sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A razão pela qual se não pode abrir a janela do avião

Creio piamente que tudo tem limites na vida. Felizmente, estamos ainda por conhecer quais os limites da resiliência social dos povos europeus; ou seja, vivo perguntando-me até quando podem os cidadãos ser prensados, habituados que estão às larguezas do modelo social europeu…

Confesso que me impressionaram os protestos de Madrid, na terça-feira. Pessoas que pediam implicitamente a mudança de regime (refiro-me às bandeiras republicanas), outras que acusavam os políticos de “venderem Espanha” e muitas que alimentam sondagens com o declínio claro dos partidos “de governo” em detrimento das propostas alternativas.

Por cá é o que sabemos. Milhares de pessoas saindo à rua sem motivação partidária, antes procurando gritar a sua genuína angústia pela casa que se vai, pelo emprego que se foi e pelo futuro que deixou de ser…Do que posso perceber à distância, as últimas manifestações simultâneas foram pacíficas, civilizadas e sentidas, tirando alguns bonzos, histriões e delinquentes profissionais que se mascaram com vestes anarquistas ou trotskistas e tentam estragar o protesto democrático e justificável de 99,9% dos que protestam. Felizmente, as nossas forças policiais (que, relembremos, também sofrem os mesmos apertos, tendo que trabalhar como nada se passasse) e a opinião pública sabem perceber que um outro meliante que apareça com os amigos em S. Bento ou Belém nada mais é do que um criminoso que em nada mancha a mensagem que um grande número de portugueses quis passar.

Dito isto fica por perceber se, a mais das elites, a grande massa de dirigentes de PSD, PS e PP estão preparados para mais do que remendos numa vela que se rasga com a força da borrasca económica. Ainda há não pouco, alguns dos novos protagonistas “laranja” defendiam projectos de empresarialização e condicionamento profissional dos tradicionais gabinetes de estudos o que, a meu ver e por muito que se apontem soluções estrangeiras análogas, representa o contrário da livre criatividade humana (a tal que, nem que fosse através de erros, nos fez progredir como espécie) e o apogeu da lógica clientelar de aspirantes a “poderoso” que, em certos casos, tem o carisma de um caracol e o humanismo de um seixo.

Enquanto vejo arder nas chamas do desespero popular a última geração de políticos cujas ideias reais se conhecem e percebem (refiro-me ao actual Governo e aos que se lhe opõem partidariamente), ninguém explica quando tudo isto pára, quando os Estados europeus dizem que chega de ditadura financeira ou sequer como podem as pessoas sobreviver sem casa, sem trabalho ou com salários que não cobrem os preços das coisas essenciais.

É por tudo isto que não me importava que deixassem Mitt Romney e outros políticos contemporâneos abrirem as janelas do avião, por muito que o primeiro não perceba a razão pela qual tal não é permitido…

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O NAUFRAGIO IMINENTE

De semana em semana, a crise portuguesa , económica e politica, toma proporções alarmantes. O barco mete água por todos os lados, o comandante  , completamente louco, perde o controlo não só do barco mas da tripulação também. Por vezes é o segundo que dá ordens, mas na realidade todos acatam ordens do exterior, daqueles a quem pouco importa que o barco dê à costa e se espatife contra os rochedos. Assim foi com a Grécia, assim pode ser com Portugal.
O povo português, consciente do perigo, reagiu em massa. Mas isso não chega. A necessidade premente duma outra navegação impõe a mudança  da tripulaçao.

O capital financeiro, cuja ganância não tem limites, depois de lançar o mundo numa crise sem precedente, vigarizando Estados e milhões de cidadãos a quem vendeu produtos financeiros fraudulentos, tem a pouca vergonha de pedir aos governos, isto é aos contribuintes, de pagar a factura dos seus actos criminosos.

Não completamente satisfeito, tendo criado a instabilidade financeira da qual retira imensos proveitos, especula agora sobre a dívida publica. Nunca os especuladores internacionais ganharam tanto dinheiro que durante esta crise. As taxas de juro usurárias arrancadas aos governos são fontes de enriquecimento muito mais rápido e elevado que na economia real. E a regra imposta pela Alemanha de Merkel ao Banco Europeu, que empresta aos bancos a 1% para que estes emprestem aos governos a 7 ou 8%, é um dos maiores escândalos nesta Europa dividida que falhou  às esperanças dos povos.

O ultimo ataque do governo contra os Portugueses, visando a liquidação do Estado Social, inscreve-se perfeitamente nas intenções da finança internacional , que quer pôr os europeus ao nível dos asiáticos, retirando-lhes todos os frutos de dezenas de anos de progresso social, para que os investidores internacionais, os mesmos que especulam na dívida dos Estados, possam auferir dividendos cada vez mais remuneradores..

Perante esta crise, os partidos políticos ditos de governo,  que aprenderam na mesma escola da social democracia a gerir o capitalismo,  apresentam-se em ordem dispersada e não demonstram capacidade para combater eficazmente a interferência estrangeira.. Não podem continuar a colocar os seus interesses eleitorais e partidários acima dos interesses dos portugueses.

Para todos os que agora estão a empobrecer só haverá esperança se os partidos e organizações tiverem finalmente a lucidez de ultrapassar as suas divergências, para construir uma alternativa sustentável que seja capaz de enfrentar a ditadura da Troïka.

Ao  procurar conciliar interesses divergentes, ao obedecer cegamente às ordens da Troika, indo mesmo mais longe na aplicação da austeridade que o que esta lhe impõe, este governo  esquece que renegar o seu próprio programa eleitoral lhe retira toda e qualquer legitimidade para governar.

Não é possível de continuar a  ver empresas a fechar, centenas de milhares de desempregados sem qualquer apoio social, jovens que abandonam o país, no qual perderam toda esperança, o roubo aos pensionistas, a pobreza envergonhada, o desespero e a amargura enchendo as praças.

O guião desta gente é o mesmo que levou à desgraça que se vive na Grécia.

É falso que não existam alternativas que permitam restaurar as finanças públicas sem destroçar o país.

É falso que esta política tenha tido algum sucesso, nem mesmo sequer no seu apregoado objectivo de resolver o problema do défice.

É falso que só depois de destroçar as empresas e reduzir à miséria os que vivem do seu trabalho, será possível fazer nascer dos escombros uma nova economia saudável.

Que as forças vivas da Nação acordem antes que seja tarde demais.

 
Freitas Pereira

A sagrada distância entre o respeito e o medo

Os jornais sul-africanos podem ser uma leitura interessante por vários motivos, com uma nota de relevo: apesar de algumas polémicas políticas sobre a liberdade de informação, são órgãos de comunicação social livres.

