quarta-feira, 29 de março de 2006

Tá bem, abelha


Lê-se (e vê-se), hoje, no "Record": "Foi involuntário", disse. "Vê-se de forma clara, porque tentei tirar o braço e não tive tempo para o fazer. Creio que o árbitro avaliou bem o lance porque não era penálti", disse.
As declarações são de Thiago Motta, do Barcelona. O mercado também selecciona os mais fortes, mesmo no critério dos árbitros
Fonte: declarações e fotografia in "Record"

quarta-feira, 22 de março de 2006

Sérvia tu


A começar, diga-se que a região dos Balcãs sempre teve muita lenha para nos queimar a todos.

Como bem sublinha Kissinger, por ali passaram as linhas de divisão entre impérios romanos, entre alfabetos diferentes, e entre credos distintos.

Acresce que, entre outras refregas, a I Guerra Mundial começou "with a little help from our friends", os sérvios, ante o "olho gordo" do Império Austro-Húngaro.
Ora bem, dito isto, pode perceber-se a excepção que foram os anos de Tito, e a naturalidade da secessão posterior, na qual Milosevic vogou à vontade, exaltando o sempiterno nacionalismo dos seus conterrâneos.

O problema foram os métodos de Slobo, uma vez que as reivindicações das comunidades sérvias eram de esperar, quer na Bósnia-Herzegovina, quer no Kosovo (onde estão em minoria clara, mas onde as reivindicações nacionalistas sobem de tom, com base histórica).

Fica claro, desde já, que os ditos métodos de Milosevic não têm perdão, e que a sua figura era, por isso, odiosa. Não há causa, por mais legitima que possa parecer aos olhos dos seus defensores, que se justifique com grosseiros atropelos dos direitos humanos.

Porém, há dois pormenores que não são de somenos importância. O primeiro, confirmável nas exéquias fúnebres, é que o nacionalismo sérvio ainda "anda por aí". Aliás, quem visite o Museu Militar, em Belgrado, verá que as salas mais recentes têm a ver com a exposição dedicada aos despojos (fardamentos incluídos) dos soldados da NATO e do UCK (guerrilha muçulmana apoiada pela Albânia) abatidos em combate. O mesmo se diga dos edifícios bombardeados pela Aliança Atlântica que permaneciam, em 2004, propositada e parcialmente destruídos (de tal modo é pensada a atitude que não podem fotografar-se os edifícios).

O segundo prende-se com o facto de permanecerem por apresentar em Haia, que eu saiba, dirigentes croatas de nomeada (tirando o General Gutovina) ou qualquer dirigente ou cabecilha da guerrilha de origem muçulmana.

Espero eu que, neste último caso, não estejamos perante mais um caso da corrente auto-castração da civilização ocidental.

Crimes são crimes, independentemente de qualquer factor de distinção, seja ele a religião, a cor da pele, ou qualquer outro.

Não sendo peremptório, pergunto-me se o "pirata" era só Slobodan Milosevic.

segunda-feira, 20 de março de 2006

Guitarradas

Desafios do PSD:
1-Explicar para onde leva a luta pela credibilidade, no plano interno.
2-Adaptar o modo de comunicação a era em que vivemos. Pode ter-se conteúdo em forma apelativa.
3-Mostrar que temos ideal social; isto é, que mais do que análise sectorial, temos um "mundo de chegada".
Quem tiver unhas que toque guitarra.

Se eu fosse dos outros...

O pior que podem fazer a Ribeiro e Castro e Marques Mendes?!
Não concorrerem, antes de 2008.

quinta-feira, 9 de março de 2006

Já está

Pó a mais

Sinceramente, questionei-me sobre a minha saúde auditiva, quando ontem, numa estação de rádio, ouvi uma reportagem em que se dizia, a propósito da co-incineração, que a Secil não comparecera a uma reunião na Câmara de Setúbal, não só porque não tenciona, para já, aplicar o processo de queima de resíduos na cimenteira do Outão, mas também porque a reunião não era, como de costume, nas suas (Secil) instalações.
Onde é que chegámos?!
A ser verdade é uma atitude arrogante, indelicada e com profundo défice democrático.
O edil sadino está londe de ser do PSD (foi eleito pelo PCP), mas entendo que não pode baixar-se mais o patamar de (des)respeito pelos poderes eleitos pelo povo.
Então um alto quadro empresarial já pauta a agenda de um presidente de câmara?! O dinheiro venceu mesmo a soberania popular?! Por muito que haja essa tendência, rendemos a política à economia?!
Claro que poderá haver detalhes que não se conhecem, mas, a ser verdadeiro o teor da reportagem, o pó de cimento anda a turvar algumas vistas...

quarta-feira, 8 de março de 2006

Rezar por 1/3

A cena é clássica nos desenhos animados: a barragem começa a estalar e a personagem tenta suster a passagem da água com a mão...

Repete-se agora a cena, em meu entender, com a discussão da paridade, pela qual o Bloco de Esquerda (não conheço ainda a proposta do PS) quer obrigar os partidos a incluir um mínimo de 33,3% (ou seja, 1/3) de mulheres nas listas para a Assembleia da República, Parlamento Europeu e autarquias, não permitindo a sucessão nas mesmas de mais de dois elementos do mesmo sexo, em lugares consecutivos.

A medida não parece muito avisada, mas já parece mais, isso sim, ilusionismo.

Comecemos pela primeira parte: não é avisada, porque, desde logo, estabelece um critério de aferição não equiparado noutros planos. Vários dados internacionais apontam para a crescente supremacia das mulheres em determinados sectores de actividade, dos estudos ao mundo laboral. Estarão os legisladores, um dia destes, dispostos a instituir uma quota masculina?

Por outro lado, mulheres haverá que, por muito mérito que exibam, serão sempre olhadas como “quotas”, se for claro que entraram por esse mecanismo. O mesmo expediente, aliás, de que nunca careceram, por exemplo, Maria de Lurdes Pintassilgo, Leonor Beleza e Manuela Ferreira Leite, entre tantas outras que, mesmo quando não candidatas, chegaram, por exemplo, a cargos ministeriais.

Depois, importa pensar que, se a moda pega, cedo teremos de contemplar a mesma medida em função da orientação sexual, da raça e (por que não?!) do credo.

Por fim, será curioso deslindar o caso de não haver mulheres com perfil em número suficiente (num espectro realista de recrutamento) ou de as haver em número excedentário em relação ao máximo de 66,6% permitido por lei. Em nada me chocaria ver três mulheres qualificadas em lugares sucessivos de uma lista.
Faço notar, todavia, que embora tenha uma perspectiva eventualmente conservadora neste domínio, não me considero reaccionário ao ponto de negar a medida a todo o transe. O problema é que consagrada a medida, se forem fundados os meus receios, ou não existirá margem de recuo (retirar direitos é sempre altamente impopular), ou será uma lei a que se fará vista grossa, com o inerente agravar do laxismo português em relação ao cumprimento de normas e obrigações.

Não obstante, o que mais me preocupa é a ilusão de qualidade que possamos estar a criar; o tal estancar de um dique com o indicador…

Creio que, embora sejam coisas de diferente jaez, pode partir-se desta medida para concluir que se resolveu o problema da qualidade da representação, quando o problema, em boa verdade se diga, resulta muito mais da mecânica interna dos partidos do que da lei.

Podemos até exigir 33% de mulheres, 15% de advogados, 8% de professores, 2% de dálmatas ou mesmo a Família Addams, mas, se os partidos continuarem como à data, não haverá garantias de qualidade. Quero com isto dizer que, embora haja candidatos e eleitos de muito boa qualidade, tal é, muitas vezes, fruto do acaso (a parte em que, ao escolher-se determinada pessoa, se acerta no mérito) ou obra de algum “mecenas” político que “atravessa” o seu prestígio e os seus votos internos por alguém de relevo.
Hoje em dia, olhando a maneira como se fazem as listas, pode o amigo leitor crer que nem sempre a preparação para a função hierarquiza a colocação numa lista.

Em suma: se existe a ideia de que a imposição de 33,3% de mulheres na lista resolve um problema, faça-se, mas sem que se alimente a ideia de que passaremos, só por isso, a ter elencos de qualidade.

sexta-feira, 3 de março de 2006

Poder Popular


Tá bem:

- O Presidente do PSD e o seu politburo devem ser eleitos em conjunto e directamente, sendo esta última a opção. Seria idiota ter um sujeito a comandar o exército "inimigo" numa batalha que seria, feitas as contas , contra si próprio e imobilizadora do partido. Já nos meus tempos de santanismo o havia dito ao Premier da minha crença de então.

Tá mal:

- A ser verdade, é preciso ver se a intenção de expulsar automaticamente os militantes que concorram contra o PSD não contraria princípios constitucionais. Concordo com a pena, acredito que tenham meditado sobre isto, mas toda a gente tem direito a ser ouvida, por muito evidente que seja o "delito". Antes de serem passados pelas armas, pelo menos, o Gulag.

A ver vamos:

- Há medidas que são irreversíveis na nossa democracia "mediocrática", designadamente, as que tenham a ver com avanços para a democracia directa; ou seja, levantada a hipótese de consagrar o célebre lema "um militante, um voto" (é justo lembrar que, quando Santana Lopes defendeu as directas, até em fascismo se falou...), já não haverá volta a dar-lhe.

O princípio é justo e corresponde a uma formulação do regime democrático que, na sua quinta essência, nunca existiu, nem sequer na Grécia antiga. Agora, as novas tecnologias da informação tornam possível a ideia, como o demonstram ciber-apostolados que podemos ver, por exemplo, em www.vote.com.

Concretamente, se há 30 anos era necessário ir a uma sede ou ter apetência para ler um jornal, para saber das lideranças, hoje basta ligar o televisor ou telemóvel 3G para ver Marque Mendes, Luís Filipe Menezes e as demais figuras da galáxia presidencializável...

A questão é outra: se já a democracia representativa pressupõe uma cidadania muito bem informada, a democracia directa ainda mais. As minhas dúvidas residem aqui; não sei se o debate com os militantes tem sido suficientemente aprofundado

Acresce que, em campanhas de espectro nacional, o dinheiro contará muito mais para se ascender ao plateau das candidaturas (vejam-se as primárias norte-americanas).

