quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um navio que não deu a(o) Costa

Por muito que se pinte de rosa o que é laranja e azul, só há uma leitura dos resultados eleitorais: PSD e CDS ganharam, e o PS perdeu; a leitura é simples e não é preciso estudar em Coimbra para a fazer. Interessante resultado, depois de medidas tão penalizadoras. Mais do que masoquismo, leio maturidade democrática, quiçá até no apoio condicionado por uma maioria relativa.

De um ponto de vista socialista, eu diria que o maior dilema é o julgamento moral que pode fazer-se em face da degola política de António José Seguro; apear um cidadão que ganha por pouco por outro que o apeia e perde… No entanto, como sabemos, a palavra “moral” é algo de alienígena para os aparelhos partidários, e nem dou por excluído que António Costa possa ser Primeiro-Ministro, no futuro. Note-se, porém, que creio que o não consegue (ou logra um “inconseguimento”, segundo a Dra. Assunção Esteves) se criar instabilidade a um Governo legitimado por uma maioria de votos e de lugares; antes pelo contrário… Fica a obra de ciência política que é perder algo que era seguro (que palavra ambígua!…).

Por fim, reconheço que festejei antecipada e erradamente um desaparecimento do Bloco de Esquerda que aproveitou a moda hispano-grega para continuar na passarela. Continuo a entender que se trata de uma modernidade pouco estimável, mas o facto é que “vende”.

A respeito de “modernices” vale a satisfação de Marinho, Joana e Cª não terem vendido as suas ilusões. Nem o tom grave de um, nem a gravidez de outra lograram transformar em consistente o que é coisa de megafone, assim estilo “Homens da Luta” ainda com menos graça (o que já me parecia impossível).

Já o PCP e o seu atrelado esperam tristemente que a lei da vida leve o grosso da coluna dos seus votantes. Um dia, inevitavelmente, a pauta eleitoral dirá “chega de saudade”.

Resta esperar que uns trabalhem, e que outros deixem trabalhar.

domingo, 27 de setembro de 2015

Carregar (n)a cruz


Ainda (voluntaria e profissionalmente) comedido, importuno o leitor com um pedido datado: a 4 de Outubro, vote!

Creio que poucas vezes a escolha de um caminho (creio que ainda falta a proposta de uma um destino, na política portuguesa) foi tão crucial, mormente a partir dos anos 80.

De facto, com a democracia e outras bases do Portugal contemporâneo consolidadas - designadamente, o “cartão de sócio” da União Europeia (cada dia mais um clube de negócios, e menos uma “casa” de debate) – não é comum poder decidir entre duas propostas eleitorais tão claramente distintas. Note-se, ademais, que falo em duas opções porque, em virtude do que já vai escrito e salvo o devido respeito, também em rara ocasiões valeu tão pouco a pena queimar cartuchos com os festivais de Outono da nossa política (Joanas, Marinhos e companhia), ou sequer com as orquestras do “vira o disco e toca o mesmo” (o nosso respeitável PCP e o seu atrelado esverdeado).

Assim, de um lado, a coligação de PSD e CDS-PP que propõe a manutenção de políticas disciplinadoras e causadoras de alguma contracção no modus vivendi colectivo, com ligeiro perfume a lembrar calvinismo, recuando o Estado e ganhando protagonismo o aspecto individual. Do outro lado, contudo, os resultados positivos e certificados: aumento das exportações, crescimento do PIB, diminuição do desemprego, saída de um programa de assistência draconiano (e em certos aspectos ridículo e acintoso, como a questão dos feriados). Importa perceber a partir de que ponto o aumento de riqueza pode reverter para os cidadãos e para quantos cidadãos, tido por adquirido que se assegurará um patamar mínimo de dignidade social abaixo do qual ninguém deve cair.

Do outro lado um PS, aparentemente sem poder coligativo (a avaliar pela mise-en-scène da extrema-esquerda; a do costume…) que propõe um caminho quase sem pedras, mas, alegadamente, com uma via que não ruirá: recuperação mais veloz de alguns dos privilégios perdidos, manutenção do lado assistencial da República sem cortes e com sustentabilidade, um sector público muito presente e com papel dinâmico. Se as ideias parecem agradáveis, o senão da bela surge com o panorama globalizado do mundo actual que parece contrariar as soluções mais garantísticas.
Seria importante ver ainda os pergaminhos de uns e de outros, mas eis precisamente o terreno minado que a diplomacia desaconselha…

A minha escolha não será para muitos a quarta parte do Segredo de Fátima; contudo, não deixo de repetir uma ideia que ouso converter em apelo: vote. São alguns momentos que vão decidir o modo como vai viver vários anos da sua vida.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A verdade nua e... grávida...


Comentei na página de Facebook de um amigo a recente paixão de Joana Amaral Dias pelo “strip-tease” para dizer que, embora a malta agradeça, a descascada postura já não tem o que quer que seja de política.

Postas as hormonas em sentido, há que ver que se a cidadã fosse de direita, no mínimo, era porca; sendo de extrema-esquerda é “cool”, ousada, vanguardista e defensora da autonomia da mulher.

Se calhar (margem de erro quase nula), JAD já criticou o uso da imagem das mulheres pelo imperialismo; pois bem, haja ou não tomado tal posição, a verdade é que, em campanha eleitoral, é disso que falamos. A candidata achou que despir-se (supostamente porque é um gesto bonito) lhe traz vantagens, e tudo o mais que se diga são efabulações.

Dito isto, é preciso ir a outro ponto crucial: trata-se de uma consequência clara da sociedade mediática e da interpretação que grande parte dos jornalistas faz da sua missão. Tenho escrito amiúde (com a clara sensação de que poderia falar directamente para a secção de congelados de um qualquer hipermercado; instalação do século XXI para o Sermão de Santo António aos peixes…) que, no que diz respeito ao primeiro ponto, as empresas de comunicação procuram o lucro e não a informação. Ora, a emoção sempre vendeu mais do que a razão.

Já parte dos jornalistas, pelo menos em Portugal, entende a sua missão como contra-poder, sendo o jornalismo de escola uma doce recordação de um passado que já não volta. Nessa perspectiva, qualquer atitude que vise perturbar a ordem tradicional goza de um favor desproporcionado nas suas peças. Nem outra, a meu ver, é a explicação da desmesurada projecção do Bloco de Esquerda, durante anos. É ademais a mesma ideia que me parece fundamentar o gosto de alguns jornalistas pela desconchavada aparência à BE.

