terça-feira, 19 de junho de 2012

Joana Vasconcelos | Rainha em Versalhes

A tão aguardada exposição de Joana Vasconcelos no Palácio de Versalhes, em Paris, inaugurou ontem e está aberta ao público de hoje até 30 de Setembro. Note-se que a artista plástica portuguesa é a primeira mulher a expor naquele ilustre espaço que, de há uns tempos para cá, decidiu abraçar a arte contemporânea. As suas imponentes obras estão dispostas nos jardins e em espaços interiores como a bela sala de espelhos, convivendo harmoniosamente com o luxo daquele histórico palácio. 


É uma honra para a própria e para os portugueses, sendo que por estes dias a crítica francesa tem sido bastante positiva e a imprensa tem feito regular destaque à artista e à sua obra ímpar. Claro está que há sempre uma franja mais conservadora que contesta o uso do espaço para estes fins, e outra ainda que contesta o próprio trabalho de Joana Vasconcelos - cá em Portugal há quem ache que se resume a arte kistch. É tudo uma questão de gosto, ou de preconceito, digo eu, que muito gostava de poder rumar a Versalhes e ver com os meus próprios olhos a marca portuguesa que sobressai das obras da artista (da filigrana e da renda à louça de Bordallo Pinheiro, dos tachos Silampos às tapeçarias de Portalegre, etc). Quem não puder visitar in loco, pode sempre optar pela visita virtual, aqui


Uma nota final: a fabulosa obra A Noiva, um gigantesco lustre feito com tampões higiénicos que arrecadou inúmeros aplausos além fronteiras (sobretudo na Bienal de Veneza  em 2005) e conferiu a Joana uma enorme visibilidade internacional, não foi, estranhamente, aceite. Sabemos que em Versalhes não faltam lustres, mas este tem uma carga simbólica única e merecia um lugar de destaque. Porém, «A Noiva» acabou por ficar «solteira», como chegou mesmo a desabafar a artista





* todas as imagens daqui

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Europeu de Futebol com sotaque do outro lado do Atlântico

Ontem, depois do golaço que a Polónia marcou à Rússia tive (compreensíveis) dificuldades em pronunciar o nome do marcador, Błaszczykowski, e recorri a este site, uma página criada pelo BBVA para a divulgação e correcta pronunciação do nome dos jogadores, árbitros e corpo técnico das selecções que lutam pelo título. A ideia é interessante e dá muito jeito para selecções como a da Polónia, a da República Checa, etc etc. Por curiosidade, espreitei a de Portugal. E não é que foram buscar um brasileiro para pronunciar os nomes da selecção portuguesa?! Surreal! Nós não temos o Miguel Veloso, temos o «Miguéu Béloso», o «Nélson Uliveira» e o «Nâni», entre outros... enfim. A ideia é muito boa, mas estragaram tudo com isto. E não acredito que seja difícil encontrar um português em terras de nuestros hermanos. Aliás, não sei como não foram buscar um mexicano ou um colombiano para fazer a correcta pronunciação dos jogadores de La Roja!!! Imbecis. 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

É amor


E numa altura em que se diz que o futebol se resume a actos de violência, aqui fica uma prova em contrário. Um adepto entrou em campo no jogo entre a Croácia e a Irlanda e deixou claro o sentimento que nutre por Bilic, o seleccionador croata. Com ou sem beijo, a verdade é que a Croácia levou a melhor neste seu primeiro confronto no Euro 2012. Se calhar o que nos faltou no passado sábado foi alguém que espetasse um beijo no Paulo Bento...

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Na cama com…

Duas ocasiões voltaram a centrar a minha atenção no poder de fixação da agenda (agenda setting, para os técnicos) dos meios de comunicação de massas.

O primeiro e mais recente foi a partida da Selecção Nacional. Não é de hoje o poder do futebol e, por isso, não estranho (até aprecio) a cobertura detalhada do que se passa no mundo do “pontapé na bola”. Porém, o que vimos na quarta-feira foi de tirar o fôlego; era Hugo Almeida de saco às costas, Coentrão a dar autógrafos, não sei bem quem a comprar revistas e Ronaldo a tratar o Presidente da República por “você” e a selar a conversa com um eloquente “tá?”, entre muitos outros detalhes… Com franqueza, cheguei a recear que fossem com Postiga ao quarto-de-banho, que transmitissem a última noite de Bruno Alves ou que mostrassem Paulo Bento a lavar os dentes ou João Pereira a bater em alguém.

Quero com isto referir-me à cupidez com que câmaras e microfones seguiram os jogadores e às horas de directos em que, a dado passo, já nada havia a dizer senão quantos minutos de atraso tinha o voo e a carga que ia nos bancos do avião, obrigando os comentadores a justificarem o recibo, tecendo asserções sobre o vácuo noticioso que sugava as emissões.

Aliás, prova da busca incessante de notícias de que enfermam empresas que, mais do que informar, visam vender mercadoria (seja ela sobre a forma de “notícia” ou de algo que os anunciantes queiram colocar no mercado) – facto bem atestado pelo Eng. Belmiro de Azevedo, “dono” do Público, que, a propósito do “Caso Relvas”, comentou que o que queria “era que o jornal desse dinheiro” (cito de cor) – é uma notícia de segunda-feira, no mesmo jornal, que dizia que um dos juízes do processo contra Beivik (o autor do massacre de Utoya) tinha sido apanhado por um jornal a jogar uma “paciência” no computador. Não é que seja correcto faze-lo, mas fica por perceber a importância de o noticiar dado o risco de descredibilizar quem tem que sentenciar um monstro, favorecendo este. Contornos nebulosos de que, aliás e a meu ver, se revestiu o tempo de antena que, salvo erro, a televisão pública deu aos golpistas da Guiné Bissau para insultar Portugal e os seus estadistas… Que ética presidiu a semelhante falta de sentido de Estado?

O segundo episódio que me deixa pensativo é o já referido caso que, alegadamente, envolve Miguel Relvas e uma jornalista. Estando impedido de fazer juízos muito detalhados, concentro-me naquilo que me parece a interpretação enviesada que alguns jornalistas e meios de comunicação me parecem fazer dos limites a que a sua profissão e a sua missão, tal como as outras, estão sujeitas. Começa o espanto pelo facto de ser terem sucedido dias de notícias a massacrar o Ministro sem que, ao invés do que se pede aos políticos, se tenha posto a questão probatória. Parece que, grosso modo, bastou a acusação vir dos media para ser irrefutável.

Em segundo lugar, fica por perceber a pressão que o Ministro teria exercido. Vem a saber-se que os eventuais detalhes privados que Relvas, alegadamente (o próprio desmentiu-o categoricamente), teria ameaçado divulgar teriam a ver com o facto (também desmentido) de que a jornalista viveria com um membro da oposição. Mesmo que tal “ingenuidade” (pouco típica de um político muito experiente como aquele de que falamos) pudesse ter existido, continuo a não descortinar o elemento de pressão! O marido da oposição?! Imaginando que a própria não tivesse vergonhado consorte se tal assim fosse, seria achar que os seus leitores, em particular, e os portugueses, em geral, são demasiado idiotas para passar a entender que o Público se guia por agendas pessoais…

Já que não há auto-regulação eficaz, devia abrir-se o debate sobre a libertinagem de informação que ocupou o espaço da liberdade homónima.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Liberdade e Liberalismo

Nunca os termos «liberalismo e desemprego» estiveram tão intimamente ligados um ao outro que nestes últimos tempos. 