Gosto do princípio, não sei bem se aprecio o momento...

quinta-feira, 2 de março de 2006

Ainda sobre boa educação

Claro que também há a destacar a ideia de preencher os "furos" ("feriados", no meu tempo e na minha terra) com aulas de estudo, ésclarecimeto ou outras actividades.
É bom para os alunos (mantém a disciplina intelectual e utiliza bem o tempo) e não traz mal ao mundo para os docentes que não podem interpretar a missão - e a maioria não o faz, bem sei - como um "upload" com "megas" contados.
Também por aqui, a nota é positiva.
A ver vamos o que se passa em matéria de disciplina, que tanta celeuma levantou, aquando do respectivo estatuto.

quarta-feira, 1 de março de 2006

Certo e Just(in)o

A medida de encerrar escolas do 1º ciclo que tenham menos de 10 alunos, pese embora os inconvenientes da deslocação e da perda de uma referência para muitas terras, é, há que dizer, uma ideia acertada, já que permite a socialização adequada dos alunos (no futuro, a sua cidadania será mais consistente), melhores estruturas de apoio social (por exemplo, cantinas) e mais acesso, designadamente, à prática desportiva.
De igual modo, a extensão do horário escolar nas idades mais jovens não só permite o acesso a actividades complementares (como a música, mas não apenas) que, hoje em dia, só gente de fortuna pode proporcionar a título particular, mas que tão boas consequências têm no desenvolvimento da personalidade, mas também uma medida quase invisível, embora estudada, de incentivo ao crescimento da natalidade, já que, compatibilizando os horários escolares com os dos pais do século XXI (percebo alguma resistência dos educadores e docentes, mas há que arranjar meio de aplicar esta decisão), deixarão de ser o ritmo de vida e carreira a operar como medidas de contracepção.
O que também não ficaria mal é, quando se faz notícia ou se fala sobre o assunto, reconhecer que foi com David Justino que as medidas agora, aparentemente, mais consensuais começaram a abrir caminho. Não é decisivo, mas é Just(in)o...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Para "coimbrês" ver

Cada vez mais me convenço que há uma diferença cultural de tomo entre os latinos e os anglo-saxónicos.

Falo da cultura do mérito e de todas as suas implicações. Por norma (não pode generalizar-se, como em nada na vida, é claro), um indivíduo de matriz anglófona, a mais de acreditar que o mérito pode ditar o bom ou mau resultado de um percurso pessoal, olhará os casos de sucesso com respeito e como um incentivo a melhorar; dirá que, se determinada pessoa alcançou um determinado feito, nada diz que, com igual esforço, qualquer outro não possa fazê-lo.

Por cá, se um tipo com posição de relevo se mantém simples nos modos, elogia-se (sempre que se opta por essa raridade que é um comportamento positivo) o facto de saber viver como o povo; ou seja, em vez de presumir que se trata de uma maneira de ser, gaba-se a não elevação do padrão de vida.

Por seu turno, se, de facto, um dos nossos compatriotas mais bem sucedidos muda de modus vivendi (por vezes, é mesmo incontornável), a inveja e a busca de pontos fracos passa a desporto olímpico. Mais do que olhar para a meta, procura-se fazer regressar os mais rápidos à linha de partida.

Vem isto (também) a propósito da nossa política e, para que fique claro, digo já que podem atacar-me (muitos já o fazem) de mil maneiras e sobre mil e um assuntos, mas garanto-vos que nunca misturei política com negócios e, por isso, estou à vontade para escrever o seguinte: independentemente dos contornos financeiros e legais da questão, que devem ser esclarecidos (sendo caso disso) pelas autoridades e pelos visados, a recente exposição mediática do nosso conterrâneo Nuno Freitas parece-me pensada, parcial e excessiva.

Sumariamente, para quem não tem acompanhado a polémica, alega-se, entre outras coisas, que Freitas teria favorecido, enquanto nº 1 do IDT (Instituto da Droga e da Toxicodependência), quer a irmã (que editaria uma revista financiada pelo IDT), quer uma empresa do seu (nosso) correligionário e dirigente da JSD, Filipe Nascimento.

Nuno Freitas alega a legalidade do processo e, como disse, creio que isso é assunto para ser esclarecido pelas vias competentes e não por um julgamento popular. Quem errou que pague, quem não o fez que veja o bom nome preservado.

Mas vamos aos passos do juízo que fiz sobre a atenção que o assunto tem merecido, mormente na “blogoesfera”. Entendo que é uma divulgação pensada, pois ando pela política há tempo suficiente para franzir o sobrolho quando vejo um assunto com algum tempo de maturação a merecer tanta atenção à porta de eleições concelhias. O facto é que se falava, fazia algum tempo, na hipótese de Nuno Freitas avançar para a comissão política concelhia de Coimbra do PSD. Que melhor altura? E mesmo se não foi ninguém do establishment a atear este fogo, teremos de convir que é uma coincidência danada.

E nem se pense que estou a culpar a imprensa tradicional; o seu dever é informar. O que me intriga é o sentido de oportunidade das fontes de informação, confesso… Mas creio que sobre isto, mais tardar na altura da próxima lista de deputados, iremos tendo mais pistas.

Em segundo lugar, afirmei que tudo isto me parece parcial. De facto, com o avolumar de outros rumores, já há muito que os justiceiros de Coimbra podiam ter gritado por justiça. Só ouviram falar deste assunto? Basta visitar os blogs locais para ler insinuações sobre água, vinho, gasosa, e milhares de assuntos.

Não insinuo nada sobre quem quer que seja, note-se! O que quero dizer é que é curiosa a devoção recente e exclusiva por este “caso”.

Por fim, digo que se trata de uma atenção excessiva, quando não mesmo cruel, porque olvida que se está a “derreter”, ainda sem o apuramento cabal do assunto, um dos mais brilhantes quadros do PSD (e é também por isto que nada me parece ao acaso).

Tenho dito e escrito que a política nacional, em geral, e a de Coimbra, em particular, têm caído no cinzentismo, no deserto de ideais e na orfandade de novas lideranças. Com todos os seus defeitos, o Nuno seria (será, digo eu) uma boa hipótese de regeneração.

Ninguém quer mais do que eu (também sou cidadão e contribuinte) que o caso seja levado às últimas consequências, mas dá-me dó e encoraja-me a desistir a mesquinhez, a crueldade, a leviandade, a falta de consideração e o anonimato com que hoje se abordam os temas de interesse cívico, como é, inegavelmente, o caso.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Não é um filme

Lendo o Diário da República de 30 de Janeiro, conclui-se que Tomás Taveira passou a integrar o conselho consultivo do Instituto Português do Património Arquitectónico.

O cargo não deve ser principesco e, ainda que fosse, as habilitações do nomeado em causa chegam e sobram (confesso que odeio a mesquinhez que se instalou de perseguir quem é nomeado para o que quer que seja, só por o ser).

O destaque da questão - à parte de outros que os leitores entendam relevantes - é mesmo o vanguardismo com que o nosso IPPAR vai passar a ser aconselhado; basta olhar as Amoreiras, a sede do BNU (salvo erro, foi para este banco, o edifício da 5 de Outubro). o Estádio de Aveiro, entre tantas obras.

Obras como o Tunel de Ceuta passarão a ser coisas de moços?...

De Lisboa a Grozny


Entendo todos os argumentos adiantados: manter a prioridade dos temas da interioridade, não exaltar os ânimos, etc...
Contudo, não deixa de me espantar que o Presidente da República Portuguesa, em 2006, tenha de manter confidencial o programa da visita a um concelho do distrito de Viseu, no caso Nelas.
Por um lado, os cidadãos de Canas de Senhorim (os temidos "rebeldes") têm a obrigação legal e o dever cívico de respeitar o Chefe de Estado.
Por outro lado, acho que o Presidente não deve, jamais, "esconder-se" de nenhum habitante desta democracia de 30 anos. Ou não ía a Nelas, ou ía com toda a normalidade.
Que Putin vá assim à Chechénia e Saakashvili faça o mesmo na Ossétia do Sul, ainda vá, mas em Nelas?!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Quando o diferente quer ser igual

Já que falamos de liberdade e de tolerância, e alguns dias volvidos sobre o prime time da questão, falta uma palavra sobre as duas concidadãs que tentaram, assistidas por um advogado, registar o seu casamento na conservatória.
Indo por partes: parece-me, em primeiro lugar, que os três sabiam que a Lei Civil impedia esta união, já que tutela especificamente o contrato de casamento, ao passo que a Constituição enuncia princípios genéricos contra a discriminação.
Pode, por isso, dizer-se que procuraram chamar a atenção para uma situação que reputam de injusta.
Até aí, vamos indo, mas, em segundo lugar, é preciso que haja a consciência de que cada vez que se torna pública a vida privada, a devassa , mesmo quando não desejada, passa a ser regra; ou seja, se já se sentiam alvo de olhares e atitudes discriminatórias, creio que a situação não tende a amenizar (antes pelo contrário).
Depois, não creio sequer que possa falar-se em discriminação legal. Se formos sinceros, reconheceremos que é sabido o facto de o casamento ter sido pensado para unir pessoas de sexos diferentes. Foi uma ideia que fez curso na lei e na tradição.
Virá, nesta altura, o "Che" de serviço dizer-me: "mas a lei e a tradição mudam, senão o marido ainda podia abrir as cartas da mulher!"...
Pois sim, mas há discriminações antigas que não tinham alternativa; no caso dado era simples: ou podia, ou não podia ler correspondência alheia.
No que ao casamento diz respeito, a mais de se misturarem valores ideossincráticos que tocam fundo a muita gente, há alternativas de direito - como a parceria registada, creio, do direito francês - que permitem dar igual estatuto jurídico e cívico aos casais do mesmo sexo.
No fundo, creio que a luta dos casais de homossexuais e lésbicas é usufruir dos mesmos direitos (e deveres), pelo que o essencial não é o nome a dar ao laço jurídico que os une. Insistir em chamar casamento pode aumentar a animosidade social, sem que daí advenha proveito algum, e não deixa de ser curioso que a luta pelo "casamento" venha, no plano político, de sectores que, antes, o achavam uma instituição reaccionária.
Pessoalmente, valha a verdade, vejo com sincera normalidade a união de homens com homens e mulheres com mulheres (e se vier a ser permitido o casamento dos mesmos, não me apoquenta minimamente), esperando apenas que a minha heterossexualidade não venha a ser um estorvo, no futuro, já que parece que há certos sectores da extrema esquerda e dos media que fazem parecer inaceitável qualquer opinião de tom mais conservador.
Também neste domínio, há que usar de tolerância, permitir o exercício da liberdade, mas procurar um ponto de equilíbrio entre as sensibilidades da maioria e da minoria.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Ainda a lógica do toucinho

Vejamos se nos entendemos, ainda a propósito das caricaturas de Maomé...

