quarta-feira, 29 de março de 2006

Tá bem, abelha


Lê-se (e vê-se), hoje, no "Record": "Foi involuntário", disse. "Vê-se de forma clara, porque tentei tirar o braço e não tive tempo para o fazer. Creio que o árbitro avaliou bem o lance porque não era penálti", disse.
As declarações são de Thiago Motta, do Barcelona. O mercado também selecciona os mais fortes, mesmo no critério dos árbitros
Fonte: declarações e fotografia in "Record"

quarta-feira, 22 de março de 2006

Sérvia tu


A começar, diga-se que a região dos Balcãs sempre teve muita lenha para nos queimar a todos.

Como bem sublinha Kissinger, por ali passaram as linhas de divisão entre impérios romanos, entre alfabetos diferentes, e entre credos distintos.

Acresce que, entre outras refregas, a I Guerra Mundial começou "with a little help from our friends", os sérvios, ante o "olho gordo" do Império Austro-Húngaro.
Ora bem, dito isto, pode perceber-se a excepção que foram os anos de Tito, e a naturalidade da secessão posterior, na qual Milosevic vogou à vontade, exaltando o sempiterno nacionalismo dos seus conterrâneos.

O problema foram os métodos de Slobo, uma vez que as reivindicações das comunidades sérvias eram de esperar, quer na Bósnia-Herzegovina, quer no Kosovo (onde estão em minoria clara, mas onde as reivindicações nacionalistas sobem de tom, com base histórica).

Fica claro, desde já, que os ditos métodos de Milosevic não têm perdão, e que a sua figura era, por isso, odiosa. Não há causa, por mais legitima que possa parecer aos olhos dos seus defensores, que se justifique com grosseiros atropelos dos direitos humanos.

Porém, há dois pormenores que não são de somenos importância. O primeiro, confirmável nas exéquias fúnebres, é que o nacionalismo sérvio ainda "anda por aí". Aliás, quem visite o Museu Militar, em Belgrado, verá que as salas mais recentes têm a ver com a exposição dedicada aos despojos (fardamentos incluídos) dos soldados da NATO e do UCK (guerrilha muçulmana apoiada pela Albânia) abatidos em combate. O mesmo se diga dos edifícios bombardeados pela Aliança Atlântica que permaneciam, em 2004, propositada e parcialmente destruídos (de tal modo é pensada a atitude que não podem fotografar-se os edifícios).

O segundo prende-se com o facto de permanecerem por apresentar em Haia, que eu saiba, dirigentes croatas de nomeada (tirando o General Gutovina) ou qualquer dirigente ou cabecilha da guerrilha de origem muçulmana.

Espero eu que, neste último caso, não estejamos perante mais um caso da corrente auto-castração da civilização ocidental.

Crimes são crimes, independentemente de qualquer factor de distinção, seja ele a religião, a cor da pele, ou qualquer outro.

Não sendo peremptório, pergunto-me se o "pirata" era só Slobodan Milosevic.

segunda-feira, 20 de março de 2006

Guitarradas

Desafios do PSD:
1-Explicar para onde leva a luta pela credibilidade, no plano interno.
2-Adaptar o modo de comunicação a era em que vivemos. Pode ter-se conteúdo em forma apelativa.
3-Mostrar que temos ideal social; isto é, que mais do que análise sectorial, temos um "mundo de chegada".
Quem tiver unhas que toque guitarra.

Se eu fosse dos outros...

O pior que podem fazer a Ribeiro e Castro e Marques Mendes?!
Não concorrerem, antes de 2008.

quinta-feira, 9 de março de 2006

Já está

Pó a mais

Sinceramente, questionei-me sobre a minha saúde auditiva, quando ontem, numa estação de rádio, ouvi uma reportagem em que se dizia, a propósito da co-incineração, que a Secil não comparecera a uma reunião na Câmara de Setúbal, não só porque não tenciona, para já, aplicar o processo de queima de resíduos na cimenteira do Outão, mas também porque a reunião não era, como de costume, nas suas (Secil) instalações.
Onde é que chegámos?!
A ser verdade é uma atitude arrogante, indelicada e com profundo défice democrático.
O edil sadino está londe de ser do PSD (foi eleito pelo PCP), mas entendo que não pode baixar-se mais o patamar de (des)respeito pelos poderes eleitos pelo povo.
Então um alto quadro empresarial já pauta a agenda de um presidente de câmara?! O dinheiro venceu mesmo a soberania popular?! Por muito que haja essa tendência, rendemos a política à economia?!
Claro que poderá haver detalhes que não se conhecem, mas, a ser verdadeiro o teor da reportagem, o pó de cimento anda a turvar algumas vistas...