Mas na realidade é uma historia que data de há muitos anos. O liberalismo impôs-se durante a década de 80 e acabou por ser hegemónico, pelo menos na sociedade ocidental, na década de 90. 

Desde então, as consequências da implantação do liberalismo são visíveis em todos os sectores da sociedade, ao nível económico e social. Não existe nenhuma esfera que tenha escapado a esta revolução que acabou com o mundo que conhecíamos à saída da guerra. 

O liberalismo actual ou neo liberalismo não é humano, não é democrático, ele transformou tudo numa mercadoria, num vasto mercado, criando uma sociedade onde tudo é negociável; ele participou de uma maneira extraordinária à destruição dos valores colectivos e dos elos sociais. 

E quando se pensa que o termo “liberal” é uma herança dos séculos XVIII e XIX, que qualificava as ideias de luta por “mais liberdades” ( de expressão, económica, política e hábitos) , face à aristocracia e à moral católica rígida, podemos dizer que houve uma real usurpação da conotação positiva do liberalismo , que tendo lutado para melhorar a sociedade e estender as liberdades e a democracia política, está hoje na origem de todos os excessos.

A mesma filosofia económica que mergulhou o mundo no caos em 1929, voltou ao comando e aplica agora a mesma teoria dos anos 80 e 90, com Thatcher e Reagan: luta contra a inflação, contra os défices públicos, contra as subvenções do Estado, contra os direitos alfandegários, isto é, livre-câmbio e finança prioritários sobre a produção. 

A construção da União Europeia propôs e impôs medidas económicas e outras, que retiraram aos Estados todo e qualquer poder significativo decisivo:- livre circulação dos capitais e investimentos nocivos, paraísos fiscais, deslocações de empresas, abertura das fronteiras e perda de soberania nacional, monetária entre outros ( Euro ).

Nos anos 80 , todas as barreiras de protecção que impediam o capitalismo de descarrilar foram, uma a uma, desmanteladas. Assim, quando a Europa adoptou o Tratado de Maastricht que tornava obrigatória a economia de mercado, a livre concorrência e a não intervenção do Estado, a França e o resto dos países desenvolvidos mergulharam num mundo novo, um universo estranho onde tudo seria mercadoria...

A solução liberal impôs-se : preeminência do capital sobre o trabalho, o indivíduo sobre o colectivo, valores ou vantagens sociais adquiridas e código do trabalho contestados, etc. A economia de mercado é a única admitida. 

Estamos agora portanto muito longe da luta por “mais liberdades”. 

A ideia de liberdade implica a possibilidade de “escolha” de uma ou outra solução para viver na sociedade. Hoje o indivíduo não escolhe a sua vida. Ele sujeita-se! 

Se decisões urgentes não são tomadas para mudar de sistema económico, ou pelo menos de medidas de regulação severas, permitindo ao Estado de recuperar a sua função original, vamos ouvir dentro em breve dobrar os sinos nas cidades e aldeias desse vasto mundo.

E ninguém perguntará porquê , porque todos sabem que eles dobrarão pela LIBERDADE. Sim, porque sem trabalho não há liberdade. 

 Freitas Pereira

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A outra carta a Ricardo

Meu Caro Amigo:

Cá estou eu de novo, como não podia deixar de ser, a dar seguimento à carta que escrevi antes da gloriosa final de dia 20.

Se na altura me custou encontrar as palavras adequadas, agora modero o verbo para não rebentar de felicidade antes de terminar estas linhas…

Não sei quantos mais anos passarão até ganharmos outra Taça, mas uma certeza já ninguém me tira: se os tiver, posso dizer aos netos que o avô viu a Briosa no Jamor e, ainda por cima, trazendo a “fruteira” de volta a casa!

Confesso que ia com o coração apertado. A mais de o Sporting ter mais argumentos, lendo os jornais desportivos da semana antecedente até parecia que nem valia a pena jogarmos: a vitória estava reservada para as fitas verdes! Até puseram o Cristiano Ronaldo numa capa da véspera, dizendo que apoiava o Sporting. Esperavam o quê?! Que ele apoiasse o árbitro (bem merecia, pois só faltou chutar ele um dos “milhares” de livres que marcou à volta da nossa grande área)?! Que torcesse pelo Dínamo de Tbilisi?! O que me espantaria é que, formado em Alvalade, ele puxasse por nós, pois estaria bêbado, não teria carácter ou indiciaria que a Irina era academista!... Fica por perceber é o que quis o jornal… Espera! Não respondas, que eu digo-te: vender papel a uma multidão de sportinguistas sedentos de um título. Olha, morreram de sede!...

Mais importante que isto é realçar a exibição de gala que a nossa Académica fez. Que entrega, que empenho, que comunhão com os adeptos (que, reconhecerás, não pararam um minuto e foram magníficos, calando a maioria esverdeada), e que solidariedade (jamais esquecerei que, sempre que um adversário passava por um dos nossos, surgiam mais dois ou três “pretos” para lhe “explicar” que o adereço ia para Coimbra, desse por onde desse)! Quanto a ti, enorme Ricardo, fosse eu um tipo presunçoso e diria que leste a “Carta a Ricardo” com dons exegéticos autênticos (ou seja, iguais aos do autor), dado que, como te pedira, foste maior, mais rápido e mais longe e tornaste os leões em gatos de regaço! Foste mesmo “Ricardo Coração de Leão”! Ora, sabendo que o artigo nada mexeu com o talento que já tinhas, fico com a satisfação de ver um amigo consagrado como um dos melhores guarda-redes portugueses, assim mantenhas a mesma confiança em ti próprio!

Éramos mais de vinte colegas de faculdade e amigos e a equipa deu-nos um dia para durar para o resto da vida. À distância segui-vos durante os festejos em Coimbra e creio que, no dia seguinte, ainda vinha “anestesiado”.

Tiro o chapéu ao Pedro Emanuel que trabalhou convosco para que todos fossemos felizes (ao invés do outro treinador que deve ter achado que bastavam as camisolas) e ao Presidente que manteve a fé no primeiro (foi feliz na teimosia, mas lá está: a sorte protege os audazes!).

Agora, é desfrutarem com alegria e humildade a odisseia europeia e ocuparem o tal lugar na história de que te falava.

Aqui vai mais um abraço “africano” com eterna gratidão!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Carta a Ricardo

Meu Caro Amigo:

Espero que me perdoes a ousadia deste formato, mas foi a forma mais pessoal que arranjei de falar desse momento épico que vamos viver no Jamor – a maioria de nós fora do relvado e tu lá dentro, com o que julgo ser uma subida honra de representar a Académica numa final da Taça.

Antes de mais, deixa-me aproveitar estas linhas para dar a mão à palmatória, numa questão que, por ser directiva, sei que está fora do teu âmbito opinativo: se fui dos que critiquei a (tradicional) teimosia do nosso Presidente, sou o primeiro a dar a mão à palmatória, reconhecendo que – apesar dos riscos, que me pareceram excessivos – tudo acabou bem na luta pela manutenção. Aliás, acabou mais do que bem! Esta de irmos às competições europeias é um pacote de cerejas inteirinho, em cima do bolo da permanência na I Liga.

Falando do jogo, eu que sou pródigo em palavras ditas e escritas, sinto-me analfabeto quando toca a explicar o que sinto por ir assistir ao jogo que, desde pequeno (disse-o e escrevi-o bastas vezes), sempre quis ver a Briosa jogar!