Prova do que fica dito uma das últimas edições do Sunday Times que titulava na página 5: “’Light’ beating of wives condoned”. Trocado por miúdos e em português (sem Acordo) diz a notícia que a South African Human Rights Comission e a Comission for Gender Equality decidiram que uma interpretação do Corão em voga na África do Sul (a do autor indiano Abdulla Yusuf Ali, já falecido) que propugna o espancamento suave das mulheres não tem como resultado incitar ou desvalorizar a violência contra as mulheres.

Segundo Fayzal Mahamed, o activista dos direitos humanos que apresentou a queixa ora decidida, a versão daquele autor propõe (tradução minha) que em caso de deslealdade ou conduta inapropriada por parte da mulher, três medidas devem ser gradualmente aplicadas, começando na amoestação, continuando na recusa de partilhar o leito e, por fim, la pièce de résistance: bater, embora com moderação. Adverte ainda o autor que os castigos devem cessar se a mulher voltar a ser obediente…

A citada Comissão para os Direitos Humanos consultou académicos que lhe asseguraram que a interpretação em causa não deveria ser banida e que não decorria da mesma qualquer incitamento à violência contra as mulheres. Um deles, o Professor Farid Esack, Director do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade de Joanesburgo, saudou mesmo a decisão, dizendo que é absurdo dizer que essa passagem e respectiva interpretação estimularão o espancamento de mulheres, pois “a Bíblia diz ‘não roubarás’, mas esse texto não faz com que todos os Cristãos sejam automaticamente pessoas honestas”. Sendo que não procuro aflorar o difícil e sensível tema dos Livros Sagrados (ambos, diga-se), cito a passagem por me parecer particularmente capciosa… O Académico citado parece desconhecer a diferença entre uma ordem afirmativa (açoitar) e uma proibição (não roubar); o texto islâmico está na fase da punição de uma infracção, ao passo que o seu homólogo cristão ainda está na fase do postulado, ou seja, da norma cuja violação se não pretende (mal comparado, o “não roubarás” corresponde ao dever de obediência da mulher formulado pelos muçulmanos).

Se chamo o assunto à colação é, porém, por outro motivo: as sociedades ocidentais vivem um tempo de castração axiológica e de relativismo moral ante algumas interpretações do mundo islâmico que têm que ser condenadas. A prova disso está no mesmo artigo, que cita palavras do activista referido para dizer que a Comissão para os Direitos Humanos passou do entusiasmo revelado no momento da queixa ao desinteresse da altura em que se aperceberam que seriam a primeira entidade do género no Mundo a banir uma interpretação do Corão.

E o leitor bania-a?

domingo, 23 de setembro de 2012

Heróis portugueses


A “aldeia global” até estava organizada de forma simples: mão-de-obra barata a oriente, marketing, gestão e lucros a ocidente. A consequência foi obviamente a desindustrialização das economias ditas mais desenvolvidas, sobretudo a europeia.

Portugal precisa de fazer crescer a sua economia e se as reformas estruturais em curso demoram tempo a produzirem efeitos, a única esperança é pela via das exportações. Os que já exportam deverão exportar mais e aqueles que não o fazem mas que têm produtos ou serviços com capacidade exportadora devem fazê-lo.

E é aqui que se encontram os heróis portugueses que vos quero falar. Deixar de encarar as atividades de uma empresa apenas no contexto nacional virando-se para mercados externos não é fácil.

Para exportar é preciso dinheiro, algo que não abunda nos tempos que correm. Depois, são vários os exemplos de empresas que ao enveredarem por processos de internacionalização colocaram em causa a sua sobrevivência no país de origem. São conhecidos casos, a título de exemplo, em Angola, onde o sonho do lucro fácil sucedâneo ao crescimento económico que se tem verificado naquele país tem levado muitas empresas portuguesas a arriscarem a sua sorte e os resultados nem sempre têm sido os melhores.

Mas os dados conhecidos no domínio das exportações são animadores, apesar das dificuldades. Têm tido um comportamento que nos deverá deixar confiantes, dando à nossa economia uma dinâmica exportadora.

E os protagonistas desta heroicidade têm rosto e não são aqueles que mormente aparecem nos noticiários a pavonearem-se com os resultados que as exportações portuguesas têm vindo a alcançar. Os heróis são as empresas e os seus gestores, que, convenhamos, são quem estão a tentar tirar o país desta crise em que nos vimos cravados.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

“Desvalorização fiscal” obsessão ou ignorância


Começando pela declaração do 1º Ministro de Sexta-feira e acabando na conferência de imprensa de ontém do Ministro das finanças, tudo foi mau e ou me engano muito ou estamos a assistir ao princípio do fim. Mais uma vez não me custa nada dizer que sou social democrata e fui desde a primeira hora apoiante de Pedro Passos Coelho, mas esta condição não me limita nem me tolda o raciocínio.

Sei que a memoria é curta e demasiado selectiva por vezes, mas quem já se esqueceu, de palavras como, transparência, rigor, equidade, honestidade, seriedade, verdade e outras tantas proferidas por Pedro Passos Coelho, tanto em campanha eleitoral como no discurso da vitória. Eu não me esqueci, voltámos a ouvi-las? Não. Seria importante ouvi-las de novo? Não, porque o importante é que isto seja uma prática e uma realidade.

Mas vamos aos factos políticos mais relevantes:
O 1º Ministro assumiu pessoalmente a responsabilidade por uma medida que é uma monstruosidade e uma aberração do ponto de vista conceptual e dos efeitos que em si encerra, porquê?

Porque acredita nela e desconhece os efeitos preversos que ela gera?  Porque não tinha outra escolha? Por vingança ao Tribunal Constitucional? Por imposição da Troika ? Por puro experimentalismo? Por ignorância e incompetência? Por imposição daqueles que serão os grandes beneficiários?

Pessoalmente estou em querer que por nenhuma delas, mas por todas.

Então anuncia-se uma medida detalhadamente no que respeita ao esforço adicional para os contribuintes e à poupança para as empresas e não se detalham mecanismos de segurança para assegurar a sua efectividade?

 Estima-se que no caso da EDP, este medida possa gerar uma poupança anual directa de 10 milhões de Euros, desconhecendo-se para já outras poupanças indirectas por via das sub-contratações, outsourcings e outros contratos que envolvam recursos humanos.

No fundo, subtraem-se aproximadamente 12 milhões de euros dos rendimentos anuais dos trabalhadores da EDP, para dar 10 milhões à própria EDP e 2 milhões aos cofres do Estado.