quarta-feira, 8 de março de 2006

Rezar por 1/3

A cena é clássica nos desenhos animados: a barragem começa a estalar e a personagem tenta suster a passagem da água com a mão...

Repete-se agora a cena, em meu entender, com a discussão da paridade, pela qual o Bloco de Esquerda (não conheço ainda a proposta do PS) quer obrigar os partidos a incluir um mínimo de 33,3% (ou seja, 1/3) de mulheres nas listas para a Assembleia da República, Parlamento Europeu e autarquias, não permitindo a sucessão nas mesmas de mais de dois elementos do mesmo sexo, em lugares consecutivos.

A medida não parece muito avisada, mas já parece mais, isso sim, ilusionismo.

Comecemos pela primeira parte: não é avisada, porque, desde logo, estabelece um critério de aferição não equiparado noutros planos. Vários dados internacionais apontam para a crescente supremacia das mulheres em determinados sectores de actividade, dos estudos ao mundo laboral. Estarão os legisladores, um dia destes, dispostos a instituir uma quota masculina?

Por outro lado, mulheres haverá que, por muito mérito que exibam, serão sempre olhadas como “quotas”, se for claro que entraram por esse mecanismo. O mesmo expediente, aliás, de que nunca careceram, por exemplo, Maria de Lurdes Pintassilgo, Leonor Beleza e Manuela Ferreira Leite, entre tantas outras que, mesmo quando não candidatas, chegaram, por exemplo, a cargos ministeriais.

Depois, importa pensar que, se a moda pega, cedo teremos de contemplar a mesma medida em função da orientação sexual, da raça e (por que não?!) do credo.

Por fim, será curioso deslindar o caso de não haver mulheres com perfil em número suficiente (num espectro realista de recrutamento) ou de as haver em número excedentário em relação ao máximo de 66,6% permitido por lei. Em nada me chocaria ver três mulheres qualificadas em lugares sucessivos de uma lista.
Faço notar, todavia, que embora tenha uma perspectiva eventualmente conservadora neste domínio, não me considero reaccionário ao ponto de negar a medida a todo o transe. O problema é que consagrada a medida, se forem fundados os meus receios, ou não existirá margem de recuo (retirar direitos é sempre altamente impopular), ou será uma lei a que se fará vista grossa, com o inerente agravar do laxismo português em relação ao cumprimento de normas e obrigações.

Não obstante, o que mais me preocupa é a ilusão de qualidade que possamos estar a criar; o tal estancar de um dique com o indicador…

Creio que, embora sejam coisas de diferente jaez, pode partir-se desta medida para concluir que se resolveu o problema da qualidade da representação, quando o problema, em boa verdade se diga, resulta muito mais da mecânica interna dos partidos do que da lei.

Podemos até exigir 33% de mulheres, 15% de advogados, 8% de professores, 2% de dálmatas ou mesmo a Família Addams, mas, se os partidos continuarem como à data, não haverá garantias de qualidade. Quero com isto dizer que, embora haja candidatos e eleitos de muito boa qualidade, tal é, muitas vezes, fruto do acaso (a parte em que, ao escolher-se determinada pessoa, se acerta no mérito) ou obra de algum “mecenas” político que “atravessa” o seu prestígio e os seus votos internos por alguém de relevo.
Hoje em dia, olhando a maneira como se fazem as listas, pode o amigo leitor crer que nem sempre a preparação para a função hierarquiza a colocação numa lista.

