quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Olha quem fala

Há poucos dias, vi na televisão que a Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, tecia considerandos sobre a defesa dos direitos humanos na Europa. Falava a Sra. Clinton a propósito da proibição suiça dos minaretes das mesquitas e do veto francês ao uso em público do véu islâmico, na sequência do relatório anual do Departamento de Estado sobre a liberdade religiosa.

É claro que os casos europeus não foram, nem de perto nem de longe, o prato forte do relatório e da intervenção, mas, já que “aqui estamos”, deitemos um olho sobre o assunto.

Pergunto-me, assim sendo, quem será o campeão mundial da “islamofobia”?... Ora… Não é que são os EUA??? Que outro país encerra turistas estrangeiros numa sala de aeroporto separada e os asperge com fumos, apenas por terem estado em países de que os americanos desconfiam?... Exacto: os EUA!...

Quem geria Abu Ghraib e ainda não encerrou Guantamo?!... Respondeu “EUA”?! Nem prémio leva, tal o cariz óbvio da resposta…

Nesta altura, peço ao Leitor que me não interprete mal: não sou do Bloco de Esquerda (cruzes!!!) e nem pertenço àqueles que acham que dizer mal dos Estados Unidos os guinda à condição de “intelectuais”. Adoro o país do Uncle Sam e acho que tem uma democracia e uma cultura vibrantes. Todavia, acho que apontar o dedo é uma má escolha, quando já nem vidro se tem no telhado…

Dir-me-ão os fanáticos: “os Estados Unidos têm razão para a cruzada actual”! Talvez, responderei… Contudo, não menos a terão os europeus, a começar pelos espanhóis e pelos ingleses. Mesmo os franceses, venho dizendo isto há algum tempo, estão, segundo alguns estudos, a braços com o dilema de, dados o conforto social que proporcionam e a progressão geométrica da população “não ocidental”, terem, em algumas décadas, uma maioria de votantes islâmicos nos seus cadernos eleitorais.

Se o fenómeno em si parece natural, o facto é que ocorre num centro nevrálgico da cultura europeia e sem que os “novos franceses” aceitem as regras daquela, preferindo impor aos “anfitriões” ditames de outra fé e de outro modo de ser e de estar. E a isto temos de assistir, dizendo-nos os que aplaudem a anarquia que se trata de diferença cultural… O irónico da coisa é que os nossos “esquerdistas” se esquecem da desconsideração que está ínsita em muitas das “diferenças culturais” impostas, designadamente, às mulheres islâmicas.

O mesmo tom categórico já não emprego na norma arquitectónica helvética. Apesar de se tratar de uma norma democraticamente adoptada, nem sempre os procedimentos referendários foram sinónimos de bom senso, da condenação de Cristo a Weimar.

Todavia, mesmo neste último caso, estou em crer que a intolerância se não equipara à vivida pelos ocidentais nos países muçulmanos, desde a proibição de visitar Meca à exigência de as mulheres visitantes usarem trajes muçulmanos ou de turistas serem alvos potenciais pelo facto de um jornal do seu país ter publicado caricaturas de Maomé.

Sorrio ironicamente, por isso, ao recordar as palavras da Madame Clinton.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Natal sem luz... e sem fome

Acabo de concluir que ainda há responsáveis políticos sensatos em Portugal. Pelo menos, lá para os lados de Sintra, nas freguesias de São Marcos, Rio de Mouro e Colares, cujos presidentes entenderam abdicar da iluminação natalícia nas ruas para iluminar o Natal dos moradores de uma outra forma. Os fundos que se destinavam à iluminação das localidades vão ser aplicados em centenas de cabazes de alimentos, bens essenciais que as famílias têm tido dificuldade em obter, pelo que o número de pedidos de ajuda aos responsáveis locais tem aumentado consideravelmente. A medida é, a meu ver, louvável. Um exemplo a seguir por todas as freguesias e concelhos em que os valores destinados à iluminação de Natal possam colidir com os valores atribuídos para a acção social. E para que se tenha noção dos balúrdios que todos os anos são gastos em iluminação natalícia, é espreitar aqui.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O prazer de votar

No âmbito das eleições ao parlamento da Catalunha, no próximo dia 28, há campanhas que têm dado que falar, mercê dos meios propaganda utilizados. Uma delas, lançada pelo Partido Popular, consiste num jogo de computador em que o jogador está encarregado de uma missão, a de eliminar imigantes; naturalmente, a brincadeira já deu muito que falar. A outra, que não fica atrás em popularidade e polémica, é de apoio ao candidato José Montilla, pelo Partit des Socialistes de Catalunya (PSC) e incita os jovens ao voto, comparando-o a um meio de obter prazer:

A ideia é da juventude do PSC, que teve a intenção de captar as atenções (não só dos jovens...) e usar um dos mais vulgares iscos de comunicação: o conteúdo sexual, ainda que não explícito. E quanto ao conteúdo político? Absolutamente nenhum. Tenho, por esse e por outros motivos, as maiores dúvidas quanto à eficácia deste vídeo. É primário e desvirtua aquilo que subjaz ao voto eleitoral. Votar é um sentido de cidadania que não toca a todos e a solução não passa, certamente, por incitar a que, qual rebanho, as multidões acorram às urnas. Votar «por votar» não nos leva a lado algum. O voto deve ser consciente, voluntário e lúcido. E para que o seja, o desejável é informar cabalmente os cidadãos das suas opções e não propriamente socorrer-nos de mensagens libidinosas.