Estes factores e um certo gostinho pela desforra que alimentamos pela desforra são os únicos temores que tenho de que os carros alegóricos que aparecerão no boletim de voto averbem resultados visíveis… Não será pela consistência das propostas que Marinho Pinto (repito, uma espécie de Mário Nogueira de gama alta), Joana Amaral Dias, Bloco de Esquerda, e outras variações em demagogia maior elegerão deputados.

Para que não se perca a pedra de toque configurada nestas linhas, recentro o tema: por muito que goste de mulheres nuas (peço desculpa pela falta de vanguardismo, mas sou de gostos clássicos), ainda tenho uma ideia da actividade cívica em que o que importa despir são as razões e os ideais.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

“Nunca subestimar a estupidez humana”…

… Foi essa a primeira e sábia lição de mestrado do Prof. João César das Neves, pese embora a propósito da Economia Política.

Lembro-me de tão sábias palavras por ter lido a polémica gerada em torno da aparição da mulher de Pedro Passos Coelho, sabendo-se que se encontra calva mercê de agressivos tratamentos contra um dos flagelos da nossa era.

Na generalidade, estou de acordo com as reacções de repúdio perante quem viu na dita aparição um sinal passível de aproveitamento político e, logo, de beneficiar o Primeiro-Ministro. Creio até que as pessoas que reagiram usaram de uma polidez de que eu, contestando “a quente”, não me sentiria capaz.

Se abordo o tema é por não poder deixar de juntar ao que li e escutei o meu mais sentido “vómito”. Creio que é meu dever de cidadania!

Desde logo porque considerar que Passos Coelho aproveitaria a grave doença da mulher para ganhar votos, é presumir que falamos de um monstro. Quem conhece a história prévia do nosso “Premier” sabe bem que falamos de um homem com elevado grau de humanidade. Mas nem deveria ser preciso ter tido o privilégio de ter conhecido PPC em privado, ou sequer de pensar que poderia estar a enriquecer numa boa sinecura, em vez de suportar o ónus pessoal e político de lutar por uma visão que tem para o nosso País (goste-se ou não do conteúdo desta); deveria ser mandamento da boa educação e do bom senso que se não repare e menos se comentem estes detalhes, ainda mais quando falamos de alguém que tem a coragem de enfrentar um desafio tão grande, em lugar de ficar em casa vivendo uma depressão. No caso de Passos Coelho, salienta-se o acto de amor, sem mais comentários.

Mais espanta que sobretudo uma mulher (Estrela Serrano) diminua outra de forma tão vil. E se do “politicamente correcto” falarmos, alguém que teoriza o tema, bem podia perceber o desajuste do reparo, numa época em que designações como “negro”, “deficiente” ou até “contínuo” caíram em desuso. Explicando melhor o aparente ridículo do encadeamento, o que quero dizer é que a “polis” mediática convencionou suavizar todos os termos e referências que menorizem cidadãos em alegada situação de inferioridade ou subordinação. Logo, insinuar aproveitamento de uma doença em que se joga a própria vida passa por cima de tudo isto e chega ao cume da nojeira…

Ademais, mesmo no mundo académico, há “fórmulas que não se formulam”. Num Portugal universitário e político que ainda teme ver os (raríssimos) méritos do Estado Novo, “brincar” com doenças graves ou fatalidades é demasiado “vanguardista”… O respeito que houve (e bem) para com António Guterres e Mário Soares, deveria ser tributado a qualquer personalidade pública, independentemente do seu quadrante político.

Oxalá quem tão triste figura fez não tenha que reagir a algo de similar. Em todo o caso, se tal dia chegar, prometo decoro e continuarei pensando sobre o eterno dilema de saber se deve ou não haver limites à liberdade de expressão em democracia.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Cavalo de Tróia


Há muito pouco que eu possa acrescentar sobre as eleições gregas e sobre a vitória do Syriza.

Escolhi, por isso, alguns apontamentos telegráficos sobre os demónios criados para vender tinta e promover opiniões.

Em primeiro lugar, muito se fala e desespera sobre as consequências para a União Europeia de um incumprimento deliberado das obrigações do País derivadas de dois programas de resgate. A meu ver, essas sequelas serão poucas. Desde logo, financeiramente, a Grécia não tem dimensão para arruinar a construção europeia. Prova disso parece ser o aviso conjunto do Banco Central Europeu, do Fundo Monetário Internacional e da omnipotente Chanceler alemã que vieram dizer que não renegociarão absolutamente nada, admitindo, implicitamente e na passada, toda e qualquer consequência. Todavia, se esta proclamação viesse a ser amaciada, outra vez e a contrario, se comprovaria a pouca dimensão económica dos fundadores da democracia (a História hoje é, desgraçadamente, contada em milhões e não em palavras).

Já politicamente, outro galo deveria cantar se o povo helénico (portador de um currículo especial na área) saísse da mesa familiar. Contudo, para que assim fosse era necessário que os ideais europeus fossem o motor de uma construção que surgiu com boas ideias e vive com boas contas. Como, quase sempre, anda cada um a ver como pode ganhar mais qualquer coisa e a solidariedade é uma batata, as lágrimas que poderiam correr seriam sentidas como as do crocodilo…

Em segundo lugar, fala-se com a-propósito de eventuais repercussões no plano eleitoral europeu. Manda a economia da prosa que apenas se reconheça o problema espanhol (movimento “Podemos”) e francês (de sinal contrário, com a Frente Nacional). Vejamos o plano português com outro detalhe: quem poderia propor-se a uma aventura de semelhante pauta propagandística? Salvo melhor opinião, Bloco de Esquerda e Marinho Pinto, independentemente da bandeira de conveniência que use.

No primeiro caso, a bendita liderança de Catarina Martins e João Semedo tem arruinado um fenómeno que chegou a ter quase tanto de eleitoralmente relevante como de demagógico. Afortunadamente, o quase nulo carisma de ambos não permitiu continuar o disfarce da ausência de substância. No segundo, temo que o nosso apetite como povo por encontrar culpados para os nossos erros próprios (a mesma tendência que nos leva a olhar para o “paizinho” Estado para que nos dê tudo; seremos todos “salazaristas convictos”?!) possa dar-lhe alguns votos. Porém, sendo apenas um “Mário Nogueira de gama alta”, não tardará até que se esvazie o “balão Marinho”.

