sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Natal

É corrente que na minha geração estejamos de costas voltadas para a Igreja e sejamos cépticos quanto às estórias relatadas na Bíblia. É difícil explicar aos meus amigos porque tenho um crucifixo em casa e um terço que anda sempre dentro da minha mala, porque a explicação de racional não tem nada e o pessoal é como S. Tomé.

O que queria dizer é que independentemente de tudo o que possa ser verdade ou lenda, existir uma crença de união que baseia a sua verdade na evidência do que o Homem tem de melhor é algo de maravilhoso. E ter transmitido os valores pelos quais o Homem deve reger o seu comportamento ao longo dos séculos, especialmente quando o analfabetismo era a normalidade foi um dos maiores contributos para o estabelecimento das sociedades em que hoje vivemos. Consolar as populações, prestar apoio social, fazer-nos acreditar que no matter what devemos agir sempre pelo Bem, ensinar o perdão é um dos maiores contributos para o progresso e estes são os motivos lógicos pelos quais assumo a lei cristã.

A fé faz o resto.
Um feliz Natal.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Modernamente antiquados

Em Portugal, a vida actual é feita de tudo menos de coisas brandas. Contudo, fico com a sensação de que os nossos professores de Direito, os nossos magistrados e os nossos legisladores ainda vivem com a ilusão de que leis brandas e castração do raio de acção das polícias farão com que os criminosos se recuperem para a sociedade.

Sabemos quase todos nós, todavia, que nada disso é assim. Relembro até que, há muitos anos, alertava o então Ministro Laborinho Lúcio (que fazia o favor de me aturar nos debates promovidos pelo PSD) para a necessidade de, sem cair no “olho por olho, dente por dente”, revermos as ideias ressocializadoras. Dizia-o não apenas por saber o que estudávamos na Faculdade (que a cadeia não recupera ninguém), mas também por sentir que conhecia a segunda parte da frase (a que políticos e académicos ocultavam): que não há possibilidade de, no mundo hodierno, encarregar a sociedade de reformatar sujeitos que entraram na via da prevaricação (a tal alternativa à cadeia).

De então até hoje, creio que as coisas pioraram imensamente! Multibancos rebentados com gás, assaltos a carrinhas de valores, assaltos a ourivesarias e outras lojas, furto de cobre das telecomunicações, agressões entre jovens filmadas para exibição pública, violações e outras malfeitorias multiplicam-se e com grau de violência e crueldade crescentes.

Amadoramente, creio que fui localizando algumas das causas … Desde logo, creio que caiu o que restava de um modelo de comportamento social fornecido pelos titulares de cargos públicos. Se o pós 25 de Abril trouxera o declínio da noção de dever (como correlato do direito) e a degradação da autoridade (não falo de autoritarismo, note-se!), os tempos mais recentes e alguns casos conhecidos propagaram-se na vox populi como razões para rejeitar o político como modelo.

Em segundo lugar, estou em crer que o crime se globalizou e que há redes que o tornam mais eficiente (mormente no escoamento dos produtos roubados ou furtados) e também mais avesso a contornos sociais portugueses (a tal brandura de costumes…), dados os compromissos transfronteiriços assumidos.

Depois, o próprio criminoso sendo também ele em número crescente proveniente de outros países trouxe atitudes mais violentas.

Em quarto lugar, as novas tecnologias – telemóveis e Internet – permitem “aprender” com o que se faz lá fora e banalizar a violência (algo em que o cinema e a televisão também ajudam).

Por fim e obviamente, a crise explica o acréscimo criminal que, todavia, não creio que diminua quando aquela se finar…

Este retrato pede leis exemplares e mais protecção e dignificação das forças policiais, que, ainda assim, se comportam magnificamente, sobretudo se comparadas a congéneres estrangeiras que tenho visto.

Resta-me terminar, desejando a todos um feliz Natal e um Ano Novo com (ainda) mais felicidade (e menos crise…).

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

de Leitura Obrigatória [sobretudo para os membros do Governo]

"(...)As reformas estruturais nunca passaram de um chavão. É preciso uma coragem sem limites para fazer a mudança de regime e criar uma sociedade nova em Portugal, mais livre e independente, mais sujeita ao risco mas com mais oportunidades.