Ora, segundo entendemos das explicações dadas tanto do 1º Ministro como pelo Ministro das Finanças, o objectivo desta medida seria não só o de conter o desemprego, mas também gerar alguma tesouraria tão necessária às pequenas empresas, numa altura em que o acesso ao crédito é limitado ou muito restrito. 

Nada mais falso e porquê, recorramos à matemática!!!

EDP, não tem dificuldades em aceder ao crédito, tem aproximadamente 7.000 trabalhadores, com um salário médio médio anual de 25.000€ X 5,75% que é a redução na TSU = 10. 062.500€

Sejemos sérios e apliquemos a medida ao verdeiro tecido empresarial Português, as PME’s, estas sim, com dificuldade na obtenção de crédito.

Segundo dados do INE, existem mais de 1 milhão de PME’s que em média empregam 8,28 trabalhadores e é com esta realidade que vamos refazer as contas.

PME, 8 trabalhadores, com um salário médio de 20.000€ X 5,75% de redução na TSU = 9.200€/ano, que para efeitos de tesouraria representa 767€/mês.

Perante estes factos, creio que nas razões invocadas anteriormente esqueci-me de uma, que essa sim terá estado na origem da comunicação do 1º Ministro na sexta-feira passada.

A media é tão estupida do ponto de vista da racionalidade económica, é tão injusta e tem efeitos tão preversos,  que o Ministro da finanças se terá recusado a ser ele a anuncia-la em primeira mão.

A saber esta medida retira 2.8 mil milhões de euros aos trabalhadores, gera uma poupança para as empresas na ordem dos 2.3 mil milhões de euros e o remanescente ficará para os cofres públicos para continuarem a desbarartar como o têm feito até hoje.

Os efeitos preversos a que me refiro são os seguintes:

- São menos 2.8 mil milhões de euros retirados ao consumo, que tanta falta fazem para sustentar pequenas empresas que vivem exclusivamente do mercado interno, geram dificuldades economicas acrescidas a quem fica sem esse rendimento.

- Os 2.3 mil milhões de euros que vão para as empresas, 90% não serão reinvestidos, nem servirão para manter ou criar postos de trablho, mas pelo contrário serão canalizados para os accionista que através de SGS e outros artifícios os colocarão em offshores, carros de luxo, barcos de luxo e afins.

- Esta transferência de rendimentos dos trabalhadores para as empresas, é de uma preversidade nunca vista e uma provocação a todos os Portugueses

- O consenso que se conseguiu gerar ao longo destes tempos muito positivo e elogiado por todos, foi colocado em causa e não me parace bem que se acusem os partidos da oposição, sindicatos e outras organizações de não apresentar alternativas, porque perante esta medida imoral a única solução é suspende-la, re-estuda-la e pedir desculpa aos Portugueses.

Finalmente e só a titulo de exemplo, na próxima reunião de direcção da empresa em que sou gestor e caso esta medida vá para a frente, proporei que o valor retirado aos trabalhadores lhes seja reposto, através de prémios de productividade por forma ao saldo ser ZERO.

Estou certo de que muitos empresários com o mínimo de consciência social e visão de futuro farão o mesmo, não só pela imoralidade e preversidade da medida, mas também, porque os efeitos negativos na desmotivação e productividade dos nossos colaboradores  será muito acima dos 5,75% de uma suposta poupança.

Espero com este texto ter contribuído para aclarar algumas mentes menos esclarecidas e desejar que tudo isto não tenha passado de um mal entendido.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Valores de Ontem e de Hoje

Há dias em que é difícil crer que a nossa civilização ainda tem recursos para se salvar do salto no abismo , onde pouco a pouco caiem todos os valores que foram os nossos e que foram aliás a bandeira das naus e caravelas de antanho enviadas à descoberta do mundo.

Esta manha estou mais desesperado que ontem. E amanha estarei certamente menos que depois de amanha!
A nação orgulhosa que teve como rei o quinto imperador da Europa medieval, Carlos V, império sobre o qual o Sol no oeste nunca desaparecia completamente, a pátria de Cervantes, mas também , hèlas, do Papa Alexandre Sexto Borgia,  célebre pelas orgias do Vaticano, e a de Santo Inácio de Loyola , dos inventores da Inquisição e dos autos da fé macabros, para impor uma religião, enquanto que ao longe outras religiões e civilizações eram destruídas com os povos aniquilados pelos conquistadores, esta nação tão violentamente e fanaticamente religiosa, que gastou toneladas de ouro, extraídas pelos escravos índios, para embelezar igrejas e  catedrais monumentais, esta nação que tanto sofreu numa guerra civil onde um milhão de mortos pagaram a questão de saber qual tipo de sociedade seria a mais justa e humana, esta nação orgulhosa, desce para a rua em Barcelona para gritar o seu desespero .
Quando os povos perdem a esperança no futuro , as nações desagregam-se.
O Império de Carlos V , que englobava tantos povos disparates :  Portugueses (sob Filipe II), Catalães, Bascos, Galegos, Castelhanos, Andaluz, Borgonheses, Flamengos, Italianos, Austríacos, Neerlandeses, Nápoles, Sicília, Stiria, Coríntia, Alsácia e Lorena, etc,etc, e a pérola aurífera do Novo Mundo, a América Central e metade da América do Sul, tudo isso sob a mão de ferro dum só homem, que quando chegou da Flandres para ser Rei de Espanha, nem sabia falar espanhol, um Habsburgo, imperador do Santo Império Germânico que acabará a sua vida num humilde mosteiro da Estremadura, em Yuste, que visitei, esse império acaba de se desmoronar, pela queda do coração donde tudo partiu.
Choque terrível ao ver um milhão e meio de catalães gritar que não querem ser mais espanhóis. Que não querem continuar a financiar Madrid e que preferem a independência.

Grandeza e decadência dum Império.

Mas que pensar da decadência moral, quando se lê um anuncio como o que transcrevo, dum jornal de hoje.
"La agencia que ofrece «cursos de prostitución profesional» en Valencia ha retomado su actividad después de que la Fiscalía cerrara el pasado mes de julio las diligencias de investigación penal abiertas a raíz de una denuncia presentada por la Abogacía de la Generalitat. Con el inicio del curso, los promotores de esta iniciativa vuelven a ofrecer sus servicios, un curso de una semana de duración, a un precio de cien euros.
Para ello, la empresa, que no se identifica en sus folletos, ha puesto en marcha una nueva campaña de captación de «alumnos».
Desde la agencia organizadora remiten a los aspirantes a «profesionales» del sexo a un piso ubicado en el barrio de Ruzafa y aseguran que tienen que ser mayores de edad, podrán aprender «qué deben hacer, cómo y dónde» en relación con la prostitución.