Sabiam os editores que iriam irritar os muçulmanos, mormente os mais fanáticos?
Sabiam, até porque o projecto surgiu na sequência da dificuldade de um autor em arranjar quem desenhasse o profeta.

Deviam ter-se abstido da publicação?
Creio que não. Uma coisa é pisar o risco, outra é ceder a imposições culturais alheias, quando estamos em nossa casa.
Dito de outro modo, entendo que devemos cumprir certas regras (desde que não ofendam princípios inegociáveis de dignidade humana), quando estamos nos países muçulmanos, mas era o que mais faltava, por muito mau gosto que haja nisso, que não se possa desenhar, por cá.
A não ser assim, qual o limiar de comunidade muçulmana ou a "patente" de um visitante oficial dessas paragens necessários para que proíbamos o uso de mini-saias?
E a homossexualidade, quando passa a ser castigada, até com a morte?
E as barracas de entremeada, à porta dos estádios, quando serão incendiadas?

Sei que retratar Maomé poderá ser visto como ofensa magna, mas dar um passo atrás, por muito pequeno que seja, equivaleria a iniciar uma série de recuos, que não se sabe onde pararia.
A civilização ocidental teve os seus períodos históricos de intolerância, maxime com a Inquisição, e considera-se mais evoluída, hoje, quando já goza de uma ampla liberdade de expressão.
Ora só a interpretação que a esquerda libertária (anarca, digo eu) dá ao conceito de multiculturalismo é que nos pode fazer sentir pejo em afirmar que, neste domínio, acreditamos que estamos mais avançados.
Tal não implica que olhemos outras culturas e credos como inferiores, ou que não possamos conviver com eles; o que quer dizer-se é que há coisas em que, por já termos dado o "salto em frente" (que me perdoem os maoístas pelo plágio), não devemos ceder um milímetro. A liberdade de expressão é, precisamente, uma dessas conquistas.
Depois, há outro plano. Por cá, no mundo dos que, alegadamente, desrespeitam o profeta, há pequenas regras de convivência, como seja, entre outras, a da proporcionalidade da reacção.
Assim, e bem vistas as coisas, parece-me que ameaças de morte, pilhagem e destruição de postos diplomáticos, e violência sortida não abonam muito a favor da imagem dos seguidores de Maomé, por muito que sejam uma gota de água num oceano de gente pacífica. Embora a ideia também possa ser cretina, bem andou um jornal, salvo erro, iraniano, que decidiu responder com um concurso de cartoons sobre o holocausto. Já que não conseguiram ser superiores ao jornal dinamarquês, ao menos foram equivalentes...
Por ora, o remédio é mesmo esperar que se acalmem os ânimos, mas não pedir desculpa ao nível de Estados, já que, convenhamos, falamos de desenhos.
Doravante, há que consensualizar bases de tolerância recíproca, já que a "Idade Média" é tão extrema quanto o "Pós Modernismo", em que alguns europeus gostam de vogar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Chico e o Diabo

Se há recordação que guardo dos debates parlamentares sobre novas tecnologias (aquelas sobre que se dizia, por vezes, na distribuição interna de tarefas, "isto é 'computadores' não é?!") é a de ver Francisco Louçã chamar a si os debates, em que aproveitava, "dia sim, dia sim", para aspergir bílis oratória sobre Bill Gates e a Microsoft.
Defendia o premier bloco-anarco-trotskista que o chamado software livre deveria ser a regra - deveria haver sempre acesso ao código-fonte e a possibilidade de alterar os programas - e que o de licença (os programas que compramos, como, por exemplo, o famoso Office - sim, se fez cópia, fique a saber que muita gente compra) seria excepcional, desde logo na actividade da Administração Pública.
Não vou entrar nos pormenores desses confrontos ideológicos (na altura não havia blog bloquista que não me enxovalhasse), dizendo apenas que o PSD defendia que a solução a adoptar pelo Estado seria a que mais servisse os seus objectivos, independentemente de ser livre ou de licença.
O ponto, agora, é o de lembrar que Gates representava para Louçã o que Lucífer representa para a Bíblia.
Ora é este mesmo homem (Gates) que, a mais das causas sociais em que se empenha (e podia não o fazer), em todo o mundo, veio a Portugal com um programa de acção que, a mais de 19 projectos que passam pela Educação e pela segurança, se dirige também ao problema dramático da iliteracia tecnológica no sector têxtil, e ao da qualificação de recursos humanos carenciados, em geral.
A parceria com a Microsoft parece-me mais um sucesso para José Sócrates, que, aliás, exultou, ainda ontem, numa escola do 1º ciclo, com a extensão universal da banda larga na rede de escolas.
O nosso atraso é, claramente, educacional e cultural (aqui, então, há milhares de anos-luz a acelerar, com o próximo Ministro da Cultura).
Espero, depois disto, que o Grupo Parlamentar do PSD pergunte ao Deputado Louçã como conseguiria resultados sequer parecidos, com as alternativas "reviralhistas" que sempre propõe.

Maomé e a Dinamarca

Uma das formas de liberdade tem sido particularmente abordada, nos últimos tempos: a liberdade de expressão.

Nos tempos de mediatização extrema que vivemos, é muito comum usar de um tremendo pudor, quando falamos dos órgãos de comunicação social, já que, por um lado, qualquer reparo é comummente apelidado de censura e, por outro lado, porque há a noção de que não estar “no ar” é não existir publicamente. Um exemplo inocente deste último caso é o facto de, mesmo depois de ter sido substituído, há meses, haver transeuntes que se me dirigem, julgando que ainda desempenho funções parlamentares; tal é, sem dúvida, função da exposição de que fui alvo. Ora, se isto acontece a um quase-anónimo como eu, imagine-se o que sucede com as nossas “vedetas”, e perceba-se que a relação se torna, por vezes, quase promíscua, tal a “necessidade” de aparecer.

Em si, nada de mal vejo nisto. Comunicar com milhões exige meios de comunicação de massas, com as consequências para a mensagem que daí advêm, e que não são famosas.

Todavia, o que não pode, a meu ver, é cair-se no extremo de aceitar um poder mediático de facto, que não esteja obrigado a jogar o jogo de direito. Penso que é aceite que os media condicionam (legalmente, claro) os políticos e os eleitores e, assim sendo, não vejo como pode esta prerrogativa viver sem obrigações de igual monta.

A “razão de Estado” deve poder ditar algo, em ultima ratio, porque, por exemplo, se as televisões são privadas, o espaço ou espectro de emissão deve ser visto como espaço público. De igual modo, se a imprensa escrita for privada – e deve ser, como já defende o PSD, desde Sá Carneiro – não são privatizáveis os fundamentos da democracia que, designadamente, na óptica de Dahl, exigem acesso à informação e a fontes alternativas, para a obter.

A razão deste post tem a ver com muitas reclamações acertadas (penso, por exemplo, em uma ou duas de Garcia Pereira) e outras tantas “queixinhas” que ouvi, durante a mais recente campanha eleitoral. Entendo que Portugal deveria pensar o assunto com tempo e coragem, assim disponham os grupos parlamentares (não conheço a realidade actual) de representantes bem preparados, já que este é um daqueles temas em que não basta “ter umas luzes” ou achar que se sabe – algo comum no nosso “falabaratismo” político.

Um caso de estudo seria sem dúvida a polémica gerada em torno de publicações da Dinamarca e da Noruega que retrataram Maomé (primeira ofensa ao Islão) em termos pouco edificantes (aqui, nem se fala).

Ante os naturais protestos do mundo muçulmano – conhecido pela sua intolerância em assuntos religiosos e pela abertura quase nula dos programas escolares, salvo honrosas excepções – o Primeiro-Ministro dinamarquês “Anders Fogh Rasmussen repetiu a afirmação de há quatro meses "A liberdade de expressão é uma das bases da democracia dinamarquesa. O Governo não pode influenciar as decisões dos media privados".”, segundo o Diário de Notícias, na sua edição de anteontem. É preciso sublinhar que o contexto é apimentado por ameaças de morte aos autores dos desenhos e à direcção do jornal.

Vale tudo? Se não valer, onde se fixam os limites e quem zela por isso? Devemos ceder na nossa tradição de liberdade, perante um multiculturalismo que é, muitas vezes, a ditadura das minorias?

Creio, no fundo, e não achando particular piada a sátira religiosa, que o Premier escandinavo acertou no fim, mas não no meio, já que os poderes públicos não podem demitir-se da sua função da avaliar a interpretação que é feita do conceito de ordem pública democrática.
Serão os nossos políticos e a nova entidade reguladora capazes de tratarem esta questão, comme il faut?
Em resposta, cito Paulo Gonzo: "pagava para ver"...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Uma aspirina para o Senhor Engenheiro


Creio que o resultado de Alegre vai dar-nos motivos para muitas pilhérias.
Vaidoso como parece ser, no que aos seus galões políticos respeita (já não havia paciência para o missal anti-fascista e resistente), a bagunça no PS – em nome do milhão e cem mil eleitores que já foi lembrando, em dois ou três dias – rebentará à primeira discordância de fundo sobre um tema magno.
Manuel Alegre fará multiplicar o som da sua voz por um milhão, e Sócrates que se arranje. Vêm aí dores de cabeça...

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

A média dos media

Com franqueza, entendo que a vitória de Cavaco Silva, à primeira volta, e contra 5 candidatos de esquerda (cujo objectivo era, assumidamente, a derrota daquele), é um feito notabilíssimo na história do sistema político português.

Todavia, tudo foi dito por algumas vozes dos media e da política para que se diminuísse o facto de um só homem, em seis, ter cativado mais de metade dos mais de 60% de eleitores recenseados que decidiram votar.

Não generalizando, diria que entre os grandes derrotados se contam os media. Quem viu a ligeireza com que passaram as asneiras de Soares e vacuidade de Alegre, e a exploração quase sádica com que, por exemplo, publicaram e republicaram a “caraça” de espanto de Cavaco Silva, quando confrontado, a frio, com as impróprias declarações de Santana Lopes, proferidas na véspera, só pode concluir que Cavaco era o candidato não desejado.