A propósito, votar não tem nada que se assemelhe a prazer. Há uma imensidão de coisas que se podem fazer num domingo mais entusiasmantes que desencantar o cartão de eleitor no fundo de uma qualquer gaveta, locomovermo-nos até à escola primária do sítio, esperar sossegadinhos nas filas, reencontrar gente que não víamos há séculos e com quem não temos vontade de falar e, posto isto, despejar o voto na urna. Que entusiasmante.

Em Dia de Não Fumador (ou de não cumpridor?)



Hoje, 17 de Novembro, assinalou-se o Dia do Não Fumador. Neste dia todos se lembram de uma lei que entrou em vigor há quase 3 anos, mas todos os dias eu me lembro que estou num país em que as leis não se cumprem e tudo fica na mesma. Será assim tão difícil fazer cumprir uma lei que só traz benefícios à nossa saúde? Embora o tabaco tenha sido proibido em muitos locais, há ainda muitos cafés, bares e discotecas onde se continua a fumar sem restrições e sem que as devidas condições de extracção sejam cumpridas. Onde está a fiscalização? Ai Portugal Portugal...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pele e osso

Talvez a distância seja a causa da maior avidez com que pratico algo que sempre fora um hábito: assistir a noticiários e ler os jornais (embora sem o indizível prazer de folhear os mesmos).

Todavia, da terra onde Vasco da Gama “deu baile” ao resto do Mundo, fica a angústia acrescida de comparar a glória de outrora e a miséria actual, sentimento no qual sou acompanhado pelos membros da comunidade portuguesa, que olham com tristeza e espanto uma Pátria pré-falida.

Chovem as perguntas e escasseiam as respostas: como chegámos até aqui? Por que é que, mesmo com acordo sobre o Orçamento, os juros que Portugal paga pelo dinheiro que pede continuam a subir? Onde vêem os investidores o nosso risco de incumprimento? Por que não assumem os políticos o que o Estado pode ou não pode fazer, de uma vez por todas, em vez de andarem com cortes nos salários, na ADSE e outros paliativos a contado?

Já escrevi por estas páginas que não vale a pena procurar culpados. É uma tradição portuguesa achar que alguém tem a culpa das nossas asneiras… Ora, neste caso, penso que a nossa falta de exigência em relação a nós próprios – na produtividade, no mérito e até nos demais valores sociais – se traduz na incapacidade de exigir mais da classe política, pois a dura verdade é que não entendemos patavina do que é preciso fazer para acabar com a nossa histórica modorra (o pior é que, temo bem, muitos dos políticos também “não vêem boi” dos problemas)!

Embora me obrigue a dar o benefício da dúvida, ainda estou por me render à geração de políticos do Facebook e da folha de Excel (que é como quem diz, listagem de militantes “controlados” e com quotas a pagar)… Somos dos países com mais telemóveis por habitante, o que me faz pensar que temos a noção de cosmética típica do “pato-bravismo”, mas continuo à espera de alguém que não se limite à literacia tecnológica e ao sectarismo intra-partidário, percebendo o papel da emoção e de um desígnio nacional mobilizador.

Que Cavaco Silva representará um seguro de saúde nacional, não tenho dúvidas; os tempos não estão para poesias. Porém, agarro-me à esperança de, chegada a hora, Passos Coelho conseguir duas coisas: emocionar e mobilizar os portugueses e, por outro lado, moderar o apetite dos jovens turcos que se agarraram ao seu manto.

Até esse dia fica ainda o meu cepticismo em relação àqueles que julgam poder culpar o actual Governo por tudo e mais umas botas. O problema é mais fundo e pede respostas que durem várias décadas; de preferência, antes de morrermos à mingua…

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Gatos escaldados (e agora «calados»)

Se havia página d'A Bola que eu gostava de ler nas raras vezes que o jornal me vem parar às mãos, era a das crónicas dos gatos Ricardo Araújo Pereira e José Diogo Quintela, a torcer pelos seus clubes, SLB e SCP, respectivamente. Mas ao que parece, um destes dias o lápis (literalmente) azul falou mais alto e a última crónica do «gato verde» saiu com certos cortes, sem que o cronista fosse disso avisado. Os cortes recaíram sobre trechos em que Quintela «respondia» a Miguel Sousa Tavares a propósito de uma troca de palavras quanto ao célebre Apito Dourado. Pormenores à parte, é de concluir que, desta vez, até o diário comummente associado ao Benfica se prostou perante os papões do Norte. O resultado? Quintela abandonou a crónica e RAP fez, num gesto solidário para com o colega, o mesmo. Quem fica a perder? Todos. O humor intercalado com momentos de pura lucidez (que tanto escasseia no meio), viesse de quem viesse, tornava o desportivo numa leitura mais sadia. Agora MST pode respirar de alívio: tem o jornal por sua conta e ninguém à sua altura para lhe lembrar que um homem com a sua inteligência não pode fingir acreditar que o Apito Dourado é uma mera ilusão futebolística.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Agora é que tu disseste tudo!

“Como sempre, trabalho sem interrupção e se ocasionalmente vejo uma jovem bonita e a olho na cara, é melhor gostar de jovens bonitas do que ser gay

Sílvio Berlusconi, citado pelo Público

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A razão pela qual nada aprenderemos com a crise – Parte II

Retomando a análise sobre a aquilo que julgo ser a explicação do facto de qualquer crise se sentir com mais profundidade em Portugal, repito o que já disse noutros textos: não havendo homens providenciais, acho comodista e algo hipócrita que se culpem apenas os políticos.