Em suma: se existe a ideia de que a imposição de 33,3% de mulheres na lista resolve um problema, faça-se, mas sem que se alimente a ideia de que passaremos, só por isso, a ter elencos de qualidade.

sexta-feira, 3 de março de 2006

Poder Popular


Tá bem:

- O Presidente do PSD e o seu politburo devem ser eleitos em conjunto e directamente, sendo esta última a opção. Seria idiota ter um sujeito a comandar o exército "inimigo" numa batalha que seria, feitas as contas , contra si próprio e imobilizadora do partido. Já nos meus tempos de santanismo o havia dito ao Premier da minha crença de então.

Tá mal:

- A ser verdade, é preciso ver se a intenção de expulsar automaticamente os militantes que concorram contra o PSD não contraria princípios constitucionais. Concordo com a pena, acredito que tenham meditado sobre isto, mas toda a gente tem direito a ser ouvida, por muito evidente que seja o "delito". Antes de serem passados pelas armas, pelo menos, o Gulag.

A ver vamos:

- Há medidas que são irreversíveis na nossa democracia "mediocrática", designadamente, as que tenham a ver com avanços para a democracia directa; ou seja, levantada a hipótese de consagrar o célebre lema "um militante, um voto" (é justo lembrar que, quando Santana Lopes defendeu as directas, até em fascismo se falou...), já não haverá volta a dar-lhe.

O princípio é justo e corresponde a uma formulação do regime democrático que, na sua quinta essência, nunca existiu, nem sequer na Grécia antiga. Agora, as novas tecnologias da informação tornam possível a ideia, como o demonstram ciber-apostolados que podemos ver, por exemplo, em www.vote.com.

Concretamente, se há 30 anos era necessário ir a uma sede ou ter apetência para ler um jornal, para saber das lideranças, hoje basta ligar o televisor ou telemóvel 3G para ver Marque Mendes, Luís Filipe Menezes e as demais figuras da galáxia presidencializável...

A questão é outra: se já a democracia representativa pressupõe uma cidadania muito bem informada, a democracia directa ainda mais. As minhas dúvidas residem aqui; não sei se o debate com os militantes tem sido suficientemente aprofundado

Acresce que, em campanhas de espectro nacional, o dinheiro contará muito mais para se ascender ao plateau das candidaturas (vejam-se as primárias norte-americanas).

Gosto do princípio, não sei bem se aprecio o momento...

quinta-feira, 2 de março de 2006

Ainda sobre boa educação

Claro que também há a destacar a ideia de preencher os "furos" ("feriados", no meu tempo e na minha terra) com aulas de estudo, ésclarecimeto ou outras actividades.
É bom para os alunos (mantém a disciplina intelectual e utiliza bem o tempo) e não traz mal ao mundo para os docentes que não podem interpretar a missão - e a maioria não o faz, bem sei - como um "upload" com "megas" contados.
Também por aqui, a nota é positiva.
A ver vamos o que se passa em matéria de disciplina, que tanta celeuma levantou, aquando do respectivo estatuto.

quarta-feira, 1 de março de 2006

Certo e Just(in)o

A medida de encerrar escolas do 1º ciclo que tenham menos de 10 alunos, pese embora os inconvenientes da deslocação e da perda de uma referência para muitas terras, é, há que dizer, uma ideia acertada, já que permite a socialização adequada dos alunos (no futuro, a sua cidadania será mais consistente), melhores estruturas de apoio social (por exemplo, cantinas) e mais acesso, designadamente, à prática desportiva.
De igual modo, a extensão do horário escolar nas idades mais jovens não só permite o acesso a actividades complementares (como a música, mas não apenas) que, hoje em dia, só gente de fortuna pode proporcionar a título particular, mas que tão boas consequências têm no desenvolvimento da personalidade, mas também uma medida quase invisível, embora estudada, de incentivo ao crescimento da natalidade, já que, compatibilizando os horários escolares com os dos pais do século XXI (percebo alguma resistência dos educadores e docentes, mas há que arranjar meio de aplicar esta decisão), deixarão de ser o ritmo de vida e carreira a operar como medidas de contracepção.
O que também não ficaria mal é, quando se faz notícia ou se fala sobre o assunto, reconhecer que foi com David Justino que as medidas agora, aparentemente, mais consensuais começaram a abrir caminho. Não é decisivo, mas é Just(in)o...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Para "coimbrês" ver

Cada vez mais me convenço que há uma diferença cultural de tomo entre os latinos e os anglo-saxónicos.

