência natural de uma boa relação, connosco a história
comporta análises aprofundadas sobre a qualidade dos genes dos filhos a vir,
sobre a vossa capacidade de transmitir bons valores, sobre a relação que
mantemos com a vossa família e sobre o rácio de sucesso dos casamentos das
pessoas que vos rodeiam. E claro, a não ser que sejam as vossas irmãs (aliadas
naturais), é altamente desaconselhável um homem rodeado de outras mulheres. É
nesta fase que vos damos a oportunidade
de nos conhecerem plenamente, sendo um exercício da mais pura confiança deixarmos
um homem ver-nos sem maquilhagem, despenteadas e cheias e dores menstruais num
Domingo de manhã. E aqui precisamos do vosso romantismo mais do que nos outros
dias e não que espreitem a vizinha do terceiro esquerdo que anda sempre
impecável. Ou que comentem com os amigos a menina que aparece de lingerie na
página "Social" do Correio da Manhã (uma prática que tenho vindo a
descobrir também no "Jornal da Região" e que me parece digna de uma
análise aprofundada). Não se deixem iludir. A verdadeira mulher não anda meio
despida pela rua nem é de conversa fiada. A verdadeira mulher é aquela que na
sua reserva e individualidade vos dá a oportunidade de serem os homens mais
felizes do país (como referi há pouco, há uma Jennifer Lopez, uma Irina Shayk
ou uma Eva Longoria dentro de cada uma de nós). Basta que cumpram a vossa parte.
Ânsia de protagonismo + mau jornalismo = a notícia idiota
As notícias sobre uma petição para demitir Cavaco Silva continuam. Depois de muito me conter, eis alguns pensamentos:
1 - Nem sempre concordo com o que diz e faz o Presidente, mas acho que outros, em cargos públicos e partidários, já fizeram muito mais para serem demitidos. Todavia, como "não dá notícia" ou é alguém do "grupo", os caciques calam-se.
2 - A demissão do Presidente não está prevista na Constituição, muito menos com um processo encetado por uma petição.
3 - Cavaco Silva foi eleito com 2.231.956 (dois milhões, duzentos e trinta e um mil, novecentos e cinquenta e seis votos) o que faz as quarenta mil assinaturas (onde dúvido que estejam sequer 5% de ex-apoiantes de Cavaco Silva) da petição parecerem ridículas. Porém, como "não faz sangue", os media não sublinham isto.
4 - Torna-se infame o desrespeito sistemático pelas instituições e símbolos nacionais.
terça-feira, 6 de março de 2012
O Irão e a história por trás de «Uma Separação»
Ainda na ressaca dos Óscares, cumpre lançar um olhar sobre o vencedor na categoria de melhor filme estrangeiro. «Uma Separação», do iraniano Asghar Farhadi, levou a melhor sobre os outros nomeados, entre os quais o filme israelita «Footnote». E até por isso, na noite da consagração, a televisão estatal iraniana descreveu o feito como um triunfo nacional sobre o regime sionista. Mas não se ficou por aí e descreveu-o também como uma vitória sobre o Ocidente. Mesmo considerando que Israel possa integrar o mundo ocidental, não deixa de ser um bocadinho irónico se pensarem que foi a crítica ocidental que os premiou, que não se deixou levar por separações e não se coíbiu em distinguir um filme iraniano, pela primeira vez na história dos Óscares.
Igualmente irónico é que a televisão estatal congratulava-se por um prémio atribuído a um filme cuja produção chegou a estar suspensa depois do seu realizador ter defendido publicamente outros cineastas iranianos que são perseguidos pelo Governo. Pelo menos seis deles foram presos em Setembro passado, entre os quais Jafar Panahi, um brilhante realizador que foi proibido de realizar filmes nos próximos vinte anos e que está a cumprir pena de prisão domiciliária até ao ano de 2016. Jafar Panahi é conhecido pelos filmes O Círculo (que foca a opressão das mulheres no Irão), Offside/Fora de Jogo (que dá conta da proibição das mulheres iranianas em marcar presença em eventos desportivos, como os jogos de futebol, e a forma como tentam contornar essa imposição) e, o mais recente, Isto não é um Filme, um documentário que dá conta da sua vida em prisão domiciliária e que Panahi conseguiu fazer chegar ao último Festival de Cannes, alegadamente no interior de um bolo ou de uma fatia de pão.