Se é certo que muitos deles são movidos pela sedução do poder, pela ambição ou pela perspectiva de “dinheiro fácil”, também é verdade que muitos não são desonestos (seja por serem íntegros ou por não terem “categoria” para roubar). O problema é que os políticos saem do meio do povo que os elege. Por muito desfasados que, por vezes, pareçam, não são extra-terrestres vindos de outro planeta… Reflectem as nossas virtudes, mas, igualmente, os nossos defeitos. Também eles têm um ar pesado e vivem num mundo que já não existe (começa pela retórica parlamentar, onde ainda ouvimos “vossa excelência” seguida de pontapés na gramática e de enxovalhos pouco dignificantes).

Acresce que também os políticos se tornam mais básicos e previsíveis à medida que os padrões de exigência do ensino se degradam e que as próprias mentes das novas gerações sofrem o empobrecimento ditado pelo progressivo abandono da cultura escrita, em detrimento da ruminação de conteúdos de televisivos e da exposição sem coordenadas éticas a tudo o que pode ver-se na Internet.

Colhe, por isso, sentido a frase de Maistre: “cada povo tem o governo que merece”!...
Dito isto, que fazer?

Com franqueza, esvai-se me a esperança. Para sairmos da crise permanente em que, com altinhos e fundões, vamos vivendo, era preciso que ganhássemos consciência colectiva, que abraçássemos o desígnio de sermos dos melhores países da Europa, que não buscássemos o suborno em lugar do cumprimento dos trâmites da lei, que não nos limitássemos a obedecer a esta por medo da punição, que tentássemos ser melhores em vez de invejarmos o sucesso alheio, que não favorecêssemos os graxistas e lacaios em vez dos críticos leais, que percebêssemos que o dinheiro deve advir do talento e da ética, que, em suma, fossemos decentes, trabalhadores e solidários…

Só se atingíssemos este “minus” da essência de uma nação, poderíamos ombrear com gente que se aplica, que tem orgulho na sua bandeira para além do futebol e que não aldraba ou que, quando o faz, tem a cadeia como destino certo.

Até lá merecemos alguns dos seguidores de Sócrates e Passos Coelho (ambos culpados menores de tudo isto). É uma pena justíssima!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Previsões do Lodo

Agora que as negociações com o Governo fracassaram, eis as previsões do blogue que nunca vos abandona:
  1. PSD "aprova" orçamento com uma abstenção, explicando que o faz em nome de Portugal.
  2. Em Março (quando o Presidente puder convocar eleições) apresenta moção de censura.

Classificados no Lodo: negócios

Em tempos de crise há sempre oportunidades.
Concretamente, o futuro sorri aos produtores de coletes reflectores, se a moda de uma localidade catalã pegar. Assim, parece que as prostitutas de rua serão obrigadas a utilizar mais este acessório de segurança para que o embate frontal envolva apenas o condutor e não o veículo...
Embora o mercado de trabalho português seja menor, fica o alerta aos munícipios, fabricantes e retalhistas.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"Um vintém é um vintém"

Tenho para mim que Jorge Jesus é dos melhores treinadores intuitivos do futebol português e é o homem certo para pôr em extâse 90% dos adeptos benfiquistas.
Porém, a modalidade evoluiu e, hoje em dia, muito se passa no plano táctico e nas metodologias de treino e observação de jogadores e adversários.
Ora, creio que o treinador do Benfica é pobre nestes aspectos. O jogo com o Lyon foi mais uma sucessão de equívocos e uma mostra de pouca bagagem teórica....

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Na semana passada...

Na semana passada, duas declarações mereceram a minha atenção. Partilho-as, agora:

a) Carlos Queiroz: ao culpar (novamente) Laurentino Dias pelo seu despedimento, Queiroz responsabilizou-o pela situação difícil em que se encontrava (está melhor, por estes dias) a Selecção. Disse mesmo que com ele no banco frente ao Chipre e à Noruega "nada disto aconteceria" (cito de cor). Haverá declaração mais assassina e ingrata para o companheiro e colaborador de há anos, Agostinho Oliveira? Isto só prova que, podendo ser bom teórico, Carlos Queiroz tem muito a aprender sobre a natureza humana.

b) Paulo Bento: dias mais tarde, o actual seleccionador deu uma prova de humildade notável. Confrontado com a sondagem a José Mourinho, antes da sua contratação, Bento disse que estava orgulhoso pelo facto de a Federação ter ponderado apenas duas hipóteses: " o melhor treinador do mundo e o Paulo Bento". Ao contrário do que previ, pode ser que tenha pé para a dança!...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Revendo a lição do Professor "Mamede"

Pioneiro que é, o nosso "Mamede" já tinha visto este filme, há algum tempo. Sucede que lhe conferiu uma nota sofrível, ponto em que, com a devida vénia, estamos em desacordo com este monstro sagrado do "ver cinema", capaz de tornar insignificante o parecer avisado de homens como "Lauro Dérmio"...

Aplaudido o humor insíto no título da crítica do Prof. "Mamede", atribui-se o nariz torcido à sua relativa juventude, pois, a nosso ver, o filme vale pelo desfile de notáveis da "porrada à antiga"!

Começa pelo maravilhoso regresso da dupla Stallone - Lundgren que entusiasmou a adolescência dos moços da minha idade, num dos mais tolos e ao mesmo tempo aclamados filmes de propaganda do tempo da guerra fria: "Rocky IV". Da morte de Apollo Creed ao improvável triunfo e propagandístico discurso de Rocky Balboa, após a vitória sobre Ivan Drago, em Moscovo, é um sem-fim de cenas irrepetíveis.