Talvez falte espessura intelectual no Governo. Talvez dois dos pilares da troika (finanças públicas e sistema financeiro) estejam a ensombrar o terceiro (as reformas). Mas se tudo isto, esta consumição, esta hiper-tributação, esta vergonha de sermos pedintes, esta pobreza crescente for apenas para manter o que sempre existiu, na política, na economia, na sociedade, então será como prenunciou Lampedusa, é preciso que algo mude para tudo fique na mesma.

Passos Coelho ainda precisa de provar que consegue fazer o que quis prometer. Tem a última chance agora. Porque se tudo isto for para ficar na mesma, então o primeiro-ministro tem razão: o melhor é emigrar."

editorial da edição de hoje do Jornal de Negócios, por Pedro Santos Guerreiro, na íntegra AQUI

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A nova Europa

A onda de choque financeiro que assolou a Europa em 2008 transformou-se num verdadeiro tsunami que ameaça varrer todo o sistema do Euro.. E ainda não vimos tudo!

De facto, os problemas actuais do Euro não são nada mais do que uma das numerosas variantes dos problemas de soberania. Porque, quando os dirigentes irresponsáveis cedem a soberania inteira ou parcial dum país – seja ela monetária, política, financeira, judiciária ou militar – seria melhor prestarem atenção ao que fazem e às implicações duma tal decisão, a médio e longo prazo.

Ceder a soberania nacional significa que alguém doutro, algures, tomará as decisões baseadas nos interesses doutras pessoas. Enquanto os interesses de todos coincidem, tudo está bem. Mas, desde que os interesses das diferentes partes divergem, segue-se imediatamente uma luta pelo poder. E as lutas pelo poder têm uma coisa em comum: o mais fraco perde.

Assistimos hoje a uma tremenda luta pelo poder na zona Euro. Quem vai ganhar? Quem vai impor novas políticas – a Alemanha ou a Grécia? a França ou Portugal? a Inglaterra ou a Espanha? a Alemanha ou a Itália?

Os grandes eixos deste novo tratado europeu baptizado “acordo intergovernamental”, em que a Europa dos 27, se transforma na Europa dos 17 da zona Euro, mais 9 outros países, são uma verdadeira declaração de guerra social contra os povos.

O acordo explica que é preciso sair da crise comprimindo exclusivamente e ainda mais os orçamentos públicos. Os povos vão pagar mas não os especuladores. Indo sempre no sentido da submissão aos mercados financeiros, este acordo prevê que as políticas orçamentais sejam supervisionadas pela instituição de justiça europeia, sendo as penalidades automáticas aplicadas por toda e qualquer ultrapassagem do limite fixado, actualmente de 3% do PIB.

As coisas são claras, a Europa não é nada mais que uma instituição ao serviço da finança e dos mercados. Os serviços públicos, os assalariados, e a população vão ser sujeitos à contribuição para salvar o sistema capitalista do naufrágio. A supressão de empregos privados, a não substituição dos funcionários que partem para a reforma, a extensão da precariedade e do desemprego, são os únicos horizontes que nos propõem os nossos governantes.

Eles querem fazer-nos crer que as dívidas soberanas são exclusivamente culpa dos povos, enquanto que os Estados salvam os bancos com milhares de milhões dos contribuintes e que estes mesmos bancos especulam em seguida sobre a dívida! Este tratado confirma a perda de soberania dos Estados ao nível orçamental e entregam-nos manietados de pés e mãos aos especuladores e aos fundos de pensões anglo saxões. Não existirá nenhum controlo democrático.

Se os Estados não são capazes de resistir à pressão da finança, a nossa liberdade acabou. Estamos à porta dum mundo totalitário inteiramente controlado pelos mercados.

Freitas Pereira

Ainda bem que sou da Académica…

Adoro futebol!... Porém, dito isto, confesso que há fenómenos que ao desporto rei dizem respeito que me vêm amargurando, pese embora se não tenha chegado ainda ao estado de putrefacção que atingiu a organização mundial do hóquei em patins (lembremos a “roubalheira” de que fomos alvo no último campeonato do mundo, na Argentina).

