segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Traição

Continuo esta série de títulos mono-conceptuais com uma palavra forte que me ocorreu ao assistir ao noticiário de um dos canais informativos portugueses. Falo da necessidade de emigrar sentida por muitos jovens qualificados.

Sei bem que já falei disto por estas páginas e também estou cônscio de que não vale a pena dar proporções bíblicas a algo que, infelizmente e com uma ou duas décadas de excepção, foi sempre a sina de um povo pobre e acabrunhado.

Todavia, creio que o fenómeno cobra a sua novidade na natureza da emigração actual, pois falamos de jovens altamente qualificados e a quem foram criadas expectativas por um sistema de ensino gerido pelo Estado.

Bem sei, igualmente, que a expectativa jurídica já não é o que era. Desconhecendo se é por fraca qualidade de alguma legislação, se pela absoluta prevalência da economia sobre a ética política, se por ambas, o facto é que hoje se põe em causa o que ontem era dado como certo. E nem se veja aqui uma crítica encapotada ao Governo a propósito de salários e afins. As medidas têm sido dolorosas, mas acredito no patriotismo que lhes subjaz, quer de quem legisla, quer de quem (os portugueses) as sofre. Falo, isso sim, a título genérico de outras coisas menores, mas que vão polvilhando alguns diplomas.

Não espanta por isso, e eis a razão do interlúdio, que o “contrato social” (também ele uma legítima expectativa) celebrado há décadas com quem estuda no ensino superior esteja em causa num mundo global em que a lógica da grande finança oblitera qualquer desígnio individual e mesmo, não virá o longe o dia, atinente ao ser humano em si considerado (ou seja, para lá da lógica contabilística). A nova religião é o “Excel”, coisa a que, como também já disse e redisse, mesmo os berços dos ideiais da era contemporânea (os partidos) prestam culto.

Se nunca se pôde pedir que um curso universitário garantisse um emprego e se, há muito, sou dos que diz que o numerus clausus deveria ser estratégico, orientando para cursos com saída, a verdade é que quem tirou ou está a tirar um curso superior (por vezes indo à pós-graduação, mestrado ou mesmo doutoramento) tem toda a legitimidade para esperar uma vida profissional adequada às suas habilitações, obviamente, sem desmerecer quem se quedou, por razões diversas, noutros níveis de ensino.

Contudo, estamos já abaixo disto. Quem tem um curso pode não ter emprego sequer num centro de atendimento telefónico (os chamados call centers), como ouvi um jovem testemunhar na referida peça jornalística… E afunda-se-me a alma e quebra-se-me o ânimo quando vejo outra jovem ponderar um lugar de empregada de balcão na Suiça (sem questionar a dignidade do emprego), onde diz poder ganhar mais do que como psicóloga em Portugal.

Sinto que os políticos – mea culpa com certeza, durante o tempo que o fui – não estiveram à altura dos seus jovens, que hoje se dizem traídos…

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Autoridade

Em vários exemplos da vida e conversas sortidas têm-me feito meditar num valor basilar da vida em comum, que me parece em progressiva delapidação; falo da autoridade…
Creio mesmo que, em Portugal, tal depreciação tem uma explicação adicional àquela que me parece global e que discutiremos infra e que tem a ver com o facto de, no passado recente termos vivido uma revolução inspirada pelos ideais libertários (mas nem sempre libertadores) da extrema-esquerda. Cansados da “estabilidade” (leia-se autoritarismo) do Estado Novo, os portugueses deram, na sua maioria, o beneplácito a uma dinâmica política que via na autoridade um símbolo do tempo a que se não queria voltar. As passagens administrativas no ensino e a perseguição, por exemplo, a professores da Universidade de Coimbra, por muito que lhes dêem outra roupagem eventualmente ideológico, foram, a meu ver, uma vingança contra uma ordem que se odiava acriticamente. Basta, em abono desta visão, ver outros fenómenos como as formas colectivistas de organização surgidas em vários domínios e a própria desresponsabilização individual que, a meu ver, a nossa Constituição encerra, em certos domínios. Começou a época do “proibido proibir”.

