quinta-feira, 2 de maio de 2013

O regresso do cavalo do inglês

Vejo o estóico exercício de amputação realizado pelo Conselho de Ministros e relembro a troca de mensagens de correio electrónico com um amigo que é membro do Governo, que à minha frase de felicitação respondia com um “isto está difícil”.

Não me passa pela cabeça duvidar do esforço que é pertencer a um governo que tem que combater uma crise que parece insuplantável e que, seguramente, o é a solo por Portugal.

Como já disse, creio que, à parte de um ou outro carreirista que consegue furar as malhas do mérito, as pessoas que hoje aceitam ir para funções de Estado são cidadãos que me merecem todo o respeito; estarão, seguramente, sujeitas à permanente insatisfação de grande parte dos concidadãos, não verão as coisas boas que fazem aplaudidas ou sequer com o devido destaque mediático, não enriquecerão com o ordenado que vão receber e, de certeza absoluta, vão envelhecer bem mais depressa. Claro está que, assim o creio, servir a Pátria é uma honra, mas esta honra vem sem honrarias e apenas - para os que são sérios – com “ferimentos de guerra” e com uma quase pornográfica renúncia à esfera privada.

Penso, em conformidade, que o muito vituperado Víctor Gaspar não estará em funções porque o ordenado é soberbo – como académico e consultor ganharia “n” vezes mais – ou porque aprecia o estrelato, posto o que teria que lhe ser diagnosticado um masoquismo de proporções patológicas.

Tudo isto para dizer que o que podemos discutir é a forma de tentar amortecer o impacto da crise, que, repito, não resolveremos com mais ou menos cortes dado o cariz internacional dos problemas.

Aqui chegados, devo dizer-vos que valia a pena que os três partidos com propostas realistas de governação (PSD, PS e CDS) procurassem mais entendimentos em nome de Portugal, até para que haja a mesma obrigação moral quando a alternância democrática chegar. A lógica de deixar a batata quente nas mãos de outrém sempre acabará por escaldar as nossas, sobretudo quando o forno que é a economia está para lá de quente…

O entendimento é tão mais importante quando me parecem de levar em conta avisos como os que escutei a um economista (Arroja, creio), dizendo que não poderia haver mais cortes sem abdicar de funções do Estado. Achando a ideia tétrica e um recuo civilizacional, relembro as palavras de um ilustre académico de Coimbra que, há meses, me dizia que “não conseguimos pagar esta dívida em menos de 30 anos”. Isto para não evocar as muito criticadas declarações de José Sócrates, quando afirmou que estas dívidas não eram para se pagar (veja-se a Grécia…); concordamos que o rei vai nú, mas criticamos quem o diz…

Há, por isso, que pôr travão na dieta para que não resulte em anorexia ou, dito de outra maneira, para que não acabemos como o cavalo do inglês, que morreu quando estava quase a aprender a deixar de comer, como escrevi, há anos.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Longe do fim do Mundo

Nos últimos dias, tenho recebido por várias vias a pergunta “está tudo bem por aí?”. Sensiblizado pelas inquirições, sigo frustrado por não poder escrever livremente sobre este e outros temas (voltaremos ao estilo antigo, quando as funções terminarem…)…

Porém, cumpre chancelar a primeira crónica enviada da terra de Bolívar, Chavez “y” outros, dizendo que as notícias sobre o país são manifestamente exageradas.

Convém, no entanto, encontrar o ponto de equilíbrio para que se não pense no paraíso quando falo na Venezuela. Assim sendo, cumpre começar por reconhecer que a sua capital é, efectivamente, uma das cidades mais violentas do Mundo; Maduro e Capriles – os candidatos que dividiram o eleitorado ao meio nas eleições presidenciais de 14 de Abril – reconheceram-no durante a campanha eleitoral, inclusive com marchas gigantescas em evocação do tema. O maior drama, a mais do número de mortes, é o dos sequestros, que nada têm de amador; falamos de uma “indústria” muito bem montada e organizada.

Dito isto, é também dever desdramatizar o assunto. É necessário viver numa redoma e nunca por o pé na rua?! De todo!... Sente-se até muito mais a vida de uma verdadeira cidade do que em paragens como, designadamente, Joanesburgo. É mais do que possível ir ao “temido” centro e visitar a Praça Bolívar, as casas onde nasceu e viveu o “Libertador”, a Catedral e, noutras zonas, os museus e parques de Caracas. Sublinho mesmo que, pelas descrições, nos últimos anos, abnegado tem sido o esforço das autoridades para tornar as áreas em causa transitáveis, ao menos durante o dia. Em abono da oposição se diga de igual modo – não subscreverei maniqueísmos – que o Estado que Henrique Capriles (o grande contendor de Chavez e Maduro) governou até há pouco (que inclui as zonas “nobres” de Caracas) está classificado como zona segura para se andar (literalmente falando), embora com o relativismo que o termo impõe nesta urbe.

Por outro lado, mesmo o período pré e pós-eleitoral não foi o “faroeste” que me pareceu retratado na terra de Camões (a minha, por sinal…). Claro que mortes e grupos armados “em campanha” não cabem num duelo entre PSD e PS… Todavia, também será impossível, hoje em dia, ver por aí marchas e comícios com centenas de milhares de pessoas, com o condimento extra de uma cortante e inconciliável fractura ideológica entre “socialismo do século XXI” e liberalismo (não sei se Capriles aceitaria a etiqueta, mas foi a que me pareceu mais adequada para o fato que usou…), e sem esquecer a elevada temperatura do sangue latino-americano.

Tudo isto, em suma, para dizer que este é um País que vale a pena para trabalhar e visitar, desde que o leitor tome consciência de que as suas “calles” são um “bocadinho” mais agitadas do que a nossa Rua Ferreira Borges ou qualquer avenida lisboeta e tome as providências adequadas, mormente no que toca à simplicidade na aparência e à renúncia a qualquer acto de heroísmo em caso de infortúnio.

domingo, 28 de abril de 2013

Esquizofrenia generalizada

Definitivamente encontrei o termo que melhor define o momento político que vivemos. Mas o que é a esquizofrenia? É um transtorno mental que pode atingir qualquer pessoa independentemente da idade, sexo, raça, classe social e que se caracteriza por delírios, alucinações, etc..., no fundo uma descolagem perante a realidade.

Desde que este governo tomou posse, com o grande desígnio Nacional de evitar a bancarrota, cedo se percebeu que iríamos ser influenciados e condicionados por um movimento transversal à sociedade Portuguesa, liderado pela comunicação social no sentido de impedir o inevitável, o "fim dos interesses instalados".