Vejo-me forçado a sublinhar, designadamente, a cobertura que uma das principais repórteres da SIC fez da campanha do novo Presidente: salas que eu vi a abarrotar, eram salas meio cheias ou com clareiras, multidões de centenas passavam a dezenas, e daí em diante…

Em alternativa, nos festejos da vitória, no Centro Cultural de Belém, bastava sintonizar a TSF para ouvir um jornalista dizer que um urso de peluche era um símbolo pouco próprio de um Presidente, ao ver que Cavaco segurava um. Não sou jornalista, mas sempre pensei que importava averiguar “quem”, “como” e “porquê”… Felizmente, uma repórter entrou na linha para explicar (terá sido despedida?) que havia sido uma oferta do neto, assim se entendendo que o recém-escolhido Chefe de Estado tenha segurado, por instantes, o dito brinquedo.

E no dia seguinte à eleição, que podíamos ouvir?! Que, afinal, Cavaco não era de família humilde, como escrevera e dissera, porque uma estação radiofónica colhera depoimentos que diziam que o pai tinha camiões e o mais não sei o quê…

Depois queixam-se das tiragens e das audiências, e chocam-se com a preferência dada ao futebol, às novelas e aos tablóides!...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Lata em poesia é melhor do que lata em prosa

Manuel Alegre é, de facto, um homem da arte ou, dito de outro modo, um (verdadeiro) artista.
Ontem, declarou que com a vitória de Cavaco Silva, "ao fim de seis meses vamos ter uma crise política a partir da Presidência da República para que se cumpra o velho sonho da direita - um Governo, uma maioria, um Presidente." (in "Diário de Notícias", de hoje).
O que espanta é a desfaçatez do Poeta!!!
O alegado sonho da direita (algo que Sá Carneiro, num dado contexto histórico e político, considerou importante para desenvolver Portugal) foi concretizado pelo seu PS.
E sobre o assunto nunca se lhe ouviu dizer que era perigoso ou rejeitável, antes se vendo o alegre Alegre a continuar a ser alegremente eleito para cargos públicos, proposto por esse ser dúbio (a julgar pelo que tem dito) que é o aparelho partidário (no caso, do PS).
Como diz o nosso povo, "já cheira mal"!

Uma boa resposta

Ao que acabo de ouvir, na "Antena 2", José Amaral Lopes, Vereador da Cultura da Câmara de Lisboa e ex-Secretário de Estado do pelouro, chegou a acordo para preservar a fachada da casa onde viveu Almeida Garrett.
Assim sendo, eis uma superior resposta aos que costumavam apoucá-lo.
Em tempo, insurgi-me.
Agora, congratulo.

Onde?!

No sábado, vi Manuel Alegre, em Évora, dizendo que estava numa terra que significava "liberdade" e "25 de Abril".
Salvo o devido respeito pelos eborenses, eu diria que referir o 25 de Abril, no Alentejo, seria significar. no contexto histórico, algo mais parecido com a URSS do que com a liberdade, tal qual a entendemos hoje.
Respeito os marxistas-leninistas de gema, e compreendo as circunstâncias em que, a sul de Rio Maior, e no Alentejo mais notoriamente, se defendeu outro sistema político.
O que aceito pior é o oportunismo de quem passa a vida a bradar contra os pragmáticos aparelhos partidários (ainda que passando uma vida a ser indicado por um deles para funções públicas remuneradas), procurando refazer um projecto de potencial direcção centralizada numa ode à liberdade.
Não vale tudo, sobretudo para os moralistas de turno, como Alegre e Louçã.

sábado, 14 de janeiro de 2006

Alarve

Na 5ª feira, à noite, Mário Soares atingiu o alcantil da grosseria de que tem dado provas, num comício em Portalegre.

Na circunstância, afirmou que Cavaco Silva nunca reconhecera os seus antecessores na presidência do PSD (Sá Carneiro incluído), e que Marques Mendes só fora autorizado a entrar na campanha (num jantar, em Pombal) porque, como era "pequenino", poucos haviam reparado nele.

Ora bem, para quem, como Soares, se queixa dos media, basta imaginarmos o que se diria se fosse Cavaco a gracejar sobre as características físicas, por exemplo, de Soares... Com certeza que seria sugerida a sua apresentação ao Tribunal de Haia.

Sabem o que disse a estação televisiva, onde vi a notícia? Que era o "humor" de Soares...

Que se diria se outro candidato brincasse, supondo que o PS escolheu Soares por ser muito gordo, e assim se fazer notar melhor?

Depois, comprova-se que Soares já não tem, no seu íntimo, a menor esperança de ganhar as eleições. Se a tivesse, não se atreveria a menorizar o líder da oposição (e eventual Primeiro-Ministro), com quem teria de trabalhar, enquanto Chefe de Estado.

Parecer-lhe-ia bem que Marques Mendes insinuasse que o Sócrates só o apoiava porque o candidato já está pouco capaz, o que faria com que, na remota hipótese de vencer, incomodasse pouco o Governo?!

Não sou um mendista, mas sempre aprendi que não se usam características físicas para apoucar, ainda que brincando, um adversário.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Mundo imperfeito

Com franqueza, e numa abordagem pragmática da política, no lugar do engº Sócrates, estaria contente.
Depois de derrotar João Soares e Manuel Alegre, no PS, depois de ver o primeiro a perder Lisboa e Sintra, em eleições sucessivas, a seguir à derrota clamorosa e por indecente e má figura daquele que Carmona Rodrigues designou por "grande ordinário" (leia-se, Manuel Maria Carrilho), qual o último foco de autoridade interna que podia causar turbulência, durante 3 anos sem eleições e com fundos comunitários?
A meu ver só a figura senatorial do dr. Soares.
E não é que eu perfilhe a tese algo lírica de que José Sócrates deseja Cavaco Silva em Belém - por muito que, de facto, os seus conhecimentos de Economia e da governação possam ajudar a entender melhor as medidas a tomar - mas entendo que a derrota de Mário Soares deixará ao nível da insignificância eventuais bolsas de resistência que, sabe-se que é assim no interior dos partidos, são já de si diminutas, quando se detém uma maioria absoluta.
Por isso, creio que Sócrates assumirá, como homem de palavra, a derrota de Soares, mas 3 anos chegam e sobram para fazer esquecer a mesma (quem fala ainda das autárquicas, 3 meses depois?!), ainda para mais quando Soares torna o resultado altamente "pessoalizável".
Numa abordagem mefistofélica, eu, no lugar do nosso Premier escolheria Soares no 2º lugar, à 2ª volta.
Porém, como a sorte também se acaba, creio que falhará a última cereja (a da 2ª volta), sem que com isso se estrague o bolo.

Idade Média

Há pouco tempo, em viagem, falava com um amigo que se queixava do panorama de Coimbra, no plano da política, da cultura, da comunicação social, do futebol, e por aí fora...

E a verdade é que, sendo Coimbra uma cidade com altos padrões de qualidade de vida, é-o apesar de muitos dos supostos timoneiros da nossa barca (permita-se o registo intimista ou unplugged, para usar a terminologia MTV), que é como quem diz que as elites da cidade se arredaram ou foram arredadas do comando dos nossos destinos.

Em ocasiões anteriores já falei e escrevi sobre o PSD, referindo a curiosidade que representa a distância do meio universitário, dos médicos e advogados e outros profissionais liberais prestigiados (muitos dos quais aceitam ser mandatários e afins, quando vislumbram prestígio suficiente na missão), dos agentes sindicais e patronais, em relação à sede do Partido. Não que os aspirantes a "jovens turcos" (apesar de tudo, os originais deixaram marca perene) não tenham a legitimidade, ao menos, formal: ganharam eleições internas pelo voto, eliminaram a competição e espraiaram os seus braços (não contem comigo para escrever "tentáculos"). O facto é que devemos retornar à essência do fim do sistema partidário.

A meu modesto ver, um partido político democrático deve, em primeiro lugar, oferecer um ideal social, aos mais diversos níveis geopolíticos e aos vários escalões etários. Os cidadãos devem perceber, no plano nacional, distrital ou concelhio, que modelo de sociedade resultará de uma prolongada governação daquela agremiação, e como se concatenam as medidas avulsas para o construir dessa sociedade nova.

Entenderá diferente quem tiver vistas curtas, falta de estudo ou oportunismo mediático (como bem percebeu, por exemplo, o Bloco de Esquerda).

Em segundo lugar, um partido deve estimular a divergência interna de opiniões e tolerar o debate externo. Quem discorda deve ser convidado a colaborar e a enriquecer a posição comum, sendo até uma boa maneira de responsabilizar a possível oposição pelos destinos comuns. Parece óbvio?! Acredite que não é, em muitos estádios da vida de um partido.

Depois, entendo que as pessoas devem evitar a inveja. A atitude persecutória das elites é típica dos períodos pós-revolucionários, mas não de democracias maduras. Só mentes pouco brilhantes e com o civismo a terminar na carteira ou no umbigo podem entender que é pendão a ostentar a expulsão das figuras de relevo ou, no limite, a sua não sedução para aderirem à vida partidária.
Fala-vos um tipo que, não se considerando parte da elite, tem pena que se não guarde para ela um lugar de relevo, já que entendo que um catch-all party (um partido consociativo de massas) deve ser verdadeiramente pluralista, se ambiciona espelhar a vida social que procura servir. Não defendendo qualquer teoria elitista (embora saiba o que dizem Paretto e Mosca), creio que as elites ajudam a manter o dinamismo do debate, num dado meio.

Um périplo pelos cabeças de lista de Coimbra de três dos grandes partidos às últimas eleições legislativas é elucidativo: respeito as figuras (nem poderia ser de outro modo), e não sou provinciano ao ponto de entender que só "nados e criados" podem fazer caminho nas respectivas circunscrições, mas a "importação" de facto (apesar dos laços que sempre conseguem estabelecer-se com as terras de recepção) das figuras de proa pode atestar ou a dormência cívica ou a "limpeza étnica".

Não se geraram líderes locais? Se sim, por que não assumem os focos de poder político social e político do Concelho? Se não, por que razão secou a fonte? Por que não entram nas sedes dos partidos, dos clubes e associações e por que não encimam projectos culturais que escapem à marginalidade do "alternativo" ou à facilidade do "pimba"?

Creio que poucos me subscreverão, mas acreditem, pelo menos, que escrevo sem ressentimento ou com outra pretensão que não seja a de tentar encetar um debate sobre a liderança que se foi perdendo, em Coimbra, como em tantas terras. Por cá, faz-me mais confusão, já que temos condições e mole humana para ser um pólo de excelência não apenas na Ciência, na Educação e nas profissões liberais – onde temos feito boa figura – mas também na vitalidade cívica e na influência política, que já tivemos.