Voltando a Farhadi, para além de um pedido de desculpas oficial por ter defendido os seus pares, abdicou dos subsídios do governo ao cinema e financiou-se junto da banca, evitando um maior controlo por parte dos censores do Estado. Tendo em conta estas dificuldades que o realizador enfrentou, não deixa de ser curioso que agora o Irão se congratule e se faça valer do prémio que o seu filme arrecadou. Aliás, o país só apoiou o filme depois deste ter arrebatado um Globo de Ouro e ainda o Urso de Ouro do Festival de Berlim.
A forma ágil e subtil como Farhadi explora, nas entrelinhas, as questões da sociedade iraniana que suscitam mais polémica, evitando no entanto discursos panfletários, acaba por ser uma táctica que leva a melhor. Aliás, nas suas palavras ao arrecadar o Óscar, Asghar Farhadi mostra como a subtileza por vezes é mais certeira que os discursos inflamados.
"At this time, many Iranians all over the world are watching us and I imagine them to be very happy. They are happy not just because of an important award of a film or filmmaker, but because at the time when talk of war, intimidation, and aggression is exchanged between politicians, the name of their country Iran is spoken here through her glorious culture, a rich and ancient culture that has been hidden under the heavy dust of politics. I proudly offer this award to the people of my country, a people who respect all cultures and civilizations and despise hostility and resentment."
Fica a certeza de que com este prémio se deu um passo para que o Mundo ponha os olhos no cinema (e na realidade) do Irão e a esperança de que o Irão ponha os olhos no Mundo...
segunda-feira, 5 de março de 2012
Só um troncozinho para a fogueira
Desconfia sempre dos tipos que estão no parlamento, numa câmara municipal ou em campanha a dizer "estou aqui num espírito de missão, eu não quero viver da política.". isto é quase tão mau quanto teres a tua casa projectada por "arquitectos" que o são porque gostam de desenhar ou construída por engenheiros que montam uns parafusos aos fins de semana naquele espírito de solidariedade. é claro que quando a casa cair o arquitecto e o engenheiro vão dizer "então a gente veio ajudar e você está-se a queixar?"
quinta-feira, 1 de março de 2012
Os "Decisófilos"
O debate em torno da Reforma Administrativa do Poder Local prova que somos um país de “decisófilos”. Falamos muito, discutimos ainda mais, fazemos grandes análises mas depois, quando chega a hora de implementar, ou há coragem política ou então a montanha tende a parir um rato.
Já por aqui o disse. Trata-se de uma violência reformista sem precedentes e que toca em todos os aspectos do modelo organizacional da gestão local. Mexe nas empresas do Sector Empresarial Local; na Gestão Municipal e Inter-Municipal e seu Modelo de Financiamento; nas suas Leis Eleitorais e naquele que é o eixo mais mediático, o Ordenamento do Território.
Por tudo isto, a agitação política e mediática que temos assistido em torno da Reforma é natural. Anormal seria o oposto! Mas se tivermos atenção, notamos dois epicentros críticos. Um, composto por autarcas, especialmente presidentes de juntas, cujas freguesias deixarão de ter o actual figurino e outro, organizado pela ala esquerda da arena política portuguesa.
Se para os primeiros, mesmo que discordem (e têm toda a legitimidade para o fazer) é sempre mais fácil dizerem às suas populações que nada têm que ver com a Reforma, para os “canhotos” mais não é do que o aproveitamento de uma lei que, a não ser consensual, provoca desgaste a quem a subscreve.
Mas convém não esquecer que, mesmo que indirectamente, cerca de 80% dos portugueses votaram nesta Reforma, ao exararem o seu voto no PSD, CDS e PS, ou seja, os três partidos que subscreveram o acordo com a Troika. Depois, e aqui é apenas um juízo pessoal, creio que a maioria dos portugueses concorda, na generalidade com a Reforma e que não querem, mais uma vez, ver o assunto adiado.
Surpreendentemente, ou talvez não, é que apesar de assentar em 4 eixos, todos eles de elevada importância, só se fala do Ordenamento do Território, como se de um momento para o outro o território português, alvo de uma qualquer invasão ainda por enxergar, fosse encolher.
Seguramente que todos já ouvimos alguém comentar, seja na TV, na imprensa escrita ou mesmo no café da rua, que o modelo de organização administrativa em Portugal está desactualizado e que não faz qualquer sentido haver juntas de freguesia com trinta e tal mil eleitores, enquanto outras têm pouco mais de cinco centenas. Ou então, que não se compreende que num território com a dimensão do português haja 4.259 freguesias!