Duas certezas ficam: Alexis Tsipras já percebeu como se comunica na política moderna, ao invés dos políticos do burgo. Depois, continuo a dizer que o mercado foi longe demais; a vitória daquele é mais uma evidência…

Seja como for o Cavalo de Tróia já está no interior das muralhas de Bruxelas.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Estimado Paulo Sérgio…


´    
          Oxalá, na altura em que receba esta missiva aberta, já se tenha acometido de um surto epidémico de bom senso e dado às de Vila Diogo…

Não tenho, todavia, qualquer esperança de que assim seja, vendo a resistência coriácea com que se mantém aferrado ao banco, após lograr o triunfal pecúlio de uma vitória em dezassete encontros.

Em bom rigor havia que assacar responsabilidades a quem o contratou e o mantém. Li uma citação divulgada por um amigo, que creio ser eloquente; a saber; “ ‘depois de ponderarmos todas as variáveis sobre o que pode ser melhor para a Académica dar a volta a este momento menos bom, hoje falámos com o todo o grupo e entendemos que as soluções estão dentro de casa. Queremos fazê-lo, os jogadores estão conscientes disso e o treinador quer fazê-lo. É com esta equipa e com este grupo que vamos até ao fim’, disse o dirigente. - Luís Godinho à LUSA (fonte: Maisfutebol)”.

Ora bem… Para resguardar a boa relação pessoal que mantenho com o seu superior hierárquico (apesar de sempre me ter situado quase nos antípodas da sua visão desportiva e social sobre a Académica), escrevo-lhe a si, “mister”, embora me apoie nas lapidares e quase alienadas palavras ditas.

De que o Sr. Paulo Sérgio quer “fazê-lo” (assumindo que falemos, com uma pinga de realismo que ainda sobeje, da manutenção), sinceramente, não tenho dúvida. Porém, a questão é, isso sim: ainda pode fazê-lo?

Não me atrevo a questionar a sua competência profissional (bem basta a alarvidade de Manuel Damásio para com Manuel José), mas, como adepto, afirmo que tenho seríssimas dúvidas de que consiga inverter a espiral descendente em que a Académica entrou, por muito que o demérito alheio possa, no final das contas, assegurar o objectivo mínimo almejável. Sem que seja necessário comparar currículos, por vezes, a simples troca de timoneiro evita o naufrágio.

E mesmo que não seja pela sua saída que os resultados aparecem, creio que quem tem as rédeas do poder deve tentar de tudo para salvar a honra do convento, sacrificando a abadessa, na impossibilidade de trocar todas as freiras que, em bom rigor, deixam a desejar na sua grande maioria…

Como não vamos por aí (acabam de fazer uma profissão de fé sobre o seu trabalho), não seria digno assumir que talvez não consiga cortar o nó górdio? Ou será fundado o rumor de que o problema tem a ver com a impagável indemnização? Nesse caso, permita-me dizer-lhe, salvo o devido respeito, que o dinheiro não é tudo, mormente quando estão em jogo a história de uma instituição e a sua própria reputação
 profissional.

Poderá dizer que a equipa não é a que queria ou que outros se afundarão ainda mais do que nós, mas, por favor, não me preocupe ainda mais, repetindo que estamos perto do desejável…

Como lhe disse no início, não era a si que deveria dirigir-me, mas se puder fazer o obséquio de, citando-o de cor, “pegar na mala”, creio que ainda poderá deixar (essa) grata recordação.


Oxalá, na altura em que receba esta missiva aberta, já se tenha acometido de um surto epidémico de bom senso e dado às de Vila Diogo…
Não tenho, todavia, qualquer esperança de que assim seja, vendo a resistência coriácea com que se mantém aferrado ao banco, após lograr o triunfal pecúlio de uma vitória em dezassete encontros.

Em bom rigor havia que assacar responsabilidades a quem o contratou e o mantém. Li uma citação divulgada por um amigo, que creio ser eloquente; a saber; “ ‘depois de ponderarmos todas as variáveis sobre o que pode ser melhor para a Académica dar a volta a este momento menos bom, hoje falámos com o todo o grupo e entendemos que as soluções estão dentro de casa. Queremos fazê-lo, os jogadores estão conscientes disso e o treinador quer fazê-lo. É com esta equipa e com este grupo que vamos até ao fim’, disse o dirigente. - Luís Godinho à LUSA (fonte: Maisfutebol)”.

Ora bem… Para resguardar a boa relação pessoal que mantenho com o seu superior hierárquico (apesar de sempre me ter situado quase nos antípodas da sua visão desportiva e social sobre a Académica), escrevo-lhe a si, “mister”, embora me apoie nas lapidares e quase alienadas palavras ditas.

De que o Sr. Paulo Sérgio quer “fazê-lo” (assumindo que falemos, com uma pinga de realismo que ainda sobeje, da manutenção), sinceramente, não tenho dúvida. Porém, a questão é, isso sim: ainda pode fazê-lo?

Não me atrevo a questionar a sua competência profissional (bem basta a alarvidade de Manuel Damásio para com Manuel José), mas, como adepto, afirmo que tenho seríssimas dúvidas de que consiga inverter a espiral descendente em que a Académica entrou, por muito que o demérito alheio possa, no final das contas, assegurar o objectivo mínimo almejável. Sem que seja necessário comparar currículos, por vezes, a simples troca de timoneiro evita o naufrágio.

E mesmo que não seja pela sua saída que os resultados aparecem, creio que quem tem as rédeas do poder deve tentar de tudo para salvar a honra do convento, sacrificando a abadessa, na impossibilidade de trocar todas as freiras que, em bom rigor, deixam a desejar na sua grande maioria…

Como não vamos por aí (acabam de fazer uma profissão de fé sobre o seu trabalho), não seria digno assumir que talvez não consiga cortar o nó górdio? Ou será fundado o rumor de que o problema tem a ver com a impagável indemnização? Nesse caso, permita-me dizer-lhe, salvo o devido respeito, que o dinheiro não é tudo, mormente quando estão em jogo a história de uma instituição e a sua própria profissional.

Poderá dizer que a equipa não é a que queria ou que outros se afundarão ainda mais do que nós, mas, por favor, não me preocupe ainda mais repetindo que estamos perto do desejável…

Como lhe disse no início, não era a si que deveria dirigir-me, mas se puder fazer o obséquio de, citando-o de cor, “pegar na mala”, creio que ainda poderá deixar (essa) grata recordação.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Desisto…


No domingo, para passar o tempo, decido ir ao cinema; já para matar o tédio, escolho o último filme com Stallone e todos os seus camaradas que preencheram a minha adolescência. E que genial é vê-los todos juntos, na fase da artrose, esfanicando tudo e mais umas botas, com a tecnologia de hoje.