Se no plano internacional o Sr. Platini decidiu ser oposto de gravata do que era com o equipamento – a arrogância e os favoritismos que parece ostentar como Presidente da UEFA contrastam com a classe e o futebol perfumado que espalhou enquanto jogador – no futebol português as coisas vão de mal a pior.

Creio que podemos começar por dizer que falta-nos uma classe dirigente que tenha nas suas funções o decoro e a elevação necessários para corresponder ao talento dos nossos melhores jogadores. Em muitos casos – não “fulanizo” para não desviarmos a conversa do ponto que intento trazer à colação – são pessoas que esquecem a responsabilidade que têm, comportando-se como “bombeiros incendiários” que gritam “fogo!”, depois de ter ateado o incêndio das naturais paixões “tribais” com declarações irracionais, sem cavalheirismo e ridículas (veja-se o oposto no recente encontro de presidentes e de adeptos, antes do Real Madrid vs Barcelona...). Claro que para isto ajuda o facto de sermos um pequeno país em que há que vender três jornais desportivos diários (não conheço paralelo), mas tal jamais pode servir de desculpa para cidadãos que deveriam entender que a posição de liderança de massas que ocupam obriga a recato, ponderação e calma.

Evidentemente, as consequências no turbilhão de emoções que é a afeição a um clube é evidente; chegamos à idiotice de nos congratularmos com o facto de não ter havido danos no autocarro do Benfica, na última vez que se deslocou ao Porto (sublinho que diria o mesmo se fosse o Arroios). Esse resultado deveria ser a regra e não uma excepção a louvar! Acresce que, para que isso acontecesse, todos os contribuintes pagam milhares de euros em operações policiais, e é assim cada vez que há um jogo entre os chamados “grandes”. Com que direito?! Por causa de meia centena de energúmenos que deviam estar presos?!...

E aqui chegamos a outro ponto: as nossas leis são, em geral, brandas, mas no caso do desporto têm a dureza de uma massagem… Como é possível que não haja certos sujeitos que não passem os dias de jogo no posto de polícia?... Não é preciso mais; se tivéssemos dirigentes nacionais decentes, o incêndio provocado no Estádio da Luz (e todas as demais situações análogas pretéritas, presentes e futuras, com qualquer massa adepta) daria direito a uma interdição do estádio do clube apoiado por esses marginais , o que, por sua vez, obrigaria os associados e adeptos responsáveis (a larguíssima maioria) e os directores do clube a expulsarem quem não sabe respeitar os demais.

Falta o tempo para falar das consequências que atribuo à falta de portugueses nas equipas, ao falhanço nas Selecções jovens e à péssima arbitragem que temos, mas deixo um suspiro de contentamento, pois, no meio de tudo isto, os dirigentes e sua oposição, os adeptos singulares e a claque, e a própria instituição que apoio parecem-me muitos furos acima deste caos…

domingo, 11 de dezembro de 2011

Qualquer dia mudo-me

A única coisa que tenho a acrescentar a esta discussão dos passes sociais é que as poucas alturas em que gostava de ser de esquerda são quando vejo que para além de manifestações semanais elas trazem concertos. É uma animação.
Nós, na direita, temos direito a um concertozinho do José Cid e a umas bifanas à pala no último dia de campanha e pouco mais. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Nós, chineses europeus