Falo da cultura do mérito e de todas as suas implicações. Por norma (não pode generalizar-se, como em nada na vida, é claro), um indivíduo de matriz anglófona, a mais de acreditar que o mérito pode ditar o bom ou mau resultado de um percurso pessoal, olhará os casos de sucesso com respeito e como um incentivo a melhorar; dirá que, se determinada pessoa alcançou um determinado feito, nada diz que, com igual esforço, qualquer outro não possa fazê-lo.

Por cá, se um tipo com posição de relevo se mantém simples nos modos, elogia-se (sempre que se opta por essa raridade que é um comportamento positivo) o facto de saber viver como o povo; ou seja, em vez de presumir que se trata de uma maneira de ser, gaba-se a não elevação do padrão de vida.

Por seu turno, se, de facto, um dos nossos compatriotas mais bem sucedidos muda de modus vivendi (por vezes, é mesmo incontornável), a inveja e a busca de pontos fracos passa a desporto olímpico. Mais do que olhar para a meta, procura-se fazer regressar os mais rápidos à linha de partida.

Vem isto (também) a propósito da nossa política e, para que fique claro, digo já que podem atacar-me (muitos já o fazem) de mil maneiras e sobre mil e um assuntos, mas garanto-vos que nunca misturei política com negócios e, por isso, estou à vontade para escrever o seguinte: independentemente dos contornos financeiros e legais da questão, que devem ser esclarecidos (sendo caso disso) pelas autoridades e pelos visados, a recente exposição mediática do nosso conterrâneo Nuno Freitas parece-me pensada, parcial e excessiva.

Sumariamente, para quem não tem acompanhado a polémica, alega-se, entre outras coisas, que Freitas teria favorecido, enquanto nº 1 do IDT (Instituto da Droga e da Toxicodependência), quer a irmã (que editaria uma revista financiada pelo IDT), quer uma empresa do seu (nosso) correligionário e dirigente da JSD, Filipe Nascimento.

Nuno Freitas alega a legalidade do processo e, como disse, creio que isso é assunto para ser esclarecido pelas vias competentes e não por um julgamento popular. Quem errou que pague, quem não o fez que veja o bom nome preservado.

Mas vamos aos passos do juízo que fiz sobre a atenção que o assunto tem merecido, mormente na “blogoesfera”. Entendo que é uma divulgação pensada, pois ando pela política há tempo suficiente para franzir o sobrolho quando vejo um assunto com algum tempo de maturação a merecer tanta atenção à porta de eleições concelhias. O facto é que se falava, fazia algum tempo, na hipótese de Nuno Freitas avançar para a comissão política concelhia de Coimbra do PSD. Que melhor altura? E mesmo se não foi ninguém do establishment a atear este fogo, teremos de convir que é uma coincidência danada.

E nem se pense que estou a culpar a imprensa tradicional; o seu dever é informar. O que me intriga é o sentido de oportunidade das fontes de informação, confesso… Mas creio que sobre isto, mais tardar na altura da próxima lista de deputados, iremos tendo mais pistas.

Em segundo lugar, afirmei que tudo isto me parece parcial. De facto, com o avolumar de outros rumores, já há muito que os justiceiros de Coimbra podiam ter gritado por justiça. Só ouviram falar deste assunto? Basta visitar os blogs locais para ler insinuações sobre água, vinho, gasosa, e milhares de assuntos.

Não insinuo nada sobre quem quer que seja, note-se! O que quero dizer é que é curiosa a devoção recente e exclusiva por este “caso”.

Por fim, digo que se trata de uma atenção excessiva, quando não mesmo cruel, porque olvida que se está a “derreter”, ainda sem o apuramento cabal do assunto, um dos mais brilhantes quadros do PSD (e é também por isto que nada me parece ao acaso).