Depois, é ver o imenso Mickey Rourke, que precisou de bem mais do que "9 semanas e meia" para voltar a esta forma de "wrestler"...

Há espaço ainda para Bruce Willis, mesmo que não salte nem assalte um arranha-céus, e para a genial aparição do Governador da Califórnia, Schwarzenegger, que, em poucos minutos, revê a antiga rivalidade com Stallone, que ainda o acusa de ter ambições presidenciais!...

Por fim, mesmo a "II Liga" está em bom nível com nomes como Jet Li e Jason Statham.

É por tudo isto que temos que votar contra um cândido mas injusto parecer do mais famoso cinéfilo da Solum!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A razão pela qual nada aprenderemos com a crise – Parte I

À guisa de prelúdio, diria que as linhas que se seguem não devem ser vistas à luz de qualquer forma de autoflagelação; não considero que tenhamos que andar com a corda ao pescoço, qual Egas Moniz, ou de nos chicotearmos, enquanto gritamos kyrie eleison… Temos, isso sim, enquanto povo, de reflectir sobre a explicação profunda do estado de “crise permanente” em que vivemos, pois, mesmo antes desta marretada valente dos mercados internacionais, fica a sensação de que sempre viemos a afundar-nos alegremente.

Creio mesmo que o mais escandaloso neste luso atavismo e nesta nacional “choraminguice” é olharmos os países do antigo Bloco de Leste que, sujeitos a décadas de opressão soviética ou pró-soviética e muito mais recentes nas andanças da União Europeia, em menos de um fósforo, se colocaram ao nosso nível, quando não nos passaram mesmo nos números do desenvolvimento… Dou, assim, de barato exemplos repetidos à saciedade, como o caso da Finlândia que, mesmo sem os recursos naturais que nos queixamos de não ter (e até temos alguns que os finlandeses não têm, como sejam praias infindáveis e clima “para turistas” todo o ano), se guindou ao patamar cimeiro em que permanece, desde que me lembro.

Tudo isto para dizer algo simples: enquanto povo temos muita responsabilidade no estado de coisas a que chegámos, sendo os cortes nos vencimentos e pensões dos funcionários públicos, o aumento do IVA e todos os demais instrumentos de tortura que nos fustigarão a partir de 2011 consequências da insalubridade ética em que sempre apreciámos chafurdar. Em vez de produzirmos mais e melhor, sempre preferimos empurrar o destino para a frente com a barriga; em vez de contestarmos solidariamente o que está errado, calámo-nos, esperando que a régua não açoite a nossa mão e que a promoção chegue a nós, mesmo que outros se quedem na injustiça; em vez de acharmos que houve um colega que mereceu mais do que nós “aquele lugar ou aumento”, logo congeminamos as razões do favoritismo (amizade, partido ou caso amoroso) e, o que é pior, por vezes, com razão…

Somos, por isso, tendencialmente invejosos, em vez de cultores de uma lógica de mérito. Mesmo muitos dos que nas autarquias, gabinetes de estudos e assessorias procuram mascarar a coisa com o uso de Powerpoint, ecrãs de LED com produções bonitas e, em suma, embalagens tecnologicamente atractivas e uma imagem de suposta competência desprovida de emoção (um subtil renascimento da propaganda totalitária), na verdade, continuam a alimentar “o grupo”, a dar oportunidades de negócios aos amigos e a executar sumariamente qualquer tolinho que sonhe com independência de espírito. Somos, também, fracos de alma…


Post- Scriptum
(não é altura de escrever P.S…): Interrompo a prosa (a continuar) para garantir que Pedro Passos Coelho é um líder genuíno. Espero, consequentemente, que não se deixe levar pelos jovens profissionais da política que, sob o escudo de muitos PDF e slideshows, tentam disfarçar a sede de poder instantâneo, colocando entraves à passagem do Orçamento, no PSD. Podem até regurgitar sobre o documento, em directo, mas não é à toa nem pode ser conspiração o facto de três antigos Presidentes da República e de três ex-líderes do partido (Marcelo, Ferreira Leite e Mendes) recomendarem, a bem de Portugal, a viabilização do documento. Creio que Passos Coelho levará a indignação até à última, fechando os olhos ao horror orçamental, à última da hora. Só pode ser assim…

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Finalmente, um adversário para Cavaco!

Sempre achei a contra-cultura de Vieira genial. Pelo absurdo põe-se em causa muito da nossa sociedade da crise contínua.
É ver para deixar de crer e passar a querer :)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Momento alto dos U2 em Coimbra! É a partir do minuto 1:21

Jogar futebol com prazer

O País do Carnaval


Acabo de ler o primeiro romance de Jorge Amado, escrito quando tinha 18 anos, publicado em 1931 e, infelizmente, ainda hoje muito actual. O País do Carnaval é um olhar, sem rodeios, sobre o Brasil e o seu povo. Um retrato de uma geração de brasileiros conformados, adormecidos, cuja única aspiração parece ser a velhice. A personagem principal, Paulo Rigger, saiu do Brasil para se formar em França e, uma vez de volta, bem procura o sentido da vida, da pátria, da terra. Porém, acaba sempre por esbarrar nos cépticos e cedo percebe que não é fácil escapar à «mediocridade perpétua em que a nação se encontra».