«Esta formación ni se obliga ni se sugiere, porque se tendrán que realizar cosas que no son agradables, aunque cada uno puede hacer con su cuerpo lo que quiera. El trabajo está asegurado y el dinero se conseguirá de forma rápida», según sostienen."

Tantos autos da fé, para chegar aqui! Se fosse supersticioso, diria que é a vingança dos Aztecas, Incas, Mayas, e todos os outros dicimados pelos propagadores da fé.

Freitas Pereira

domingo, 9 de setembro de 2012

As Palavras em "ISMOS"

As palavras em «ismos» significam frequentemente algo de excessivo! Violento ou poderoso. Desde que o comunismo e o nazismo desapareceram da cena (não direi a mesma coisa do fascismo, que ainda subsiste, mesmo se ainda existem relentos de comunismo), poderia perguntar-se quais são os «ismos» que nos vêm ao espírito, hoje.


Estou convencido que a resposta de alguns poderia ser o nome dum demónio actual, como o Islamismo, fanático e intolerante. Sobretudo quando se confunde Islão e Islamismo.
Eu teria tendência a nomear um outro que, sob um nome mais vendável, porque não existe nenhuma outra ideologia que se pretenda não-ideológica, nem de direita nem de esquerda, a via suprema segundo alguns: é o liberalismo.

Penso, ao escrever estas palavras, em Alexis de Tocqueville, um liberal francês, que escreveu, entre outros, De la Démocratie en Amérique. Um livro que recomendo, e que não é de hoje!


Que escrevia, pois, o nosso aristocrata de Tocqueville ?

Que os meios sangrentos para conquistar o outro podiam justificar-se, e via nisso o triunfo da Cristandade e da Civilização, o que era claramente um destino criado pela Providência. Assim estavam justificados os horrores da colonização das Américas, a destruição das civilizações índias. Um outro liberal, John Stuart Mills escrevia em 1859 ( On Liberty 'Sobre a Liberdade'): Face aos bárbaros, o despotismo é um modo de governo legítimo, com a condição que o objectivo de os transformar e melhorar seja atingido, e os meios utilizados sejam justificados.Os bárbaros designavam grande parte da humanidade.

O imperialismo (mais um ismo) à moda liberal pode ser mais perigoso por causa da natureza aberta que o caracteriza, variável e a convicção que ele constitui uma forma de vida superior, ao mesmo tempo que nega o seu fanatismo moralizador. Estas palavras vêm a respeito da lenta volte-face de Madame Merkel, que começa, enfim, a admitir que, para salvar o Euro e os povos europeus é necessário deixar à BCE a liberdade de levar um pouco de oxigénio aos governos estrangulados pela dívida soberana. Claramente, de deixar o banco europeu fazer o seu trabalho normal, que é o de aliviar a economia europeia comprando as dívidas dos estados, porque a austeridade sem fim, nunca poderá substituir o crescimento económico. Obama fê-lo!

Seria realmente perigoso para todos se os deixasse-mos continuar a sugar as ultimas gotas de sangue dum moribundo, que já não pode mais!

O imperialismo liberal da Frau Merkel, que tende a considerar os países do sul da Europa como os bárbaros de hoje, e pretende organiza-los à volta da Alemanha, das suas leis, e dos seus imperativos económicos, faz-me pensar num discurso famoso dum arauto do liberalismo, com um verniz de social-democrata, Tony Blair, que num discurso pronunciado após os atentados do 11 Setembro 2001, prometia de reorganizar este mundo à nossa volta e dos nossos valores morais! Um milhão de mortos mais tarde, só para o Iraque, este tribuno do liberalismo tem um emprego pago 13 milhões de $ pela tirania do Cazaquistão.


Espero ardentemente que a filosofia «moral» liberal de Frau Merkel não nos vai enviar para o abismo, enquanto que ela encontrará um emprego bem pago «chez» Putine, como o predecessor Shroeder.

Freitas Pereira

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Uma cidade que se quer única

Penso, em concreto, na Cultura, área em que não basta confiar no repouso que oferece a sombra de glórias passadas. 
Bem sei que ao abordar a temática não nos devemos cingir a grandes eventos, grandes assistências, artistas mediáticos, exposições de artes consagradas ou a peças teatrais aclamadas. Cultura não se limita a isso. 
Porém, o exercício que vos proponho implica centrarmo-nos na cultura mediática, aquela que atrai multidões, preenche páginas de jornais e aparece nos noticiários. Aquela que, para muitos, é a que recebe o que de melhor se faz em cada uma das áreas. 
O que será preciso para ter essa cultura? Vontade política? Seguramente. Investimento público? Naturalmente. Investimento privado? Convém. Mas não chega. É preciso ter capacidade instalada, designadamente estruturas físicas capazes de competir nesse segmento de mercado. 
E nesse domínio, o das infraestruturas culturais com dimensão para acolher eventos internacionais, há uma desigualdade tremenda em Portugal, que se reflete na distribuição de subsídios e consequentemente na oferta cultural. Sentemo-nos à mesa do Orçamento de Estado (via Fundo de Fomento Cultural) e verificamos uma centralização em Lisboa e no Porto dos apoios concedidos à atividade cultural. 
Para efeitos de enquadramento do leitor, em 2011 a Coleção Berardo recebeu 2.670M€; a Casa da Música 2.308.M€; o Centro Cultural de Belém 7.520M€; Serralves 2.384.M€. A estas, acrescentemos Orquestras, Associações, Teatros, Institutos e outras Fundações e percebemos uma realidade muito díspar. 
Não tenhamos ilusões. Coimbra, apesar de cidade que sempre se assumiu como um centro cultural de referência não tem capacidade para competir com Lisboa e Porto nestes segmentos, porque não tem a tal capacidade instalada que acima vos falei. 
Em Coimbra sempre houve carência de um lugar de excelência para a realização de grandes eventos, que ajude a combater a centralização da oferta, aproveitando assim as potencialidades oferecidas pela região, um espaço que possa disputar públicos. 
Por isso é que a obra que está a erguer-se em Santa Clara, o Convento de S. Francisco, é de mérito indiscutível para a cidade. 
Será um Centro Cultural que dará a possibilidade de acolher grandes eventos, espetáculos de teatro, ópera, orquestra, arte moderna, entre outros. Mas será também um Centro de Congressos (que poderá utilizar a matéria prima dos Hospitais ou da Universidade de Coimbra), com um auditório com capacidade para potenciar essa área do Turismo, o de Convenções. 
Apesar deste ser um estádio de fraco desenvolvimento resultado da crise económica que vivemos, Coimbra sairá a ganhar. E claro, quem gosta de Cultura agradece.

sábado, 1 de setembro de 2012

O Apartheid Económico na África do Sul

"Com uma infinda tristeza choro convosco a perda de tantos colegas", assim se exprimiu o presidente da firma Lonmin Pic, sediada em Londres, evocando o assassinato de 34 mineiros grevistas da mina de platina de Marikana. Lágrimas de crocodilo, na realidade! 