Pois bem, e se o ouvimos é porque é perfeitamente normal que se coloque em causa um modelo de organização administrativa que data de finais do século XIX.
E temos de entender o seguinte: ou mantemos tudo como está e adiamos mais uma vez o que já devia ter sido feito há muito e os resultados serão precisamente os mesmos; ou então, desta vez, deixamos a “decisófilia” e vamos mesmo em frente numa Reforma que, até que me provem o contrário, acredito que venha a tornar o nosso modelo de organização administrativa mais eficiente.
Abutres
Se há coisa que importuna quando vejo Portugal a fazer um esforço colectivo, a que todos tiram o chapéu, é ver gente que tenta lucrar com os maus momentos de muitos que vão sofrendo com a crise.
Esquecendo a minha formação jurídica (que me perdoem os meus Mestres, nomeadamente os Profs. Costa Andrade e Figueiredo Dias) os burlões do costume – os que vão a aldeias e lugares remotos vigarizando idosos indefesos – tratavam-se com a velha sova nos postos da GNR. Infelizmente, Louçã e seus seguidores, como venho dizendo e escrevendo, puseram a coisa exclusivamente em termos de abuso policial e deixaram-nos à mercê de leis penais que nem no Céu serviam para pôr na ordem os anjos…
Já a crescente vaga de furtos em residências, que trouxe amargas novidades, por exemplo, à pacatez coimbrã, pede confiança na PSP e na PJ e, sobretudo, mais meios e encorajamento aos nossos profissionais que, visto o que lhes pagamos e o trabalho apresentado, são mesmo muito bons!
O que mais me apoquenta, contudo, é, entre outros fenómenos, o verdadeiro descontrolo em que andam esses poleiros de abutres que são as casas que compram ouro, jóias, relógios, computadores portáteis e afins em segunda mão.
Bem li no rodapé de um canal noticioso que a Ministra da Justiça – a meu ver, um dos mais brilhantes e destacados membros do Conselho de Ministros, a par do seu colega da Administração Interna – tenciona por ordem neste lamaçal que é pornográfico, eticamente repugnante e de legalidade dúbia.
Pornográfico porque acompanhado de publicidade espampanante em cartazes e montras. Não bastava a necessidade genuína de alguns portugueses se desfazerem de bens pessoais, ainda anda esta gente a angariar miséria. Pior do que isto só anúncios que vi, por exemplo, na Suazilândia, apelando ao pagamento faseado e antecipado do funeral.
Eticamente repugnante porque sabemos bem que este tipo de negócios – vejam-se, a título de amostra, as realidades dos EUA e do Brasil – é um despudorado apelo aos furtos e roubos. Não é preciso decorar os episódios do CSI, Lei e Ordem ou Mentes Criminosas para chegar à evidente conclusão de que havendo receptadores há vendedores, e de que nem todos são os legítimos proprietários dos bens vendidos.
Com o que chegamos à legalidade dúbia; a mais de não precisar das décadas que já levo de vida para perceber que a facturação destas empresas deve ser, na sua maioria, muito criativa e poupada, também não preciso do curso tirado em Coimbra para adivinhar que a proveniência dos bens, em muitos casos, deve ser tão analisada como o crescimento da comunidade de formigas nos jardins públicos do Benim!...
Eu próprio não sei bem onde pode chegar um artigo destes, mas do desabafo já ninguém os livra…
O que é, o que deve ser e o que quer ser o Sr. Presidente
Em Janeiro do ano passado fiquei satisfeita com a reeleição de Cavaco para a presidência da nossa república. Esta satisfação deveu-se a três pontos essenciais:
Compreender que os candidatos colocados à esquerda do PSD não se apresentariam como o garante da coesão social, mas sim como a voz do descontentamento face às medidas adicionais de contenção orçamental dos PECs apresentados sucessivamente pelo governo socialista. Apesar de discordar com as opções do PS acredito que o presidente se deve demitir de provocar uma discussão mais apaixonada e portanto menos realista quanto à função governativa;
Acreditar que um presidente com experiência governativa de grande alcance (nenhum dos restantes apresentava qualquer função que merecesse realce) teria uma melhor preparação para 1) compreender o alcance das medidas de carácter económico e as dinâmicas daí decorrentes; 2) transmitir as suas opiniões, reservas e observações e contribuir para a fiscalização dos executivos considerando em primeiro lugar o bem nacional;
Finalmente, e em linha com a primeira razão exposta, percepcionar em Cavaco Silva um forte sentido de estado e rectidão de princípios que serviriam a nação tanto nas representações junto de actores internacionais como na transmissão de ideias de esforço, dedicação e honra aos seus concidadãos, que são preciosos na manutenção da coesão social portuguesa.