Jorge Amado não tem pudor em afirmar, no prefácio, que a obra tem um cenário triste: o Brasil, «natureza grandiosa que faz o homem de uma pequenez clássica». E é essa antítese que percorre todo o livro, a grandeza de um país que asfixia, quase esmaga, os seus pequenos homens. A certa altura, o autor chega a comparar a nação a uma mulata desconhecida:

«(…) é entre as suas coxas sadias
Que repousa o futuro da Pátria.
Daí sairá uma raça forte,
Triste,
Burra,
Indomável,
Mas profundamente grande,
Porque é grandemente natural,
Toda da sensualidade.

Por isso, cheirosa mulata
Do meu Brasil africano
(o Brasil é um pedaço d’África
Que imigrou para a América),
Nunca deixes de abrir as coxas
No instinto insatisfeito
Dos poetas pobres
E dos estudantes vagabundos,
Nessas noites mornas do Brasil,
Quando há muitas estrelas no céu
E muito desejo na terra.»

Haverá quem considere que tal metáfora ofende a moral brasileira. Eu considero que Jorge Amado quis, tão só, abanar a consciência dos seus pares. E não será despropositado considerar que ainda hoje, quase um século depois, o Brasil continua a precisar de uns «abanões». É que ainda há dias vimos as carnavalescas eleições que por lá tiveram lugar, onde até palhaços iletrados são eleitos deputados federais. «E fica-se vivendo a tragédia de fazer ironias», como bem escreveu o autor.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Bom, ao estilo dos irmãos Cohen

Baseado no conto homónimo de José Saramago, este filme só é recomendável a quem goste de comédia negra e tenha capacidade para apreciar filmes portugueses que não se fiquem pelo eixo sexo-droga-corrupção.

O fim de um clube


Se está tão incrédulo como eu, veja aqui... Aprígio deve ter-se fartado de ser presidente...

U2 - Coimbra



Clique nas imagens para ver melhor.

“There isn’t a good weather in the economy of our countries, but that is not going to stop us from being who we are.”


Bono Vox, no Estádio Cidade de Coimbra - 3 de Outubro de 2010


Nota: a qualidade das fotos é pouca (ou nenhuma!) mas foi o que se arranjou!

Tão bom quanto difícil

Recomendo-o apenas para incondicionais do (de um dos) mestre (s) russo (s). A teia de valores, personalidades e pensamentos é magistral, mas exige concentração apurada. Definitivamente, não é leitura de café ou de praia e nem dá para fazer figura de intelectual, como gostam de fazer alguns leitores do também soberbo "Irmãos Karamázov"...

domingo, 3 de outubro de 2010

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Djobi, Djoba


Ando há dias a ver a volta a dar ao texto… Percebi então que essa hesitação e a busca de eufemismos são em si sintomas pessoais da castração ética que atingiu as sociedades ocidentais em relação a assuntos que toquem minorias étnicas.

É certo que houve colonialismo e genocídios, mas tal não deveria implicar, desde que conservados o sentido de proporção e o bom senso, que se não possa reagir ante problemas concretos e geralmente detectados.

Nas sociedades ocidentais aguentamos atentados e surtos de criminalidade, mas depois parece que tememos a censura popular e o escrutínio dos media quando toca a contra-atacar. Neste comenos, enterramos a cabeça na areia e fazemos das forças de segurança pública o elo mais fraco do triângulo vítima-infractor-polícia.

Entendo mesmo que o caso se agrava em Portugal, mercê dos complexos de esquerda que chagam ainda a nossa sociedade, mesmo passados mais de trinta anos sobre o 25 de Abril (altura em que, presumo, a coisa ainda se compreendia). Basta ver a reacção da extrema-esquerda parlamentar, sempre que um qualquer desordeiro (basta que esteja matriculado algures, tenha mau aspecto e pareça fumar ou defender quem “fume umas coisas”) é, mesmo que apropriadamente, objecto de acção física por parte de uma força policial…

Cortando cerces os rodeios, tem isto a ver com a deportação de ciganos iniciada pelo governo francês.

Numa primeira abordagem, diria que a acção foi trapalhona, se não mesmo desastrada, pois, cedo ou tarde, a liberdade de circulação para os romenos (origem dos ciganos deportados) será total.

Na mesma passada, “estúpida” é a maneira mais branda que encontro para rotular a reacção da Comissária europeia, Viviane Reding, que comparou o caso às deportações da II Guerra Mundial (e não deve ser só ideia minha, já que a senhora e o Presidente da Comissão vieram com a tradicional varridela para de baixo do tapete; leia-se, foi um “mal entendido”).
Falemos com clareza e com base em alguns factos: a França é um país com alguns problemas desta sorte. A mais do caso sub judice, existe o problema de uma população ocidental envelhecida face à multiplicação geométrica da população islâmica nascida no país. Não que seja um mal em si, mas existem estudos que teorizam a hipótese de, em algumas décadas, haver uma maioria islâmica a votar para eleger o presidente gaulês.

Depois, creio que foi documentado o facto de, por vezes voluntariamente, estas comunidades arreigadamente nómadas viverem em condições da mais acabada insalubridade.
Em terceiro lugar, embora havendo casos de integração social perfeita de ciganos (e não creio que tenha havido problemas com estes), muitos membros destas comunidades recusam as regras (de ordem pública, de urbanismo, de ecologia, de fiscalidade, etc, etc…) dos seus anfitriões. E nem me venham com a história de que fazem parte dos países onde estão. Se assim é, mais uma razão para cumprirem as regras, dos rendimentos sociais a todas as demais.