Mas tudo isto vem a propósito da saída do dito entretenimento; estão as salas alinhadas ao longo de um corredor do piso superior de um centro comercial (Millenium) de Caracas, desembocando a saída (ao lado do ecrã) em frente a vedação em vidro. Como é meu hábito, deixo-me ficar para último, pois não apenas gosto de ver a ficha técnica, como detesto atropelos e tenho um tremendo medo de espalhar-me nas modernas e abruptas descidas das semi-obscurecidas salas.

Assim sendo, decide aqui o vosso amigo, sendo a penúltima pessoa a deixar o quarto escuro (salvo seja), ficar um pouco a contemplar o centro comercial que, a mais de estar absolutamente deserto, tem uma arquitectura interessante. Nisto, educadamente, o jovem funcionário que estava mais próximo da porta saiu para avisar-me de que era obrigatório continuar a circular (assim tipo Torre de Londres ou Mausoléu de Lenine…). Ante a minha estupefacção, a última pessoa (uma jovem), explicou-me que a advertência era para permitir o escoamento dos espectadores e não haver pressão contra o tal muro envidraçado.

Aqui chegados, eis o ponto: a regra faz todo o sentido para uma sala cheia e/ou num dia em que o centro comercial tenha as lojas abertas e pessoas circulando. No caso, não só o corredor (que teve ter uns bons dois metros de largura) é exclusivo para as salas de cinema, como – repito – era a penúltima pessoa (e já com alguma dilação temporal para o “pelotão”) e não havia nenhuma outra sessão terminando.

Não quero discutir a regra (que, aliás, me parece ajustada), mas a falta de flexibilidade intelectual posta por ambos os intérpretes, que vejo repetida em largas fatias das gerações mais jovens. O empregado aplicou uma regra boa de forma abstracta, sem revelar capacidade para perceber (garanto que o santo moço não suspeitou sequer do motivo do meu esgar de surpresa) que o enunciado ficava ridículo no caso sub judice.

Foi aqui que pensamento me devolveu aos saudosos tempos da minha tese de mestrado: a configuração mental das gerações que já nasceram com a televisão como companheira é mesmo diferente! Como avisava Sartori, surge um homo videns que perde a capacidade de abstrair, sendo dotado de um raciocínio menos ágil, já que as imagens sucessivas impossibilitam essa pausa reflexiva.

Não se julgue que entrei na idade do “no meu tempo é que era”! Reconheço que a rapaziada jovem tem acesso a muito mais conhecimento (mormente, via Internet) do que o disponível nesses dias de maior vigor por parte do meu esqueleto, e que quem sabe de algumas áreas pode saber muitíssimo. Porém, perde o enciclopedismo e a visão ampla do mundo e da humanidade.

São linguagens diferentes… Não vale a pena insistir…

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Arranjando os ovos para a omeleta


Depois de, na semana passada, ter expressado a minha tristeza pela reiterada intenção de alienação do acervo Miró constante do património do BPN a liquidar, volto à área cultural para relatar-vos uma experiência apaixonante que estamos a ter na Venezuela: o concerto “Algo Eléctrico”, que vai ter lugar no próximo domingo, no Centro Português de Caracas, e que partiu de uma base de financiamento público igual a zero.

Ao concebermos este concerto procurámos ilustrar uma relação entre dois países e dois povos que, a nosso ver, vai muito para além dos limites estritos da política e da economia, entrando mar adentro por oceanos de cultura em que os povos venezuelano e português são, há muito, companheiros de viagem.

Esta ideia é transmitida pelo cruzamento que se fará entre maestros e compositores. A mais de dar a conhecer à audiência maioritariamente portuguesa os compositores clássicos de Portugal e Venezuela, de uma forma pedagógica, simboliza-se a universalidade da cultura ao solicitar ao Maestro Osvaldo Ferreira (Portugal) que dirija as obras venezuelanas (de Evencio Castellanos e de António Lauro) e ao Maestro Régulo Stabilito que o faça em relação às composições portuguesas (de Joly Braga Santos e de Luís de Freitas Branco), bem assim como ao adoptar como executante comum a mundialmente prestigiada Orquestra Sinfónica da Venezuela.

À medida que a ideia tomava corpo, ficava a sensação de que faltava um traço final para acabar de pintar o quadro musical que queríamos oferecer ao público. Eis, então, que ele nos aparece com a inclusão do conhecido músico venezuelano Pedro Castillo (conquistou fama como vocalista da banda Aditus, nos anos 90), cujo tema “Algo Eléctrico” ilustra a relação harmoniosa e de perfeita integração dos portugueses que emigraram para a Venezuela e das gerações subsequentes (algo que nem sempre se passa com as nossas Comunidades da diáspora), na tal mescla de culturas que ultrapassa todas as fronteiras. Como diz a letra da canção que empresta o mote para a tarde cultural de domingo:

Pregunté a los grandes entendidos
Y ellos no entienden lo que trato de explicar
No razono ni escucho, tú me has cambiado mucho
esto tiene que ser electricidad

Hay algo eléctrico entre tú y yo
que no sabemos como aparecio
Es algo eléctrico entre tú y yo
tú y yo, tú y yo

 

Coroando desta forma um desafio que convida um venezuelano a explicar a herança clássica portuguesa e vice-versa, dá-se uma banda sonora a uma relação sentida que vai muito além do explicável por palavras, já que há, efectivamente, “algo eléctrico” entre os dois povos e suas culturas.

O que destaco é o facto de Centro Português de Caracas, Orquestra Sinfónica da Venezuela, EDP, CGD e BPI terem dado mãos a uma Embaixada cujo o investimento material foi muitíssimo residual, cabendo-nos o gozo e o orgulho de “inventar” o espectáculo. Dito de outra forma: há sempre corrente para dar energia à nossa Cultura, assim havendo determinação.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A surreal arte de decidir


Sempre fui um admirador das qualidades pessoais e políticas de Pedro Passos Coelho, desde os tempos em que me liderou na JSD. Creio mesmo que a sua determinação férrea (a roçar a obstinação, por vezes) já valeu de muito a Portugal, nestes tempos difíceis. Qualquer líder mais permeável a pressões partidárias internas ou com inclinação narcisista já teria vacilado e, consequente e matematicamente, deitado por terra o esforço heróico dos portugueses.