Coimbra já deu ao País gente que pôde ser, com mérito, Primeiro-Ministro, Presidente da Assembleia da República, Ministro, e por aí fora… E agora?...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Agri Cultura

Anda amarga a vida cultural e, pelos vistos, nem Coimbra escapa.
Li no "Beiras" que a Câmara de Coimbra vai reduzir o financiamento a algumas actividades culturais, tendo o Edil convidado as pessoas a expressar igual indignação para com alegados incumprimentos do Governo, na área da Cultura.
Concordando com esta última proposta (os apoios culturais, em Portugal, são tão miseráveis e, por vezes, tão mal atribuídos, que toda a indignação é pouca), e confessando que, não estando na CMC desconheço a qualidade dos "apoiados", creio que, se enveredamos pela lógica do embargo (até que os outros cumpram), o que já é pobre (a actividade cultural de Coimbra) pode morrer à míngua. A actividade cultural não pode encarar-se como a prestação do condomínio, que alguns não pagam como retaliação para como o vizinho incumpridor.
Repito: não conheço o fundamento para a redução dos apoios, mas se apenas se diz o que li, parece-me uma má decisão.
P.S.(salvo seja): se com o que disse, há cerca de 7 anos, terminou a minha carreira na Assembleia Municipal e começou um embargo não assumido, no PSD de Coimbra, creio que, depois deste post, é até ao ano 3000. Bem, tanto pior...

Viagens na terra deles

A polémica em torno da demolição da casa onde Almeida Garrett habitou os últimos anos da sua vida tornou-se verdadeiramente estúpida.
Há que acertar alguns pontos:
  1. A casa tinha ou não interesse patrimonial, de um ponto de vista cultural e/ou arquitéctónico? Se tem, não se compreende como deixou a Câmara de Lisboa chegar a este ponto, sendo, na altura do licenciamento, presidida por um ex-titular da pasta da Cultura. Também espantará que, sendo assim, não houvesse quem, no Estado, exercesse o poder de expropriar por utilidade pública, tomando a posição da CML que, emitida a licença, disse não ter dinheiro para adquirir a casa.
  2. Havendo o tal interesse, e estando o edifício degradado ao ponto de fazer presumir um longo abandono, cumpriria perceber a razão de só agora ouvirmos falar dos movimentos cívicos que se opõem à demolição. Os media não davam espaço, enquanto o proprietário não se tornou Ministro (da Economia)? Até pode ser, mas importa perceber...
  3. A haver interesse cultural, e tendo nós em jogo um membro do Governo, eis um conflito de interesses que valia a pena ter resolvido, não se negando a legitimidade de Pinho proprietário para construir, mas também não olvidando a responsabilidade de Pinho governante para com o interesse público.
  4. Se a casa tinha escasso interesse, e embora a tutela fosse camarária, a Ministra da Cultura poderia intervir para o dizer, pondo ponto final na "novela".
  5. Caso contrário, deveria ter intervindo em sentido contrário, fazendo actuar os mecanismos adequados, sob pena de se acentuar (como se ainda fosse preciso...) o nosso terceiro mundismo cultural, em que o dinheiro do betão será sempre um universo, e o dinheiro para a Cultura um grão de poeira cósmica.

Estranham-se os silêncios e entranham-se as dúvidas. Ministro da Economia, Ministra da Cultura, Presidente da Câmara de Lisboa e ex-Presidente da edilidade deveriam, separadamente ou em conjunto, ter falado sobre o assunto, e não "deixar suceder", como é vulgar por cá...

Ataques de lucidez

Mário Soares declarou ao "Expresso" que "arrancou tarde" para a candidatura.
Concordo: trinta ou quarenta anos!...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Um ano de 2006 cheio de felicidade!

Sectários do estrado

Passados alguns dias, podemos pensar melhor sobre a "sugestão-que-não-foi-sugestão" de Cavaco Silva, para que se contemplasse, na orgânica do Governo, um Secretário de Estado que acompanhasse as empresas estrangeiras, assim se procurando evitar a sua busca de outras paragens mais rentáveis.
Depois de várias nuances do próprio sobre o que queria e não queria dizer, fica-me a sensação de que só sendo "anjinho" se não conclui que se tratou de um tiro à proa do Executivo.
Vendo o percurso de Cavaco Silva, diria que é expectável que, nas reuniões com o Primeiro-Ministro, venha a dar sugestões do género, embora, respeitando o seu institucionalismo espartano, não venhamos a saber das mesmas.
Entendido que é em questões económicas, o mais do que provável Presidente da República tudo fará para, na sua óptica, ajudar a relançar o País, e o Governo ganhará um aliado que, desde logo por impreparação ou extremismo, não teria em qualquer dos challangers do Professor.
Mas vamos ao alarido oportunista das outras candidaturas: pode ou não um Presidente sugerir tal coisa?
Não só pode como deve, dado que não temos um sistema parlamentarista, mas sim semi-presidencialista, onde o mesmo Chefe de Estado que pode dirigir mensagens ao País e à Assembleia da República, e fazer juizos políticos sobre diplomas do Governo, através do veto(a meu ver trata-se de um poder excessivo, mas que a tão "amada" Constituição consagra), deve poder dar sugestões, claro está, com a reserva devida.
Cavaco avisou Sócrates e Mendes do que podem esperar e, sem querer armar-me em psicanalista, entendo que fez bem, jogando "limpo".
E, já agora, que mal tem, se o objectivo é buscar soluções para o desemprego?
Triste País este em que os candidatos se reduzem a comentadores e em que os media não vão ao cerne das questões, limitando-se a amplificar o ruído...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Chato do caraças

Manuel Alegre insiste, em Dezembro de 2005, em fazer tema de campanha a sua luta "anti-fascista" (sendo que, para começar, em bom rigor, e já que é político, fascismo é nome de regime italiano, havendo que qualificar de outra forma a nossa II República).
A mais de começar a soar a gabarolice, não me parece que seja bandeira magna, em face dos problemas actuais, com o que não pode depreender-se menor apreço pela liberdade. O que não é preciso é passar a vida a bater no peito ou a falar de uma conquista em que ninguém propõe cedências.
Por isso, anunciar que começa a campanha no Forte de Peniche faz-me desejar que comece pelo lado de dentro, e que por lá permaneça uns bons dias, para a invocação ser perfeita.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

Não sei se não mudava de vida II...

A Ministra da Cultura é uma pessoa de valia intelectual acima de qualquer suspeita.
Porém, no plano político, a coisa não tem ido pelo melhor. Justifica-se o meu cepticismo inicial (tornado público, então), visto que, lamentavelmente e por insuficiência cultural de muitos governantes (de todos os partidos), sucessivos elencos não têm percebido que, num País como o nosso, já é quase só aqui (e na Educação) que se defende a identidade nacional. Ora, fica provado que só com "rebeldes" na pasta (vide Santana e Carrilho) se atingem patamares orçamentais menos terceiro-mundistas, e nunca com as chamadas pessoas da Cultura (e se Pedro Roseta merecia outro respeito!...).
Acresce que, recentemente, houve que dar o dito por não dito, em relação à colecção Berardo, que, ao que se sabe, a Ministra não quereria ver no CCB.
Por causa de arrastamentos sucessivos, Portugal quase perdia para o estrangeiro um dos acervos de arte contemporânea mais importantes do mundo, chegando-se ao rídiculo de o próprio Joe Berardo andar a sublinhar o quanto queria vê-la por cá.
Impôs condições?! E quem reuniu a colecção?
Andou bem o Primeiro-Ministro ao impôr uma solução para o caso, assim defendendo Portugal ao nível do interesse cultural e do turismo que, verão, justificará, também ele, o investimento.

Não sei se não mudava de vida...

Anteontem, vi um dirigente do Sindicato Independente dos Médicos dizer, na RTP-N, que o Governo (este como outros) poderia ter interesse na greve dos médicos, pois, em tempos de crise, seria uma maneira de poupar dinheiro.

Perante uma alegação destas, uma de duas coisas devia acontecer:

- ou o "Senhor Doutor" prova o que diz,

- ou o Governo reage com mão de ferro, em nome de uma classe política que já está demasiadamente despretigiada para se permitir ainda ser acusada de trocar a saúde e a vida dos portugueses por dinheiro.

Enquanto não me desiludir de vez, vou achando grave que se fale assim...

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

Pagar para ver

Para além da impreparação (académica, discursiva, profissional, etc…) de alguns dos nossos políticos, apoquenta-me a hipocrisia com que se abordam alguns temas.

E aí chegados, justiça seja feita ao PS e a Jorge Lacão, Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros. Todos nós sabemos que jamais, em tempo algum, sequer um político terá contactado com o fenómeno da prostituição (partamos deste postulado académico, para apoiarmos a tese sem “folclore”), mas isso não faz com que ele deixe de existir. Duvido mesmo que seja por acaso que se lhe chama a “mais velha profissão do mundo”…

Por isso mesmo, creio que compete à classe política deixar o “faz-de-conta” do costume e abordar o assunto.Vamos por partes:

1 - é possível erradicar a prostituição, a breve trecho?
Honestamente, penso que é difícil, até por hábitos de frequência enraizados e crescentes (basta ler os “classificados” de qualquer jornal ou andar na rua à noite). Existiu, existe e existirá.

2 - Devemos desistir?
Não concordo. A prostituição é degradante para quem vende e para quem compra. Deve é elaborar-se um plano de contingência que permita, enquanto se busca o País ideal (aquele onde, neste caso, nem uma só pessoa se prostitua), lidar com os (muitos) casos que existem, quer a sociedade queira, quer não.

3 - Legalizar?
A verdade é que não ilegal prostitui-se ou solicitar o serviço em causa, o que se proíbe é o lenocínio e o tráfico de pessoas; grosso modo, não pode incentivar e lucrar com a prostituição (vulgo, ser proxeneta) ou traficar trabalhadores, no caso, sexuais.

4 - Ou seja?
A verdade é que o que há é a mais selvagem liberalização da prostituição! Quem pretende que as prostitutas tenham atenção médica regular e obrigatória e que a actividade seja geograficamente circunscrita (assim se devolvendo as urbes aos cidadãos, ao mesmo tempo que se controla melhor a criminalidade, muitas vezes, associada, designadamente a relacionada com o tráfico de droga) não está a “liberalizar”, como se diz; está, bem ao contrário, a impor regras ao que, hoje em dia, é exercido junto de casas e escolas, sem atenção à saúde de quem se prostitui (e, logo, dos clientes; relembra-se que crescem os casos de SIDA entre os adultos heterossexuais), e sem o mínimo cuidado com a dignidade com que homens e mulheres (que não deixam de o ser, penso que todos concordam) que, por uma ou outra razão, o fazem, se prostituem.