Esta esquizofrenia generalizada, vem em crescendo e atingiu o seu epílogo com o discurso do Presidente da Republica no dia 25 de Abril. Ora, seria fácil adivinhar, que qualquer que fosse o discurso se responsável , e de estado, seria criticado da esquerda à direita e ontem alguém por quem não tenho grande simpatia, dizia algo muito obvio mas que a esquerda só releva quando é conveniente. Ao rejeitar eleições antecipadas, apelando à estabilidade política e aos consensos, o Presidente da Republica não fez mais do que cumprir e respeitar a constituição, a saber os mandatos são de 4 anos.

Ao contrário, Jorge Sampaio violou a constituição quando dissolveu a Assembleia da Republica sem qualquer razão objectiva e porque todas as sondagens davam uma vitória clara ao PS, convocou eleições antecipadas, vindo a dar posse ao governo que levou o País à bancarrota. A esquerda e uma parte da direita aplaudiram e o resultado foi aquele que se viu e para o qual somos hoje todos chamados a pagar.

Não posso estar mais de acordo com o Presidente da Republica, "À primeira qualquer cai, à segunda só cai quem quer"

Mas afinal de contas quem são os maiores beneficiários desta esquizofrenia?

A lista é extensa, mas nada como dar alguns exemplos:
No topo da pirâmide podemos encontrar as elites económicas, que historicamente sempre viveram à custa do orçamento de estado. A seguir, temos as elites políticas, que vêm o sistema de reformas chorudas ameaçado, depois, todos os operadores judiciais a começar pelos juízes, procuradores, terminando nos advogados. Mais abaixo os jornalistas e comentadores (normalmente ex- políticos) e finalmente os funcionários públicos em geral, que pela sua dimensão e capacidade de gerar vitórias eleitorais, foram acumulando benesses insustentáveis, roçando em alguns casos a indecência. A propósito disto, muitos se questionarão porque é que o tribunal constitucional nunca invocou a falta de equidade e justiça, evitando assim a divisão da sociedade Portuguesa, entre Portugueses de primeira e Portugueses de segunda.

Numa soma de resultado nulo, se uns são beneficiados, alguém tem que ser prejudicado.
A resposta é simples, Portugal, e a maioria dos Portugueses, os tais cidadãos de segunda, que pagam com os seus impostos todos estes desmandos.

Contudo, os beneficiários desta esquizofrenia, sofrem de outra patologia, a miopia galopante, porque ainda não perceberam que quanto mais cedo reformarmos e acabarmos com todas estas distorções insustentáveis, menores serão as perdas. O colapso de todo este sistema, é o pior dos cenários e a pior das opções.

Muitos Portugueses, estranharão porque é que a maioria dos comentadores adoptou a política do bota abaixo e invariavelmente está contra toda e qualquer medida anunciada pelo governo, mesmo aquelas há muito reclamadas por toda a sociedade Portuguesa. Eu não estranho e as razões são simples e deviam ser perceptíveis ao comum dos mortais.

Para começar, os media por uma questão cultural, a que eu chamo "intelectualite de esquerda", recrutaram desde muito cedo, jornalista e comentadores simpatizantes da tão conhecida esquerda caviar, gostam de viver bem, ganhar bem, julgam-se intocáveis, não se sujeitam a qualquer julgamento e acham que só eles detêm a verdade. Depois, porque nos últimos dois anos, muitos destes pseudo-comentadores foram sujeitos pela primeira vez a cortes salariais e para quem se julgava intocável e acima do comum dos mortais, começou sentir toda esta construção em perigo.
Finalmente, porque os grupos económicos de media, sentiram-se ameaçados com a perspectiva da privatização da RTP, e sub-repciamente, as administrações terão passado a mensagem aos jornalistas que eles seriam os principais prejudicados pelo sucesso desta operação. Como quem não quer a coisa, a mensagem foi clara e muito objectiva do tipo, "façam pela vida que os tempos estão difíceis"

Temos assim um " melting pot" de interesses, que nada tem a ver com as reais necessidades do País ou do cidadão em geral, mas apenas e tão só, com a defesa de interesse corporativos e pessoais, que ameaça a cada momento a estabilidade tão necessária para sermos bem sucedidos na defesa do interesse geral e do nosso futuro.

Vivemos assim tempos a que eu chamaria de censura silenciosa, muito mais perniciosa do que a censura do lápis azul, porque se nos tempos idos e em alguns casos se escrevia aquilo que se pensava, que posteriormente poderia ou não ser censurado, hoje, à partida, já nos dizem que se não escrevermos em determinado sentido, é a nossa última missiva. Honra seja feita aos blogs, local onde ainda podemos ser genuínos e escrever segundo as nossas convicções.

Nem há muito tempo, um comentador e articulista da nossa praça, confidenciava-me que tinha abandonado algumas convicções e se tinha dedicado a escrever e a comentar banalidades e terminou dizendo, não quero fazer parte dessa grande fileira que são os desempregados do nosso País.

O corolário deste unanimismo ficou bem patente na primeira página do jornal de negócios desta semana. O convidado foi Fenando Rosas, um historiador, bloquista que para além de não acreditar na economia de mercado, também não a entende e é como sabemos um feroz crítico deste governo.

Este cinzentismo a que fomos votados, não augura nada de bom, não só porque a nossa cultura foi construída sob a diversidade, criatividade e espírito de aventura, mas também porque esta forma unânime de pensar tão ao estilo das ditaduras nunca deu bons resultados. Estranho é, que aqueles que mais defenderam a liberdade de expressão e a pluralidade de opiniões, estão hoje na linha da frente na defesa desta nova cultura.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Um problema de timings


A vida é mesmo assim, e quando este problema surge nas nossas vidas pessoais, com  austúcia, com imaginação ou até com algum poder de persuasão conseguimos os nossos objectivos.

Pois é, e volto aqui ao meu tema preferido, o que vai fazer o líder do principal partido da oposição, António José Seguro perante os mais recentes factos.

De um lado temos um governo reciclado, regenerado e com novos objectivos e do outro um partido no verdadeiro sentido da palavra, que se tenta também reinventar, reciclar e regenerar, os próximos tempos vão ser interessantes, vamos ver ganha este novo desafio.

Do ponto de vista político, Pedro Passos Coelho livrou-se de um peso morto, retirando assim espaço de manobra aos adversários, na medida em que Relvas deixou de ser arma de arremesso. Remodelou inteligentemente, pois como se diz na gíria Portuguesa, conseguiu fazer o dois em um, ao substituir Relvas por alguém com peso político, Marques Guedes e por outro lado reforçar a equipa governativa, com alguém insuspeito, competente e conhecedor dos dossiers Europeus, Poiares Maduro.