Há alguns meses que vemos debater o futuro do Euro político a par do futuro do Euro económico. Para um país cuja abstenção nas eleições europeias ultrapassa os 60% este é um tema que pouco pode dizer aos seus concidadãos. Pode também, e fruto da contra-informação frequentemente gerada por uma esquerda eurocéptica, causar a confusão e a discórdia entre nós, leigos nestes assuntos, devido à falta de conhecimento das dimensões sociais do enquadramento europeu.
O processo de integração europeia, iniciado em 1948 por franceses e alemães teve um propósito político, o da não agressão entre dois Estados Soberanos preponderantes no centro do continente. Desenvolveu-se nas décadas seguintes na vertente económica com uma das mais antigas perspectivas de relacionamento entre os homens: é através do comércio que mais facilmente se pode evitar a guerra. De tratado em tratado, de entrada em entrada de novos membros no clube da Europa o intuito no Velho Continente passou numa primeira fase de aprofundamento de países com semelhanças civilizacionais evidentes, para numa segunda fase incluir os antigos satélites da URSS que aspiravam a índices de desenvolvimento económico e social semelhantes aos vividos no clube.
Este desenvolvimento natural implicou contingências burocráticas relativas aos processos de votação no parlamento e no conselho difíceis de gerir, tendo-se negligenciado a tarefa de transmitir continuamente aos cidadãos da Europa as implicações do aprofundamento de relações e transferência de competências dos parlamentos nacionais para as instâncias supra-nacionais. Por outro lado, o dos Estados, o enfoque nas uniformizações económicas e financeiras impostas em grande parte pelo Banco Central Europeu fez com que os novos actores políticos se esquecessem (ou parecem fazer esquecer) os propósitos desta União.
Havendo um peso relativo crescente da moeda única europeia face ao dólar nas reservas internacionais, e não se permitindo que o yuan entre na contabilidade internacional - julgo que por razões culturais - o Euro encontra-se numa forte penalização cujo propósito poderá ser o do enfraquecimento da União  devido à geo-estratégia económica dos grupos concorrentes mais fortes (neste caso Estados Unidos e China).
Sobre os Estados Unidos: a manutenção do dólar em baixa comparação com o Euro é uma legítima estratégia de escoamento dos seus produtos no plano internacional, a actuação das agências de notação financeira Moody's e Fitch não obedece a qualquer outro critério para além das mais-valias ansiadas pelos seus accionistas. A frase de Gordon Gekko "Greed is good" aplica-se-lhes na perfeição, sendo a comissão gerada pelos produtos derivados (warrants e cds) a maior motivação. Devo lembrar que são agências que atribuíam notação AAA+ em 2008 à AIG, que em 3 semanas esteve em risco de falir... Tendo as suas sedes organizacionais no continente americano, a difícil burocracia europeia pouco pode fazer.  Ali cada um desempenha o seu papel, portanto.
Sobre China  e a sua crescente importância na Europa: No início da década de 2000 vimos na Europa uma presença constante e crescente de produtos made in china produzidos com baixos custos humanos e tecnológicos e que competiram desonestamente com os seus concorrentes europeus que respeitam as básicas condições de trabalho das equipas producentes. Como sabemos, qualquer economia que pretenda entrar nos mercados secundário e terciário segue uma estratégia de implementação: começa a produção em série, defeituosa e a com uma relação custo/benefício que lhe permita assegurar um escoamento rápido e em grande escala para que posteriormente se possa aperfeiçoar  no mercado mais lucrativo. Na fundação da Mercedes em 1886 ninguém imaginaria que passados 125 anos seriam considerados os carros mais ambicionados no mundo. No sector nacional de calçado, após décadas em que a produção servia as classes B e C na Europa, e com a sua morte anunciada aquando a entrada de concorrentes no espaço Schengen, rapidamente os investidores nacionais redireccionaram o seu negócio apostando na qualidade e marca (Fly London, por exemplo). Pois o que respeita às relações económicas entre a Europa e a China, e sobretudo no que respeita à entrada de produtos chineses no continente, é esta a lógica que tem imperado. Com a diferença essencial de que num continente se respeitam as 8 horas diárias de trabalho, as compensações sociais, o gozo de férias pagas, a protecção à infância e os direitos consagrados na Carta Internacional dos Direitos Humanos. E são os segundos os que hoje se predispõem a comprar a dívida europeia. Naturalmente a troco de maiores concessões no campo económico. E talvez geo-estratégico.
São conquistas da civilização ocidental que, e a continuar no impasse criado pelos decisores europeus, seja por questões de agenda interna ou por entraves burocráticos em processos de decisão, estão comprometidas seriamente a médio prazo na nossa união e cuja responsabilidade é inteiramente nossa. Num mundo que se afirma pela concretização de planos multinacionais e de estabelecimento de blocos regionais (NAFTA, MERCOSUL, ASEAN, União Africana...) cujas prioridades assentam em benefícios aduaneiros e de livre transição de bens de consumo, a União Europeia é a mais eficiente experiência de inclusão da qual resulta o geral aumento das condições de vida dos cidadãos. É também o bloco cuja afirmação se deu em primeiro plano pela lógica kantiana de paz pela lei. E seria também o exemplo a seguir por todos os povos.
O que impede a União Europeia de criar as eurobonds, de baixar (ainda que artificialmente) a sua cotação face ao dólar, de criar critérios de entrada de produtos respeitantes à prática de dumping? O que impede a União de se afirmar no plano internacional como o bloco mais forte económica, social e culturalmente? O que nos impede a nós, portugueses, de afirmar que quer seja a Grécia, a Irlanda, a Itália (e agora os Franceses?) que tenham questões de dívida soberana é um problema relativo num bloco regional onde há a total legitimidade para se agilizarem processos e aprofundar com rapidez e eficácia os planos de harmonização fiscal, financeira e política tão necessários para a sobrevivência saudável do sonho europeu e afirmação internacional?