Lembro-me das vezes que era levado pelo vizinho de cima, Dr. Manuel Cunha (que já não poderá partilhar connosco esta ocasião), a ver o então Clube Académico de Coimbra (mercê da idiota decisão da “esquerdalha” e anarcas que, durante uns tempos, se apoderaram da A.A.C., casa que deveria ser de todos) em Águeda, na Guarda e por aí fora – hábito que retive, ora à boleia (quando estudante), ora no meu carro e com amigos, depois.

Recordo com saudade as “batalhas” com o célebre União de Coimbra…

Foi também por essa altura que aprendi as histórias sobre as finais históricas, sobre os jogos memoráveis, sobre os jogadores inesquecíveis, sobre as capas negras, sobre os estudantes… Enfim, sobre a imensa Académica e sobre a sua relação íntima com Coimbra e a Universidade!

E quando comecei a ir sozinho aos jogos – ora entrava de graça, ora me esgueirava entre as largas grades (na verdade, eu é que era magro, nessa altura) do velho Municipal – ficou-me na memória o “puxão de orelhas” da nossa querida Carmo por ter estado uns tempos sem pagar quotas (mal sabia ela que eu ia aos jogos na mesma…), tendo-me dito que, à segunda, perderia o número de sócio… Nem sei se tinha 16 anos, mas ainda me lembro.

Por isso, caro Ricardo, aproveitando para te saudar pelas tuas magníficas e providenciais exibições dos últimos tempos e sendo que (mantendo-se o critério e a prudência) será provável que estejas entre os nossos postes, ouso pedir-te o possível e o impossível… Quando a bola for alta, sê maior do que eles! Quando ela for rápida, supera a velocidade dos felinos! Quando for longe, cresce ainda mais e dá-lhe uma palmada! E, se tivermos que ir ao desempate por grandes penalidades, conquista o teu lugar na história! Qual Ricardo I, de Inglaterra, qual quê! Tu serás o verdadeiro “Ricardo Coração de Leão” e os outros serão felinos esverdeados!

Depois, o Valente, o Marinho, o Édinho ou até tu que marquem com o pé, com a cabeça, com as costelas, com o que lhes apetecer! Está na hora de trazer a Taça de regresso a casa!!!

Aceita um abraço do teu amigo grato, Gonçalo Capitão.

domingo, 13 de maio de 2012

Impunidade Insolente

O mundo inteiro acompanha com uma profunda tristeza e receio (porque pode acontecer a outros, não é assim?) a descida nos abismos da pátria da Democracia, a Grécia, onde a classe política mais corrompida da Europa deixou , durante anos, apodrecer uma situação previsível de bancarrota, quando as estruturas do Estado são inexistentes ou inoperantes, quanto mais não seja para recuperar os impostos!

Mas não é só a Grécia. O mundo conhece a pior crise desde a grande depressão de 1929. A crise provocou dezenas de milhões de desempregados nos Estados Unidos, na Europa e além. A enorme geração de "baby boomers" nos Estados Unidos, proximos da reforma, viu com estupefacção os seus bens imóveis desaparecer em fumo com a derrocada da “bolha imobiliária”. 

Seria difícil de imaginar um desastre económico pior que este. As crises precedentes, como a inflação persistente dos anos 70, parecem bem modestas comparadas à tempestade que varreu a economia mundial.  

Nada de novo, portanto. As pessoas não têm necessidade dum economista para lhes explicar que os tempos são duros ! Entretanto, o que as pessoas não sabem talvez, é que aqueles que provocaram este desastre ainda continuam no comando. Mais precisamente, não houve praticamente nenhuma mudança no pessoal e nenhum reconhecimento dos erros cometidos pelos bancos centrais cuja incompetência provocaram a crise! 

Incrivelmente, este bando de incompetentes ainda pretende deter uma infalibilidade papal e põe os governos e a opinião publica de calças na mão, atemorizada diante do que lhes pode acontecer se vierem a ser controlados de maneira mais estrita. 

Imaginemos Passos Coelho substituído por um “técnico” da finança nomeado pela “Troica”! Como na Itália e na Grécia. 

Claro que eles já ditam as políticas aos governos democraticamente eleitos. São todas as mesmas, porque os objectivos são os mesmos: diminuir as reformas, reduzir o financiamento publico da saude, enfraquecer os sindicatos e impor aos trabalhadores diminuições de salários. 

Mas eu acho, que visto a amplitude dos fracassos desta gente, é realmente incrível que os dirigentes dos bancos centrais ainda tenham o desplante de se mostrarem em publico. Eles têm sorte de ainda ter um emprego – e muito bem pago – o que mais é! (Muitos empregados do FMI podem ir para a reforma aos 50 anos, com uma reforma de 6 dígitos). Os trabalhadores ordinários teriam sido licenciados se tivessem feito tantas asneiras. 

Porque, que diabo, em que é que pensavam quando viram nos USA e na Espanha os preços do imobiliário subir em espiral sem razão? Criam que esta bolha ia crescer indefinidamente? Criam que este milhares de milhões iam simplesmente desaparecer sem impacto na economia?

 E pior ainda: que pensar destes dirigentes dos bancos centrais que permitiram que o Euro fosse imposto a um conjunto heteróclito de países que não tinham grande coisa em comum e sem organismo de controlo governamental? Pensavam que os salários e os preços iam evoluir da mesma maneira na Grécia e na Alemanha? ‘(Quando escrevo Grécia penso também no nosso país!).

No caso contrário, qual mecanismo de ajustamento tinham eles previsto para ligar uma mesma divisa a economias assim tão diferentes? Eliminar as industrias de base e abrir o pais à concorrência sem pára-quedas? 

Pois é, agora, vários dirigentes de bancos centrais e o FMI afirmam que sabiam que o Euro, desde a sua criação, era uma má ideia! Mas em 1998 ainda não impunham directivas aos governos eleitos , enquanto que agora reclamam o desmantelamento do Estado previdência!

Em conclusão, porque é que estes “especialistas” continuam à cabeça das instituições financeiras e porque é que ainda se lhes concede um crédito qualquer?

Se em teoria económica se diz que os trabalhadores são responsáveis do trabalho que executam e que isto é importante para a qualidade, porque é que estes altos dirigentes podem falhar tão lamentavelmente e continuam a receber chorudos salários no fim do mês como se nada se tivesse passado, em vez de serem postos na rua ? Porque sabemos que na próxima vez farao pior! 

 Freitas Pereira

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Gota amarga

Deliberadamente e correndo o risco de apanhar os Leitores pelos cabelos com o assunto, atrasei as minhas reflexões sobre a célebre promoção dos supermercados “Pingo Doce”.

Agora que já li e ouvi milhares de palavras de centenas de pessoas de dezenas de ofícios e inclinações, começo por aí mesmo: este assunto atesta, até mais do que a situação socio-económica de Portugal, o nível intelectual da nossa vida pública. Dias a fio, políticos, analistas, aspirantes a ambos, jornalistas, economistas e toda a gente de que nos possamos lembrar, mais não fizeram do que centrar a existência de uma Pátria de quase novecentos anos numa genial campanha (ninguém o negará, suponho) de uma cadeia de supermercados. Mais elucidativo ainda, mesmo aqueles comentadores com pretensões de elitismo intelectual – os que desprezaram a promoção em causa (algo que não ouso fazer) – prostituíram o seu excelso ego em minutos de exposição televisiva, em círculos mais ou menos quadrados, para nos explicarem a alegada barbárie do evento e a repulsa que a turba lhes causou…

Nos antípodas desta opção estão os que exultaram com a ideia e que a desdramatizam, dizendo que os apertos e confusões registados são comuns em muitas promoções, no estrangeiro. Aqui chegados, refreemos o entusiasmo; que as pessoas se esgadanhem para comprar roupa interior assinada por David Beckham ou Ipad com preços convidativos ainda vá… Não me choca que passem por incomodidades ou façam figuras tristes por bens sem os quais podem bem viver. Já quando toca a bens alimentares e outros essenciais ao quotidiano, preocupa-me constatar que a vida seja tão madrasta que obrigue pessoas a passarem cinco ou mais horas em filas, a descansarem em prateleiras, a saquearem (embora com pagamento a posteriori) os armazéns ou a comerem os alimentos in loco, dadas as provações sentidas.