Porém, há um ponto em que teria seguido um trilho diferente: a venda da já célebre – embora pelos maus motivos – colecção Miró. Com passagem por vários estilos e artes, Joan Miró é comummente dito um surrealista e as suas obras são altamente apreciadas e fartamente cotadas nos circuitos artísticos internacionais. Penso, todavia, que o surrealismo é estimável na arte, mas não tanto na política cultural e, aqui, temos o cerne da minha respeitosa discordância.

Desde logo, se entendo a Cultura como algo essencial para o bem-estar individual de cada pessoa e para a auto-estima de um povo (ainda que se trate de um acervo de origem estrangeira, seria detido por nós, sendo, ademais, que a arte é universal), conservar esta colecção desencantada no fundo do abismo que o BPN abriu nas contas de todos nós seria uma homenagem a uma valorosa gente que tanto tem sofrido, entre outras coisas, para pagar tão obscuro negócio bancário.

Acresce que, bem anunciada, a decisão de criar um museu ou de repartir as obras pelos museus existentes seria uma bem acolhida e refrescante novidade no tétrico alinhamento dos noticiários actuais, que se fazem, predominantemente, de crises, guerras e temporais…

Vem depois a pedra de toque do Governo: os milhões a arrecadar. Muda, ab initio, a perspectiva se, como deve ser, se vir a Cultura como um investimento e não como um gasto, pelos motivos aduzidos. Contudo, nem é preciso pedir tanta “alma” aos decisores; mesmo economicamente, com as entradas a cobrar e com os empréstimos a museus estrangeiros (remunerados ou à troca de empréstimos que proporcionam exposições com entradas pagas), a colecção acabaria por se pagar a si própria com a indemnização à leiloeira e tudo o mais. Demoraria? Com certeza, mas uma decisão deste jaez deve considerar as gerações futuras.

Considero muito acertada, por isso, a decisão da Procuradora-Geral da República de combater judicialmente a venda daquilo que designou com acerto de “património nacional”. Numa decisão sábia, ou muito me engano ou já deteve a alienação por largo tempo (a incerteza é rainha nos próximos meses ou anos). Durante este tempo, a meu ver, recuar seria prova de força e não de fraqueza, politicamente falando.

Sinceramente, termino com uma nota de tristeza pelas palavras que escutei do meu amigo e Secretário de Estado, Jorge Barreto Xavier. Pelos vistos, ainda não será ele a dar um murro na mesa contra a ditadura da Economia sobre a Política e a Cultura…

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Assim como quem não quer a coisa…


…vos digo, sem referir-me a qualquer nação em concreto, que cada vez menos acho realista uma sociedade comunista.

Dito isto, reafirmo o que sempre disse e que aprendi com um de meus mestres (da Universidade e do partido): entendo que há ideais do comunismo que permanecem válidos. Creio ademais que o mundo seria um sítio melhor se não fosse utópica a construção marxista. Todavia, o leninismo e maoísmo provaram à saciedade que o filósofo se esquecera de uma pequenina variável que faz o projecto social entrar em modo de suicídio: o ser humano, com a sua imprevisibilidade, o seu anseio de liberdade – fora das baias de qualquer materialismo dialéctico – a sua inteligência e até mesmo a não subestimável estupidez humana (lição de outro mestre, este de Lisboa).

Reconheço que nada disto acrescenta algo ao que já disse vezes sem conta. O prego que, na minha mente, faltava ao féretro onde deixo jazer o comunismo é dado pelas novas tecnologias.

Continuando a omitir referências a qualquer caso concreto, dei comigo a pensar por que não – a mais da objecção primeira – haveria um projecto colectivista de resultar no século corrente. Pois bem; partamos de um cenário hipotético de um país industrializado, no qual os centros urbanos concentram o grosso da coluna de uma população proletarizada ou dedicada ao chamado sector dos serviços.

Imagine-se que, em seguida, começa a “clássica” reforma agrária e que se colectivizam as terras. Tenho para mim que até meados do século transacto poderiam “convidar-se” compulsivamente franjas da sociedade a trabalhar as terras “de todos”, que mais não fosse, deslocando força braçal de lugares remotos para os campos a cultivar (imagino que ainda haja quem acredite que não foi assim…). Deste modo, a coisa lá ia correndo mais ou menos (mais para menos, diria, passando o jogo de palavras), sem grande consciência geral, sem muita margem para contestação dos “alegres” agricultores e, sobretudo, sem informação sobre “outras vidas”…

Tentar um projecto agrícola colectivista nos dias de hoje seria remotamente possível (embora por aproximação, como na lotaria) num país com tecnologia de ponta em qualidade e quantidade suficientes. Talvez nos países de primeiríssima linha; ou seja, precisamente os que se não metem nessas andanças.

De outro modo, com a transformação das sociedades – designadamente com o seu cosmopolitismo generalizado – sem a possibilidade de usar os meios repressivos de outrora (com a excepção de Estados párias como a Coreia do Norte), e sobretudo com uma organização que já não se compadece com a cadeia de mando vertical, antes se organizando em rede(s), está condenada ao fracasso essa utopia, por exemplo, no caso destacado.

Hoje em dia, a Internet e os canais transmitidos por satélite permitem, se outros meios de informação livres não houver, ver o que se passa “lá fora” e exigir padrões de autodeterminação adequados ao contexto nacional vivido.

sábado, 9 de novembro de 2013

Como ilustrar uma notícia


«Passos Coelho reúne na próxima semana com parceiros sociais», diz-nos o jornal i, via Agência Lusa. Parece que vai ser uma reunião animada. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Uma descarrilada e bárbara novela