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Politicamente obrigatório

O filme, que até não é nada mau em si mesmo, torna-se obrigatório para todos os que, em compreensíveis momentos pragmáticos e cínicos de raciocínio sobre custos e benefícios, ponham em causa o mérito da deposição de Saddam Hussein. O filme baseia-se no depoimento de Latif Yahia, obrigado a ser duplo de Uday Hussein, filho do ditador, assassino e amante de carros e mulheres. À sua conta desapareceram pais de família e adolescentes (raparigas) de 14 anos.

Qualidade (espionagem e intriga)

A ver

Ilustra bem os riscos e os medos contemporâneos.

Parvo (com direito a alguns sorrisos)

Acção com qualidade suficiente, mas não mais...

Muito bom, sem explorar o lado mórbido da doença

domingo, 27 de novembro de 2011

Tragédia Lusa

(...) Em 37 anos não apareceu uma única obra decente de dramaturgia portuguesa. Apareceram romances em grande quantidade, apareceu poesia, apareceram livros de história ou memórias. Não apareceu uma única peça digna desse nome. Até o Teatro Nacional D.Maria II, na impossibilidade de se ficar eternamente no Frei Luís de Sousa, apresenta geralmente traduções. De resto, não lhe falta só dramaturgia portuguesa. Também lhe falta público. Uma noite no D.Maria é uma noite soturna. Francisco José Viegas cortou o orçamento (um milhão de euros) deste longo equívoco. Foi inteiramente justo. E, quando Diogo Infante resolveu recorrer à intimidação, não hesitou em o demitir. Chegou a altura de acabar com esta ridícula ilusão que em Portugal se chama "teatro".
Vasco Pulido Valente, no jornal Público, edição de 18 de Novembro de 2011


Custa acreditar no que acabo de ler, infelizmente com uns dias de atraso, mercê da qualidade de emigrante... Vasco Pulido Valente foi outrora Secretário de Estado da Cultura, mas nem parece. Na crónica em apreço, fala dessa arte milenar que é o Teatro com um desdém que arrepia. 

É certo que o Teatro tem sido, no cenário nacional, uma espécie de parente pobre da Cultura, dada a escassez de verbas, lucros e um número de espectadores naturalmente mais reduzido do que aquele que ruma a outras manifestações culturais. Porém, não faz sentido menosprezar e reduzir à insignificância as representações cénicas que ainda têm lugar em Portugal, com qualidade e um público meritório de consideração. Público esse que até tem aumentado - pelo menos no que toca ao Teatro Nacional -, e vem confirmar que aprecia e estima esta arte.

Acresce que não só temos bons actores, como temos boas companhias de Teatro e até excelentes festivais dedicados ao mundo cénico. Posto isto, até nos podia faltar dramaturgos (que não faltam...), mas motivos há de sobra para continuarmos a fazer Teatro. Mais: se as salas não enchem não é por não termos um Gil Vicente do séc. XXI, mas sim porque temos vindo a negligenciar o impacto que estas manifestações culturais têm na formação e desenvolvimento das novas gerações ao não lhes incutirmos hábitos de consumo cultural e ao não os sensibilizarmos para a importância deste género cultural.