5 - E a solução é?
De momento, creio que, se for essa a opinião dominante nos partidos, a única proibição possível passará por penalizar os utentes (como na Suécia), já que penalizar a oferta engloba no mesmo saco a alta prostituição (muitas vezes por free lancers que, assim, ganham quantias avultadas) e quem o faz por depender de drogas, ter caído numa situação de desamparo social extremo (desemprego não assistido, com filhos para criar, por exemplo) ou por estar a ser ilegalmente explorada (o) por redes de tráfico.

6 – Depois de cerca de 2.500 caracteres, qual a minha proposta?
Que se registe a actividade, se forneça amparo social (procurando encaminhar as pessoas para outro “mundo” e acabar, a prazo, com a actividade, por muito utópica que seja a meta), se preste assistência médica regular, se delimitem as condições do exercício da actividade e se combata a criminalidade relacionada com o tráfico de pessoas e de droga, sempre com a mira no fim da “mudança de vida”. Fora disto seria ilegal a prostituição, na oferta e na procura.
Além disso, não creio que seja útil, dadas as questões morais, pensar na tributação, pelo menos de momento.

7 - E é suficiente?
Talvez não. Para aliarmos ao voluntarismo, ao menos nas intenções, do actual Governo a dose de coragem necessária, seria preciso que, de uma só penada, se abordassem, no mesmo sentido, a toxicodependência e o aborto, já que, muito mais do que pensará o cidadão comum, as situações cruzam-se.

Em suma, fica para já o tributo a quem, tendo o poder de lançar o debate, o exerceu.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

Sem salários em atraso

Começam a enfadar-me de morte as prédicas do Candidato-Poeta sobre a liberdade, a libertação, o anti-fascismo e afins...
Vejamos se nos entendemos: para alguém que queira cativar os eleitores nascidos depois de 1970 (tinham, mais ou menos, 4 anos à data da Revolução) importa que se perceba que "gabar a esmola dada" sem parar, a mais de imodéstia (que todos, independentemente da idade, já devem ter notado, tal a intensidade com que o faz), não emociona sequer a unha do mindinho...
Não quer isto dizer que não se respeitem os revolucionários, que não se valorize a liberdade ou que haja saudades de um regime de linha dura que, por maioria de razão, se não conheceu.
O que quer dizer é que tudo tem o seu lugar na História e que, hoje em dia, a tarefa, embora menos "vistosa", é mais difícil: há que dar qualidade à democracia que outros conquistaram, sob pena de a liberdade redundar em libertinagem, por um lado, e exclusão de muitos do cumprimento das suas promessas, por outro lado.
Creio que Manuel Alegre "enche a boca" com intervenções tribunícias sobre estes temas para disfarçar alguma inconsistência que revelou nos debates, sempre que os temas concretos ganharam algum detalhe.
Acresce, quanto à sua permanente peleja pela liberdade, que também é para isso que, há 30 anos, lhe pagamos pontualmente o ordenado, mais não fazendo que desempenhar o seu trabalho, a acreditar que o faz.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Mai' nada!

A "Visão" desta semana, relata a ida de Mário Soares à Universidade Católica, no Porto, e cita as palavras de uma estudante de Direito, Maria João Batista, que fala de Portugal, dizendo que "como País deu um salto que a política não acompanha".
A mesma jovem concidadã pergunta: "Já viu que, em dez anos, os bonecos do Contra-Informação não mudaram?".
É caso para se cumprimentar a jovem, dizendo: "ganda nóia"!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

Ainda há fantasias com a Joana Amaral Dias

Ao contrário do engraçado slogan inventado pelos militantes/agentes provocadores do Bloco de Esquerda ("já não temos fantasias com a Joana Amaral Dias"), creio que Soares anda nas nuvens com a sua mandatária para a juventude (por quem nutri sentimentos de amizade, enquanto colegas, no Parlamento).

Parece, no mínimo, curioso que peça a Manuel Alegre que se desvincule do PS por divergir da orientação do mesmo, e não solicitar o mesmo à sua inspiradora do voto juvenil, que se rebelou contra o BE.
E ainda lembro uma entrevista da Joana ao "Euronotícias", em que dizia que "o Chico dava um bom primeiro-ministro"; pelos vistos para Presidente é que o Chico (leia-se, Francisco Louçã) já não serve... Nisso estamos de acordo.
Voltando ao assunto, todavia, não se pense que confundo o lugar de candidato com o de mandatário, mas também estou longe de reconduzir este à insignificância, posto o que ficaria por perceber a publicidade que lhe é dada, a mais de se ver o dr. Soares obrigado a explicar à drª Joana a sua inutilidade política.
Super Mário at his finest...

Segurar o resultado

O debate Cavaco vs. Jerónimo foi, a meu ver, o melhor e mais esclarecedor.
Duas mundividências contrastantes, contundência q.b. e questões interessantes (privatizações, leis laborais, obras públicas, energias alternativas, etc...) fizeram um bom momento político.
Mérito também aos entrevistadores pelo alinhamento dos temas.
Continuo, porém, a pensar que, não havendo auto-golos, poucos optarão pelo seu Chefe de Estado em função dos debates.

Feito nas Caldas

Na Universidade Nova, Soares gracejou sobre a impossibilidade de se fazer políticos , "como nas Caldas se fazem os...".
A piada é um pouco brejeira, mas passa, dado o estilo bonacheirão do candidato.
Perdoariam os media semelhante graça a Cavaco, Durão ou Santana?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

A grande nódoa, no melhor pano

Foi já na jornada anterior (Naval v. Académica) que vi algo que me desgostou.

Os adeptos da Briosa - com destaque para a sua claque, a incansável Mancha Negra - são do melhor que já vi (e já vi muito futebol, em vários sítios) em matéria de apoio e de civismo.

Contudo, num café da Figueira da FOz, antes do jogo, um jovem (não sei se fazia parte da M.N., mas mesmo que fizesse, não deve tomar-se a parte pelo todo) passeava-se, alarvemente, com uma camisola, onde podia ler-se "Waffen SS".

Ora bem... Que a nossa Constituição até permite o disparate, já se sabia.

Agora, o que continua a desaconselhar-se é que se louve ou publicite o nome de organizações que foram responsáveis por muitos milhares de mortes, a título gratuito.

Esperemos que tenha sido um episódio...

E eles sabem?

Há alguns dias, corrigindo um dos seus muitos tiros infelizes, o dr. Soares veio dizer que, afinal, dormiria sossegado (como se a malta não soubesse...) se o prof. Cavaco Silva fosse eleito para Belém, caso as eleições fossem limpas.
Como ouvi numa crónica radiofónica, o problema é que quem tem tutela para zelar pela transparência do processo eleitoral é o mesmo Governo de cujos elementeos o dr. Soares espera entusiasmo na campanha.
Ou seja, sobre quem lançava o candidato tal estigma?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

Também não esqueceremos

A 7 de Dezembro de 1975, a Indonésia invadiu Timor-Leste.
Ao que se sabe, 30 anos volvidos, através da desclassificação de documentos do Departamento de Estado dos E.U.A., Portugal, com excepção de um ou outro exemplo meritório de patriotismo, nunca teve real intenção de resistir aos indonésios.
Claro que os contextos nacional e mundial eram diversos, mas a contabilidade vai em mais de 200.000 mortos, 1/3 da população (mais de 3 milhões de pessoas, à escala de Portugal).
Ainda hoje, deverão ser poucas as famílias que não contam, pelo menos, um desaparecimento ou outra desdita pessoal.
O século XXI promete trazer bons ventos e o exemplo de concórdia dado pelos timorenses é notabilíssimo, mas convém que a lição da História não seja esquecida.

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

Por um canudo

Augusto M. Seabra - outro dos "cultos" portugueses - é, enquanto figura pública (articulista da área cultural e não sei mais quê...), verdadeiramente lamentável.
Todavia, nem ele consegue, por muito bem regada que seja a prosa, evitar um ou outro momento curioso e, assim, pediu-lhe o "Público" que comentasse o debate "Cavaco vs. Alegre" (por que raio lho pediram é uma incógnita, já que me pareciam capazes de coisas mais interessantes o Noddy ou mesmo a múmia de Lenine).
Mesmo a terminar o seu arrazoada, M. (nunca soube que "M" era este...) Seabra menciona que acha "ridículo" (sic) que o candidato-poeta se deixe tratar por "dr. Manuel Alegre".
A intenção é, obviamente, a de amesquinhar, com o que revela bem o tipo de sujeito que é, mas o facto permanece, sobretudo se nos lembrarmos de que Cavaco Silva o tratou por "Deputado Manuel Alegre" e que, a dado passo, um dos entrevistadores se lhe referiu apenas pelos nomes, continuando a tratar o futuro Presidente por "Professor".
Chegados aqui, admitamos a hipótese de Manuel Alegre não ser, de facto, licenciado. ´
Será imperioso que um candidato a Presidente ou a qualquer cargo político seja licenciado? A meu ver, não! Por exemplo, o Primeiro-Ministro sueco não o é, e a Suécia está um "nadinha" mais desenvolvida do que nós.
Somos um País de parolos em que os títulos importam imenso, mas em que o resultado roça a iliteracia? A meu ver, sim! Veja-se quão informais são os espanhóis, e que produtividade tem o país vizinho.
Porém, algo fica por perguntar: é ou não "ridículo" (para, uma vez na vida, citar o "nosso" M.) que quem não tem um título aceite o "honoris causa"? Ainda na minha modesta opinião, é!
A ser verdade, eis a coerência por um canudo...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Nada de novo

Depois da entrevistam à RTP1, animaram-se as hostes de esquerda (e, provavelmente, parte do CDS) com o alegado desprezo de Cavaco Silva pelas máquinas partidárias.
Com franqueza, só não percebo a novidade...
Muito antes do artigo sobre a "má moeda", o futuro Presidente da República exercera a presidência do PSD com autoridade e distânciamento. E embora "unipessoalização" de um partido seja sempre discutível, há também que reconhecer que foi a última era de dirigentes de marca intelectual forte, precedendo uma fase em que populismo tem sido albergue de discriminação negativa de quem prime pela excelência.
Nem de outra maneira pode entender-se a "execução sumária" de que têm sido alvo algumas das melhores individualidades da área do PSD. Sob o lema de "dirigentes iguais ao povo", por exemplo, o PSD de Coimbra alienou toda uma elite de professores universitários e profissionais liberais consagrados, que hoje fogem da sede de S. José como o diabo da cruz.
Ou, se preferirem, podemos lembrar-nos (mea culpa, com certeza) das listas de candidatos à Assembleia da República, em 2005, das quais foram excluídos nomes de gabarito intelectual e/ou mérito prático. Nem se julgue que falo de mim ou de algum dos meus ex-colegas mais novos (temos tempo ou, no mínimo, guardaremos uma experiência que nem tantos podem auferir), mas fica por perceber como foi possível o autismo de excluir, sem honra nem glória, nomes como os de David Justino, Pedro Lynce, Massano Cardoso, Pedro Roseta, Nazaré Pereira, Suzana Toscano, José Manuel Canavarro, Maria da Graça Carvalho e tantos outros (muitos dos quais nem haviam estado em S.Bento)...

