Longe de mim dar início a uma contenda intergeracional, mas não posso deixar passar ao lado, ou branquear, acusações mais ou menos veladas à nova geração de políticos/governantes, só porque vieram das jotas e porque segundo alguns destes dinossauros da política, tiraram licenciaturas sabe-se lá como.
Para quem não me conhece, tenho 50 anos, pertenço a actual geração de políticos/governantes e portanto segundo os iluminados deste Pais, pertenço à geração responsável por tudo o que de mau acontece em Portugal.
Então vamos por partes e nada como uma abordagem cronológica:
- Foi esta geração que aprovou a constituição em 1976, ideológica, estática, caduca e restritiva em termos de futuro.
Recordo, que passadas quase 4 décadas, pouco ou nada foi alterado na sua génese e que depois de 1976, já caiu o muro de Berlim, já não existe União Soviética, a China é tudo menos comunista, a globalização veio para ficar, não temos fronteiras na Europa e finalmente os jovens de hoje são cidadãos do mundo e não deste pequeno rectângulo, porém temos a mesma constituição.
- foi esta geração que fez uma descolonização vergonhosa, ignorando e menosprezando Portugueses?
De um momento para o outro, famílias inteiras chegaram a Portugal, com a promessa de que as poupanças amealhadas ao longo de uma vida de trabalho seriam convertidas e disponibilizadas pelos bancos em Portugal. Mentira, a maioria delas foi espoliada, tiveram que começar do zero, outras enlouqueceram como alguns casos que conheci de perto
- foi esta geração que nacionalizou o tecido empresarial Português e assim condenou o País e os Portugueses a um retrocesso de mais de 3 décadas?
- foi esta geração que esteve envolvida nos escândalos de Macau, nas verbas do Fundo Social Europeu ou até nos fundos de coesão colocados à nossa disposição pela então pela CEE? Não foi, pois não?
- foi esta geração que atribuiu a si própria reformas e pensões vitalícias depois de 8 anos de descontos, mais tarde corrigida para 12, como é o caso dos deputados, autarcas e afins, quando o comum dos trabalhadores necessita de 40 anos de descontos?
- foi esta geração que criou as regras de supervisão bancaria, que supervisionou e que permitiu que casos como o BPN e BPP acontecessem?
- foi esta geração que tomou a decisão de nacionalizar estes banco se com isso se tivessem salvaguardado os interesses das grandes fortunas, fazendo o Povo Português pagar por erros que não cometeu?
- foi esta geração que criou este sistema de justiça, que deixa impunes todos os crimes de colarinho branco, típicos de quem ocupou cargos de decisão ao longo destes anos?
Não, não foi esta geração que cometeu estas barbaridades e outras que me dispenso recordar, mas que está bem presente na memória dos Portugueses.
Agora, tenho que ser honesto e dizer com toda a clareza, que a actual geração que começou com Pedro Santana Lopes na governação, teve o seu epilogo com Sócrates também prevaricou e porquê? Porque os ensinamentos, os maus exemplos e as más praticas ficaram e quando se critica esta geração por ser o resultado de jotas mal preparados, mais uma vez, o exemplo veio de cima, dos mais velhos, da geração que hoje se auto-intitula, iluminada e responsável.
Como já vem sendo prática nos meus artigos, tento ser imparcial e não poderia deixar passar aqui alguns aspectos positivos da geração dos iluminados:
Fez o 25A e devolveu-nos a liberdade. Desenvolveu um sistema de saúde, de educação, um estado social e uma rede rodoviária de que nos podemos orgulhar, mas mesmo aqui, foram cometidos excessos, que a actual e próximas gerações vão ter que pagar
Mais uma vez, não fui eu que dei inicio a um conflito intergeracional, ele existe e foi iniciado pelos tais iluminados, personificada por Mário Soares, Freitas do Amaral, Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Bagão Felix, só para citar alguns, porque a lista é interminável. E porquê?
Porque habituados a viver a conta do estado Português directa ou indirectamente, pela primeira vez, estão a ser chamados a contribuir tal como os restantes cidadãos para salvar o nosso rectângulo de um descalabro muito provável. Pois é, é que um amigo meu, lembrou-me um máxima que era repetida muitas vezes por alguns destes Senhores em tom jocoso:
Perante uma manifestação em que se gritava, "os ricos que paguem a crise", o comentário não era nem mais nem menos do que, "Então eles não sabem, que são sempre os pobres que pagam a crise?"
Não tem esta geração o direito de dizer "BASTA": não queremos a constituição que vocês escreveram, não queremos a justiça que vocês criaram, não queremos certos vícios e certas práticas. Queremos manter e melhorar o que foi bem feito e corrigir o que foi mal feito.
Finalmente e só porque discordamos em algumas matérias, não queremos ser apelidados de irresponsáveis e mal preparados, mas sim e em conjunto, corrigir excessos, garantindo a sustentabilidade e o futuro das próximas gerações.
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quinta-feira, 4 de julho de 2013
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Santa ignorância
Vi e li a entrevista do Cardeal Patriarca de Lisboa e prefiro mesmo citar, para me não enganar: "No ano em que completou 75 anos de idade e 50 de ordenação sacerdotal, o cardeal Patriarca de Lisboa fala da necessidade dos portugueses ajudarem o Governo a encontrar soluções para ultrapassar a crise. D. José Policarpo afirma ainda que a Igreja não deve praticar política directa, porque 'ninguém sai de lá com as mãos limpas' " (Jornal de Notícias, edição on-line, ontem. Sublinhados meus).