Esperei, esperei e esperei… Li, li e li… Escutei, escutei e escutei… E, por pouco, não vomitei, vomitei e vomitei…
A história que envolve o divórcio de Manuel Maria Carrilho e Bárbara Guimarães já motivou dezenas de reportagens vampirescas, centenas de crónicas presunçosas e milhares de piadas de hilaridade variável.
Pois bem: não podendo vencê-los, junto-me a eles, procurando um ângulo pessoal, depois de deixar a questão marinar e, praticamente, sair da agenda.
Assim e em primeiro lugar, devo dizer que sou um fanático da privacidade. Ora, sobre o caso que hoje nos ocupa, a vertente “nacionalizadora” desta íntima propriedade privada tem três perspectivas que vale a pena explorar: por um lado, o meu eventual pesar é amplamente diminuído pelo facto de terem sido os próprios visados a aproveitar o lado cor-de-rosa da mediatização. Enquanto as reportagens foram elogiosas e peças de um puzzle que compunha a imagem de uma família de sonho, não se ouviu murmúrio de pranto ou cautela (antecipadas desculpas se me equivoco).
Por outro lado, foram os órgãos de comunicação social que criaram o “monstro”. Manuel Maria Carrilho mais não é que uma personagem cuja voz foi amplificada por media sequiosos de uma audiência que, cada vez mais, se alimenta de emoção e não de informação. Eram os enxovalhos a outros políticos (relembro as nojentas referências a um momento passado que o, então, ministro Morais Sarmento corajosa e aprioristicamente assumira), as crónicas e intervenções que denegriam quem lhe dava palco (foi com base numa delas que pude contrariar num debate o seu correligionário Augusto Santos Silva), os textos a construir uma imagem de intelectualidade, mesmo que, aposto, quem lhe desse projecção não entendesse uma vírgula (e logo não conhecesse o mérito académico daquilo que lia) da sua obra filosófica, e todo um percurso de candidaturas e nomeações comodamente toleradas em homenagem ao manancial de notícias que sempre se esperaram de Carrilho…
Por fim, importa reconhecer, a contrario e embora mantenha o que vai dito supra, que tratando-se de duas figuras que desempenham tarefas de alta exposição e possuem perfis de alto coturno, parte da publicidade do caso não deve espantar ou motivar crónicas moralistas.
Creio, em suma e não entrando nas entranhas de um caso que fede por si só, que podemos nele sublinhar dois erros de tomo: em primeiro lugar, o de Carrilho que, por muito que pudesse ter algum capital de queixa, já converteu Bárbara em mártir (se calhar, merecidamente). Em segundo lugar, o da jornalista do Correio da Manhã (e/ou da sua televisão) que tinha o dever ético de recusar a pergunta sobre as tentativas de violação alegadamente perpetradas pelo padrasto daquela, ainda que tal pudesse ter consequências profissionais; há barreiras de humanidade que não se cruzam.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Valores decotados - Parte I


Há umas semanas, vejo no noticiário da RTP e, subsequentemente, leio na imprensa que o Agrupamento de Escolas de Valadares proibiu, através do seu regulamento interno, o uso de “decotes ‘excessivos’, calças ‘excessivamente descidas’ ou ‘saias demasiado curtas’" (cito, na circunstância, o “Sol”).
Começando pela abordagem política, relembra o semanário citado que, em 2009 e por ocasião de evento similar em Pinhal Novo, o Bloco de Esquerda terá declarado tratar-se de "inusitado atentado à liberdade individual, expressando "o mais profundo repúdio" pelo seu "cujo cariz autoritário" (idem). Ora bem, o mesmo partido que quer proibir “piropos” rejeitava aqui uma clara tentativa de defender a dignidade das jovens mulheres, evitando uma excessiva sexualização e a automática sujeição (não é preciso estudar em Coimbra para somar dois mais dois) aos ditos e aparentemente gravíssimos piropos… Mais uma vez se vislumbram as contradições evidentes de um fenómeno partidário cuja notória decadência só espanta por ser tardia.
Aliás, a propósito do episódio mais recente, o sítio/blogue afecto ao BE (ESQUERDA.NET) reconhece e relembra as posições de 2009, associando o raciocínio ao caso de 2013; ou seja, como eu próprio disse nos meus tempos parlamentares, a conveniência e o lucro eleitoral são o único fio condutor de uma agremiação que foge da responsabilidade institucional como o diabo da cruz.
Contudo, não contornaremos a questão em apreço, dizendo que, mais uma vez, se encontram em jogo as questões de saber de distinguimos, sem maniqueísmos, o certo do errado e o mundo ideal do mundo real. Começando pela última, diria que num mundo ideal, cada um usaria (ou não) o que muito bem entendesse, sem que isso pudesse trazer consequências nefastas, fosse no plano do assédio, fosse no domínio da ofensa à moral pública, fosse ainda na estruturação de um personalidade que entenda e respeite regras de conduta. Sucede que entra aqui a mesma variável de que Marx (o Karl e não qualquer dos irmãos homónimos) se olvidou: o ser humano, a sua imprevisibilidade e o seu egoísmo inato (parto, claro, de um certo pessimismo antropológico), coisas que explicam a necessidade de regular a não menos necessária convivência social.
Depois, temos que perceber se ainda acreditamos que há coisas que estão certas e outras que estão erradas. Tenho escrito que entendo que a civilização ocidental me parece ter entrado numa deriva relativista em que qualquer opinião é válida por ser emitida por um sujeito determinado e em que os valores perdem a essência de marcas de sinalização do comportamento, porquanto valem o que cada nação, organização ou sujeito entender que elas valem.
Como explicarei na próxima semana, sou dos que entende que ainda há referências inegociáveis. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Culpa e independência


          Procurando fugir à repetição do que outros fizeram com uma qualidade que não poderia alcançar, sobre as eleições autárquicas procurarei, desde logo, transmitir sensações que me foram percorrendo ao longo de uma jornada feita de RTP Internacional e outras fontes na Internet.

Desde logo, sobretudo do lado do PSD pareceu-me, embora digno individualmente, colectivamente “de faca e alguidar” o afã de muitos derrotados em assumirem a título pessoal as respectivas desfeitas… Não só era evidente o castigo ao Governo (o Primeiro-Ministro reconheceu-o, com a sua honestidade habitual) – assim tornando, no mínimo, os oradores em maus analistas políticos – como o rasgar de vestes faria sentido em muitas outras coisas erradas que há na política hodierna, categoria em que uma derrota democrática, seguramente, não cabe.

Aliás, creio que algumas vitórias independentes também têm a ver com essa decadência ética da vida pública, sobre a qual venho falando. Creio, porém, que o fenómeno de rejeição partidária não explicará tudo sobre o crescimento de listas independentes; entendo que “a coisa” se não faria sem que houvesse uma clara apreciação das propostas e dos candidatos em casos como Matosinhos, Portalegre ou Porto. Já no caso de Oeiras, como o vencedor com a humildade que devem ter os que ganham reconheceu, terá havido um interessante fenómeno de vitória por procuração, o que também diz bastante sobre a apreciação da obra feita e sobre a lealdade do eleitorado aos que sente como seus.