Não aproveitará a ninguém a desculpa mal amanhada da falta de apoio da "estrutura", por dois motivos: por um lado, porque muitos dos que estão também dele não gozavam e, por outro lado, visto que, se é legítimo olhar aos interesses orgânicos, qualquer domínio exclusivo é nefasto em democracia, e essa era uma percepção que, apesar de tudo, era mantida no PSD de Cavaco Silva.
Dito tudo isto por outras palavras, o homem sempre foi assim, o que não lhe retira o facto de ser, a meu ver, o melhor candidato por características várias, das quais destacaria, designadamente, o rigor (que tanta falta faz em muitos espíritos) e o domínio do cerne da agenda nacional e internacional dos próximos tempos que é, evidentemente, de cariz económico.
Por que se apagam Marques Mendes e Ribeiro e Castro, isso já é outra louça; se calhar também foram sempre assim...

quarta-feira, 30 de novembro de 2005

Fica a intenção...

"Timor" - Shakira, in "Oral Fixation, vol. 2"
"It's alright, it's alright
Cause the system never fails
The good guys are in power and the bad guys are in jail
It's alright, it's alright
Just as long as we can vote
We live in a democracy
And that's all we promote
Isn't it, isn't it?
It's alright, it's alright
If the news says half the truth
Hearing what we want is the secret to eternal youth
It's alright, it's alright
If the planet splits in three
Cause I'll keep selling records andyou've got your MTV
(Chorus)
If we forget about them, don't worry
If they forget about us, then hurry
How about a people who don't matter anymore?
If we forget about them, don't woory
If they forget about us, then hurry
How about a people who don't matter anymore?
East Timor, Timor, Timor.
It's alright, it's alright
They don't show it all on TV
So we won't really know it
Just by watching *BC
It's alright, it's alright
For our flag, we die or kill
As long as we don't know
We'd do it just to pay their bills
Let's keep tanning while it's sunny
They'll risk our hides to make their money
Now don't you find that funny
(Chorus)
If we forget about them, don't worry...

Trovas do vento passado

Então o nosso poeta, ainda há 3 anos, dizia que o dr. Soares estava óptimo para consumo, e, há poucos meses, prometera apoiá-lo, caso este se candidatasse?!
Não é coisa minha, foi Judite de Sousa quem lho perguntou, ontem, com visível embaraço do nosso "Culto" profissional de prata (o de ouro é, naturalmente, Prado Coelho, o imperador do subsídio).
Temos canção na praça...

segunda-feira, 28 de novembro de 2005

Cantas bem, mas não me Alegre

Segundo o DN, apesar de Manuel Alegre afirmar ter votado contra o fim do Serviço MIlitar Obrigatório - o tal que pode obrigar as pessoas a ir para a guerra, e as que não querem ir a desertar - disso não há registo nas actas parlamentares. Nem dessa opção, nem sequer de qualquer declaração de voto...

Ora, o caso parecer-me-ia uma mera trapalhada se não fosse o hábito do Poeta de nos dar lições de moral.

Valia a pena analisarmos sem complexos uma vida devotada à cultura, mas com palcos sempre dados pela política.

Um homem a quem repugna que o seu partido defenda a co-incineração, não deve limitar-se a mudar de círculo eleitoral. Deve abandonar as listas...

Por tudo isso, achando irrelevante a novela SMO, já não me parece irrelevante que alguém lhe peça mais humildade intelectual, até Janeiro.

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

Papeira

Francamente, já não sei que diga da Igreja Católica Apostólica Romana, por quem nutro simpatia e com cujas teses tenho muita identificação...
Depois de uma polémica proibição da entrada de homossexuais para o sacerdócio - será um fartote imaginar como vão os responsáveis verificar esta "vocação" alternativa e, melhor ainda, com base em que provas demonstrarão que foi uma perturbação transitória ocorrida mais de três anos antes da ordenação diaconal (facto de exclusão da "ilicitude", para a Cúria Romana, se bem li as notícias) - vem agora o Papa, ou alguém por ele, excluir Daniela Mercury do concerto de Natal, visto que a cantora terá participado numa campanha pelo uso do preservativo, no Brasil.
Se Daniela o fez, fez muito bem, lamentando eu que o autismo ainda domine certas partes da mundividência católica.
Defender a castidade não é incompatível com a elaboração de planos de contingência que combatam um flagelo que matará milhões de pessoas, a breve trecho, e que mais liquidará se persistirmos em pensar que certas coisas deixarão de se passar entre seres humanos, assim se tornando desnecessárias outras cautelas.
E agora se quiserem mandar a Daniela pró Inferno, tanto me faz, pois nem uma só alma se converterá com um concerto de Natal.
A cruzada do Vaticano contra os infiéis do latex promete mais vítimas que as cruzadas antigas...
A Igreja está doutrinalmente doente, para meu desgosto.

Descubra as diferenças

A "Visão" cita Betty Grafstein, mulher (?) de seu homem (???), José Castelo Branco, que afirmou:
"A Quinta das Celebridades deu-o a conhecer ao grande público, que antes o achava uma anedota"...
Juro que pagava para saber quem é que deixou de achar.
Como vêem, o 25 de Novembro também tolerou abusos...

O meu feriado

Hoje passa a data em que Portugal pôde, verdadeiramente, ter a sua oportunidade de experimentar o regime democrático.
Considero que a I República teve demasiada "bandalheira", que o Doutor Salazar muito ganharia em ter preparado a transição, a partir do final da década de 40, e que o 25 de Abril, embora desejável e inevitável, também traz consigo muitos dos erros que ainda hoje nos tornam uma democracia "tropical" (começando na Constituição de 1976, que ainda hoje tolhe muito o nosso progresso, e continuando pelos abusos que geraram uma das mais débeis classes políticas do mundo ocidental).
Agora que muito complexos "esquerdófilos" deixam de fazer sentido, valia a pena que se contasse de forma isenta a História do Portugal do século XX, que se dessem poderes constituintes a uma assembleia, e que o 25 de Novembro passasse a ter uma evocação, no mínimo, tão digna como o 25 de Abril, pelo que teve de travão à (outra) ditadura.
Aqui se evitou que Lisboa fosse a cidade perfeita para geminar com Tirana (salvo o devido respeito pelos albaneses, que são boa gente).

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Amigos do coração

E ainda criticam Cavaco Silva por estar calado...
Digam-me se vale a pena abrir a boca, quando pode assistir-se de camarote à implosão dos dois challangers.
Para ilustrar, nem uma palavra minha. Deixo-vos uma passagem sobre a acção de pré-campanha de Alegre, no Porto, também do DN de hoje:
Pelo meio, em declarações aos jornalistas, reagiu irritado a um comentário de Mário Soares. O adversário sugeriu que todos os candidatos apresentassem o boletim médico e Alegre não gostou das palavras de "muito mau gosto". "Com isso não se brinca. Toda a gente sabe que tive um enfarte e que recuperei. Estou perfeitamente em condições, segundo a opinião dos meus médicos."

Novas rimas

É claro que descontextualizei, mas não é lindo ler Manuel Alegre, citado pelo DN?!
"Comovo-me muito quando chegam cheques de cinco ou dez euros"
Como isto anda, quem é que não se comoveria?...
Em bom rigor, creio que o Poeta se comoveu mesmo foi por não serem cheques de 5.000 ou 10.000 €.

Sabão azul e branco

Soares é, de facto, fixe...
Em cartazes de tons azuis e brancos (a lembrar a monarquia) vai elucidando a malta de que "sabe unir" e de que "sabe ouvir", sendo que num deles aparece de fato e gravata, e noutro deixa-se fotografar, jovialmente, de camisola.
Ora esta tentativa de rejuvenescer Soares pela roupa (suponho que, no mínimo, os seus spin doctors o queriam mostrar mais informal) faz recear o pior; será que num cartaz em reconhecesse que "sabe dormir" apareceria de pijama?
E se, para o tornarem mais jovial, o pusessem de calções ou jardineira, com um balão na mão? E por que não um fatinho de marujo e um gelado?
E na senda da informalidade, que impede os seus assessores de o fazerem vestir umas jeans rasgadas ou de lhe darem um visual hip hop, estilo Eminem?
Razão tinha o outro que falava de sabonetes e candidatos, numa mesma prateleira...

60 contos de liberalismo

Uma das notícias do dia é o inicio da efectivação de uma das promessas eleitorais do engº Sócrates: a de elevar para o mínimo de 300 € as pensões de reforma, embora comece apenas pelos que têm mais de 80 anos, para chegar aos cidadãos de 65 anos, em 2009.
A bondade intrínseca da medida não é questionável, a não ser pelas pontas por onde já começaram a pegar: por um lado, há quem diga que é pouco começar pelos octogenários, que são, ao que ouvi dizer alguém na TSF, pessoas em fim de vida. A mais do macabro de algo que poderia ficar não dito, a verdade é que se em 2009 se chegar ao fim da linha, não é nada mau. Isto a mais de sabermos que a situação do País não permite avanços de rompante.
Por outro lado, ouvem-se lamentos no sentido de que só abrangerá aqueles que não auferem qualquer outro rendimento, nem que seja sob a forma de apoio familiar. Aqui chegados, há que dize-lo: concordo com a opção, entendo que é ideológica, e é muito mais liberal do que socialista, para que conste no Largo do Rato.
A verdade é que o que pode ler-se na "questão familiar" é a ideia de que a sociedade civil tem um papel muito importante no desenvolvimento de um País. Ao Estado devem reservar-se funções reguladores, designadamente garantindo um limiar mínimo de dignidade social abaixo do qual ninguém deve cair. Daí por diante mérito e laços sociais devem desempenhar o seu papel.
A medida é boa e tem um travo anglo-saxónico, mas se isto é apoiar o Governo, ao menos note-se que eu já estava do lado de cá das novas fronteiras. Dito de outro modo, como Blair provou, a 3ª via é mais liberalismo com tempero social do que socialismo.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Educar o algodão

O despacho normativo n.º 50/2005 do Ministério da Educação prevê n.º 50/2005 vai possibilitar a “avaliação extraordinária" de alunos que, tendo já reprovado, se encontrem em situação de o voltar a fazer, pese embora remetendo essa competência para o conselho pedagógico da escola.