Acresce a este um factor global: a influência das novas tecnologias, que, ao mesmo passo que nos ligam a pessoas do outro lado do globo, nos isolam (não é incomum ver pessoas numa mesma mesa sem falarem e olhando ecrãs de telemóveis, com a cara azulada ao jeito de um qualquer Avatar (refiro-me, bem entendido ao filme homónimo). Contudo, ao mesmo tempo que nos isolam, permitem-nos o acesso a mil e um conteúdos (com difícil filtragem, o que é, não raras vezes, berço de idiotices) e, concomitantemente, a uma ideia de poderio individual (empowerment, na ciência política anglo-saxónica). Tudo isto faz com que, mormente, os mais jovens se sintam avalizados para minar a auctoritas do mestre ou do “mais velho”, por acreditarem que o que sabem ou julgam saber é verdade porque viram na televisão ou leram na “Net” (conversa esta que dava um livro, sublinho…).

Se não sou adepto do excesso de autoridade, tampouco o sou da sua míngua… E, desgraçadamente, entendo que, em determinados domínios, resvalamos para este último extremo.

Desde logo na relação com as chamadas forças da ordem. Basta lembrarmos as agressões descaradas a agentes da polícia na tristemente célebre manifestação em frente ao Parlamento para vermos algo que nos pareceria intolerável há vinte anos. É, diga-se, essa mesma fragilização que leva a que um policial não consiga evitar um calvário para justificar uma bastonada, ao passo que raros desordeiros ficam sequer em prisão preventiva.

Depois relembro a já citada relação entre jovens e mais velhos. O chamado “respeito pelos cabelos brancos” é visto como obsoleto, gerando situações de descarte de pessoas idosas a quem se não reconhece o valor de aprendizagem da escola da vida. Na melhor das hipóteses pode esperar-se um insolente “isso é a sua opinião”, numa das piores o afrontamento acintoso.

Por fim, a relação docente-discente que, a mais do vandalismo cada vez mais frequente, ignora, hoje em dia, a ideia essencial de que a transmissão do saber pode ser participada, mas não é um exercício democrático.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Tourear a crise com o regresso aos mercados e Leonardo Jardim



Duas notícias marcam a atualidade: o regresso aos mercados e as informações vindas de Atenas sobre Jardim - o conquistador madeirense (não confundir com o Alberto).

Enquanto a primeira se revela pela importância nacional que evidencia, a segunda também tem merecido destaque jornalístico, é que apesar de não ser o campeonato grego não deixa de ser uma conquista portuguesa.

Mas comecemos pelo regresso aos mercados. Mais paulada menos paulada nunca tive grandes dúvidas que iríamos regressar. E desde já vos digo que também não duvido que o ajustamento orçamental será feito. Agora, tenho dúvidas é em saber que país teremos depois de todo este processo.

O regresso, antes do previsto e quando poucos o previam não deixa de ser uma vitória dos portugueses que têm vindo a fazer um esforço desmesurado para endireitar um país que foi deixado em estado comatoso. É verdade que não terá repercussões na carteira dos portugueses a curto prazo, mas o caminho faz-se caminhando e ontem foi dado um passo importante no sentido certo.

É que apesar de todas as virtudes técnicas que a operação acarreta para o financiamento da nossa economia, há outro aspeto muito positivo a realçar, que é o acrescento motivacional que expeliu a um povo descrente, cético e a poucos dias de aferir o real impacto “do brutal aumento de impostos” que as novas tabelas de IRS acarretam.

Quanto a Leonardo Jardim, decidiu viajar para Grécia e dedicar-se à tauromaquia, confiando no que vem sendo dito e escrito. Diz-se que a esposa do chairman do clube grego que paga o ordenado ao Conquistador não terá resistido à farta e esbelta cabeleira do coach insular.