Nos últimos anos foram muitas as peças de teatro que vi e apenas lamento o dinheiro gasto numa delas (lamentação essa que foi partilhada por aqui). Exceptuando esta, vi peças de qualidade nesse mesmo espaço, São Luiz, e ainda no D. Maria, no S. João, no Teatro da Trindade, no Teatro Aberto, no Maria Matos e em Cine-Teatros Municipais. Vi de tudo um pouco e, a propósito da frase de Pulido Valente na mesma crónica - “tirando antigamente a revista, e hoje o La Féria, não existe, nem nunca existiu um público de teatro em Portugal” -, confesso que nunca vi nada de La Feria. Nada tenho contra este género de representação teatral e reconheço valor às peças por ele levadas a palco, mas sou a prova de uma espectadora que vai ao teatro por gosto sem correr atrás das massas. Haverá mais gente como eu? Há, com certeza, que não tenho memória de ser a única na plateia.

Que me importa que sejam traduzidas, desde que bem traduzidas, adaptadas e representadas? Que me importa ver clássicos como o Rei Édipo ou outros textos de suma importância que não só me entretêm como têm sempre algo para ensinar?... O que realmente me importa - para terminar - é este preocupante caminho que as políticas culturais estão a trilhar e, mais grave, que haja cronistas de referência a aplaudir esta tragédia lusa... ...  

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O EURO E A EUROPA

Minha esposa, que nasceu junto à fronteira alemã, expulsa com a família, pelos alemães, em 1940, para ceder o lugar à colonização alemã da Lorraine, diz-me desde há dezenas de anos: “Os Alemães nunca mudarão! Serão sempre os mesmos desde que detenham a força e o poder.” Isto é, desde que possam dominar os outros.

Trata-se agora do poder económico, porque o militar é impossível e ainda bem!

Isto vem a propósito das dificuldades nas negociações entre os dois chefes da Europa, Merkel e Sarkozy, na procura duma solução para salvar o Euro e a Europa.

O Banco Central Europeu, (BCE), desde sempre considerado como o filho legitimo da Bundesbank, está inteiramente dedicado à estabilidade monetária, custe o que custar, e não mudará de posição de um só jota! Foi o que Frau Merkel disse ao Sarkozy ontem.

Os Alemães dizem aos Europeus: os programas de recuperação ambiciosos são seguidos rapidamente de efeitos positivos sobre o crescimento” Economizem portanto e mais nada. Isto quer dizer: Ponham dinheiro de lado e as empresas investem. São estas as únicas condições para que a redução das despesas publicas possam ter, a longo prazo, efeitos largamente positivos” Tudo parece muito límpido!

Só que, o ciclo económico depende das rendas disponíveis e dos investimentos, que eles provenham do Estado ou do sector privado. Se toda a gente se põe a apertar o cinto ao mesmo tempo, a economia entra numa espiral recessionista.

Não sou economista, mas não vejo bem como nos podemos adaptar à nova situação do mundo! Como evoluir na economia real e ao mesmo tempo pagar as nossas dividas, tanto publicas que privadas? Criando novas dividas para pagar as dividas antigas? Os Alemães dizem-nos: SIM , primeiro devem pagar e economizai ao mesmo tempo, mesmo se para isso é necessário estrangular o povo.

Actualmente, todos os países ocidentais estão em crise ou para lá vão. Se todos os países equilibram os orçamentos ao mesmo tempo, todos se encontrarão na mesma situação: aumento das despesas causadas pelo desemprego, baixa das rendas e investimentos. A crise total, enfim.

E porque é que fazemos tudo isso. Não para proceder a reestruturações, mas porque pessoas como Merkel descobriram que o nosso endividamento era demasiado elevado e que devemos reduzi-lo. Ora, reduzir a divida duma tal maneira não nos leva a parte nenhuma: é a razão porque o investimento está no ponto morto.

Na realidade, as empresas só investem que se elas entrevêem benefícios potenciais ou se o Estado substitui os investidores durante a crise. Mas o Estado não deve investir, ele deve consolidar as finanças do país, assim lhe dizem as autoridades da UE.

O Banco da Inglaterra e o Banco Federal dos USA , têm , ao contrário, toda a liberdade para emprestar ao Estado e às empresas durante a crise e defender ao mesmo tempo a economia dos assaltos das agências de notação. A diferença é grande. Aqui está o processo de autodestruição que acabará por ganhar o conjunto da economia. Sem confiança, o sistema desmorona-se. Eis o que nos promete o futuro.

Freitas Pereira