Sida, tuberculose e outras doenças pulmonares profissionais, salários de miséria, etc., e a polícia atira nas costas! E os patrões que choram! Os mineiros faziam greve não somente para reclamar melhores salários mas, também, contra um sistema de exploração insuportável. 

Lonmin, que jura agir com honestidade, transparência e respeito, utiliza uma grande parte da mão de obra de subcontratantes das comunidades afastadas da mina, exercendo chantagem contra os trabalhadores, excitando uns contra os outros. Aliás, o trabalho precário seria a causa de numerosos acidentes de trabalho nesta mina, não esquecendo as condições sanitárias deploráveis e os estragos ambientais provocados pelos resíduos da mina.

A água é confiscada aos habitantes, que só podem utilizá-la durante a noite e ainda por cima, poluída. Assim, quando 3 000 mineiros decidem de bloquear a mina, fazendo greve, os tribunais declaram-na ilegal, e lançam um ultimato aos grevistas: ou voltar ao trabalho ou despedimento. Ultimato final para 34, que foram assassinados e 78 feridos, dos quais muitos nas costas! Quatro dias mais tarde, os 28 000 trabalhadores voltaram ao trabalho. A ordem tinha sido restabelecida. Tudo é calmo! Os mortos foram enterrados. 

A Lonmin, a Impala Platinum Holding e a Anglo American Platinum, três multinacionais proprietárias da mina, estão satisfeitas!

O cenário estando assim plantado, a mina de Marikana evoca exactamente o quê? 80% da produção mundial de platina, utilizada sobretudo na produção de tubos de escape catalíticos para a industria automóvel. 

O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, ordenou uma comissão de inquérito! O resultado é previsível: os mandantes são de peso e nada mudará nas condições de trabalho dos mineiros de Marikana.

Por curiosidade, dei uma vista de olhos pelo "site" da Lonmin: a galeria das fotos dos colaboradores dirigentes,( com os olhos ainda enxutos!) são todos (excepto dois) bem brancos e "so british"!

 Quando vi na televisão a polícia negra e branca da África do Sul, abater com armas automáticas estes pobres "colegas" do presidente da Lonmin, pensei que se o apartheid politico foi extirpado pela luta longa e dura da ANC, o apartheid económico persiste. Razão pela qual a juventude da ANC, desafiando as instâncias superiores do partido, pede a nacionalização das minas. 

Claro que este problema vai muito mais longe que a África do Sul. Ele é emblemático dum apartheid global, a través do qual as poderosas elites económicas e financeiras se apoderam da riqueza produzida com o trabalho e os recursos do mundo inteiro, excluindo a larga maioria do planeta dos benefícios respectivos. 

E quando alguém se levanta contra um tal poder, as armas apontam sob o manto da legalidade!

Assim vai o mundo, e tendo lido há dias que os Americanos, protegidos pela lei HR 3422 do Congresso, vão utilizar o material bélico retirado do Afeganistão e do Iraque para o utilizar na caça aos Mexicanos que procuram entrar nos Estados Unidos, fugindo às "maquilladoras" para obterem salários mais elevados, o muro do apartheid do Rio Grande verá cada vez mais de corpos estendidos no solo a alguns metros do Eldorado! 

Como se chamava aquela ceifeira do Alentejo, assassinada pela GNR ,( às ordens dum sistema nefasto), abatida por causa de greve? 

Freitas Pereira

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O território vai encolher?

A Reforma da Administração Local é de uma “violência” reformista sem precedentes que toca em todos os aspetos do modelo organizacional da gestão local. Bastará atentar nos diplomas legais que irão ser alvo de revisão, cerca de treze, de acordo com o Documento Verde.

Aparte o juízo pessoal de admitir que os portugueses estão concordantes quanto ao seu objetivo, que visa o reforço da prestação do serviço público, temos contudo lido e ouvido muitas críticas, especialmente no eixo que diz respeito à organização do território. 

Existem atualmente 308 municípios e 4.259 freguesias em Portugal. Segundo os censos de 2011, cerca de 3.085 freguesias perderam população e existem 1.418 com menos de 500 habitantes! 

Ou seja, as conclusões são evidentes: há muitas freguesias sem escala, inclusive urbanas, e outras que, tendo-a, os seus níveis populacionais em alguns casos são 7 ou 8 vezes mais que alguns concelhos. Veja-se o exemplo do distrito de Coimbra, que dos seus 17 concelhos, apenas a Figueira da Foz tem uma população residente superior à freguesia de Santo António dos Olivais. 

Depois, demandemos, fará sentido haver freguesias urbanas com menos de 1.000 habitantes, como há em muitos concelhos? 

Reconhecendo a pertinência de algumas críticas e da necessidade de salvaguardar as questões relacionadas com a interioridade, convém contudo atender que o nosso mapa administrativo data de finais do século XIX e que houve realidades que se alteraram desde então, nomeadamente a distribuição geográfica da população. 

Importa também realçar que, a confiar no que tem dito o Governo, nenhum recurso público será perdido com a agregação de freguesias. Manter-se-ão todos. 

Depois, poderão os respetivos autarcas de cada concelho, através da sua Assembleia Municipal, definir a sua própria organização do território, desde que respeitando os parâmetros da Lei. 

Concorde-se ou não com a Reforma, já se percebeu que é mesmo para avançar, não fosse ela um caderno de encargos do contrato de empréstimo celebrado com a Troika e o Governo PS, em representação do Estado português. 

Agora, convém fazer com que seja efetivada como uma alavanca à competitividade, não esquecendo, claro está, o contributo de todos, a começar nas populações e nos seus legítimos representantes. 

Portanto, o que se pede é uma Reforma que promova ganhos em termos de eficiência e eficácia. O processo poderá até nem ser do agrado de todos, mas ao menos, haja o consolo em saber que o território não vai encolher, vai continuar a ser precisamente o mesmo, ou seja, não estamos a ser alvo de uma qualquer invasão ainda por enxergar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Elas mandam..!


O próximo número da Forbes só sai no próximo dia 10 de Setembro mas a lista das 100 mulheres mais influentes do Mundo foi já revelada. A capa é feita com a terceira classificada, Dilma Roussef, que fica apenas atrás da chanceler Alemã (no topo pela 5ª vez em 7 anos) e de Hillary Clinton, tal como sucedeu no ano transacto. Ou seja, não parece haver grandes mudanças no top das mulheres poderosas. 