Tenho dito e escrito que a política nacional, em geral, e a de Coimbra, em particular, têm caído no cinzentismo, no deserto de ideais e na orfandade de novas lideranças. Com todos os seus defeitos, o Nuno seria (será, digo eu) uma boa hipótese de regeneração.

Ninguém quer mais do que eu (também sou cidadão e contribuinte) que o caso seja levado às últimas consequências, mas dá-me dó e encoraja-me a desistir a mesquinhez, a crueldade, a leviandade, a falta de consideração e o anonimato com que hoje se abordam os temas de interesse cívico, como é, inegavelmente, o caso.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Não é um filme

Lendo o Diário da República de 30 de Janeiro, conclui-se que Tomás Taveira passou a integrar o conselho consultivo do Instituto Português do Património Arquitectónico.

O cargo não deve ser principesco e, ainda que fosse, as habilitações do nomeado em causa chegam e sobram (confesso que odeio a mesquinhez que se instalou de perseguir quem é nomeado para o que quer que seja, só por o ser).

O destaque da questão - à parte de outros que os leitores entendam relevantes - é mesmo o vanguardismo com que o nosso IPPAR vai passar a ser aconselhado; basta olhar as Amoreiras, a sede do BNU (salvo erro, foi para este banco, o edifício da 5 de Outubro). o Estádio de Aveiro, entre tantas obras.

Obras como o Tunel de Ceuta passarão a ser coisas de moços?...

De Lisboa a Grozny


Entendo todos os argumentos adiantados: manter a prioridade dos temas da interioridade, não exaltar os ânimos, etc...
Contudo, não deixa de me espantar que o Presidente da República Portuguesa, em 2006, tenha de manter confidencial o programa da visita a um concelho do distrito de Viseu, no caso Nelas.
Por um lado, os cidadãos de Canas de Senhorim (os temidos "rebeldes") têm a obrigação legal e o dever cívico de respeitar o Chefe de Estado.
Por outro lado, acho que o Presidente não deve, jamais, "esconder-se" de nenhum habitante desta democracia de 30 anos. Ou não ía a Nelas, ou ía com toda a normalidade.
Que Putin vá assim à Chechénia e Saakashvili faça o mesmo na Ossétia do Sul, ainda vá, mas em Nelas?!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Quando o diferente quer ser igual

Já que falamos de liberdade e de tolerância, e alguns dias volvidos sobre o prime time da questão, falta uma palavra sobre as duas concidadãs que tentaram, assistidas por um advogado, registar o seu casamento na conservatória.
Indo por partes: parece-me, em primeiro lugar, que os três sabiam que a Lei Civil impedia esta união, já que tutela especificamente o contrato de casamento, ao passo que a Constituição enuncia princípios genéricos contra a discriminação.
Pode, por isso, dizer-se que procuraram chamar a atenção para uma situação que reputam de injusta.
Até aí, vamos indo, mas, em segundo lugar, é preciso que haja a consciência de que cada vez que se torna pública a vida privada, a devassa , mesmo quando não desejada, passa a ser regra; ou seja, se já se sentiam alvo de olhares e atitudes discriminatórias, creio que a situação não tende a amenizar (antes pelo contrário).
Depois, não creio sequer que possa falar-se em discriminação legal. Se formos sinceros, reconheceremos que é sabido o facto de o casamento ter sido pensado para unir pessoas de sexos diferentes. Foi uma ideia que fez curso na lei e na tradição.
Virá, nesta altura, o "Che" de serviço dizer-me: "mas a lei e a tradição mudam, senão o marido ainda podia abrir as cartas da mulher!"...
Pois sim, mas há discriminações antigas que não tinham alternativa; no caso dado era simples: ou podia, ou não podia ler correspondência alheia.
No que ao casamento diz respeito, a mais de se misturarem valores ideossincráticos que tocam fundo a muita gente, há alternativas de direito - como a parceria registada, creio, do direito francês - que permitem dar igual estatuto jurídico e cívico aos casais do mesmo sexo.
No fundo, creio que a luta dos casais de homossexuais e lésbicas é usufruir dos mesmos direitos (e deveres), pelo que o essencial não é o nome a dar ao laço jurídico que os une. Insistir em chamar casamento pode aumentar a animosidade social, sem que daí advenha proveito algum, e não deixa de ser curioso que a luta pelo "casamento" venha, no plano político, de sectores que, antes, o achavam uma instituição reaccionária.
Pessoalmente, valha a verdade, vejo com sincera normalidade a união de homens com homens e mulheres com mulheres (e se vier a ser permitido o casamento dos mesmos, não me apoquenta minimamente), esperando apenas que a minha heterossexualidade não venha a ser um estorvo, no futuro, já que parece que há certos sectores da extrema esquerda e dos media que fazem parecer inaceitável qualquer opinião de tom mais conservador.
Também neste domínio, há que usar de tolerância, permitir o exercício da liberdade, mas procurar um ponto de equilíbrio entre as sensibilidades da maioria e da minoria.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Ainda a lógica do toucinho