E, diga-se, também não alinho na censura aos que, aparentemente, terão comprado centenas de euros de mercadoria. Quem aponta o dedo diz que era gente que não precisava; eu, bem ao invés, acho que quem teve “estômago” para tal dia fez bem em aproveitar os descontos imensos que se praticaram. Aprendi bem a lição de um destacado e abastado membro da Comunidade Portuguesa de Joanesburgo que, num dia de bastante frio (aqui também há disso…), saiu à rua para apanhar uma moeda de cinco cêntimos de Rand (cerca de meio cêntimo de Euro); quando por mim confrontado com a maçada inerente ao acto, com a sabedoria dos seus cabelos brancos, logo retorquiu: “sem cinco cêntimos não se faz um Rand!”…

Depois de uma jogada comercialmente brilhante e socialmente útil, fica uma declaração política deliciosa que deixou a extrema-esquerda em autêntica histeria, tal foi o protagonismo que roubou aos tradicionalmente irrazoáveis dizeres do 1 de Maio… Para o PCP e o BE, de certo, o pingo não foi doce, mas sim uma gota amarga…

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Parabéns Gonçalo!


Pois é, hoje é o aniversário do sócio fundador do nosso Lodo, o homem que 
fez corar Tony Blair.


Um beijinho!



terça-feira, 8 de maio de 2012

A França Mudou de Rumo

“Progressivamente , os dirigentes de países democráticos transformam-se em demagogos vulgares que, sob pretexto  de liberdade, aniquilam toda e qualquer referência a uma norma que não seja a selvageria dos apetites privados .” A Republica de Platon.

 
Enfim ...
Bling Bling faz as malas.

Mesmo, se a única revogação de um indivíduo, com o seu bando, não modifica em nada a dominação duma oligarquia ou duma ideologia ...
Mesmo, se o “sistema” e o seu clã podem eventualmente fazê-lo voltar em 2017 ...

Mesmo, se não se pode pressupor, apesar da antecipação dum certo numero de receios, as qualidades, capacidades, autonomia real, do seu sucessor ...

Não posso deixar de saborear a evicção dum presidente da V° Republica, cujo analfabetismo histórico, económico, geopolitico, para me limitar a estes únicos domínios, ficará como uma vergonha para a função. Provando assim que longe de ser “ a eleição do melhor de entre nos”, ela não é frequentemente que a duma marionete dos interesses ocultos duma mão-cheia.

Personagem cujo nível de arrogância, desprezo, cinismo, violência, crueldade, exprimido contra aqueles que ele considerava  como inferiores à sua “casta” ou à sua “raça”, só se podia comparar à demonstração permanente do seu servilismo obsequioso, obessessional e agitado, para com os seus “Mestres””.

Como emigrante e como cidadão só posso esperar que o novo presidente consiga pelo menos, no decurso do seu mandato, a extrair a função presidencial deste aviltamento.

Freitas Pereira

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Celebrando o dia 26

Escutei Mário Soares (o que foi), Manuel Alegre (o que queria ser) e os Capitães de Abril (os que vão sendo) sobre as comemorações do 25 de Abril e não percebi o alarme alimentado pelas televisões…

Desde logo, creio ser inteiramente legítimo e civicamente saudável que figuras conhecidas do panorama político se pronunciem sobre o estado de uma Pátria que é de todos. A abstenção sempre foi, aliás, uma forma de expressão política…

Mas importa perceber que preciosa herança do 25 de Abril estará em jogo para que se agitem os seus alegados donos.

Será a liberdade – a mais propalada jóia da coroa “abrilista” – que corre perigo? Não me parece, pois a democracia portuguesa funciona em pleno. Não se ouvem acusações de fraude eleitoral e os mecanismos constitucionais fornecem adequado sistema de freios e contrapesos, permitindo acorrer a situações de perturbação. Depois, seremos dos países europeus um dos que menos apreço revela por partidos de extrema-direita ou de extrema-esquerda (mesmo o entusiasmo pueril com a encenação bloquista foi corrigida nas últimas eleições).

Ora, não sendo esse o valor em jogo resta-nos ponderar o chamado Estado Social ou a noção de progresso.

Aqui chegados, alguns dizeres à guisa de preâmbulo: é certo que muitos dos fios da teia social que nos amparava em caso de queda estão a ser cortados; sabemos o que perdemos nos salários e subsídios de Natal e férias, nas deduções fiscais, nas reformas, no apoio em caso de despedimento e/ou desemprego, para não falarmos nos aumentos de impostos e tudo aquilo de que precisamos (a começar no escandaloso preço dos combustíveis).

Contudo, se o inventário de maleitas é verídico, já me parece abusivo imputar a sua causa ao rumo do Governo, como fazem as individualidades que boicotaram a evocação do espírito de 1974. Só mesmo por censurável conveniência discursiva ou caducidade intelectual se poderá escamotear o facto de essas forças compressoras do justamente apreciado conforto social europeu serem globais. Este é um jogo nefasto que até os bastiões da ilusão socialista jogam, como pode ver-se pela força económica de Rússia e China.

Dito por outras palavras, seria um exercício estulto pedir a Portugal que reme contra esta maré isoladamente, algo que nos colocaria numa interessante luta pelos padrões de vida observados na Albânia ou no Kosovo, em menos de um fósforo… A solução poderá residir no quadro europeu (veremos se há mudança em França e, posteriormente, na Alemanha) e num subsequente diálogo com EUA e China, mas jamais por um estoicismo poético que, permitindo embora bater no peito e agitar um cravo, levaria ao colapso total de toda e qualquer forma de apoio social que, com as duras reformas em curso, ainda poderá preservar-se.

Encaro, por isso, o boicote como algo normal e saudosista, mas nada mais…

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A Hora da Democracia

O confronto de ontem à noite na televisão francesa, entre Sarkozy e Hollande, foi dos mais violentos que eu vi em França em 50 anos! Sem dúvida, o momento que vivemos na Europa pode explicar esta violência, porque os Europeus constatam as dificuldades criadas pela aplicação do rigor que vem sendo aplicado na Europa há dois anos, ditado pela Frau Merkel, que, se não for combatida na sua posição actual, só pode levar a outros confrontos violentos, mas desta vez não na televisão mas nas ruas das cidades da Europa. 

A hora de travar os danos chegou. Foi o discurso de Hollande neste confronto, faltando saber se ele vai ter a coragem de levar para a frente este combate.

Claro que a Alemanha vive à sombra do Euro forte que lhe vai bem. Aliás, basta ouvir um dos conselheiros do Banco Central Europeu (BCE), e presidente do Bundesbank, amigo de Merkel, Weidemann, que diz muito simplesmente que “taxas de juro de 6% não são "o fim do mundo!(Ele pensava no problema espanhol!) Ele até nem vê que essas taxas de juro põem em causa a existência da EU. 