Porém, há alguma entradas curiosas, como o caso de Lady Gaga, que é a mais jovem de todas as mulheres incluídas e ocupa o 14º lugar, não muito longe de Michelle Obama ou Christine Lagarde e à frente da Rainha de Inglaterra, que surge em 26º lugar. 

Portugal fica em branco neste ranking, nada que nos estranhe, enquanto o país-irmão leva, além de uma «medalha de bronze», um 20º lugar para a CEO da Petrobras e ainda um lugar para a supermodelo Gisele Bündchen. 

Gisele é, aliás, a única modelo a figurar ali, sendo que do mundo da moda apenas mais duas mulheres ali se destacam: a editora da Vogue Anna Wintour e a criadora Diane Von Fustenberg. Quanto a artistas, contamos ainda com Jennifer Lopez, Shakira, Beyoncé, Angelina Jolie ou Sofia Vergara. Já o mundo da literatura apenas oferece lugar para a mãe da saga Harry Potter, a escritora J.K. Rowling.

De resto, as mulheres que entram no ranking são sobretudo as que ocupam cargos de liderança à frente de grandes empresas como Sony, Avon, HP, General Motors, Oracle, HTC, etc. E, claro, mulheres com cargos políticos, como as primeiras 3 da lista e ainda a primeira ministra australiana, Julia Gillard, a primeira ministra tailandesa, Yingluck Shinawatra ou Ellen Johnson Sirleaf, a presidente da Libéria. E ainda cabe ali a birmanesa e Nobel da Paz Aung San Su Kyi. 

Os critérios que a Forbes usa para elaborar esta lista passam pela riqueza pessoal, pelo poder de intervenção e ainda - sinais dos tempos - pelo número de seguidores nas redes sociais. Eis a receita para apurar as mais influentes mulheres da actualidade. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A Burguesia de Ontem e de Hoje

Acabo de passar uns dias em Dinard, na Bretanha. Aprecio o ar do grande oceano. Faz-me lembrar o meu, o da Póvoa de Varzim, dos anos da juventude, antes do grande salto por cima dos Pirinéus, em busca da liberdade e doutra vida. 

Na cervejaria da esplanada, ao meu lado, frente ao mar, um veraneante lê “La Comédie Humaine” de Balzac. Viemos à conversa porque também aprecio este autor. Disse-lhe que conhecia um escritor português que, talvez influenciado por Balzac – ele viveu em Paris e na Inglaterra - tinha escrito um livro muito interessante, na mesma veia do que estava a ler, sobre a burguesia portuguesa: “Os Maias”, agora traduzido em Francês. 

Balzac conta a historia da grandeza e da decadência da burguesia montante do 19° século, no momento preciso em que a burguesia de negócios, estupefacta, toma o poder, naturalmente! Devorando a aristocracia! Os valores, que eram os do trabalho e da economia familiar, vão ceder o lugar às necessidades da alta finança que se prepara a governar a vida de milhões de homens, e que vão criar uma nova moral! E que moral! O capitalismo espreita! Expliquei-lhe que nos “Maias”, Eça de Queiroz, põe na boca dum personagem, da terceira geração, um tal Carlos: "não vale a pena correr para nada" e que tudo na vida é ilusão e sofrimento!

Não importa, o dinheiro e a sede inextinguível do dinheiro vão dominar o mundo! Derrubando todos os valores, sacrificando no altar da ambição a honra, e trazendo à superfície da lama os mais abjectos seres da sociedade. 

Disse-lhe também, que Eça tinha um amigo que pertencia, como ele, a um clube, Os Vencidos da Vida! Esta foi a centelha que nos levou a falar dum outro escritor francês, a sombra do qual paira por cima de Dinard: Marcel Proust, que foi cliente desta vila simpática durante longos anos. 

Interessante coincidência! O autor de “A la Recherche du Temps Perdu” é de novo lido pela juventude, talvez porque Proust é um guia espiritual, um mestre da vida... Não fosse ele que escreveu: “Os nossos grandes receios, como as nossas grandes esperanças não estão acima das nossas forças, e podemos acabar por dominar uns e realizar as outras”

Que seja para a juventude portuguesa ou para não importa qual outra, e sobretudo para aqueles que acham que este mundo é insuportável, feio e vulgar, e eles são legião, a angustia nunca foi tão grande. Este mal estar não é causado unicamente pela situação económica e social. Acho, pessoalmente, que existe algo de mais profundo, ou seja uma perda de confiança no futuro que cada um pode ressentir e partilhar. 

Proust, na sua época, era um deles. Li-o frequentemente. Duas coisas importantes, nos diz Proust: A primeira: ninguém nos diz a verdade, é preciso procurá-la, sozinho. 

A segunda: Não confundir ter êxito na vida, o que é bom, mesmo magnifico, com conseguir viver, com sucesso, a vida. Proust que dizia ainda: Não é o caminho que é difícil, é a dificuldade que faz o caminho! 

Ao meu lado, um jovem mergulhava os olhos em Heidegger! Estudante de filo, de certeza! Minha esposa, entretanto, continuava a devorar Albert Camus. Um livro recente, um manuscrito encontrado por acaso pela irmã! Um grande livro: “ Le premier Homme”. Aconselho a leitura. Como Eça, Camus encetou mal a vida: Eça só conheceu o Pai, legalmente, que quando tinha 4 anos. Anacronismo da burguesia da época. E portanto, que grande escritor! Camus, Prémio Nobel de Literatura, filho duma argelina analfabeta e deficiente mental! Mais longe, alguém lia “Paris Match”! Que tempo perdido! Mas, “c’est la liberté”

Freitas Pereira

Guarda pretoriana a gasóleo III

Devo dizer-vos – ironia do destino – que dificilmente haveria melhor semana para despoletar este (demasiado) rosário de reflexões sobre os lucros da Galp e o preço dos combustíveis.

De facto, em destaque, afirmava, ontem, o Correio da Manhã: “Combustíveis: Gasolina e gasóleo estão a tocar máximos históricos - Aumentam o dobro do petróleo - CM fez as contas de um ano e concluiu que o aumento do preço da gasolina e do gasóleo é substancialmente maior que a subida do preço do petróleo.”. O que, aliás, nem deixa de entroncar nas explicações oficiais da empresa que diz deverem-se os lucros de quase 57% ao sucesso no estrangeiro e à melhoria das margens de refinação.