Vejamos se nos entendemos, ainda a propósito das caricaturas de Maomé...

Sabiam os editores que iriam irritar os muçulmanos, mormente os mais fanáticos?
Sabiam, até porque o projecto surgiu na sequência da dificuldade de um autor em arranjar quem desenhasse o profeta.

Deviam ter-se abstido da publicação?
Creio que não. Uma coisa é pisar o risco, outra é ceder a imposições culturais alheias, quando estamos em nossa casa.
Dito de outro modo, entendo que devemos cumprir certas regras (desde que não ofendam princípios inegociáveis de dignidade humana), quando estamos nos países muçulmanos, mas era o que mais faltava, por muito mau gosto que haja nisso, que não se possa desenhar, por cá.
A não ser assim, qual o limiar de comunidade muçulmana ou a "patente" de um visitante oficial dessas paragens necessários para que proíbamos o uso de mini-saias?
E a homossexualidade, quando passa a ser castigada, até com a morte?
E as barracas de entremeada, à porta dos estádios, quando serão incendiadas?

Sei que retratar Maomé poderá ser visto como ofensa magna, mas dar um passo atrás, por muito pequeno que seja, equivaleria a iniciar uma série de recuos, que não se sabe onde pararia.
A civilização ocidental teve os seus períodos históricos de intolerância, maxime com a Inquisição, e considera-se mais evoluída, hoje, quando já goza de uma ampla liberdade de expressão.
Ora só a interpretação que a esquerda libertária (anarca, digo eu) dá ao conceito de multiculturalismo é que nos pode fazer sentir pejo em afirmar que, neste domínio, acreditamos que estamos mais avançados.
Tal não implica que olhemos outras culturas e credos como inferiores, ou que não possamos conviver com eles; o que quer dizer-se é que há coisas em que, por já termos dado o "salto em frente" (que me perdoem os maoístas pelo plágio), não devemos ceder um milímetro. A liberdade de expressão é, precisamente, uma dessas conquistas.
Depois, há outro plano. Por cá, no mundo dos que, alegadamente, desrespeitam o profeta, há pequenas regras de convivência, como seja, entre outras, a da proporcionalidade da reacção.
Assim, e bem vistas as coisas, parece-me que ameaças de morte, pilhagem e destruição de postos diplomáticos, e violência sortida não abonam muito a favor da imagem dos seguidores de Maomé, por muito que sejam uma gota de água num oceano de gente pacífica. Embora a ideia também possa ser cretina, bem andou um jornal, salvo erro, iraniano, que decidiu responder com um concurso de cartoons sobre o holocausto. Já que não conseguiram ser superiores ao jornal dinamarquês, ao menos foram equivalentes...
Por ora, o remédio é mesmo esperar que se acalmem os ânimos, mas não pedir desculpa ao nível de Estados, já que, convenhamos, falamos de desenhos.
Doravante, há que consensualizar bases de tolerância recíproca, já que a "Idade Média" é tão extrema quanto o "Pós Modernismo", em que alguns europeus gostam de vogar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Chico e o Diabo