Contudo nem tudo correu bem, estas remodelações a conta-gotas dos secretários de Estado, ameaçam minar um pouco este processo, não só pelas razões que estiveram na sua base, mas essencialmente porque ainda não sabemos qual a factura a pagar por erros passados destes Senhores. Não quero ser mais papista que o Papa, mas esta factura será paga novamente pelos contribuintes Portugueses, resta saber quanto…

Do ponto de vista económico, tudo indica que melhores tempos virão. Segundo os últimos dados, a execução orçamental está no bom caminho, tanto do lado das receitas como do lado das despesas, a negociação sobre as maturidades dos empréstimos foram bem sucedidas, e finalmente, temos uma estratégia para o crescimento. Desenganem-se os vendedores de ilusões, quando afirmam que já vem tarde e que escusávamos de ter sofrido tanto. Quem anda nestas lides e for sério, sabe perfeitamente que qualquer estratégia tem sempre várias fases e tratando-se de um monstro como é a máquina do Estado, mais lento é o processo. Contrariar em dois anos uma cultura de despesismo instalada e promovida durante dez, é obra.

Analisemos agora o que se passa no principal partido da oposição.
António José Seguro ainda não se conseguiu afirmar como líder da oposição, não só porque não tem envergadura para isso, mas essencialmente, porque sofre de um síndroma cada vez mais em voga no nosso burgo e que afecta os partidos do arco do poder, "O síndroma do líder efémero". Se até agora havia um inimigo comum que os unia aparentemente, que passava  pela renegociação do memorando, nas metas do défice e no reembolso do empréstimos e na ausência de uma estratégia de crescimento, agora as coisas estão mais difíceis.

A acrescer a isto, José Socrates está de volta, Jorge Coelho regressou à vida política e António Costa que tarda em mostrar qualidades de Presidente de Câmara, acha que chegou a sua altura. Como se isto não bastasse, surgiu agora um documento promovido pelo ex-secretário de estado da presidência de José Sócrates, a solicitar que o futuro líder do PS seja eleito também pelos simpatizantes e não só pelos militantes.

De uma coisa AJS está seguro, só um deles quererá disputar a liderança do PS, António Costa, porque os outros dois, têm uma agenda muito mais pessoal e mais economicista, não só porque já deram para esse peditório, mas essencialmente porque preferem continuar a viver bem e de preferência à custa do orçamento de estado.

Como tudo isto já não bastasse, Pedro Passos Coelho ensaiou mais uma jogada de mestre, convidando AJS para reunião. Ao dar-lhe a mão nesta fase difícil, faz agora o três em um, dá-lhe o protagonismo de que ele tanto precisa, segura um líder da oposição fraco, oco e sem ideias e finalmente porque coloca o PS entre a espada e a parede. Agora AJS ou é parte da solução ou é um problema e isto porquê? Porque depois de quase todas as reivindicações terem sido atendidas, a saber, uma estratégia para o crescimento económico, renegociação do memorando nas metas, prazos e maturidades, fica a faltar muito pouco.
Os próximos tempos vão ser interessantes.

sábado, 20 de abril de 2013

OS VALORES


Isto vem a propósito dos "valores" , tema muito vasto, do "post" precedente do Sr.Gonçalo Capitao.

A Repúblicas exemplares que nos prometem os candidatos à presidência cada vez que há eleições nos diversos países europeus, deixam a desejar ao fim de alguns meses de governação.
Os escândalos financeiros e" les affaires" de corrupção que metem em causa membros dos governos respectivos em várias nações tendem a perpetuar-se, juntando-se assim aos empresários e banqueiros  apanhados em flagrante delito de fraude e evasão de capitais.

E num momento em que se exige da população sacrifícios cada vez mais pesados, cada vez mais insuportáveis, no momento em que os desempregados e os precários se contam em milhões, os representantes da burguesia, eles, permitem-se esconder os seus "tesouros" mal adquiridos , nos paraísos fiscais, servindo-se abundantemente nas caixas do Estado e gozam de inumeráveis privilégios.

Os vários exemplos recentes em França e noutros países, não são mais que alguns exemplos que não devem esconder o caracter recorrente e estrutural da corrupção que reina um pouco por todo o lado.
Porque os escândalos financeiros, corrupção, privilégios, e outras "negociatas", são intimamente ligados ao funcionamento mesmo do sistema capitalista que os produz e reproduz de maneira permanente.

O governo moderno não é mais que um comitê  que gera os negócios comuns da classe burguesa inteira.

O Estado, não está ao serviço de todos, mas serve somente os interesses privados de alguns .A polícia, a justiça, os deputados, os ministros etc. não são os representantes de toda a sociedade. O presidente não é o presidente de todos os cidadãos. O presidente gera o Estado contra o interesse geral em proveito do interesse particular, o da classe dominante. E serve os interesses da burguesia, pois que ele se afasta das classes populares.

A corrupção, ela também, substitui o interesse público pelo interesse privado. Ela afasta as fronteiras entre os dinheiros públicos e as rendas privadas. Os homens e as mulheres políticas sem escrúpulos podem assim servir-se, com um sentimento de impunidade, nas caixas do Estado como se tratasse do seu próprio patrimônio. Certos altos salários administrativos e pensões adquiridas quinze e vinte anos mais cedo que um trabalhador, e o nível indecente destas pensões, prova-o.  

A corrupção nega e despreza o princípio de transparência e permite a uma única e mesma classe social, através do Estado, de aceder de uma maneira oculta e ilegal aos recursos públicos.

Encontramo-nos assim perante uma república corrompida e uma democracia inteiramente abandonada ao capital e aos parasitas especuladores sem fé nem lei. Estamos longe da república irrepreensível prometida pelos candidatos à presidência.

Não se trata aqui duma questão de moral, mas o produto dum sistema econômico no qual os interesses das classes constituem o seu fundamento material. A moral não tem existência própria. Ela depende das condições materiais que a produzem. Ela é a emanação das atividades econômicas, dos comportamentos materiais dos homens.

O grande desafio da social democracia será de provar que é capaz de moralizar a vida publica, de lutar contra as derivas do dinheiro, a cupidez e a finança oculta, de lutar pela transparência da vida publica, contra a grande delinqüência econômica e financeira.

A classe trabalhadora, que não pede nada mais que trabalhar para sobreviver, descobre que aqueles que lhe impõem sempre mais sacrifícios usufruem de regalias sem conta. O que é escandaloso.

Mas o verdadeiro escândalo atual é sem duvida nenhuma o capitalismo financeiro selvagem que perverte as nações.