Eu que respeito muito a Igreja e que acredito na importância da Fé, acredito que possa só possa ter sido engano... Eu saí com as mãos limpas e conheço (mesmo) muita gente que também o fez.
Estaria a aplaudir se D. José Policarpo tivesse dito que ninguém sai de lá com a reputação limpa. Isso sim! Cá por mim ainda estou a sacudir a lama que me atiraram. Mas a vida partidária é assim: quando eles vêm em grupo é meter a viola ao saco e mudar de vida...
quarta-feira, 16 de março de 2011
Sobre a Corrupção, para reflexão...
A propósito destas palavras que o Bastonário da Ordem dos Advogados proferiu esta tarde, no âmbito da abertura do novo ano judicial, afirmando que "ao longo dos anos a corrupção alastrou a todos os níveis do aparelho de Estado", ocorreu-me uma passagem de um livro que li recentemente:
«(...) Eufórico, o ministro Prasad esboçou uma expressão erudita enquanto revelava a sua "filosofia da lei indiana". Segundo ele, uma manipulação tão óbvia era apenas possível porque a corrupção na Índia era endémica: não era a poluição do ar, era o ar.
Anos de testemunhos e de gestão de burlas tinham convencido o ministro Prasad de que, embora todos os países debaixo do Sol se debatessem com a corrupção nos seus sistemas, a Índia avançara um passo e aceitara que na verdade existia um sistema na sua corrupção. Assim que a fraude se instalava na consciência nacional, o sistema político não se movia para rectificar essa falha, mas sim para abraçar os seus ideais.» *
Por momentos deu-me ideia que podíamos ali substituir a palavra Índia por Portugal. Talvez esteja a exagerar (e o Brasil? e a Colômbia? e a Itália de Berlusconi?) mas, com excepção de meia dúzia de figuras políticas (Fernando Negrão, Teresa Morais e João Cravinho ou Vera Jardim, em diferentes espaços e tempos), não vejo ninguém realmente preocupado com o combate à corrupção, coisa que influenciaria ( e muito) o estado dos cofres do Estado. É certo que em Julho do ano passado foram aprovados alguns projectos-lei quanto a esta matéria, mas parece que ficaram na gaveta...
* «Os Flamingos Perdidos de Bombaim», de Siddharth Dhanvant Shanghvi, pág. 222 da 1º Edição, Civilização Editora
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Mais lugares à mesa
Diz-se que voltaremos a discutir a regionalização, lá para 2011.
No acto de discutir não vejo problema; apesar de tudo, já lá vão mais de dez anos.
O que posso adiantar é que continuo céptico em relação ao processo em si, já que, num Estado pejado de suspeitas de corrupção e servido por uma classe política medíocre, aposto como tem tudo para dar asneira.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Natal sob suspeita
Tal é a paranóia em torno da corrupção, que estou a ver muito neto, neste Natal, a acusar os avós perante o Dr. Pinto Monteiro, se o presente for um cheque ou dinheiro vivo…Creio que, com culpa das magistraturas, estamos a induzir nos cidadãos um sentimento de putrefacção política e social inaceitável. Dito de outro modo e à maneira popular, das duas, uma: ou estamos perante uma vaga de corrupção sem precedentes, ou o caso ainda é pior e teremos que decidir entre uma inaceitável incompetência e um lodoso (exacto, não quis dizer doloso…) calculismo por parte das magistraturas.
Vamos por partes, todavia… Se optarmos pela primeira hipótese (e, com franqueza, acho que a resposta certa envolve um misto das duas), nada há de novo. Apenas se verifica que os políticos e os empresários, a mais da escala maior em que transaccionam, não são melhores do que o seu povo, pois dele emanam. E, aqui, tenho que repetir que me parece que se não estivéssemos na União Europeia, estaríamos a gerir um caos auto-subsistente como o que vi, há anos, na Albânia; sem desprimor para o valente povo do País das Águias, costumo dizer que somos “albaneses com dinheiro”, e mesmo este é cada vez mais escasso.
De resto, é o fado que se conhece: agimos de forma egoísta, desejamos a desgraça dos bem sucedidos, invejamos o vizinho e vivemos mais ocupados a tentar contornar a lei do que a pensar na bondade ínsita no seu cumprimento, designadamente dobrando uma nota à laia de gorjeta ou oferecendo algo mais em jeito de suborno. Isto, claro está, sem mencionar que somos o País onde a cunha é uma instituição. Assim sendo, como podemos esperar, no paraíso da esperteza saloia, que os nossos políticos e os nossos empresários não bebam desta fonte centenária?!
Contudo, e eis a segunda hipótese, no mais recente caso mediático - “Face Oculta” – não deixa de ser estranha a forma como, depois de uma investigação exemplarmente sigilosa pela Polícia Judiciária, se começam a divulgar a conta-gotas informações que lançam suspeitas sobre o Primeiro-Ministro. Sendo do PSD, estou à vontade para dizer que o cheiro a esturro sai por duas frestas: por um lado, não se entende este desejo de que o caso arda em lume brando, canalizando a informação em penosas e morosas prestações. Por outro lado, cientes de que a lei obriga à intervenção do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, a hierarquizada (o adjectivo está aqui propositadamente!) magistratura do Ministério Público não só não contém as fugas de informação, como não as pune eficazmente; aliás, não as pune de forma alguma…
Não fora eu achar que ainda não estamos nesse grau de mesquinhez e pareceria que estamos a caminho de uma variação perigosa da democracia, para a qual alguns teóricos já alertaram: a república dos juízes e dos media.
Seja como for, cuidado com os presentes de Natal e, sobretudo, não fale deles ao telefone…
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