Por fim, diga-se que existem problemas no combate à criminalidade cometida por membros desta comunidade. Quem não conhece alguém que teve medo de impedir um adolescente Roma de roubar um haver pessoal ou um supermercado com medo da represália dos mais velhos?

Quem nunca ouviu falar dos problemas das polícias em investigar delitos com esta autoria?
Quer isto dizer que todos os ciganos são criminosos? Jamais! Se calhar, a maioria não é, nem nunca será. O problema é que a cooperação pelos demais no combate aos episódios ocorridos é nula.

Resumindo: a solução para evitar radicalismos como o do caso francês é a aceitação de regras democraticamente aceites pela maioria, sem pôr em causa o direito à diferença cultural. Dito de outra forma, temos que deixar de viver em nações flácidas ou timoratas e de atar as mãos dos nossos agentes de segurança pública, desde que estes ajam com conta, peso e medida.

* texto da autoria de Gonçalo Capitão
foto d'aqui

terça-feira, 21 de setembro de 2010

"Hardcore - 1.º escalão"

Acaba por ser bom ser cidadão de um País que nos fornece tantas pilhérias… O problema é quando as coisas têm menos piada, por, apesar de ainda caírem no ridículo, versarem motivos sérios.

Começando pelo mais negro dos caricatos eventos do nosso Portugal, temos que tentar perceber uma ou outra lateralidade do “Processo Casa Pia”; deixemos de lado os anos que demorou o processo, quem devia ser acusado e não foi (a acreditar no que se vai ouvindo e lendo) e outras coisas já debatidas até à exaustão.

Assim, assisti interessado à defesa de Carlos Cruz em conferência de imprensa, logo após o conhecimento do acórdão que o condenou a pena de prisão. Sinceramente, não ouso beliscar a sua presumível inocência (coisa para durar anos, já que se não antevê para breve o trânsito em julgado da sentença) ou esquecer o seu passado de grande comunicador.

Todavia, por óbvia limitação própria não compreendo, designadamente, a parte da alocução em que Cruz alega que foi envolvido no Caso por ser conveniente ter uma figura pública envolvida para credibilizar o processo. Menos ainda compreendo a nossa cada vez mais empobrecida comunicação social, uma vez que não era preciso sequer recorrer à Wikipedia (lamentavelmente e à míngua de boa “bagagem” cultural, fonte de informação de muitos neófitos), para perguntar algo como: assumindo que isso é verdade (necessidade de uma figura pública), por que escolheram Carlos Cruz e não Júlio Isidro, João Baião, Malato, Fernando Mendes, José Alberto Carvalho ou qualquer outro jornalista mais em voga do que o retirado Cruz?

Um ingénuo espectador (como eu) responderia: por só haver indícios/prova contra o acusado… Mas parece que a culpa é dos moços…

Admitamos agora, por um instante, que Carlos Cruz foi a figura pública falsamente envolvida por outras razões que não a participação nos hediondos crimes pelos quais foi condenado. Convinha, então, que explicasse aos mortais em que teias negociais ou solidariedades ocultas se envolvera para que merecesse ser alvo de tão horrível conspiração…

Uso o exemplo de Carlos Cruz não por ser o mais mediático, mas sim dos mais faladores. Não por ter algum preconceito contra ele, mas sim para exemplificar coisas mal explicadas. Não por acreditar que os demais condenados são inocentes, mas por suspeitar de que não se apanharam todos os culpados.

Se os envolvidos tanto sabem sobre o quão curta ficou a acusação, por que razão só falam depois de saberem que foram condenados? Não seria de interesse público que acusassem quem sabem que também participou, logo no início? E se sabem ou suspeitam de que há mais gente envolvida, ainda que apenas insinuando (a suprema cobardia, diria eu), como podem alegar que nada tiveram a ver com o caso?

Enfim… Era para rir, se não fosse tão grave!... Como se usava no cinema e na canção dos GNR é um filme “Hardcore – 1.º escalão”.

Para apreciadores do género - Bom

Estamos tramados!

Oxalá me engane, a bem de todos nós...

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Às vezes...

Às vezes fico com a sensação que o próximo orçamento de estado é do PSD e não do governo Socialista… Parece que o primeiro-ministro é o Pedro Passos Coelho e que todos os males deste país (incluindo a crise), é culpa sua…
Serão assim tão eficazes as ditas agências de comunicação???

terça-feira, 14 de setembro de 2010

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

anúncios à portuguesa


É certo que quase merecem uma condecoração por terem usado (e bem) do verbo «arrendar» e não do tão comum (e incorrecto) «alugar». Mas também era melhor, tratando-se de causídicos! Podia era ter-lhes ocorrido espreitar o serviço do lado de fora. Talvez tivessem dado pela falta de letras e de números, já que até o número de contacto está incompleto, com apenas oito dígitos. Já diz o povo que «depressa e bem, há pouco quem».

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Toma lá um bacalhau!

E pronto... Como eu temia, lá perdemos com a Noruega...

Agostinho Oliveira poderá ser o homem mais sóbrio do mundo, mas quem ouviu o comentário ao jogo deverá ter achado que o Dr. Oliveira estava com os copos!... É certo que tivémos domínio em termos de posse de bola e da troca da mesma em linhas recuadas, mas não é menos verdadeiro que apanhámos alguns sustos e que fomos, regra geral, inofensivos e monótonos no desenvolvimento das jogadas.