Freitas Pereira

quinta-feira, 18 de abril de 2013

ESTADO LIBERTARIO OU ESTADO LIBERAL ?



Há tempos, fui dar um passeio até à bela cidade de Bruges, na Bélgica, o que me levou a atravessar uma região industrial francesa outrora florescente . Duas industrias reinavam nessa região : a têxtil e as minas de carvão. A primeira  é moribunda, a outra trespassou !
Ao passar pela auto-estrada Lille-Roubaix-Tourcoing ,que perdeu mais 2000 empregos recentemente, não pude deixar de pensar no drama do nosso Vale do Ave.
As portas da fiação Cavrois-Mahieu, à Roubaix (Nord) fecharam. Ultima fábrica de lanifícios,  que não pôde evitar a liquidação judiciária.
Aqueles  que aí tinham trabalhado durante dezenas de anos, deixaram a fábrica, em lágrimas, conscientes, que a vida profissional tinha acabado. Os mais jovens pensam desde já na reconversão, arriscada em tempos de crise, porque não é todos os dias que vem uma Toyota , como em Valenciennes, implantar-se na região.
Uma parte da historia desta região, construída sobre a industria têxtil apagou-se assim, tristemente.
Como foi possível chegar a esta situação ?
Globalização, deslocalisaçoees, concorrência desleal e selvagem dos países asiáticos, que não jogam com as mesmas cartas, cumplicidade dos nossos políticos e esta Europa sem fronteiras.
Mas, antes de tudo : o exemplo absoluto de um desastre provocado por um sistema económico mundial , não administrado.
O Estado liberal postula que a livre empresa é fonte de progresso. Estamos num mundo de concorrência política e social. Os melhores homens chegam aos melhores postos. As melhores empresas dominam o mercado. Os melhores pesquisadores são honrados e premiados. Os melhores correctores da bolsa são recompensados. Quanto aos outros, estes conservam o seu lugar entre o fundo e a superfície, em função dos seus esforços e dos seus méritos .
Esta organização social postula, para fazer crer que ela não é injusta, que todos os homens nascem livres e iguais e que eles arrancam todos da mesma linha de partida. Este postulado é , de imediato, falso, porque admite que alguns podem ser mais empreendedores que outros, ou fazem melhores esforços.
E somos obrigados de admitir que os mais dotados o são por natureza ou por herança, o que falseia de imediato a competição, porque é evidente que toda a gente não parte do mesmo ponto . Assim,  podemos contentar-nos de dizer que todos os homens nascem livres e iguais em direitos, mas em direitos somente.
A competição é a marca mais discutível do ambiente liberal. A competição supõe que há vencedores e vencidos e coloca estes últimos sob a dependência do bem querer, senão da caridade, dos primeiros. De qualquer maneira, o liberalismo não visa a igualdade. Ele visa uma sociedade economicamente produtiva e hierarquizada.
 Esta hierarquia pode ter várias facetas: No XIX ° século, as dinastias dos “mestres de forja” ( assim se chamavam as siderurgias , que o meu passeio através desta região sinistrada  trouxe à minha memória) , apropriaram-se do meio de produção.  Dispunham do poder de dar trabalho, o pão e um alojamento, alienando o trabalhador, dependente, portanto, do “mestre de forja” ! Perder o seu trabalho, era perder tudo.
Estes industriais enriqueciam-se, mas também criavam trabalho. Por vezes, um miserável trabalho, mas trabalho mesmo assim.
Mais tarde, veio o ultra-liberalismo, o capitalismo financeiro, sem projecto de sociedade, sem lei.  E tudo mudou : poucos empregos, poucos salários, pouca distribuição de riquezas e capitalistas invisíveis!
O Estado liberal não defende o povo,  por definição. No máximo, é forçado a legislar para impedir os abusos mais visíveis e imorais : trabalho das crianças, férias pagas , duração legal do trabalho, nem sempre respeitadas, cedendo pouco a pouco, contra vontade, sob a pressão dos movimentos sociais.
Incapaz de impedir o desemprego e a miséria social, o Estado ultra-liberal não protege o trabalhador. Está de conivência com os que possuem a riqueza das nações.
A miséria que assola Portugal, e não só, demonstra a falência dum sistema , que alguns procuram ainda salvar,  mudando os homens do sistema , quando é este que é imperioso de destruir.
J. de Freitas Pereira

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A crise e os valores

Hoje em dia, falar de valores apela, só por si, à materialização, visto que até os ditos são objecto de “bolsas” que lhe dão um aroma mercantil.

Se pensarmos bem, quem não tenha hábitos (não falo de crenças) religiosos dificilmente ouvirá referências a valores enquanto pilares de uma ética pessoal e/ou colectiva que, mesmo quando não norteiam, condicionem o processo que é o modo de vida.

Estou eu a consurmir dois parágrafos com tão hermética arenga em homenagem a uma situação que comigo se passou em torno do conceito de amizade.

De facto, quando considero alguém como amigo (doravante o termo engloba, bem entendido, as amigas), sou dos que não enjeita jamais essa amizade, mesmo que a pessoa passe um momento menos feliz do ponto de vista da sua “popularidade”, ou que seja alguém que, em virtude de ser detentora de uma personalidade menos consensual, não reúna o aplauso da maioria. Caso diferente é, evidentemente, aquele em que essa pessoa confirma a vox populi e desfere um ataque pessoal contra mim. Porém, mesmo aí, entendo que devemos analisar a situação, exclusivamente, pelo lado que nos toca, pois bem sei o que é ser vítima de energúmenos (a maioria estão, lembrando o ensinamento parlamentar inglês, nas nossas costas e não na frente oposta) que, à míngua de argumentos que ponham em causa o mérito e porque, regra geral, atacam em matilha, colam o rótulo de desleal ou pouco fiável a todo aquele que, obstinadamente, pense por si e entenda a lealdade e amizade como valores que acolhem a crítica construtiva como crisma.

Relembro que, nos meus tempos de activista e parlamentar, acalentei este debate com o meu grupo de amigos (verdadeiros, pois leva já, na maioria dos casos, mais de vinte anos de sã comunhão de ideias) em relação a um determinado sujeito que merecia “veto” da maioria e que eu entendia portador de qualidades. Valha a verdade, os tais amigos, porque genuínos, sempre respeitaram a minha insistência, como eu respeitei a merecida sátira quando a personagem versada resolveu fazer-me provar do seu veneno.

Ao invés do que possa parecer, não é de um recado que se trata, mas do facto de, há poucos dias, ter reavistado um amigo (a quem, aliás, devo gratidão) que suscita controvérsia na vida pública portuguesa, facto que foi público e que suscitou alguns comentários - na sua totalidade de amistosa provocação, reconheço – que me levaram à meditação presente.