Se há recordação que guardo dos debates parlamentares sobre novas tecnologias (aquelas sobre que se dizia, por vezes, na distribuição interna de tarefas, "isto é 'computadores' não é?!") é a de ver Francisco Louçã chamar a si os debates, em que aproveitava, "dia sim, dia sim", para aspergir bílis oratória sobre Bill Gates e a Microsoft.
Defendia o premier bloco-anarco-trotskista que o chamado software livre deveria ser a regra - deveria haver sempre acesso ao código-fonte e a possibilidade de alterar os programas - e que o de licença (os programas que compramos, como, por exemplo, o famoso Office - sim, se fez cópia, fique a saber que muita gente compra) seria excepcional, desde logo na actividade da Administração Pública.
Não vou entrar nos pormenores desses confrontos ideológicos (na altura não havia blog bloquista que não me enxovalhasse), dizendo apenas que o PSD defendia que a solução a adoptar pelo Estado seria a que mais servisse os seus objectivos, independentemente de ser livre ou de licença.
O ponto, agora, é o de lembrar que Gates representava para Louçã o que Lucífer representa para a Bíblia.
Ora é este mesmo homem (Gates) que, a mais das causas sociais em que se empenha (e podia não o fazer), em todo o mundo, veio a Portugal com um programa de acção que, a mais de 19 projectos que passam pela Educação e pela segurança, se dirige também ao problema dramático da iliteracia tecnológica no sector têxtil, e ao da qualificação de recursos humanos carenciados, em geral.
A parceria com a Microsoft parece-me mais um sucesso para José Sócrates, que, aliás, exultou, ainda ontem, numa escola do 1º ciclo, com a extensão universal da banda larga na rede de escolas.
O nosso atraso é, claramente, educacional e cultural (aqui, então, há milhares de anos-luz a acelerar, com o próximo Ministro da Cultura).
Espero, depois disto, que o Grupo Parlamentar do PSD pergunte ao Deputado Louçã como conseguiria resultados sequer parecidos, com as alternativas "reviralhistas" que sempre propõe.

Maomé e a Dinamarca

Uma das formas de liberdade tem sido particularmente abordada, nos últimos tempos: a liberdade de expressão.

Nos tempos de mediatização extrema que vivemos, é muito comum usar de um tremendo pudor, quando falamos dos órgãos de comunicação social, já que, por um lado, qualquer reparo é comummente apelidado de censura e, por outro lado, porque há a noção de que não estar “no ar” é não existir publicamente. Um exemplo inocente deste último caso é o facto de, mesmo depois de ter sido substituído, há meses, haver transeuntes que se me dirigem, julgando que ainda desempenho funções parlamentares; tal é, sem dúvida, função da exposição de que fui alvo. Ora, se isto acontece a um quase-anónimo como eu, imagine-se o que sucede com as nossas “vedetas”, e perceba-se que a relação se torna, por vezes, quase promíscua, tal a “necessidade” de aparecer.

Em si, nada de mal vejo nisto. Comunicar com milhões exige meios de comunicação de massas, com as consequências para a mensagem que daí advêm, e que não são famosas.

Todavia, o que não pode, a meu ver, é cair-se no extremo de aceitar um poder mediático de facto, que não esteja obrigado a jogar o jogo de direito. Penso que é aceite que os media condicionam (legalmente, claro) os políticos e os eleitores e, assim sendo, não vejo como pode esta prerrogativa viver sem obrigações de igual monta.

A “razão de Estado” deve poder ditar algo, em ultima ratio, porque, por exemplo, se as televisões são privadas, o espaço ou espectro de emissão deve ser visto como espaço público. De igual modo, se a imprensa escrita for privada – e deve ser, como já defende o PSD, desde Sá Carneiro – não são privatizáveis os fundamentos da democracia que, designadamente, na óptica de Dahl, exigem acesso à informação e a fontes alternativas, para a obter.

A razão deste post tem a ver com muitas reclamações acertadas (penso, por exemplo, em uma ou duas de Garcia Pereira) e outras tantas “queixinhas” que ouvi, durante a mais recente campanha eleitoral. Entendo que Portugal deveria pensar o assunto com tempo e coragem, assim disponham os grupos parlamentares (não conheço a realidade actual) de representantes bem preparados, já que este é um daqueles temas em que não basta “ter umas luzes” ou achar que se sabe – algo comum no nosso “falabaratismo” político.