Aparte a estupidez de estragar uma carreira que até prometia sucessos maiores, todo este enredo (acrescentando a crise cravada em todos nós) recorda-me uma história (com algumas adaptações deste vosso criado) de dois amigos, um português e um grego, que foram largados em plena arena numa praça de touros.

Depois, é solto um touro com 500Kg de porte que começa desde logo a correr em direção aos dois aliados, que se põem em fuga pela arena. Pelo caminho surge uma voz vinda do além que consegue perguntar ao português se está a tentar correr mais que o touro, ao que o “portuga” responde que quer é "correr mais que o grego”.

sábado, 19 de janeiro de 2013

As Idades do Mar ::: Gulbenkian



Antes mesmo que o IVA sobre a Cultura aumente - o relatório do FMI que saiu ontem dá indicações para que o imposto sobre eventos culturais seja de 23%, pois considera tratar-se de «bens que não satisfazem as necessidades básicas» -, ide ver, enquanto é tempo, a soberba exposição que está (até dia 27) na Galeria de Exposições Temporárias da Gulbenkian.

Intitulada «As Idades do Mar», esta exposição conta com mais de uma centena de obras de artistas como Monet, Manet, Turner, Paul Klee, Paul Signac, Gustave Courbet, e também de portugueses como José Malhoa, João Vaz, Vieira da Silva e Amadeo Souza-Cardozo. 


É uma espécie de viagem marítima pelos tempos, pois todas as obras que ali se reúnem têm o Mar como elemento fundamental. Estão expostas de acordo com um critério temporal/temático, dividas por isso em vários núcleos: «A Idade dos Mitos» é dedicada às maravilhas e aos demónios do mar, enquanto «A Idade do Poder» retrata o mar como palco de grandes batalhas económicas e políticas, com as potências marítimas europeias em destaque nas telas. Holanda, Inglaterra, França e Portugal à conquista do mar, levando mercadorias, ideias e modos de vida para outras terras.

Por sua vez, «A Idade do Trabalho» desvela-nos representações de cidades portuárias, locais onde a relação mar-homem/trabalho é inevitável.  Já a fúria do Mar e as perdas que encerra encontram-se retratadas nas obras reunidas sob o subtítulo de «A Idade das Tormentas». Por fim, «Da Idade Efémera à Idade Infinita» é composta por telas que se enchem de banhos, pores do sol, pescadores, viagens e todo um quotidiano em redor da paisagem marítima.

Em suma, por apenas 5€ - ou menos se aproveitarem o cupão que vem no jornal Público com a edição de quarta a sábado - podem ver uma das melhores exposições que se tem visto em solo português.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A dinâmica temporal tem destas coisas



Esta imagem das antigas piscinas municipais de Coimbra circula pelo facebook há algumas semanas, somando milhares de likes e centenasde partilhas, tornando-se num verdadeiro caso de sucesso na rede de Zuckerberg.

Aquela zona da cidade sofreu profundas alterações no âmbito da participação no Euro 2004. Presentemente, lá convive o Dolce Vitta com uma zona residencial, estando mais abaixo o novo estádio municipal, que nos endividou por gerações.

Felizmente, os dirigentes políticos da altura tiveram a visão e a inteligência em não cometer o erro de deslocalizar o estádio para a periferia, como fizeram outras cidades, encontrando-se agora a braços com os financiamentos bancários a pagar por um lado, e com a necessidade de alimentar os “elefantes brancos” por outro. Estádios com “rodinhas” ainda não foram engendrados, por isso, esta era das tais decisões onde era imperativo acertar. Não podiam falhar.

Mas a estratégia de rentabilização da zona envolvente também merece realce. Valorizou-se o lazer, promoveu-se a formação e a prática do exercício físico, com boas taxas de ocupação. Foram facultadas novas oportunidades de negócio, constituindo uma ação socio-cultural relevante e atrativa.