Faço, por isso, o resumo da dita peregrinação ética: mesmo quando não subscrevo o seu enquadramento ideológico (e que benção é ter amigos que ainda sabem o que isto é!) e/ou as suas opções concretas; ainda que muitos dos meus (outros) amigos não o estimem; não obstante tratar-se de uma pessoa mais ou menos conhecida; considerando tudo isto, dizia, um amigo será sempre um amigo. Sinto-me bem assim…

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Estilo Emanuelino

Há estilos que ficam para a História e outros que ficam para uma história. Neste último caso, receio que possa vir a englobar-se o técnico da Briosa, Pedro Emanuel.
Aqui chegados, duas notas prévias, tentando desmontar a priori igual número de tentativas de desvalorização de opiniões como a que vou expressar: por um lado, aceito que é mais fácil ser “treinador de bancada” do que conduzir uma equipa. Todavia, se a análise amadora estivesse proibida ou fosse ilegítima, os estádios estariam (ainda mais) vazios. Acresce que a essência de qualquer democracia é, precisamente, evitar o governo da elite que tudo julga saber e que governa autoritariamente.
O segundo óbice que viso precludir é o mesmo que nunca aceitei na política: geralmente, diz quem defende o status quo que os críticos “fazem o jogo dos adversários”. Nada mais demagógico! É bem possível que quem critique se identifique incondicionalmente com a instituição cujo rumo questiona.
Feito o interlúdio para aplacar mentes mais pequenas (se as houver, bem entendido) entro na ideia que ora me ocupa: creio que o consulado de Pedro Emanuel se encontra esgotado. Digo-o não porque não se trate de um profissional sério e competente (é-o, indubitavelmente), mas porque me parece que a equipa tem jogado aquém das possibilidades do lote de jogadores que a compõe, porque me parece que em várias situações de jogo tem faltado a criatividade no banco para inverter o rumo dos acontecimentos, e porque talvez se tenha instalado um clima de habituação que se é benigno para o espírito coimbrão que devemos defender, parece maligno na capacidade de ganhar nova alma para escapar a lugares na tabela de que deveríamos estar a milhas…
Não entro em linha de conta com a valia dos jogadores, pois apoio a lógica de contenção salarial (o que não impediria, per se, a contratação de profissionais com outras características), e visto que, se o fizesse, estaria a dizer que o treinador teria caucionado más escolhas, o que, por ora, não interessa. Aliás, mais surpreende a performance academista se pensarmos que temos um dos melhores guarda-redes e um dos melhores pontas-de-lança do campeonato.
Em suma, creio que já na gloriosa época passada a prestação titubeante foi iludida pela vitória na Taça de Portugal e pela qualificação para a Liga Europa, como o foi no início da presente temporada pela muito digna participação neste torneio. Todavia, espero que a teimosia da Direcção em não “remodelar”, pelo menos, o treinador não saia cara.
Contudo, que ninguém se engane: torcerei até ao fim pela manutenção e apoiarei sempre a Académica, mesmo que o pior suceda, para além de continuar a dizer que tomara a Briosa que o actual Presidente a possa dirigir por muitos mais anos.

quarta-feira, 27 de março de 2013

A honestidade não vende jornais

Leio no "Correio da Manhã" de hoje (terça-feira) o seguinte: "Ao que o CM apurou, as escutas em causa mostram que, apesar das pressões de Ricciardi, o primeiro-ministro recusou interceder a favor dos concorrentes assessorados pelo BESI, remetendo a decisão para o conselho de ministros".
O facto não me espanta, pois conheço o nosso "Premier" e sei que, errando como todos os humanos, é de uma honestidade inquestionável. Podem detectar declarações menos felizes ou estados de alma menos simpáticos e, mesmo aí, nem me parece que tenhamos muita razão de queixa; todavia, sou capaz de apostar os meus magros recursos em como não detectarão qualquer ilegalidade em que Passos Coelho se tenha envolvido voluntária e conscientemente. Os mais de vinte anos de conhecimento e de amizade dão-me essa satisfação, como amigo, e essa tranquilidade, como cidadão.
O que me irrita e indigna é que a transcrição que fiz não seja o título da primeira página, já que, à menor suspeita, os jornais são lestos a usar a capa para pôr em causa a dignidade dos políticos.
Com isto não se pense que sou contra denúncias fundamentadas, algo que até defendo à luz do papel que os media deveriam ter como guardiões da democracia. O problema é outro e tem via dúplice: por um lado, muitas das notícias supostamente incriminatórias são baseadas em rumores e, por outro lado, o seu desmentido, nos casos em que se justifica, é tardio e tem um milésimo do destaque conferido ao enxovalho.,
Este é o mesmo problema que tenho trazido às nossas “conversas” semanais: a conversão dos media em empresas que visam o lucro e procuram o produto mais vendável, que é, sem volta a dar-lhe, a emoção e não a razão.
Neste caso, não seria possível ao diário citado enaltecer o lado bom do nosso chefe de governo? Não seria bom animar as hostes, dizendo que o rosto dos sacrifícios cumpre escrupulosamente com a ética que deve exigir-se a um representante da Nação?!
Bem podem discordar com base no facto de Passos Coelho não ter feito mais do que a sua obrigação; contudo, não é essa a desculpa dos media (a obrigação) sempre que querem publicar algo que põe os político em xeque?!...
A este respeito, não saio daquilo que costumo dizer: tal conduta só degrada o prestígio dos políticos, o que, por seu turno, pode vir a ter duas consequências. A primeira é a de que a destruição do que temos só pressagia demagogias extremistas ou messianismos mediáticos. A segunda augura que só mesmo “partisans” que escolham a carreira política como modo de vida é que aceitarão servir os portugueses, pois se muitos, hoje, o aceitam por patriotismo, visto que gente honesta não enriquece com o vencimento de político, temo que, no futuro, a auto-estima dessas pessoas tenha limite, se o apoucamento for a regra.
O que se passará com os nossos media?! A honestidade não vende?!

segunda-feira, 4 de março de 2013

A culpa é dos políticos descartáveis

Na sequência do meu último artigo, recebi uma crítica de alguém que prezo muito, não só pela objectividade que coloca em todas as suas análises mas também porque não milita em qualquer partido e assim isenta nas suas apreciações.

Dizia ela, que grosso modo concordava com o meu artigo, mas usando uma expressão minha, rematava com, tal como tu dizes é uma mão cheia de nada.
Vamos então à questão essencial e como me é habitual colocar uma questão de fundo:
Há alguma saída para esta crise no curto prazo?