Um caso de estudo seria sem dúvida a polémica gerada em torno de publicações da Dinamarca e da Noruega que retrataram Maomé (primeira ofensa ao Islão) em termos pouco edificantes (aqui, nem se fala).

Ante os naturais protestos do mundo muçulmano – conhecido pela sua intolerância em assuntos religiosos e pela abertura quase nula dos programas escolares, salvo honrosas excepções – o Primeiro-Ministro dinamarquês “Anders Fogh Rasmussen repetiu a afirmação de há quatro meses "A liberdade de expressão é uma das bases da democracia dinamarquesa. O Governo não pode influenciar as decisões dos media privados".”, segundo o Diário de Notícias, na sua edição de anteontem. É preciso sublinhar que o contexto é apimentado por ameaças de morte aos autores dos desenhos e à direcção do jornal.

Vale tudo? Se não valer, onde se fixam os limites e quem zela por isso? Devemos ceder na nossa tradição de liberdade, perante um multiculturalismo que é, muitas vezes, a ditadura das minorias?

Creio, no fundo, e não achando particular piada a sátira religiosa, que o Premier escandinavo acertou no fim, mas não no meio, já que os poderes públicos não podem demitir-se da sua função da avaliar a interpretação que é feita do conceito de ordem pública democrática.
Serão os nossos políticos e a nova entidade reguladora capazes de tratarem esta questão, comme il faut?
Em resposta, cito Paulo Gonzo: "pagava para ver"...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Uma aspirina para o Senhor Engenheiro


Creio que o resultado de Alegre vai dar-nos motivos para muitas pilhérias.
Vaidoso como parece ser, no que aos seus galões políticos respeita (já não havia paciência para o missal anti-fascista e resistente), a bagunça no PS – em nome do milhão e cem mil eleitores que já foi lembrando, em dois ou três dias – rebentará à primeira discordância de fundo sobre um tema magno.
Manuel Alegre fará multiplicar o som da sua voz por um milhão, e Sócrates que se arranje. Vêm aí dores de cabeça...

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

A média dos media

Com franqueza, entendo que a vitória de Cavaco Silva, à primeira volta, e contra 5 candidatos de esquerda (cujo objectivo era, assumidamente, a derrota daquele), é um feito notabilíssimo na história do sistema político português.

Todavia, tudo foi dito por algumas vozes dos media e da política para que se diminuísse o facto de um só homem, em seis, ter cativado mais de metade dos mais de 60% de eleitores recenseados que decidiram votar.

Não generalizando, diria que entre os grandes derrotados se contam os media. Quem viu a ligeireza com que passaram as asneiras de Soares e vacuidade de Alegre, e a exploração quase sádica com que, por exemplo, publicaram e republicaram a “caraça” de espanto de Cavaco Silva, quando confrontado, a frio, com as impróprias declarações de Santana Lopes, proferidas na véspera, só pode concluir que Cavaco era o candidato não desejado.

Vejo-me forçado a sublinhar, designadamente, a cobertura que uma das principais repórteres da SIC fez da campanha do novo Presidente: salas que eu vi a abarrotar, eram salas meio cheias ou com clareiras, multidões de centenas passavam a dezenas, e daí em diante…

Em alternativa, nos festejos da vitória, no Centro Cultural de Belém, bastava sintonizar a TSF para ouvir um jornalista dizer que um urso de peluche era um símbolo pouco próprio de um Presidente, ao ver que Cavaco segurava um. Não sou jornalista, mas sempre pensei que importava averiguar “quem”, “como” e “porquê”… Felizmente, uma repórter entrou na linha para explicar (terá sido despedida?) que havia sido uma oferta do neto, assim se entendendo que o recém-escolhido Chefe de Estado tenha segurado, por instantes, o dito brinquedo.

E no dia seguinte à eleição, que podíamos ouvir?! Que, afinal, Cavaco não era de família humilde, como escrevera e dissera, porque uma estação radiofónica colhera depoimentos que diziam que o pai tinha camiões e o mais não sei o quê…

Depois queixam-se das tiragens e das audiências, e chocam-se com a preferência dada ao futebol, às novelas e aos tablóides!...