Aqui está um tecnocrata para quem nem o crescimento nem o emprego contam. 

E depois admiram-se que através toda a Europa,um forte sentimento germanofobo se desenvolve, e que a Alemanha que tanto sofreu das pesadas condições impostas pelo armistício da guerra de 1914/1918 foram o germe do nazismo. E que hoje, é o populismo da extrema direita que, uma vez mais, ameaça a democracia europeia. 

Se o Euro explodir e a Europa se desagregar por falta de sensibilidade e visão, alguém vai escrever um dia que a origem estava nos erros cometidos pela Frau Merkel e o servilismo da França de Sarkozy.

E pois que o nosso compatriota Durão Barroso, que de actor político passou a ser unicamente um funcionário de Bruxelas , deixou fugir a oportunidade de impor uma política europeia, em nome de todos os Estados, permitindo o restabelecimento dos equilíbrio políticos e institucionais na Europa, só uma França agindo como contrapeso ao poder económico e político da Alemanha pode salvar a Europa do colapso. 

Para isso, é preciso que a iniciativa de Hollande, se for eleito, seja imediatamente apoiada pelo resto da Europa.

Portugal só tem a ganhar numa nova política europeia que favoreça o crescimento e permita renegociar as condições de pagamento da divida soberana. 

Senão, é a asfixia lenta dum povo que já não pode mais. 

Freitas Pereira

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Imbecilidades II

 

Na terça-feira dia 24 de Abril, de viagem para o Porto, dei por mim a ouvir na TSF o Coronel Vasco Lourenço a explicar a diferença entre democracia formal e legitimidade democrática. Dizia ele, que um governo mesmo que democraticamente eleito, se não cumprir as promessas eleitorais perde a legitimidade democrática. Para compor o ramalhete, Mário Soares acrescentava que a razão principal que o levava a não estar presente nas comemorações na Assembleia da Republica, residia no facto, de que este governo estava a destruir tudo o que tinha sido construído ao longo destes anos.

Ora, não é preciso ser muito inteligente para perceber, que qualquer dos dois argumentos não têm objectivamente nada que os sustente, a não ser razões ideológicas e de consumo interno, senão vejamos:
- quanto ao primeiro, ignorar que havia um compromisso dos 3 principais partidos com a Troika, para implementar um conjunto de medidas/reformas a troco de ajuda financeira evitando assim a bancarrota, tal irresponsabilidade, só pode ser comparada à afirmação de que as dívidas dos Países não se pagam, gerem-se, resta saber até quando....
- quanto à segunda razão, a resposta é simples: se a construção tivesse sido perfeita, não estariamos à beira da bancarrota, com um dívida publica superior à riqueza produzida num ano inteiro, deixando assim às gerações vindouras, um Pais hipotecado, como uma dívida astronómica para pagar e sem opções.

Já alguém se questionou, se D. Afonso Henriques depois de tanto esforço e tanto sangue derramado na conquista e construção de um território independente, concordaria com o fim da monarquia ou até com a adesão à União Europeia?
Se não, então porque havemos de nos preocupar com afirmações tão efémeras e irrelevantes...

A ler


Porque é Ibérico. Porque é contemporâneo. Porque tem o peso dos Clássicos. Porque é sucinto e com uma profundidade enorme. E porque me mostrou novas e boas perspectivas sobre a gestão do poder, não só na sua concepção e conquista, mas também na psicologia dos actores subordinados a este.

Uma sugestão para quem o quiser dedilhar na Feira do Livro, que arrancou ontem. A editora é a Esfera dos Livros.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Imbecilidades de Abril

A Associação 25 de Abril (A25A) resolveu não marcar presença nas comemorações oficiais do 38º aniversário da Revolução. Em bom rigor, não me surpreende e nem vejo razão para que queiram comemorar uma data que de há uns tempos para cá tudo fazem para denegrir.

Se a abstenção não honra a sua (A25A) história neste domínio, estas comemorações reflectem nem mais, nem menos do que a defesa de um conjunto de direitos, liberdades e garantias essenciais que até então não existiam. 

Trata-se de uma marca de solidariedade para com aqueles que não viveram a liberdade que hoje vivemos e o reafirmar de que a Democracia, mesmo com os erros inerentes (que devem ser corrigidos através dos seus próprios mecanismos) é a melhor forma de governação.

Os Capitães de Abril deram-me a possibilidade de nascer em liberdade. Mas também, reconheçamos, lhes deu direitos, nomeadamente o de dizerem e fazerem um conjunto de disparates! É assim a Democracia, e ainda bem...

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Desporto e o Despotismo

Muitos “fãs” das corridas automóveis nem se aperceberão do que se está a passar no Barhreïn. E portanto, a revolta do povo deste minúsculo reino é o produto de anos e anos de injustiças, de opressão e de humilhações. Pode ser reprimido, mesmo esmagado, mas renascera como o Phénix, das suas cinzas. Porque nasceu e cresceu no solo do despotismo e do arbitrário. 

A organização do Grande Prémio de Formula 1 neste pequeno reino tem como efeito de reforçar a determinação “dos revoltosos da Pérola” a continuar o combate contra um regime ultrapassado, apoiado pelas monarquias do golfo e, claro está, pelos Estados Unidos e a Europa. 

O monumento da Pérola, símbolo da resistência à ditadura dos Al Khalifa foi destruído e substituído pelos “tanks” do exército saudita. As mesquitas e minaretes não escaparam à loucura destruidora. Os comissariados do arquipélago foram transformados em salas de tortura. Os tribunais militares julgam e condenam civis. Os feridos não são atendidos no maior desprezo das convenções internacionais. 

A dinastia dos Al Khalifa, no poder desde há séculos, o Conselho do Golfo dominado pela Arábia Saudita, os USA e a Europa estão satisfeitos. Eles pensam que as aspirações do povo de Bahrheïn à dignidade e à democracia estão, como o movimento que os caracteriza, enterrados. A ditadura, os privilégios, os interesses de uns e de outros estão salvaguardados. Pode-se anunciar agora ao mundo que a situação é normal. O espectáculo do Grand Prix de Formula 1 pode começar: “Aliás eu conheço gente pacifica que vivem sem problema no Bahreïn”, diz o organizador da corrida, Bernie Ecclestone, homem de negócios e patrão desta famosa corrida. O desporto ao serviço do despotismo!

A exploração política do desporto não data de hoje, evidentemente. A Itália fascista e a Alemanha nazi, já tinham instrumentalizado esta actividade para dar uma certa legitimidade ao poder que detinham. A Itália fascista mussoliniana (1934) e a Alemanha hitleriana ( 1936) tinham organizado respectivamente o Campeonato do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos. A FIFA, ela, tinha confiado a organização do “Mundial” de 1978 à Argentina da junta militar dirigida pelo general Videla. O grande Prémio de F1 era organizado regularmente na África do Sul durante o regime de Apartheid. Bahreïn inscreve-se por conseguinte nesta “tradição”! 

Que não venham as autoridades do Bhareïn um dia pedir a intervenção da ONU para suster a revolta do povo. Porque a Primavera vem todos os anos!

Freitas Pereira
Vitor Constâncio no seu melhor

Vitor Constâncio é Português, foi indicado por Portugal para ocupar uma das vice-presidências do BCE e por isso pensava eu, reunia qualidades impares para exercício de um cargo numa instituição, que hoje é considerada das mais importantes da União Europeia e do Mundo.