Prevê-se ainda que os alunos possam ser encaminhados para cursos de formação conferentes de certificado.

A medida é uma ultima ratio, e pode não ser dramática, mas pode ficar a sensação de que se está a emoldurar as estatísticas da nossa (falta de) Educação, para europeu ver…
É que, também aqui, o algodão (leia-se, a selecção que o mercado fará) não engana...

Manual do votante orçamental

Manuela Ferreira Leite, que também não é “profissional da política” (para usar o bom léxico do Professor) e que, portanto, pode afirmar o que lhe der na telha, com a competência e inteligência que se lhe reconhece, veio dizer que, sendo que o Orçamento do Estado para 2006 vai na linha daqueles que ela defendera enquanto governante, provavelmente, abster-se-ia.

Subtilmente, deixa um enigma, ao acusar ainda o PS de pouca seriedade por ter votado contra os OE de PSD e CDS e, depois, apresentar um semelhante. Fica para os analistas fazer a leitura a contrario desta declaração…

Quanto às dúvidas da Presidente da Mesa do Congresso sobre o cumprimento das medidas pelo Governo, isso serão outros quinhentos…

Pelo meio, vozes autorizadas, como as de Eduardo Catroga (Presidente do Conselho Estratégico do líder do PSD), Duarte Lima e a primeira versão de Miguel Frasquilho (que, a meu ver, e digo-o como seu amigo, mais uma vez se deixa ficar… Não dá para muitas mais vezes, caro Miguel), vieram reconhecer traços positivos no OE 2006, em cujo meandros não me aventura, porque são outros os meus mares.

Ou seja, contas feitas, fica o PSD com um voto táctico e um primeiro tiro à proa de Marques Mendes por parte de uma personalidade não “menezista” de peso .

terça-feira, 15 de novembro de 2005

Juventude Pop

Tenho o João Almeida, Presidente da Juventude Popular, por um bom amigo. É por isso que se limita ao campo político a apreciação depreciativa que faço da decisão daquela organização de não apoiar Cavaco Silva.

A decisão é legítima e, ao que sei, imaculadamente democrática. Porém, começa por enfermar de um erro de tomo, em matéria de ciência política: a JP e o seu líder esgotam um momento mediático magno comunicando um "não apoio", uma decisão negativa, lamentando que não haja um "mundo melhor".

Pode até dizer-se que "bem, se não fosse assim não teriam tido a atenção dos media e a acusação de desperdiçar os holofotes cairia pela base"... Até pode ser que sim, mas valerá a exposição tudo e mais umas botas?! Nessa lógica (que não lhes ouso imputar), passaria a ser expectável que um conselho nacional tivesse lugar numa colónia naturista ou que o congresso decorresse numa mina…

Admitamos, todavia, que foram mesmo razões políticas substantivas e/ou tácticas que subjazeram a este niet a Cavaco.

Do lado do "modelo de desenvolvimento", diria que Cavaco Silva, a mais de ter autonomizado, pela primeira vez, a Juventude como área de incidência governamental, introduziu um conceito de livre iniciativa, um hábito de saudável do orgulho nacional (provando-se que podiamos fazr mais e melhor que todos os demais, como mostraram a Europália, o Campeonato Mundial de Juniores e a Expo 98, lançada pelo seu Governo, entre outras realizações) e uma ideia de modernidade (só criticará o betão quem se não lembrar de que podia demorar-se, em noites "europeias" da Luz, 6 horas para viajar de Lisboa a Coimbra, à noite). Estas e outras seriam, creio eu, belíssimas razões para uma juventude partidária, que não seja de esquerda, apoiar o Professor.

O grande problema é que, dê por onde der, o João Almeida e os seus não vão livrar-se do estigma - injusto, espero eu, sob pena de termos de optar por uma análise mais demolidora - de que esta votação interna reflectiu a linha de fractura do CDS, sendo que aquele foi o candidato a secretário-geral de Telmo Correia (que, aliás, também tenho por amigo), o mesmo que voltou a opor-se a Ribeiro e Castro, agora em matéria de presidenciais. Aliás, a suspeita agrava-se, para quem a nutra, se virmos os rasgados elogios a Pires de Lima (merecidos, diga-se), a propósito da eventualidade do seu avanço para o cadeirão presidencial centrista.

De todo o modo, a pergunta fica: a alternativa da JP, sem imaginar candidatos que não existem, é a vitória de Mário Soares ou a de Manuel Alegre?

Embora respeitando a decisão, teremos de ter memória, daqui a uns anos...

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

Passatempo

Alguém me explica, a ser verdade, por que diabo o BCP se deu ao patriótico desígnio de oferecer ao Estado o fundo de pensões?
Estou a pensar num prémio para a melhor tentativa de explicação.

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Contas certas

De facto, Sócrates prometera não culpar o passado.
Marques Mendes "acertou-lhe o passo", visto que, no debate orçamental, o PSD foi bombo da festa das referências do nosso Premier.
Quanto às referências censórias às SCUT, não posso deixar de concordar com o Presidente do PSD, embora tal revele "conceito", por parte de quem as preconiza.
Já no que à OTA diz respeito, mais valia que nós, eleitores e contribuintes, percebessemos, de uma vez por todas, se precisamos ou não de partir de vez o mealheiro.
Por fim, e feita a análise da nota técnica, na nota artística já conhecemos - e há que reconhecer - a veia do Engenheiro, nos grandes momentos...
E mais não digo...

"Love me tender"

Já repararam no ar lânguido com que Louçã nos fita, nos cartazes onde promete que tudo será "olhos nos olhos"?
Não tenho nada contra visões alternativas do modus vivendi, porém fica-se com o receio de que o chefe do politburo bloquista tente beijar-nos, se nos encontrar em campanha...
Irra!

terça-feira, 8 de novembro de 2005

Homens providenciais

São lapsos inofensivos de um jornal de qualidade, o "Público", mas não deixa de ser curioso imaginar a concretização das notícias tal como nos chegam:

1 - "PSD aprova apoio a Cavaco por 'unanimidade e aclamação' " (30/10)

Sendo que "amanhã [31 de Outubro, entenda-se], Cavaco desloca-se à sede de candidatura de Cavaco, para lhe manifestar o apoio formal".

Imagino o austero Professor a trocar, sucessivamente, de lado da mesa e, no fim, a apertar a mão direita com a esquerda. Convenhamos que iria melhor com a vaidade do dr. Soares...

2 - "Nino Vieira pretende criar em Bissau um Governo de Unidade Nacional" (31/10)

Depois de outras informações sobre a democracia guineense, ficamos a saber, sobre o actual Presidente, que "depois de ter sido derrubado em 1999 por uma parte das Forças Armadas, Nino Vieira foi afastado do partido que até então controlava, e só conseguiu este ano regressar ao poder graças ao apoio do Partido da Renovação Social (PRS), de Kumba Iálá, e do Partido Unido Social-Democrata (PUSD), de Kumba Ialá".

A mais de porem Kumba, um dia depois (a notícia tem mais 24 horas do que a anterior), a tentar aumentar a ubiquidade de Cavaco, creio que exageram no pluralismo que atribuem ao sistema de partidos da Guiné-Bissau...

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

Estar acordado

Nem mesmo o dr. Soares pode permanecer no registo de hecatombe, a todo o instante...
Na mesma entrevista à VISÃO, acometido de um momento de lucidez à antiga, Soares responde a contento:
VISÃO: "Houve pessoas ligadas a Manuel Alegre que o acusaram de 'traição' a um amigo..." (...) "Inês Pedrosa, por exemplo...".
Soares: "Não ouvi. O Eduardo Prado Coelho sim. Mas o Prado Coelho não tem autoridade para falar em traição. Tem um percurso tão sinuoso, do ponto de vista político...".
BINGO!!! É, de facto, das mais lamentáveis figuras do panorama pseudo-cultural português.

"É triste ver este homem"...

Apesar de citar a letra da banda sonora de um filme com final trágico, não é ao "guerreiro menino" que me reporto, mas sim ao dr. Soares, que deveria ter sido preservado, um pouco (salvas as devidas distâncias, porque as circunstâncias são diversas) como sucedeu com Sottomayor Cardia, quando lhe passou pela cabeça o avanço para Belém.

A "tara" por Cavaco é excessiva, ridícula e apouca um homem com um percurso, goste-se ou não, singular.

Anteontem, na TVI, era o facto de não saber falar e de, quando o faz, só debitar Economia.

Ontem, a entrevista à VISÃO trouxe mais umas pérolas:

a) "Estou aqui para discutir as minhas ideias convosco. Se vai pôr toda a ênfase em Cavaco Silva, está a fazer uma entrevista falhada"
(...)
"Mas ainda não saímos do professor Cavaco... É uma obsessão vossa!"
(...)
Porém:
"(perguntado sobre se tem apoiantes de direita) Tenho, mas sabe por que é que me apoiam? Porque não gostam de Cavaco Silva".

E a obsessão é dos outros!... Ainda bem que as pessoas se revêm, sobretudo, nas ideias...

E, já agora, quem falou numa candidatura para evitar um passeio de Cavaco Silva na Avenida da Liberdade?



b) VISÃO: "Porque escolheu (...) Cunha Vaz, que Ferro Rodrigues processou por difamação..."?
Soares: "Quanto à empresa de Cunha Vaz, sou testemunha, nesse processo, a favor de Ferro Rodrigues, por quem tenho muita estima e de quem sou amigo. Cunha Vaz está apenas lá [candidatura] como profissional".

E se não tivésse estima e amizade?! Ainda bem que não é também testemunha de Jeová, porque era mais grave, dado o envolvido...



c) VISÃO: "A decisão de levar até ao fim a sua candidatura é mesmo definitiva?".

Voltando à introdução do post, e salvaguardo o devido respeito pelo dr. Soares, não estranhará ele por que é que estão sempre a fazer-lhe esta pergunta?! Será que imaginam que há uma cabala "geronticida"?

Vai ser dramático, até Janeiro, olhem o que vos digo...