Creio que todos nós recebemos uma imensidão de mensagens de correio electrónico reencaminhadas (vulgo “fw” ou “forward”); desde as anedotas aos gatinhos e cãezinhos com patéticas mensagens de paz e amor, das bonitas mulheres assim às obesas mulheres assado, dos reclamos com erros aos abaixo-assinados para demitir todos e mais um…
Há, todavia, um tipo de mensagens e anexos que, sempre que posso, me dou ao trabalho de ler: aqueles que versam política. E foi num desses interlúdios de leitura que abri um pequeno filme sobre a pirataria na Somália, enviado por um dos mais cultos cidadãos da diáspora que conheço, que o meu amigo Freitas Pereira, residente em França (um homem cujas ideias se encaixam claramente no que se usa designar por “esquerda”), recomenda no texto do e-mail (que não sei se é seu ou também ele reencaminhado) que vejamos “o outro lado da história”.
Vejamos, então: o filme de realização espanhola começa por um enquadramento da noção romântica de piratas que herdámos de aventuras em livros e filmes, para depois balizar o conceito. Segundo os autores, um pirata é alguém que rouba no mar, fortemente armado e, por vezes com a protecção de um Estado (relembremos as cartas de corso e os corsários...).
Seguidamente, somos elucidados sobre a pesca massiva e predadora realizada por potências ocidentais, bem como sobre o depósito ilegal de matérias radioactivas e de outros lixos tóxicos (por exemplo, resíduos hospitalares). Tudo isto se passa na zona económica exclusiva da Somália, país que a não pode vigiar por estar devassado pela guerra e pela miséria.
As consequências destes actos são evidentes: os recursos alimentares marítimos escasseiam e muita da matéria radioactiva deu à costa, por altura de uma das mais recentes e dramáticas calamidades naturais.
Pelo meio, imagens da fome que faz sofrer o povo somali e censuras aos gastos ocidentais no patrulhamento bélico da área… Segundo os seus autores, aliás, os piratas mais não são do que pescadores desesperados aliados a alguns combatentes tribais, como tudo pudesse ser justificado desta forma.
O cenário é pungente e nada pode ser mais atroz: pesca ilegal, depósitos de lixo tóxico, fome e guerra…
Contudo, cumpre olhar o " também verdadeiro" outro lado. Comecemos pelo lado da guerra: com intervenção da Etiópia na zona da Somalilândia, quem está em guerra?! Tribos somalis. São somalis que massacram o seu povo. Acresce que quando os EUA, no início dos anos 90, quiseram pôr alguma ordem no caos gerado, as Nações Unidas entenderam que não valia a pena ajudar da única forma viável: a força.
Depois, se não fosse trágico, era quase hilariante a ideia de que a pirataria pode ser justificada por depósitos e pesca. Os indivíduos que a praticam, como sabem, são vulgares bandidos que, à custa de tantos resgates (indevidamente) pagos, estão hoje fortemente armados e visam o enriquecimento ilícito e fácil.
O que, em meu entender, tem andado mal é o alheamento dos países ocidentais, designadamente das antigas potências coloniais (Reino Unido e Itália) que deveriam ajudar a repor alguma ordem no país, permitindo restaurar a ordem pública e o renascer da economia local.
Tudo o resto é propaganda para nos causar remorsos que, com franqueza, não tenho e que não devem confundir-se com preocupação, que todos devemos nutrir.