Como também sabeis, tenho andado em aceso diálogo com um zeloso amigo que trabalha naquele grupo e de que cito mais algumas afirmações: “a falta de altruísmo da Galp ainda vai ser a nossa salvação”. “Sei que ainda vamos beneficiar muito com certos investimentos que Galp está a fazer...”. E eis que se me levanta a primeira dúvida… Segundo esta carga de cavalaria verbal, parece que a ideia é deixar que lucrem o que for preciso a expensas dos portugueses, pois um dia chegaremos ao pote de ouro que está no fim do arco-íris… Ora bem, não só já se me falha a crendice de idades mais tenras para acreditar em finais felizes ditados pela fada dos mercados, como não percebo como poderemos esperar uma redistribuição do que a cornucópia jorrar, quando agora que estamos necessitados e as vacas petrolíferas não emagrecem, se não vislumbra a generosidade prometida.

Mais diz o meu interlocutor de ocasião que “não é pelo preço do combustível que o país está como está. E tu sabes bem ao que me refiro. A podridão de certos corruptos, a mentalidade da riqueza a qualquer custo, o rendimento mínimo sem fiscalização são bem mais nefastos.” E se tivermos uma fuga de água na cozinha, não devemos tapar o buraco no telhado?! Isto é: admitindo que há outros males a combater, poderemos dizer que a gasolina desenfreadamente a caminho dos dois euros não é um problema para os portugueses que não são todos malandros, nem andam todos a passear com “bombas” sobre rodas (como a prosa parece implicar)?!

Mas chega então o epílogo: “por agora a Galp como empresa PRIVADA que é não deve ajudar ninguém! Muito menos uma sociedade e um estado que não sabe gerir ... Os estados não tem capacidade financeira para manter as empresas lucrativas e depois querem ir buscar os lucros das mesmas?”. Este é realmente o ponto crucial: em primeiro lugar, eu não advoguei que a forma de solidarização da Galp fosse fiscal e, sem segundo lugar, não sou adepto de nacionalizações e não me esqueço de que falamos de propriedade privada. O que eu advoguei num rodapé publicado há quatro textos atrás foi que a Galp, de modo voluntário, pudesse encurtar a sua margem de lucro para ajudar um povo que passa por dificuldades evidentes. Seria uma decisão solidária que apenas diminuiria um pouco o que ganham os acionistas e que, estou seguro, colacaria a empresa no coração de gente que, na sua maioria, não é malandra, não viola a lei e nem sequer controla decisões políticas pontuais que possam fixar maus rumos.

Era só isso e nada mais… Percebemos agora que há mil e uma desculpas para o que nunca disse ser ilegítimo: lucrar o mais possível, independentemente do que sofra quem não tem alternativa senão comprar…

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Posso entrar, Senhor Guarda?

Peço a permissão de entrar porque a discussão parece não ter ainda terminado entre os dois amigos! Curiosamente, dois membros do mesmo partido, debatem à volta do problema crucial dos nossos tempos: justiça e economia. Duas sensibilidades afrontam-se ao mesmo tempo. Interessante! 

São legião aqueles que defendem a ideia dominante segundo a qual a crise seria devida à irresponsabilidade dos que pedem dinheiro emprestado para comprar tudo o que a sociedade de consumo lhes oferece, através duma publicidade violenta e perniciosa. 

Esquecendo à passagem que esta suposta “irresponsabilidade” serviu largamente os interesses do capitalismo mercantil e que mesmo a divida dos Estados é um grande negocio para os detentores de capitais. Historicamente e economicamente, o endividamento é a vontade dos que emprestam!

Mecânica infalível! Senão vejamos: O Orçamento do Estado em França é de 250 mil milhões de euros. Os ágios da divida são 50 mil milhões! Todos os anos! Bom negocio, não?

Este sistema serviu e serve para enriquecer uma minoria da população – acumulação de dinheiro no cume da estrutura social- (problema: como reutilizar este maná! Especular na divida dos Estados? ) e empobrecer uma grande maioria dos cidadãos. 

Esta sociedade, na qual o sistema educativo produziu e produz ainda mais diplomados anualmente que nas gerações precedentes, criou uma vasta classe média superior , com rendas em plena erosão, quando tem um emprego. Foram eles que compraram os i-Pod e outras maravilhas “oferecidas” pelo mercado. São estes jovens diplomados que foram sacrificados pelo sistema económico. E serão estes porventura que um dia poderão criar incidentes sociais e políticos graves.

Acho curioso que um membro da elite dominante ( não é funcionário da GALP quem quer!) acuse de irresponsabilidade aqueles que sucumbiram às sirenes do crédito, enquanto foram os anglo-saxãos que apostaram no crédito e no endividamento como sistema de expansão do mercado. E que todos os países seguiram.

A crise vem de longe e não é só a consequência das subprimes; ela começou quando o nível de vida tinha já baixado, e foi a queda do poder de compra e da procura que conduziu à crise. A intervenção das populações a baixos salários do ex-Terceiro Mundo, na China, na Índia e além, comprimiu as rendas dos trabalhadores, provocou a estagnação ou mesmo a baixa dos salários foram o acelerador da crise actual. 

Claro que falta saber como inverter o vapor!

Penso que falta gente capaz para efectuar a manobra. Os políticos são impotentes. A irresponsabilidade das elites, que aceitou a livre-troca, as deslocalizações e a abertura cega das fronteiras e um Estado que se meteu ao serviço dos interesses dos grandes grupos privados sejam eles nacionais ou estrangeiros (Bruxelas), leva a um sentimento de desespero nunca visto antes.

As políticas de austeridade que se generalizam na Europa são incompatíveis com a necessidade de relançamento da actividade. Isto só pode salvar a nossa sociedade. 

A sociedade é um contrato tácito mutuamente avantajoso onde cada um troca serviços com o seu vizinho de maneira que a soma dos bens trocados seja superior àquela que seria produzida por cada indivíduo isolado na ausência dum mercado. 

Hoje, o ”mutuamente avantajoso” cedeu o lugar ao egoísmo absoluto. Os i-Pod’s não são para todos! Mesmo a crédito! 

Por um lado, assegura-se às classes privilegiadas a conservação do estatuto e dos seus privilégios. Por outro lado, recusa-se a ordem social em troca da gestão política da mais valia acrescentada! Na Volkswagen há muito que isso existe! 

“Chez nous”, o compromisso não existe. A arbitragem entre interesses divergentes deveria ser o Estado. Mas não é. Simplesmente porque ele está ausente! A mais valia dos accionistas (shareholders) vai para os grupos de interesses (stakeholders) e daí, para a especulação e os paraísos fiscais! Regressará mais tarde através da especulação da divida dos Estados, para auferir taxas de 7% e mais!  