Sucede que ao longo dos meses do primeiro e segundo mandatos Cavaco demonstrou alguma inconsistência na definição das suas prioridades. Recordo que anunciou uma comunicação aos portugueses em pleno mês de Agosto, que todos aguardaram com expectativa, sabendo depois tratar-se de uma questão de inconstitucionalidade na definição do estatuto dos Açores, tendo havido perigo na sobreposição de poderes regional e de soberania; recordo também que deixou escapar através da sua assessoria a suspeita de haver toupeiras ou escutas ilegais que beneficiariam o governo Sócrates (já as relações institucionais tinham azedado depois da lua-de-mel dos primeiros 2 anos de convivência democrática). Sobre o primeiro, é ao sentido de estado a que devemos reconhecer esta preocupação transmitida pelo presidente; sobre o segundo, para além de que para o cidadão português a casa civil da presidência se assemelha ao quartel-general de maior importância em território nacional - no sentido figurado, por norma um cidadão não deve fazer acusações ou qualquer insinuação sobre um terceiro. Tendo ainda a responsabilidade de ser a voz do conjunto dos 10 milhões que cá andam, é perceptível a opinião que tenho sobre este assunto.
A determinada altura, e aquando da aprovação do casamento homossexual em Portugal, volta a dirigir-se aos portugueses, com uma expressa necessidade de justificar o não veto ao projecto-lei ao qual é "pessoalmente contra" dizendo que outras questões mais prementes se colocavam no país. Nesta questão não me quero alongar dado que no assunto tem uma complexidade que merece maior reflexão. Mas gostaria de deixar duas notas: a) a constituição de família é pedra basilar nos processos de socialização primária e um dos factores de maior importância da criação da nossa identidade, sendo portanto uma das questões mais importantes a debater no país. A economia é composta por ciclos, enquanto as alterações culturais são permanentes; b) pelo menos 70% do eleitorado que lhe deu o voto nas eleições presidenciais a que se apresentou é tendencialmente conservador.
Algumas semanas antes do início da campanha para as legislativas de 2011, num dos seus menos ortodoxos discursos que fez na posição que ainda ocupa, instigou os portugueses a "sair à rua". Claro que a situação em que o partido socialista colocou o país (entre o pântano de Guterres e a fantasia socrática) é propícia a que os cidadãos se sintam defraudados, mas não compete ao Sr. Presidente apelar aos homens e mulheres a que saiam à rua para contestar o que quer que seja escassos meses após um processo eleitoral (admitindo o fôlego que este discurso deu ao partido a que orgulhosamente pertenço).
Mais recentemente, e não obstante o facto de na qualidade de primeiro-ministro ter tido um dos maiores investimentos em obras públicas necessárias ao desenvolvimento do interior do país, esquecido na década de 80, tem-se colocado na posição de fiel de balança questionando a necessidade e o alcance das medidas propostas pelo governo de coligação - e que se assumem como o cumprimento de objectivos assinados com o conjunto de credores internacionais. Tem-se esforçado por demonstrar compreensão quanto às dificuldades vividas pela classe média, paralelando situações de privação com a sua situação pessoal (uma reforma de €10 000) o que naturalmente ainda não foi digerido pelos portugueses. Mais acrescento, e é este o ponto essencial desta reflexão, que os portugueses têm consciência da dimensão da sua pátria e não precisam de um Chefe de Estado que esbanje compaixão mal-medida. O que nós precisamos é de um Chefe de Estado que nos relembre a cada dia a garra que os filhos de Viriato sempre demonstraram, que nos prove ser capaz de assegurar uma coesão nacional baseada nos princípios da honra, do trabalho e da força que a sociedade civil transporta, que nos relembre de vez em quando da posição histórica de Portugal no Mundo e que invista na promoção da solidariedade entre todos nós. É esta a função do Sr. Presidente no momento actual na nossa república. E julgo que é isto que os seus antecessores históricos esperam também de si. Seria esta a posição de um Rei, consciente da identidade e da força do país mais antigo da Europa.
Subscrever:
Mensagens (Atom)









.jpg)