O mesmo Agostinho Oliveira pode até ser um bom adepto, mas jamais será treinador, razão pela qual diria que, há anos, "acampa" na Federação. Dispôs mal a equipa e mexeu tarde e timoratamente.

Não creio, como sempre disse, que as coisas melhorem com o regresso de Queiroz. Tem em ciência o que lhe falta em carisma e liderança. Acresce que o processo que o envolve é ridículo e devia cobrir de vergonha quem assim emporcalha o prestígio da selecção e o nome do seleccionador. Se era para despedir, que o fizessem de forma digna, por muito que o não aprecie como treinador.

A meu ver, o grande culpado é o Presidente da Federação. Gilberto Madaíl, de tanto se perpetuar no lugar e de tanto se encostar ao poder político, não só está falho de ideias como já não "assusta" quem quer que seja. Sem entrar na oportunidade da intervenção (creio que não foi a sua finest hour, confesso) do Secretário de Estado, Laurentino Dias, o mínimo que Madaíl podia fazer era defender sem apelo nem agravo o seu "funcionário" Carlos Queiroz. E o que fez?! Meias tintas (ou será meios tintos?!) como é hábito...

Este caso revela o pior do "ser português". Temo, porém, que no fim deste infame e vil processo não saíamos bem, pois já perdemos 5 pontos em 2 jogos e porque, a ser verdade, creio que Paulo Bento também está longe de caber no fato.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O eterno n.º 2


Já poucos acreditam nas qualidades de treinador principal de Queiroz.
A realidade é que este profissional da bola, por onde passou, não deixou grandes saudades… excepto no Manchester! Pois bem, daí a teoria fica comprovada:

O facto de seres um n.º 2 de elevadíssimo nível, não quer dizer que um dia possas ser um n.º 1 competente e reconhecido por todos!!!

Cá para nós… isto em política também é assim…
A ver vamos que vai correr o "fim de linha" para alguns autarcas...

NOTA: exclui-se desta análise (pouco fundamentada) o "case study" Mister José Mourinho...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Eyes wide shut

Depois de ler esta reportagem do Público sou levada a concluir que de pouco nos vale condenar meia dúzia de pedófilos deste país, se continuamos a fingir não ver que esses crimes são perpetrados todos os dias, quase diante dos nossos olhos e sem que alguém tenha coragem política para dizer BASTA.

domingo, 5 de setembro de 2010

Porque a ignorância ainda não paga imposto...

Lê-se na Ipsilon (suplemento do Público), a propósito do lançamento do livro "Salazar" de Filipe Ribeiro de Meneses, que "até 2009 ninguém ousou biografar António de Oliveira Salazar".

Alguém diga à Sô Dona Maria José Oliveira (autora do artigo/entrevista) que use menos a Wikipédia como fonte de sabedoria e que estude um nadinha que seja, pois esse esforço aparentemente impensável para a senhora dir-lhe-ia que o Embaixador Franco Nogueira (homem de quem se diz nem ter sido um "salazarista", apesar de ter servido o Estado Novo) escreveu uma biografia com o mesmo título, em seis volumes publicados pela Atlântida Editora (Coimbra), entre 1977 e 1985.

E nem é preciso ter uma edição em casa, como eu... Bastava ver o catálogo da Biblioteca Nacional, na Internet...

O novo livro deve ser bestial, a pseudo-jornalista será uma...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O Processo


Não é kafkiano, mas casapiano, o processo que marcou indelevelmente a nossa sociedade e que tudo leva a crer que, oito anos volvidos, ainda não tem fim à vista, apesar do significativo avanço que hoje se aguarda. O seu impacto deve-se sobretudo ao conjugar de dois factores: crime hediondo e repugnante (presumivelmente) praticado por figuras de relevo social. A fórmula não é de hoje, nem se restringe às nossas fronteiras, mas por cá despontou um interesse nos media como nunca antes tínhamos assistido.

Se por um lado esse interesse se traduziu em coragem - a dos órgãos de comunicação social que denunciaram o caso -, por outro, esse mérito foi ligeiramente ‘apagado’ pela sede dos que preteriram noticiar os factos a explorar, sem dó nem piedade, os aspectos puramente emocionais, causando profunda comoção na opinião pública.

Ora, se é certo que a denúncia pública é o papel essencial da comunicação social, certo é também que a ela não deve estar associada uma atitude sensacionalista, que adultere o bom serviço público até aí prestado. Porém, o processo Casa Pia não escapou a isso. Nunca antes a justiça portuguesa se vira transformada num reality-show, metáfora que alguns oportunamente usaram. Nunca antes se vira tantas conferências de imprensa improvisadas à porta dos tribunais. Nunca antes se assistira a tanta crítica ao modus operandi dos nossos tribunais, pondo em causa actuações e decisões.

“Quais são os melhores espectáculos contemporâneos, desportivos à parte?” questionou o jornalista francês Alain Minc. O próprio encontrou a infeliz resposta: “As grandes comoções colectivas? Não foram nem o genocídio ruandês, nem a guerra na Bósnia, nem a criação do euro. Mas sim o fantasma pedófilo, que percorreu de um extremo ao outro o continente”.

Note-se que este protagonismo e esta visibilidade social dos tribunais junto da opinião pública são relativamente recentes. Devem-se, sobretudo, ao chamados «novos tipos de criminalidade» com forte repercussão social e política, como é o caso da pedofilia mas também do crime económico organizado e da corrupção. Naturalmente que esse interesse intensifica-se consoante o grau de notoriedade dos cidadãos neles envolvidos.