Creio ser consensual, que qualquer saída passará obrigatoriamente pelo crescimento económico que gera emprego e consequentemente gera mais receitas fiscais, menos custos nas prestações sociais e no fim menos défice e menos dívida pública. Estarei a ver mal a equação?

Usando alguma objectividade, não vou abordar aqui a questão de mais ou menos saúde, educação, reformas, pobreza, etc..., uma vez que são a consequência lógica e irrefutável do sucesso ou insucesso do crescimento económico.
Mas, voltemos então à equação e comecemos por analisar se o crescimento económico se decreta ou se é por outro lado uma variável que depende única e exclusivamente de nós, se depende de nós e da UE, ou até se depende de nós, da UE e no limite da economia global?

Resolvi então fazer alguma pesquisa e tentar perceber porque é que a ausência de crescimento, aumento do desemprego e os défices públicos não são um exclusivo Português. Se isto for uma evidência, então podemos calmamente tirar uma de três conclusões ou se calhar as três:
- o modelo económico dos países ocidentais está esgotado e carece de uma refundação
- os recursos são finitos e tornamo-nos demasiado egoístas, porque não queremos dividir benesses e regalias que conquistámos com os países emergentes
- ou finalmente, porque sucumbimos à tentação de queremos para nós o filet mignon, dando assim o osso aos países mais pobres, pensando que eles trabalhariam para nós por meia dúzia de tostões e que deste modo não precisaríamos de trabalhar vivendo assim dos rendimentos.

Vamos então à análise objectiva com base nas projecções para 2013, bastando para isso 5 países:

Crescimento económico
Previsão inicial
Última revisão
Erro na previsão
Alemanha
1,7%
0,5%
70%
França
0,8%
0,1%
           88%
Espanha
-0,4%
-1,4%
250%
Portugal
-1,0%
-2,0%
100%
Inglaterra
1,8%
0,9%
50%

Este quadro ilustra perfeitamente, que a crise é sistémica, que não depende de um País ter moeda própria, que Vitor Gaspar engana-se tanto como os seus ilustres pares e que a saída para a crise não depende de nenhum País em particular.
Salvaguardas as devidas diferenças que vão desde o grau de industrialização, maturidade, organização e qualidade da democracia, a Inglaterra é o único País, que não está no euro e por isso, tem toda a liberdade para emitir moeda e segundo alguns medíocres, ultrapassar facilmente a crise económica, então porque não o faz?

Há uns meses ouvia um reputadíssimo economista Português dizer, que a solução para Portugal estaria na saída do Euro, sofreríamos um choque inicial, ficaríamos mais pobres momentaneamente, mas que a seguir teríamos o oásis. Será?
Paradoxalmente, podemos também abordar um País e um tipo de líder que prometeu mudar a França, a Europa e quiçá a economia mundial e os resultados estão à vista. Refiro-me a François Hollande, que de um momento para o outro, passou de desconhecido a iluminado, de enérgico a resignado, de salvador a indiferente e ou corrige a trajectória, ou passará rapidamente, de Herói a Vilão. Segundo as últimas sondagens, dois terços dos Franceses estão desiludidos. Será por isso, que nunca mais ouvimos António José Seguro referir o seu nome?

Portanto, como é fácil de entender, não é por um País ser mais ou menos liberal, por ter mais ou menos estado social, por ter uma democracia mais ou menos consolidada, por ser mais ou menos industrializado, ou até por ter a faculdade de imprimir moeda própria, que o crescimento acontece por geração espontânea.
Sendo assim só pode haver uma explicação, o actual modelo económico Europeu está esgotado.
E está esgotado porquê? Pelo simples facto, de que nos demitimos de pensar, aceitámos que nos vendessem o oásis sem questionarmos, e essencialmente, porque sucumbimos perante as benesses, e o facilitismo.

A Europa industrializada do pós guerra desindustrializou-se, os políticos com envergadura reformaram-se e deram lugar aos políticos descartáveis, a criação de riqueza deslocalizou-se da Europa para os Países emergentes, o desemprego aumentou, o modelo social Europeu ruiu pelo simples facto de que a pirâmide que o sustentava se inverteu, com isto os encargos sociais aumentaram, os impostos para suportar esses encargos aumentaram também, a Europa perdeu competitividade, os políticos descartáveis permitiram que os especuladores financiassem as dívidas dos Países e agora quem nos governa são os grandes grupos económicos.
Respondendo à questão inicial, não há saída para esta crise no curto prazo. Contudo o sofrimento pode ser aliviado, os sacrifícios poderão ser menores mas mais dilatados no tempo, perderemos alguns direitos adquiridos e o futuro será muito mais imprevisível. E tudo isto porquê? Porque salvo raras excepções, somos governados por políticos descartáveis ao serviço dos grandes grupos económicos, que no fim são os nossos credores. Referi propositadamente salvo raras excepções, porque ainda há políticos que colocam o País à frente dos interesses pessoais e partidários.

 P.S. Nem há uma semana, a propósito de políticos descartáveis e a respeito de candidatos às autarquias, um político da nossa praça dizia-me: se o individuo X me mostrar uma sondagem que prove que tem hipóteses de ganhar a câmara, será candidato e terá o apoio do partido.
Questão: Então já não importa saber se tem um projecto, se é honesto e competente?

domingo, 3 de março de 2013

Escassos vestígios de Ética encontrados na Indústria Alimentar


Oxalá a origem deste escândalo da carne de cavalo fosse assim tão simples e caricata, como sugere o cartoon acima. Porém, as proporções desta polémica são bem mais sérias e aumentam de dia para dia, não só quanto ao número de casos detectados, mas também quanto à área geográfica em causa. E se no início da investigação se apontava o dedo à Roménia, agora toda a Europa* parece mergulhada numa outra crise, de origem alimentar...

À parte da questão cultural, do ponto de vista da saúde pública não há qualquer problema em ingerir carne de cavalo - é saudável, mais magra, e ao que parece tem mais vitaminas que a carne de vaca. A questão é mesmo a de rotular carne de cavalo como se de vaca fosse. Trata-se da versão moderna do "comer gato por lebre" e configura, naturalmente, fraude. A carne de cavalo é mais barata e isso motivou a que algumas empresas recorressem a esta carne, sobretudo na elaboração de refeições congeladas. Note-se, contudo, que só se pode falar em fraude quando os valores de ADN detectados nas amostras superam uma certa percentagem, sendo que se for irrisória pode consubstanciar apenas um caso de contaminação acidental.  