Então, o que leva Vitor Constâncio a afirmar em finais de Março, que Portugal dificilmente escapará a um novo programa de ajustamento económico e passadas 3 semanas afirma com a mesma convicção o seu contrário, quando as condições económicas hoje, são muito piores do que eram na altura.

Recordo, que a Espanha é o principal parceiro ecónomico de Portugal e que dela dependem quase 50% das nossas exportações, mas nas últimas semanas não se tem falado de outra coisa senão, num programa de ajustamento à “Espanhola”.

Cito aqui estas duas intervenções:

A 31 de Março
Vítor Constâncio, vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), disse hoje que não se pode pôr de lado a possibilidade de Portugal vir a precisar de um segundo programa de ajustamento económico, lembrando que tal cenário "tem de estar sempre em avaliação".


A 22 de Abril
Washington, 22 abr (Lusa) - O vice-presidente do Banco Central Europeu, Vítor Constâncio, afirma que Portugal vai melhorar o acesso aos mercados financeiros cumprindo o programa de ajuda externa, e que regressará aos mercados na data prevista, se a conjuntura económica se mantiver.

 Afinal em que é que ficamos, Dr. Constâncio?

A mim parece-me, que Vitor Constâncio já aderiu a esta nova técnica de comunicação, que permite mais tarde e independentemente do desfecho, citar uma qualquer afirmação que se ajuste ao momento, do tipo: “Tal como eu tinha previsto há algum tempo....”

O que se exige a um Vice-Presidente do BCE, é tenha uma visão mais dilatada no tempo, que seja coerente e que seja um factor de estabilidade e de esperança. Este ziguezag irracional, que se traduz em mais incerteza e em mais imprevisibilidade, só alimenta especuladores ávidos de razões para intervir nos mercados em sinal contrário, aquele que todos desejaríamos.

Bem esteve Mariano Rajoy quando há umas semanas pediu ao BCE contenção nas palavras. Quando os protagonistas não tem qualidade, o silêncio é sempre a melhor opção. Aprenda Dr. Constâncio...

P.S

Com a provável vitória de François Hollande, assistiremos mais uma vez à esquerda Portuguesa a embandeirar em arco. Ao contrário, não tenho dúvidas de que Hollande, fará o que os mercados financeiros internacionais o deixarem fazer, manterá a “entente” Paris-Berlim e dentro destas limitações, colocará sempre os interesses da França acima de quaisquer outros. “Liberté Égalité, Fraternité”, é coisa do passado.

Obrigado pelo convite



Ao longo destes anos tenho sido um dos muitos leitores deste blog e por isso ocupado uma posição invejável e confortável. Ao aceitar trocar um lugar confortável na plateia pelo de actor, fico na “dúvida” se este convite do nosso amigo Gonçalo Capitão, não está embuído daquele espirito muito na moda, de nos desafiar a sair da nossa zona de conforto. Felizmente, a tecnologia de hoje, permite-nos estar em todo o lado sem termos que emigrar.
Espero que o tempo disponível me permita intervir tanto quanto gostaria

ADEUS SARKO

Em princípio, ele vai-se embora! Se Jacques Brel fosse vivo, cantaria  «on t’aimait pas, tu sais»! (Não gostávamos de ti, sabes ?) Mas que ninguém tenha ilusões: Quando o malabarista e candidato dos ricos for embora, e que o balanço do seu reinado for feito, com todas as decepções que ele causou aos seus próprios adeptos, a vida vai continuar. Mas, repito, que ninguém tenha ilusões, porque outras decepções virão, não por causa das palhaçadas e das contradições instantâneas nas quais Sarko era um especialista, mas porque o mundo sendo o que ele é agora, as medidas que permitiriam a verdadeira mudança de rumo, não serão tomadas.

A social democracia vai continuar a gerir à sua maneira. E mesmo que o novo presidente seja mais representativo de certos valores da democracia francesa, o mundo da finança internacional continuará a impor a política económica que pôs o mundo na situação em que se encontra hoje. Paraísos fiscais, deslocalizações de empresas, globalização, procura de lucros fáceis e substanciais através da mão de obra barata do quarto mundo, injustiça social organizada, redução da segurança social e mercantilização dos serviços públicos, incluindo a saúde, que será cada vez mais a duas velocidades, precariedade, austeridade, continuarão a modelar o mundo de amanhã. 

Estes últimos cinco anos foram particularmente nefastos para os Franceses. E portanto, esta eleição da primeira volta trouxe uma surpresa: Muitos eram os que esperavam uma abstenção recorde! Ora mais de 80% dos Franceses foram votar! Mais que em 2007! Talvez porque em 2012 eles estão mais pobres que em 2007! A França é um dos países da Europa comunitária onde as desigualdades aumentaram mais fortemente, com a excepção da Espanha e de Portugal. E da Grécia! A degradação do ratio da renda média dos 20% mais ricos em relação aos 20% mais pobres é devida essencialmente à política fiscal de Sarkozy. Ele, que tinha como slogan de campanha em 2007: “Serei o presidente do poder de compra”! Os pobres pensavam que ele lhes falava do poder de compra... dos pobres! Mas enganaram-se: Ele falava dos outros, daqueles que estão mais ricos hoje que em 2007!

Claro, sejamos honestos: Os sinais de empobrecimento relativo dos Franceses não têm nada a ver com aqueles que verifiquei há dias na minha terra de Guimarães, que fui visitar rapidamente. Ainda não se vêm por cá “menus” a 5 euros nos restaurantes, com sopa, prato, pão e bebida! Perguntei a mim mesmo como é que é possível viver, tanto o restaurador como o cliente! Mas cá, os “clientes” dos restaurantes de Coluche, onde os pobres e não só, vão alimentar-se gratuitamente, estão cada vez mais cheios. Mesmo alguns membros outrora da classe média, lá vão agora também!

Mas há outros sinais negativos: a degradação das condições de trabalho nas administrações e nas empresas. Tudo isto sendo o resultado previsível do impacto crescente das condições financeiras do Mercado desregulado, impostas às políticas públicas pela renuncia dos “eleitos do povo” a resistir. O que é compreensível: O gesticulador chefe francês é o amigo da maioria dos patrões do “CAC 40”, índice da bolsa de Paris! 

Evidentemente que seria necessário acabar com tudo isso. O vencedor do 6 de Maio próximo não o fará. Ele será o novo porta voz do Pacto Financeiro Europeu criado pelos Merkozy, pacto que se fosse denunciado condenaria a França a sair do Euro! Por conseguinte, ele será obrigado a continuar, e mesmo a amplificar, a liberalização dos mercados. E a próxima etapa poderá ser a dinamitagem do pilar central do código do trabalho: O contrato com duração indeterminada. A Itália e a Espanha fizeram-no e, em nome da harmonização europeia e da livre circulação dos trabalhadores, ele fará o mesmo. E em frente para a precariedade generalizada! 

Trata-se portanto de continuar a negar a realidade dos perigos que pairam sobre o mundo contemporâneo. O capitalismo perpetua-se tragicamente, incapaz de ultrapassar as suas próprias contradições internas. A crise maior do regime de acumulação do capital, que os artifícios cada vez mais grosseiros da finança globalizada não conseguem dissimular, é irremediável. Abandonar a nossa sociedade ao autoritarismo de regimes essencialmente preocupados da defesa mortífera dos interesses de oligarquias riquíssimas, pode gerar o regresso de movimentos políticos fundados exclusivamente na designação de bodes expiatórios. Marine Le Pen é o exemplo. Aceitá-lo é abrir o caminho ao regresso do fascismo. Creio que é realmente mais que tempo para acordar. 