Dentro da latitude de opinião que posso ter, diria sobre a vertente partidária e em primeiro lugar, que houve, mormente no PSD, cuja realidade ainda vou conhecendo, e sobretudo ao nível local, uma caça aos que pensavam por si próprios e que não dependiam de qualquer aparelho para ter uma carreira profissional. Consequentemente, pese embora se tenham partidos mais tranquilos, o debate de ideias está empobrecido, como o está a auscultação fidedigna do que pensam as nossas gentes.

Depois, creio que a tal culpa voltará a ser coisa em estado gasoso que se esfumará em pouco tempo. Sem ponta de comoção assisti a muitos discursos de derrota que sei que vão pertencendo a muitos que lá continuarão a carregar com essa cruz que é estar no Parlamento ou outros lugares políticos, continuando a impedir o rejuvenescimento de protagonistas.

No distrito de Coimbra, a evidência falará por mim, excepto, creio, numa verdade que tenho como tal, mas a que muitos se encarregarão de fazer vista grossa: creio que, daqui a quatro anos, o candidato à capital de distrito já está no terreno de jogo e que é chegada a sua hora (com o meu aplauso frenético); assim o próprio tenha método, paciência e ambição, já que a devoção a Coimbra ninguém pode negar-lhe.

sábado, 28 de setembro de 2013

Câmara, mesa e roupa lavada



Em semana de eleições autárquicas é duplo o meu martírio: não posso votar (estando a viver fora de Portugal) e não posso lançar chamas sobre muito do que tenho lido e visto… Quem se deu ao trabalho de me ler aos tempos em que outra cor governava o município de Coimbra, saberá o muito que eu tinha a dizer sobre um putativo regresso…

Cônscio, porém, das minhas limitações presentes ao nível da opinião política, dei comigo a pensar no que queria para a minha eterna cidade.

Desde logo, emprego qualificado. Um dos grilhões que sempre carreguei – eu e tantos outros da minha geração – foi ter que sair de Coimbra para encontrar um emprego adequado a qualificações superiores ou, por vezes, um emprego em termos puros e simples. Não sendo professor ou médico (e mesmo aqui adivinho já dificuldades crescentes), não resta outra alternativa a um indefectível da Lusa Atenas que não a de respeitar o padrão algo subdesenvolvido de um País que torna a sua capital no único pólo real de emprego.

Depois – já o disse várias vezes – creio que os elos de efectiva e afectiva ligação entre os motores que ainda funcionam há muito foram levadas pela corrente de um rio de indiferença e ensimesmamento. Tenho para mim que se a Universidade e a Câmara falassem mais amiúde e mais informalmente, muitas ideias brilhantes poderiam ser aproveitadas para encontrar uma diferença que torne Coimbra apetecível não apenas como centro de saber académico (a lembrar um pouco a Academia do Sporting que, antes do actual presidente, formava grandes valores para outros clubes), de saúde de excelência ou de património único, mas também como destino de investimentos reprodutivos, já que tem recursos altamente preparados, centralidade e acessibilidade e, diga-se, muita qualidade de vida para quem dela possa usufruir, quedando-se à beira Mondego. Acresce que envolvendo na equação, ainda que em fase ulterior, a A.A.C./O.A.F. se acrescentaria, a mais de um elemento de auto-estima, um poderoso meio de promoção da Cidade.

Entendo, sobretudo e em suma, que importa recuperar para a política uma elite e um pensamento ideológico que já lhe deram credenciais no país de outros anos. Falando do PSD (a realidade que conheço), lembro-me de ainda jovem não perder pitada das discussões travadas nas assembleias concelhias e distritais, tal o gabarito da maioria dos oradores e tal o requintado jaez da quase totalidade das intervenções. Sem qualquer desprimor para os dirigentes de tempos recentes, Coimbra só dará cartas no plano nacional (seja no PSD, no PS ou na política em geral) se apostar na riqueza do pensamento e no carisma de quem o expressa.

É também disto que se fará o próximo acto eleitoral.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Deixem-nos sonhar e usufruir deste belo País


Será que os políticos ainda não perceberam que o cidadão comum está de férias, pouco preocupado e cada vez mais alheado com o que se passa em Lisboa?

Como já perceberam escrevo estes linhas a partir do Algarve e pela primeira vez desde alguns anos, sinto-me cansado da política. Não me engano se disser, que nesta matéria sinto-me acompanhado pela maioria do Portugueses, também eles de férias e igualmente fartos de tanto ruído, no fundo tanta esquizofrenia protagonizada por políticos e comentadores.

Neste capitulo, a mediocridade é transversal, atravessa todos os partidos políticos, televisões e jornais. Nos partidos, porque a moda deste verão dá pelo nome de "swaps" e segundo as mais recentes teorias de comunicação de massas, quando um palavrão entra na moda, há que aproveitar e repeti-lo à exaustão. Poucos sabem o que é um swap, mas todos opinam sobre o tema. Outros, ainda menos esclarecidos, como ouviram dizer que é algo terrível, pensam até que é uma doença contagiosa e incurável. No meio disto tudo, poucos tem coragem de dizer, que comprar acções em bolsa pode ser mais arriscado e ruinoso que fazer um swap.
Claro está, que não me refiro aos swaps tóxicos, subscritos por alguns gestores públicos, com graves prejuízos para os contribuintes Portugueses.

Mas a desonestidade é de tal forma transversal, que salvo raras excepções em que não estão incluídos os partidos políticos, poucos foram os que defenderam que o governo em defesa dos contribuintes Portugueses, já devia ter feito uma queixa na procuradoria geral da republica contra todos os gestores envolvidos em swaps tóxicos, como que a deixar bem claro, "quem não deve não teme".

Quanto às televisões e jornais a mediocridade é ainda mais gritante, porque se no primeiro caso os políticos temem a verdade, neste caso, não sei se por agenda ou se por motivos mais obscuros em tudo contrários ao dever de isenção a que estão obrigados por lei, somos obrigados a ouvir e ler artigos, comentários e analises pouco representativas do eleitorado Português.

Alias, não é de agora, que conhecidos membros e simpatizantes da nossa esquerda caviar, tomaram de assalto os meios de comunicação social e com isso têm transmitido a ideia, de que representam a opinião da maioria dos Portugueses, quando na verdade e nas ultimas legislativas nem chegaram aos 290.000 votos. Isto não é democracia representativa, é um logro, é uma mentira.