A retirada de milhares de embalagens mal etiquetadas levanta, porém, uma outra questão, de foro moral. Numa Europa que atravessa uma crise económica, que recorre a políticas de austeridade sem apelo nem agravo e que se vê a braços com uma nova vaga de pobreza, fará sentido deitar ao lixo milhares de produtos alimentares que estão em bom estado, que não põem em causa a saúde pública e que estão apenas mal rotulados? 

O Ministro francês para o Consumo providenciou uma solução interessante, encaminhando essas refeições para associações que possam distribui-las e servi-las aos mais carenciados, desde que - naturalmente - informem os beneficiários do conteúdo das mesmas. A ver vamos se os demais países europeus têm a mesma iniciativa ou se o desleixo vai ditar-lhes outro destino.    

Para terminar, uma reflexão pessoal: mais do que comer cavalo por vaca, preocupa-me a falta de fiscalização da procedência alimentar que ainda se verifica neste século XXI e a possibilidade de diariamente ingerirmos alimentos processados que não são exactamente aquilo que esperamos. E claro, repugna-me esta ganância por lucros obtidos à conta de um consumidor que cada vez tem menos controlo na sua alimentação. E não é só à custa do consumidor - e da sua saúde, quando se recorrem a substâncias nocivas para aumentar a produção, por ex. -, mas também à custa de trabalho escravizado que ainda hoje existe, sobretudo em indústrias como a do café e chocolate. Ou seja, a rotulagem fraudulenta parece ser apenas a ponta do icebergue, num sector alimentar especialmente propício a actividades ilegais, tendência que se acentua num mundo globalizado, altamente competitivo e onde «vale tudo».**

*Na verdade, esta fraude não se restringe ao Velho Continente; na África do Sul, por exemplo, já foram encontrados vestígios de carne de burro, cavalo, girafa e até de canguru. Consta que mais de 80% dos produtos de carne sul africanos têm um rótulo que não corresponde ao conteúdo... 

**Se o leitor quiser aprofundar este tema recomendo a leitura de «No Happy Cows - Dispatches from the Frontlines of the Food Revolution», de John Robbins. 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Remodelação um acto de boa gestão


Tal como na economia em que as medidas de crescimento se devem tomar em períodos de recessão, também uma remodelação governamental, deve ser empreendida quando menos se espera e menos se fala dela.
Pois bem, mas a primeira pergunta é: Faz sentido uma remodelação nesta altura?
E as primeiras dúvidas surgem, será que não devia ser depois do veredicto do tribunal constitucional, mas vamos por partes.

Tenho a certeza de que seja ela qual for, refiro-me à decisão do tribunal constitucional, o governo tem alternativas já estudadas e prontas a implementar, pelo menos é o que nós esperamos, portanto, este não é de certeza um obstáculo.
Do outro lado, temos argumentos muito mais sólidos, tais como, uma execução orçamental que poderá ficar aquém do esperado, estamos a meio do mandato, portanto é normal alguns ajustes ao nível político, digo Ministerial. Parece-me consensual, que agora está na altura de medidas mais do lado do crescimento e emprego do que do lado da austeridade, porque o profundo combate ao desperdício ainda não foi bem-sucedido e por fim, porque António José Seguro e o PS andam à deriva, como se de um náufrago se tratasse.

É costume dizer, “que aquilo que nos trouxe até aqui, não nos levará mais longe”, mesmo em períodos de normal funcionamento das instituições democráticas, as rupturas também podem acontecer, como se de ciclos se tratassem, mesmo sem cairmos no desvario já antes ensaiado, de que os tempos difíceis já passaram.
Esqueçamos por momentos o plano de reduzir o défice do Estado em 4.000 milhões de euros e focalizemos-mos na economia real. A economia é acima de tudo uma gestão de expectativas e tendo em conta as últimas projecções pouco animadoras, duvido que haja alguém de bom senso que desate a investir e a criar emprego e é por isso, que tanto uma remodelação como alguma inflexão na trajectória são aconselháveis.

Não me atrevo a indicar quais seriam os Ministros remodeláveis, não só, porque ao contrário de alguns comentadores que falam sobre o que sabem e o que não sabem, esta remodelação deveria ter por base critérios muito objectivos para dar resposta a desafios muito concretos.
Eventualmente alguns dos Ministros remodeláveis até desempenharam o cargo de uma forma aceitável ou até exemplar, mas porque tinham uma missão quando tomaram posse, que hoje já não é a mesma e por isso deverão ser os visados. Repito, quando defenso uma inflexão no rumo, não quero dizer que os tempos difíceis já passaram, que o compromisso com a troika é para ser esquecido, ou até, que a consolidação orçamental está concluída, digo sim, que temos que tomar medidas para impulsionar a actividade económica, para dotar o mercado de alguma confiança a médio prazo, no fim para dar uma nova esperança aos Portugueses.

Que critérios deveriam então, estar na base da remodelação?
Atrevo-me assim a enumerar alguns:
- Ministros/Ministérios com rendimento aquém do esperado
- Ministros polémicos, não por terem tomado medidas impopulares e necessárias, mas porque carregam consigo uma carga negativa que contagia o governo todo
- Porque já cumpriram a missão que lhes foi pedida, dão sinais de cansaço e poucas soluções para o futuro
- Finalmente, porque têm que acreditar verdadeiramente que a solução passa por um novo rumo

Próximo passo, perfil dos escolhidos:
Credível, intocável, com peso político para tomar decisões difíceis, tenha ideias e se sinta identificado com a nova estratégia, com um novo rumo.

É escusado dizer, que aqueles que mais contribuíram para o descrédito do governo, não deverão ter qualquer influência na escolha dos novos responsáveis políticos, ou então teremos perdido mais uma oportunidade. Idealmente, a banca, a maçonaria, a opus-dei e outros grupos de interesse, não deverão também interferir nas escolhas, mas talvez ouvisse sigilosamente, o líder da UGT, da CIP, no fundo os principais players da concertação social. Agora sem Cândida Almeida, talvez seja possível começar a ter diálogos sigilosos.
Finalmente, como se comportaria a oposição… tal como tenho vindo a fazer, apenas abordarei a questão PS e António José Seguro porque o resto não me merece qualquer comentário.
AJS vive tempos difíceis, não só porque foi obrigado a reabilitar toda a tralha Socratista, mas porque da câmara Municipal de Lisboa chegou a principal oposição, António Costa. As reacções têm sido diversas, mas todas elas com um denominador comum, inócuas e básicas do ponto de vista do marketing político.