Freitas Pereira

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Corda ao pescoço

Apesar da analogia, não é sobre a crise económica que vos falo hoje… Falo de outra; da crise de algum do nosso futebol…

Deixo de parte a questão de salários em atraso e dívidas ao Estado, que também seria assunto cardinal…

Começo, assim, pela Briosa. Sei que sou apenas um adepto de sofá (tirando os jogos com a União de Leiria e a segunda partida com a Oliveirense, já nem treinador de bancada posso ser), mas, tendo as quotas em dia, tenho direito a uma opinião que, admito ab initio, pode ser disparatada; a saber: creio que a Académica e Pedro Emanuel deveriam ter rescindido o contrato de trabalho deste último há quatro ou cinco jornadas atrás.

Não estão em causa o homem – parece-me um cavalheiro – ou sequer o profissional – sei que é trabalhador e nem excluo que venha a ser um treinador de sucesso, no futuro. Todavia, parece-me claro que, há muito, deixou de ter ascendente emocional (leia-se, liderança) sobre os jogadores e vejo-o sem força interior à altura da hercúlea tarefa que se lhe depara (uma das poucas vantagens de ver os jogos na televisão é poder reparar em detalhes como o que vi na escandalosa derrota com o Beira-Mar; após o segundo golo aveirense, o treinador enfiou-se no banco de suplentes com o ar mais desapontado do planeta).

Além disso, entendo que muitas opções tácticas têm sido erradas e que um ou dois jogadores seriam candidatos à dispensa imediata… Não consigo esquecer, no mesmo jogo, a cara sorridente e displicente de Édinho, depois de ter feito um dos mais desastrosos e absurdos remates da partida (daqueles que só se perdoa a um iniciado), com a equipa em desvantagem!...

Seria o maior paradoxo que já vi vencer a Taça de Portugal (honestamente, tenho fé) e descer de divisão. Creio, todavia, que não chegaremos a tal catástrofe, ganhando a tranquilidade merecida com uma vitória sobre o Olhanense (esperança para a qual em nada contribui a derrota de sexta-feira com o Arouca, em jogo de treino). Com a manutenção garantida, espero que a Direcção tire ilações de tudo isto.

A nota derradeira tem a ver com o Benfica e, sobretudo, com o treinador Jorge Jesus. Com a arrogância e boçalidade que o distinguem aquém e além fronteiras e a propósito de um elogio a Sérgio Conceição, o treinador encarnado afirmou que os treinadores não se formavam nas universidades, mas sim no campo, como ele e Conceição. Ora bem, com uma equipa fantástica, tendo tido cinco pontos de vantagem, diria que a situação actual (quatro pontos de atraso e eliminação da Taça de Portugal e da Liga dos Campeões) não deixa ao Presidente do Benfica outra solução que não a de correr com o mais caro e grotesco treinador da história encarnada… Bastava, diga-se de passagem, uma mera comparação com a gestão do Porto para chegar a esta conclusão, visto que, cirurgicamente, comprou dois jogadores (Lucho e Janko), reposicionou algumas pedras e lançou-se para um título quase certo (e "sem treinador"!!!).

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Ambição & ignorância


Em primeiro lugar, a final de 69 jogou-se em ditadura e o protesto foi feito no Jamor, pois seria uma forma d...e evitar a repressão. De tal modo isto foi compreendido, que o próprio adversário de então(Benfica) entrou em campo mostrando evidentes sinais de respeito para com a VERDADEIRA crise que se vivia na academia coimbrã.

Em segundo lugar, "fecharia os olhos" ao aproveitamento da festa do futebol se os estudantes e a sua direcção associativa tivessem, como no meu tempo e ainda mais em tempos anteriores, o hábito de vestir a sua capa e a sua batina e irem apoiar a Briosa (não só não vestem, como são raros os que vão aos jogos, mesmo quando os bilhetes custam cinco euros). Ao invés, o que vejo muito nesta juventude agora tão civicamente activa é muitos cachecóis do Benfica, Sporting e Porto (num ou noutro caso com o traje académico, o que, quando eu estudava, valeria um valente "rapanço").

As asneiras que não causa a ambição de alguns aspirantes a políticos ou agentes provocadores...

terça-feira, 17 de abril de 2012

Vender Portugal

"Portugal é uma das melhores comunidades do planeta. As pessoas são uma delícia, o clima é maravilhoso e a sua base ligada à descoberta é surpreendente. Portugal precisa de exportar a sua poderosa história. Alguém tem de trabalhar esta importante plataforma. Passos Coelho tem de fazer disto uma prioridade."

Interessante, esta visão de Joey Reiman, fundador e CEO da BrigtHouse (empresa que detém contas publicitárias da Coca-Cola, McDonalds e Procter & Gamble). Não diz nada que não saibamos já, mas como não damos mostras de o saber, temos um estrangeiro a abanar e alertar este país para as suas potencialidades.  Embora algumas marcas portuguesas assegurem um posicionamento no mercado externo assente na portugalidade, ainda há um caminho muito longo a percorrer para demonstrar lá fora que só somos pequenos em termos geográficos. A promoção do país não é tarefa apenas para as empresas, mas também de organismos públicos e da acção diplomática, que lá vão fazendo o que podem. Porém, falta-nos apostar numa certa propaganda cultural que dê uma imagem do que fomos e do que ainda somos. A título de exemplo veja-se que, apesar de esta nação ter praticamente 900 anos de vida para contar aos demais povos, não produzimos cinema que incida sobre a nossa História e enalteça (cá e além fronteiras) o nosso prestígio ao longo de séculos. Isto seria importante não só para a auto-estima da nação e dos seus, como para a imagem que lá fora de nós se constrói. Dizia, e bem, Churchill: "a love for tradition has never weakened a nation, indeed it has strengthened nations in their hour of peril." A nossa identidade é reconhecida por muitos, mas a percepção que o Mundo tem de nós poderia ser explorada com mais afinco e vendida com mais sucesso. Como refere Reiman, é urgente vender Portugal: não só as suas gentes, o seu clima, o seu património e tradições, mas novas facetas que vamos talhando... inovação, sofisticação, lifestyle. A ver vamos se Passos Coelho lhe dá ouvidos e se os outros nos deixam de ver como aquele país ao lado de Espanha.
* espantem-se mas a imagem acima foi obtida numa loja portuguesa, Meio da Praça, em Lisboa...

sábado, 14 de abril de 2012

DIREITA ? ESQUERDA ?

Caríssimo Amigo Gonçalo Capitao

Aproveitando a abertura do «post » precedente no qual me “encaixa” naquela corrente ideológica que se chama “esquerda”, que não renego, gostaria, se me permite, não de explicar  esta tendência, explicação que não se impõe,  mas de ir um bocadinho mais longe na análise da noção de “esquerda” e “direita”, como a concebo.
As eleições presidenciais em França oferecem um quadro ideal para esta análise. Mas se estas eleições fossem em Portugal, a conclusão seria a mesma.
Qualquer que seja a facção política que se apresenta ao voto dos eleitores, todas têm , em principio, um programa estratégico de desenvolvimento económico.
Este programa vai condicionar a política social no sentido mais largo do termo, sendo a  educação , a justiça social e o emprego, os pontos essenciais que vão interessar a grande maioria dos eleitores de base. A maioria ignora, de facto, os aspectos fundamentais da economia política. Só a vida de todos os dias os sensibiliza..