 Mas voltemos então às férias e a aquilo que considero serem os temas mais importantes, não só por serem positivos para o País e logo para os Portugueses, num claro sinal de que os sacrifícios feitos nos últimos 3 anos, não esqueçamos que começaram com os famosos PEC's, poderão não ter sido em vão.

- a economia Portuguesa cresceu 0,4% no ultimo trimestre, contra as previsões que indicavam um crescimento negativo de 3%
- O desemprego diminuiu 1%, é certo que há aqui algum efeito de sazonalidade, mas no ano passado também tivemos o mesmo efeito e o desemprego não parou de aumentar
- défice publico encontra-se dentro dos limites acordados com a troika
- as exportações voltaram a crescer, depois de um período de estagnação
- a balança de pagamentos está positiva como já não há memória
- o índice de confiança de investidores e consumidores melhorou
- temos um governo remodelado que elegeu como prioridades, o crescimento económico e a renegociação do memorando negociado pelo partido socialista com a troika
-temos uma nova lei laboral, mais amiga do investimento e menos incentivadora do laxismo
- está em fase final, a lei que vai de uma vez por todas introduzir a equidade nas reformas, aproximando o sector público com o sector privado e desta vez não venha o tribunal constitucional substituir-se ao governo e defender o indefensável
 - Portugal foi eleito um dos melhores destinos de férias do mundo, com algumas praias a ocuparem o "top ten"
- a hotelaria tem este ano taxas de ocupação só comparáveis com o ano de 2007, ano de referência pela positiva
- Portugal tornou-se num País de recrutamento de quadros qualificados, já não emigra só mão-de-obra não qualificada

Estes são apenas alguns exemplos muito positivos e sinais prometedores, de que o futuro poderá ser melhor, mais justo e mais solidário. Sou daqueles que sempre defendeu que não se pode distribuir o que não se tem, mas pelo contrário, devemos criar as bases para atingir de uma vez por todas um desenvolvimento sustentável.

Por tudo isto, dêm-nos férias no que respeita ao bota abaixo, à mediocridade e à maledicência, valorizem os aspectos positivos, as conquistas já conseguidas e os sucessos já consolidados.
 Deixem-nos sonhar e usufruir deste belo País, tão elogiado lá fora e tão desprezado e maltratado cá dentro

 Boas férias

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Leitura recomendada


Portugal tem excelentes escritores e José Rodrigues dos Santos (JRS) está na linha da frente. “A Mão do Diabo”, o romance ilustrado na fotografia é um belo exemplo. 

Bem escrito, escorreito, é aquele tipo de leitura de que se gostaria ainda mais, não fosse a temática em torno da Segunda Grande Depressão, ou se preferirem, crise das dívidas soberanas.

JRS entretém e informa, apresentando-nos uma descrição pormenorizada sobre a forma como o euro e os países chamado periféricos (ou Club Med) aqui chegaram. Melhor ainda, é ideologicamente transversal, fugindo ao esquerdismo irresponsável por um lado, e ao neoliberalismo radical pelo outro.

 As respostas a muitas das perguntas que hoje fazemos sobre a crise e cenários futuros estão bem descritas nas cerca de 600 páginas do calhamaço.

Aparte as teorias económicas e respetivo enquadramento, que são reais, o resto é ficção. Mesmo assim, sendo “ficção” (entre aspas, com o autor o afirma), o retrato que faz dos políticos europeus é avassalador. Para a narrativa, (repito narrativa e não autor) são todos corruptos, não tendo descortinado uma única personagem da história ligada à política que fosse honesta ou que mostrasse preocupação com a “massa do povo”!

Os políticos que se defendem, se assim o entenderem. Quanto à prosa, é leitura recomendada. Para não fugir à temática, sigo para Madrugada Suja.

sábado, 3 de agosto de 2013

Os cinco


Embora pareça uma evocação de Enid Blyton (saudades desses tempos…), falo-vos, hoje, sobre os cinco milhões (número estimado) de portugueses que residem fora de Portugal.

Com algum dever de reserva imposto pelas funções desempenhadas, começo pelo lado onomástico do fenómeno: se, antigamente, eram designados por “emigrantes” todos os portugueses que ganhavam a sua vida “lá fora” (“aqui fora”, digo eu), há aqueles que, hoje em dia, se abespinham com o estilo clássico, preferindo a designação pós-modernista de “portugueses residentes no estrangeiro”. Se pensarmos bem, faz até sentido em casos como os quadros das empresas que passam fora de portas tempo limitado (os famosos “expatriados”) e para aqueles que, tendo a nacionalidade, já nasceram fora do País.

Do que conheço, continuaria por destacar uma imensa virtude dos nossos concidadãos emigrados: demonstram, todos os dias, que nada se consegue sem imenso trabalho. Enquanto segue a polémica caseira sobre horas semanais para a função pública, por exemplo, na África do Sul era comum encontrar empresários portugueses a trabalhar às cinco da manhã, terminando apenas quando pudessem faze-lo. No caso dos exemplos de sucesso, que olhamos, por vezes, com uma pontinha de inveja, raros serão os percursos de vida que não estejam respaldados por momentos de privação e dúvida, e mesmo por noites ao relento.

Claro está, diga-se, que as nossas Comunidades estão longe de ser todas elas constituídas por exemplos de abastança – ideia que temos tendência a nutrir. Há casos de emergência social a que as autoridades portuguesas tentam acudir, com as limitações conhecidas de todos.

Em segundo lugar, creio ser de sublinhar a generosidade como traço forte de um qualquer retrato dos portugueses emigrados. Se é certo que alguns acumularam fortunas consideráveis, não é menos verdadeiro dizer-se que o que têm lhes pertence e assim poderia continuar a ser, legitimamente. Todavia, e apenas a título ilustrativo, basta dizer que em Joanesburgo e perto de Caracas existem dois enormes lares de terceira idade – qual deles o mais bem equipado – fundados e mantidos pela boa vontade das respectivas comunidades. Ademais, à parte das infra-estruturas, são diversas as ocasiões em que iniciativas destinadas a compatriotas carenciados ou em situações de emergência se tornam possíveis por via desse sentimento de partilha e redistribuição que, no fundo, sempre está no coração dos portugueses.

Se tivesse que apontar traços de apreensão no curto espaço e com a rédea curta que me tutelam, apontaria, mormente no exemplo africano, os atritos e envelhecimento daquela Comunidade que ainda alimenta a tradição associativa. De igual modo, creio que os números de participação eleitoral não fazem, nem de perto nem de longe, jus à relevância dos nossos portugueses da diáspora.