Sabemos à partida, que num cenário de remodelação, AJS dirá com certeza que o 1º Ministro é que devia ser o remodelado, que o Presidente Cavaco Silva devia convocar eleições antecipadas, bla, bla, bla…, a conversa do costume e que ontem João César das Neves tão bem descreveu quando se referiu a quem se opõe ao rumo seguido até agora. Dizia ele, que apesar dos enormes sacrifícios que tocam directamente muitas famílias Portuguesas, que o desbaratar dos recursos dos contribuintes foi de tal dimensão e durante tanto tempo, que está admirado como é que a factura não é muito mais elevada. Dizia também, que até hoje não viu, não leu e não ouviu nenhuma proposta alternativa credível, eu também não, apenas ouvi afirmações do tipo, "todos os caminhos menos este", ora isto é uma mão cheia de nada.
A liderança de AJS é por isso instável, a ausência de ideais credíveis e exequíveis são uma constante e a pressão interna condiciona a racionalidade do Secretário-Geral, levando-o a cometer disparates constantemente. Contudo e como é costume no nosso futebolês, quando uma equipa joga mal, não faltam treinadores de bancada a sugerir alterações de jogadores e de táctica, algumas, verdadeiras aberrações e outras com algum sentido mas pouco sólidas.

Há que reconhecer que nem tudo tem funcionado bem no governo e tal como nas empresas quando se cai num ciclo vicioso, há que tomar medidas, que normalmente passam por mudanças ao nível dos decisores. Neste caso, a remodelação para além de um acto de boa gestão, representaria a mudança para um novo ciclo, uma nova esperança para muitos Portugueses e quiçá o sinal que muitos empreendedores e investidores aguardam há tanto tempo.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Os Óscares, o Irão e a Política



Quem já esperava que o filme do ano, Argo, arrecadasse a estatueta dourada no passado domingo, esperava também que o Irão trataria de, mais tarde ou mais cedo, ripostar. Ontem mesmo o ministro da Cultura e Orientação Islâmica, Mohammad Hosseini, fez questão de vir dizer que Hollywood atacou a República Islâmica e que o filme em causa é «anti-iraniano» e carece de valor artístico.  

Não é de estranhar que assim pensem se tivermos em conta que o filme revela um Irão que se deixou cair, quase de forma patética, no genial e ardiloso plano montado por um agente da CIA, Tony Mendez, a fim de resgatar os seus compatriotas. Plano esse que passou precisamente pelo recurso à indústria cinematográfica de Hollywood, ao ficcionar a gravação de um filme em Teerão e incluir os próprios reféns no elenco e equipa técnica.

Embaraçoso, quanto muito. Mas não mais que isso - do filme não parece resultar qualquer ataque ao Irão. Ben Affleck, ao receber o prémio, agradeceu aos 'amigos no Irão', acrescentando que 'estão a viver tempos complicados', mas nada mais que isso. 

É certo que a revelação do Melhor Filme do ano foi dada em directo da Casa Branca, por Michelle Obama - cujo vestido foi criticado e alterado (ver foto acima) pela agência noticiosa Fars, dirigida pelos Guardas Revolucionários iranianos - e que a coincidência soou a reconhecimento político. Mas então o que dizer se o filme do ano fosse Zero Dark Thirty, que relata um dos momentos mais importantes da administração Obama, a captura de Bin Laden? Esse sim, seria um Óscar com inegável pendor político, ainda que o prémio pudesse ser merecido.  

Por fim, esta posição do Irão em acusar Hollywood de ser totalmente política faz ainda menos sentido se nos lembrarmos que há precisamente um ano atrás todo o Irão estava a rejubilar com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, Uma Separação. Pela primeira vez na história dos Óscares, a Academia distinguiu um filme iraniano e não se deixou de levar por separações. A memória dos iranianos é curta, está visto.   

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Alvar

Sou daqueles que acha que há certo tipo de pessoas que, por serem de tão baixa igualha, não merecem qualquer espécie de menção. Um pouco a ideia de que há defuntos tão ruins que não merecem que com eles se gaste mais cera…

O leitor perceberá que me refiro ao treinador do Benfica, Jorge Jesus, para o qual abri uma excepção à regra supra mencionada, de tão alarve que é a criatura.

Antes porém de o fazer, duas notas preliminares: não confundo a instituição Sport Lisboa e Benfica com um ou outro energúmeno que a sirva.

Em segundo lugar, cumpre reconhecer que, no jogo de domingo, a Académica terá jogado um futebol pouco apelativo. Contudo, pego por aqui para escrever a tinta carregada o meu espanto, pois muitos dos que dizem que a Briosa estacionou um autocarro na Luz são os mesmo que acharam Alex Ferguson genial por ter jogadores deitados à frente da bola no jogo em Madrid, na semana passada, e que disseram que Mourinho era um mestre da táctica pela teia defensiva que esquissou quando, há alguns anos, o Inter de Milão dinamitou o ataque do Barcelona, no Nou Camp. E mesmo no caso dos que não apreciaram os mentores destes “estacionamentos de pesados de passageiros”, importa perguntar se queriam que a Académica desafiasse o poderoso SLB desta época, para sair de “blusa cheia” e com uma palmadinha nas costas dos jogadores por terem sido tão bons rapazes?!...

Jogou-se o que se pôde e, eu que não aprecio particularmente Pedro Emanuel, reconheço a inteligente preparação do jogo, olhando a jogadores proporcionados por uma gestão que já mereceu citação de exemplo de “fair-play financeiro” pela UEFA. Estou certo que com o passivo pantagruélico autorizado ao SLB a capacidade de luta seria maior, mas seria menor o orgulho do meu coração “negro”.

Dito isto, vem a prosa à guisa de Édinho (Briosa) ter dito que o ruminante indivíduo que conduz o SLB afirmara que a Briosa não “joga um c……” e que teria que descer de divisão.

Poderíamos encurtar razões, citando o eloquente prof. Manuel Machado: "um vintém é um vintém, um cretino é um cretino".

Porém, a boçalidade de J. Jesus merece mais comentário por ver um idiota que não consegue articular uma frase em português a falar da Associação Académica de Coimbra. Os termos em que o faz sublinham, aliás e fazendo fé no jogador da Briosa, os modos bestiais deste simulacro de cidadão.

Depois vem a questão ética. Um sujeito que, há não muito tempo, dizia que ordenara aos seus jogadores que não atirassem a bola para fora do relvado quando houvesse um adversário tombado e que “o fair-play é uma treta” (não falando sequer na ofensa que a todos faz com as suas idas ao cabeleireiro) não pode pôr em causa a deontologia de um adversário, apenas porque defendeu aguerridamente um nulo que só foi quebrado por um genial árbitro que discerniu qual dos jogadores se agarrava com mais força.

Em suma, há uma divisão à qual só o SLB vai descer: a da imbecilidade, enquanto por lá estiver Jorge Jesus.