E assim a justiça tomou de assalto as redacções e monopolizou os noticiários, o que se por um lado conduziu a uma maior consciência social dos portugueses, por outro, a avidez da comunicação social tem levado a que, com frequência, se excedam os limites da legalidade e da liberdade.

Mas é precisamente na base do desentendimento entre um poder constitucionalmente consagrado – o poder judicial – e um poder atípico, o chamado “quarto poder”, que se encontra a maior virtude deste processo. É que as opostas lógicas de funcionamento e os diferentes universos de regras, princípios e interesses ofereceram, e oferecem, matéria-prima bastante para que a justiça portuguesa repensasse questões como o segredo de justiça, prisão preventiva, as escutas telefónicas, a competência e a habilidade dos defensores, entre muitas outras problemáticas, abrindo caminho a reformas legislativas.

Quanto à comunicação social, estou em crer que, no exercício da sua actividade, tem agora uma percepção mais nítida e rigorosa da fronteira entre a liberdade de imprensa e o, não menos fundamental, interesse punitivo do Estado e da eficácia da investigação criminal.
Independentemente do desfecho deste processo, uma coisa é certa: ele definiu um antes e um depois na justiça e na sociedade portuguesa.
*Foto da revista Visão

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Assim andamos

O País arde e o que me espanta é que todos os anos ainda haja mais qualquer coisa para queimar. Nisto, todos os verões se prometem cadastros e limpezas coercivas de matas e quem se mata é a natureza… Acresce que adoro (sublinhe-se a ironia que a tinta não traduz) quando os responsáveis políticos dizem que “não foi o ano pior” e ainda mais quando o dito “ano pior” cai no consulado de outro partido… Soluções reais é que “tá quieto!”…

No meio de tanto ruído, endurecer as penas e acabar, em geral, com uma legislação penal e processual penal com complexos de esquerda e brandura digna de um retiro budista também parecem tarefas para alguém que ainda não nasceu.

Por outro lado e deixando de parte outras tragédias, a imagem que os portugueses que estão longe vão colhendo é a de um País que, a mais de arder, ocupa tempo incomensurável com um guarda-redes. Sim, mesmo a RTPi e a SIC-Internacional têm cumprido o serviço público (ria-se, pois é melhor do que chorar) de informar a diáspora sobre os “frangos” de Roberto e as alegadas intenções do Benfica de o despachar. O que ainda ninguém explicou à rapaziada é como se pagaram oito milhões de euros por um guarda-redes que não é da elite mundial ou sequer europeia… Depois e por muito que ache que o rapaz não há-de ser tão mau como o pintam, não querem que se pense que há coisas e fortunas estranhas no futebol…

Por fim, recupero um tema que me arrepia desde o início da silly season, pelo muito que tem de silly ou tolice: a polémica em torno da Constituição e da sua revisão. Sou amigo do Professor Calvão da Silva, com quem muito aprendi, mas parece-me que dizer que a proposta de revisão é aberta, depois do também meu amigo e líder parlamentar Miguel Macedo ter dado sinais do contrário, parece-me que só vem complicar os dados de uma equação que já me parecia inoportuna por oferecer ao PS, em momento de crise, a oportunidade de fazer a figura de defensor do serviço público.

Dir-me-ão os autores da proposta que o que escreveram e disseram foi distorcido. Até pode ser, mas há quantos anos andam na política? Um auto-golo não é golo do adversário?!

A meu ver mais valia preocuparem-se com estado de indigência cultural do país (o orçamento da Cultura, que já é ridículo, parece que não escapará às cativações das Finanças!...) ou com o pagode que rodeia os criminosos que não vêem incentivo legal para mudarem de vida… De todo o modo, como tenho dito, havia tiros mais certeiros para disparar nesta altura, estou certo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

I'm Lovin' It

Nos seus primórdios, a MacDonald’s posicionou-se no mercado como uma empresa que disponibilizada “refeições rápidas e acessíveis”. O seu negócio era assim definido e essa era a mensagem que transmitia ao mercado.

Isto vem a propósito de um estudo de Peter Drucker que reli há pouco tempo e que explica a importância dos gestores colocarem a si mesmos um conjunto de questões que, dada a sua importância, influenciam o curso de uma estratégia. Uma dessas questões é: “Qual o seu negócio?”

A avançar pela teoria de Drucker, será que se a MacDonald’s tivesse definido na altura o seu negócio como uma empresa que comercializava hambúrgueres, saberíamos hoje o que era o BigMac?

Não há pachorra

Não há forma e/ou vontade de dar a volta a um cancro que assola o centro das cidades portuguesas. Refiro-me aos malditos “arrumadores de carros”.


Como se já não bastasse, por vezes, ter de engolir sapos e dar moedas a esta cambada de parasitas da sociedade (sob pena de me riscarem o carro outra vez!), ainda tenho de ouvir os desabafos dos Srs.


Hoje, em Coimbra, após estacionar e dar os 0,50€ ao "Sr. Arrumador" devidamente credenciado, estaciona de seguida outro carro cujo condutor não deu nada, justificando (ainda temos de justificar!) que não trazia moedas consigo.


Ora, imagine-se o desplante do "Sr. Arrumador", ao virar-se para mim e dizer que aquela era a “desculpa de mau pagador”!


Ou seja, parece que os tipos já são donos dos estacionamentos e que a malta que não dá a moeda, fica a dever...

Não deslumbra, mas vê-se