Ao ler o diálogo entre os dois amigos do PSD, penso que o modelo social-democrata foi muito mal pensado pelos intelectuais. Como se a alternativa anterior entre capitalismo e comunismo estava ainda tão fortemente ancorado nos nossos espíritos que nos parece impossível de pensar para lá desta oposição. 

O nosso Amigo e Companheiro do Lodo ultrapassou nitidamente essa fronteira. E ainda bem! 

Freitas Pereira

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Guarda pretoriana a gasóleo II

Continuo hoje a minha visão sobre um assunto que gerou debate na sociedade portuguesa: os lucros da Galp, que rondaram os 57%, em tempo de crise.


Os que tiveram a gentileza de ler o meu texto precedente terão visto que encetei um interessante debate com um amigo que trabalha naquele grupo económico e que, zelosa e inteligentemente, defendeu a sua “dama”.


Entre outras coisas disse o ilustre cavaleiro dos petróleos que a minha opinião se cifrava em “tirar aos que trabalham e sabem gerir o seu dinheiro para dar aos que nada fazem e tudo gastam”. De seguida, com ironia, pergunta se desejo que a Galp ajude “os ‘tugas’ que compram o Ipad, o Iphone e o Ipod” ou “as empresas que pagam mal aos seus funcionários para os donos comprarem carros de alta cilindrada”.


Começo por estas tiradas demagógicas, básicas e até um pouco patéticas, reservando o fillet mignon da argumentação do meu amigo e da Galp para o final. Assim e desde logo, se é possível reconhecer que todos – pessoas, empresas e Estado – vivemos acima das nossas possibilidades, o problema existe, tal como existe o irritante e cretino vício português de procurar dissecar por tempo infinito o passado e de ficar a apontar o dedo, em lugar de, feito o diagnóstico, avançar para a solução de problema. No caso vertente, o povo português está em claro sofrimento e esforço, de nada servindo, agora, lembrar-lhes as férias tropicais que não deviam ter gozado ou as trocas de carro e telemóveis que deveriam ter ignorado; todos o sabem e é o cidadão comum que sofre, já que me não consta que os políticos, que não fizeram a pedagogia adequada sobre a probidade a ter (há honrosas excepções, ocorrendo-me, nomeadamente, a Dra. Manuela Ferreira Leite), estejam desempregados ou em sérias dificuldades.


De passagem, digo ainda que me parece de um populismo de inspiração corporativista insinuar que maioria dos portugueses tem Ipad e Iphone… Entendo; havia que criar uma cortina de fumo na argumentação… Veja-se, porém, que muitos dos que têm essas inovações tecnológicas – que, em si, são excelentes progressos no domínio da comunicação e do lazer – também chegaram até elas mercê de infindáveis e hipnotizadoras promoções dos operadores de telecomunicações; ou seja, o caminho até à crise, digo eu, tem muito de responsabilidade partilhada pelos consumidores/trabalhadores, empresas e Estado.


Já os empresários que gastam nas “bombas” sobre rodas – o nosso iconográfico “pato bravo” – sei, até por conhecimento pessoal, que ainda existem sujeitos inconscientes que mantém as empresas com equipamento arcaico e pessoal mal remunerado para ostentar riqueza. Não creio (ou não quero crer), todavia, que a sua dimensão económica possa explicar a falta de vigor da nossa economia, a mais de me parecer que o género está condenado à extinção progressiva, exactamente pela sofisticação tecnológica a que os mercados ocidentais obrigam.


E, como a conversa (mesmo escrita) é assim, só na próxima semana a terminaremos.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Guarda pretoriana a gasóleo I

No meu último artigo inclui um post-scriptum sobre os lucros da Galp que rezava assim: “o que deveria ter indignado esquerda, centro e direita foi o filme pornográfico que vi na RTP sobre os lucros da Galp, que parecem ter crescido 56,7% (cifrando-se em 178 milhões de euros), no primeiro semestre de 2012. Isto só mostra que, se fosse solidária com o esforço dos portugueses, a empresa poderia encurtar as suas margens, assumindo parte dos dantescos aumentos dos combustíveis. É uma vergonha que parece não seduzir tanto a esquerda como o folclore político…”.

A esse respeito, um antigo colega de trabalho e, hoje, ilustre funcionário do grupo Galp (cuja identidade, evidentemente, salvaguardo) fez-me o favor de ler e comentar o apontamento supra citado.

Desde logo, esgrime o argumento ideológico, dizendo que não é meu armar-me em Robin Hood (palavras minhas), defendendo que se tire “aos ricos para dar aos pobres”. Comecemos, então, por aqui… Se alguma vez dei a impressão de que era um estouvado liberal ou um fanático do “laissez faire, laissez passer”, sinceras desculpas pela míngua de predicados próprios… Sou um reformista, com o que quero dizer que não sou um social-democrata “puro”, pois não só não conservo a sociedade sem classes sequer como utopia, como acredito que a economia de mercado é a que melhor promove a regulação de necessidades e desejos. Não deixo, contudo, de reservar para o Estado um papel regulador activo. Entendo, por isso, que será de perceber quem pode ser convocado a ajudar numa situação extraordinária e em que todos os “pobres” (para usar a demagógica expressão de que fui destinatário”) estão já em taxa de esforço máximo. É isso que compete ao Estado e que deve marcar a distância entre o povo que dizemos ser e a amálgama de cidadãos isolados e desprezados que, aí sim, deu quartel às mentiras e revoluções comunistas, no passado (no caso sei que foi apenas memória curta)! Faria bem o meu amigo “pregador” em comprar e ver com atenção o filme Metropolis de Fritz Lang (já que tanto aprecia o dinheiro, escuso de lho emprestar, já que, assim, poderá alimentar o mercado que tanto adula)…

Diz-me, depois, o meu interlocutor que usei “versos de rima fácil e popularucha” quando me referi à Galp. Percebo e aprecio o zelo pretoriano, mas defendo que o mesmo é bom para o rateio dos prémios anuais (que, graças ao bem amado mercado, serão cerca de um milésimo daqueles que vão receber os seus administradores…), mas não para um mundo em que a comunicação, a mais de livre (talvez tal desagrade às grandes corporações, mas paciência…), deve ser clara e acessível a todos e provida de emoção. Nada me enfada mais do que o discurso hermético e cinzento que caracteriza alguns políticos e empresários. Aliás, houvesse outros comunicadores “lá em casa” e talvez a Galp tivesse mais sucesso a explicar o quase inexplicável…

Continuaremos esta semana, sublinhando eu que apreciei genuinamente a oportunidade de debate com o amigo que venho citando e que nada, mas mesmo nada, me move contra a Galp. Faço apenas um comentário de actualidade e considero o grupo em causa um importante pilar da nossa economia.