Por traz dos efeitos de tribuna e do ambiente escaldante das reuniões publicas incensadoras, nada permite de assegurar que este programa vai ser respeitado pelas facções políticas em luta pelo poder.
Hoje, mais que nunca, os políticos procuram esconder a verdade sobre o poder real de que dispõem para conduzirem  uma política governamental.

Se olhamos para o caso da França, existem exemplos flagrantes para provar que qualquer que seja o vencedor, “esquerda” ou “direita”, o problema do poder real é patente.

Assim, quando o candidato da esquerda, provável vencedor, diz em Paris que o seu adversário principal é a “finança” e diz em Londres que este adversário  é finalmente aceitável, nada o diferencia da direita.

Quando o mesmo diz que vai aplicar uma “taxa nas transacções financeiras”, ele não diz como o fará, e ainda menos quais são os países que vão aceitar de aplicar uma tal taxa. Sim, porque isso não será possível que ao nível, pelos menos, europeu. A direita diz a mesma coisa.

A ideia da criação da “Agência Publica de Notação Financeira” é um gadget comparada às outras agências privadas, autónomas, que continuarão de existir. Qual será aquela que os mercados vão crer? A direita propõe a mesma coisa.

O pacto de “responsabilidade de governança e de crescimento” ( que Portugal assinou!) é uma concha vazia! Ninguém sabe como ela se poderá encher! Tudo depende dos parceiros da Europa e da finança internacional... Tudo hipotético como as “euro-obrigações”! A direita também assinou.

Proibir a criação de filiais dos bancos nos paraísos fiscais e limitar certos produtos financeiros, é francamente risível! Sarkozy prometeu quantas vezes estas medidas ? A esquerda promete agora!
Ninguém tem a possibilidade de lutar contra a especulação financeira, sem mudar o sistema económico mundial, e as medidas anunciadas são picadelas de alfinete nas costas do monstro! Na finança tudo é interligado.

Reindustrializar o pais, prometido pela direita e pela esquerda. Muito bem. Para Portugal como para a França, a ideia é premente. Mas como fazer regressar as industrias que partiram para longe, estas deslocações de empresas que mais não são que um puro produto da globalização mundial?

Quanto à Republica e às instituições, esquerda como direita, prometem  coisas que não custam nada a anunciar.. e eventualmente não serão realizadas ! Reduzir o numero de funcionários? Quem o ousará , sabendo que existem lacunas em vários serviços públicos, que o Estado abandona!

E porquê? Porque o novo presidente e o seu governo vão continuar a gerir o sistema mercantil como ele é, sem mexer no seu mecanismo de fundo, sem pôr em questão a maneira de funcionar, respeitando as regras do salariado, da rentabilidade, da circulação e da acumulação do capital, do essencial das regras dos tratados europeus ... e submetendo-se aos constrangimentos internacionais. 

Vamos assistir ao “merchandising” de todas as actividades económicas e sociais, com alguns retoques, certo, mas sem perturbar o seu curso.

Vamos assistir a uma gestão “social-democrata”, na realidade “liberal”, do capitalismo, como os outros países europeus. Não será uma gestão de “direita” mas não será melhor! E isto porque a “ideia” liberal contaminou completamente a “ideia” socialista.

Os problemas, os verdadeiros problemas, aqueles que se põem aos cidadãos na vida de todos os dias ( poder de compra, emprego, reformas, saúde) vão continuar e não serão resolvidos.. até que o povo desiludido... re-vote pela direita ... e assim de seguida ! Como na Espanha.
E no outro sentido, brevemente, como na Grécia como na Itália, como na Alemanha.

Gostaria de deixar aqui, se me permite,  estas palavras de Mitterrand: “ Os socialistas que se apresentaram como “reformadores”, acabaram por colaborar e aderir aos valores capitalistas e portanto à política da direita. A colaboração escapa dificilmente ao seu destino que é o de atraiçoar”.

Alors, Caríssimo Amigo: Direita, esquerda? Onde estão realmente? No interesse individual que se situa acima do interesse colectivo? Talvez.

Freitas Pereira

quarta-feira, 4 de abril de 2012

"Forward"

Creio que todos nós recebemos uma imensidão de mensagens de correio electrónico reencaminhadas (vulgo “fw” ou “forward”); desde as anedotas aos gatinhos e cãezinhos com patéticas mensagens de paz e amor, das bonitas mulheres assim às obesas mulheres assado, dos reclamos com erros aos abaixo-assinados para demitir todos e mais um…

Há, todavia, um tipo de mensagens e anexos que, sempre que posso, me dou ao trabalho de ler: aqueles que versam política. E foi num desses interlúdios de leitura que abri um pequeno filme sobre a pirataria na Somália, enviado por um dos mais cultos cidadãos da diáspora que conheço, que o meu amigo Freitas Pereira, residente em França (um homem cujas ideias se encaixam claramente no que se usa designar por “esquerda”), recomenda no texto do e-mail (que não sei se é seu ou também ele reencaminhado) que vejamos “o outro lado da história”.

Vejamos, então: o filme de realização espanhola começa por um enquadramento da noção romântica de piratas que herdámos de aventuras em livros e filmes, para depois balizar o conceito. Segundo os autores, um pirata é alguém que rouba no mar, fortemente armado e, por vezes com a protecção de um Estado (relembremos as cartas de corso e os corsários...).

Seguidamente, somos elucidados sobre a pesca massiva e predadora realizada por potências ocidentais, bem como sobre o depósito ilegal de matérias radioactivas e de outros lixos tóxicos (por exemplo, resíduos hospitalares). Tudo isto se passa na zona económica exclusiva da Somália, país que a não pode vigiar por estar devassado pela guerra e pela miséria.

As consequências destes actos são evidentes: os recursos alimentares marítimos escasseiam e muita da matéria radioactiva deu à costa, por altura de uma das mais recentes e dramáticas calamidades naturais.

Pelo meio, imagens da fome que faz sofrer o povo somali e censuras aos gastos ocidentais no patrulhamento bélico da área… Segundo os seus autores, aliás, os piratas mais não são do que pescadores desesperados aliados a alguns combatentes tribais, como tudo pudesse ser justificado desta forma.

O cenário é pungente e nada pode ser mais atroz: pesca ilegal, depósitos de lixo tóxico, fome e guerra…

Contudo, cumpre olhar o " também verdadeiro" outro lado. Comecemos pelo lado da guerra: com intervenção da Etiópia na zona da Somalilândia, quem está em guerra?! Tribos somalis. São somalis que massacram o seu povo. Acresce que quando os EUA, no início dos anos 90, quiseram pôr alguma ordem no caos gerado, as Nações Unidas entenderam que não valia a pena ajudar da única forma viável: a força.

Depois, se não fosse trágico, era quase hilariante a ideia de que a pirataria pode ser justificada por depósitos e pesca. Os indivíduos que a praticam, como sabem, são vulgares bandidos que, à custa de tantos resgates (indevidamente) pagos, estão hoje fortemente armados e visam o enriquecimento ilícito e fácil.

O que, em meu entender, tem andado mal é o alheamento dos países ocidentais, designadamente das antigas potências coloniais (Reino Unido e Itália) que deveriam ajudar a repor alguma ordem no país, permitindo restaurar a ordem pública e o renascer da economia local.

Tudo o resto é propaganda para nos causar remorsos que, com franqueza, não tenho e que não devem confundir-se com preocupação, que todos devemos nutrir.