Mais importante ainda, deu uma caráter hedonista ao desporto na cidade. Não são distantes os tempos em que para se fazer desporto era preciso pertencer ou estar federado num clube. Presentemente, e particularmente devido ao esforço feitos pelas câmaras municipais (com a comparticipação de fundos comunitários, é certo), a prática do desporto, em várias modalidades, simplesmente pelo lazer ou pelo bem-estar físico tornou-se uma possibilidade ao alcance de todos, em vários municípios.

Mas voltando às antigas piscinas municipais que a fotografia ilustra.

Era muito forte a ligação entre a cidade e aquele espaço, quiçá esteja aí a explicação do “sucesso facebookiano”.

Até há cerca de uma década atrás, altura em que foram demolidas, a cidade toda por lá passou! Julgo não exagerar se disser que meia urbe terá aprendido a nadar naquelas piscinas.

Mas não foi só o aprender a nadar. Ali aconteceram amizades e “paixonetas” de verão. Motivou gazetas à escola para ir dar umas braçadas na piscina olímpica. Foram muitas e para muitos as “tardadas” ao sol e à conversa nas “míticas” bancadas, ou na relva do outro lado. Foram gastos muitos escudos em gelados no bar, ou na “ficha” que nos era dada sempre que guardávamos a roupa nos balneários.

Aquelas piscinas escondiam muita juventude desbravada, daí a nostalgia evidenciada não me surpreender.

Porventura terei ficado surpreendido com alguns comentários à fotografia, especialmente aqueles que aportaram a qualidade do caminho entretanto tomado pela cidade neste domínio.

O caminho, esse, estará ligado à dinâmica temporal, que tem destas coisas.

Mas a saudade será porventura mais acentuada ainda porque há época, tínhamos apenas as antigas piscinas municipais e uma piscina coberta em Celas, com uma capacidade limitada para as necessidades de uma cidade como Coimbra.

De lá para cá houve um caminho que foi trilhado. Atualmente, ao nível de infraestruturas cobertas: continuamos com a piscina de Celas, mas passámos também a ter os Complexos: Olímpico (COP), Rui Abreu (RA) e Luís Lopes daConceição (LLC).

Quanto a piscinas descobertas, construiu-se a da margem esquerda do Mondego. Mas também a do Parque de Campismo e da Quinta de S. Jerónimo, todas espaços públicos de acesso geral.

A nostalgia será natural e confesso ser mais um que a partilha.

Agora, acompanhado o percurso feito nestes últimos 12 anos,queria fazer uma pergunta muito simples ao caro leitor: Ainda quer as antigas piscinas de volta?

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Três momentos

Não sei se o ano (20)13 é de azar, mas será, com certeza, de mal-estar.

Depois de, na minha mais recente deambulação lusa, ter aproveitado para beber sabedoria das palavras de alguns dos mais ilustres e habilitados dos meus amigos, creio que posso sintetizar em três momentos o pensamento daí construído relativamente às apreensões que tenho para 2013.

Assim, o primeiro momento poderá ser denominado como social e situa-se entre o final de Janeiro e o final de Fevereiro, prendendo-se, claro está, com a real percepção que vamos ter do que significa em dinheiro a mudança de escalões do IRS e a sobretaxa a pagar. Curiosa foi a opinião de um dos citados interlocutores que me dizia que a diferença do valor recebido seria, em muitos casos, de poucas dezenas de euros, se tanto. Não fora o lado trágico e até teria achado alguma piada à observação; todavia, o facto é que vinte euros podem significar algumas refeições para pessoas que, em não raros lares, esticam o que não é elástico para pagar dívidas elementares, como são as que dizem respeito a água, luz e gás.

Num segundo momento, não muito mais adiante, este de cariz político e económico, saberemos o que tem a dizer o Tribunal Constitucional sobre a conformidade do Orçamento do Estado ao nosso texto fundamental. E o problema nem será uma eventual discordância jurídica dos Juízes – algo que, a acontecer, tem bastos apoios na comunidade académica, pelo que se lê e ouve – mas sim o que significará um possível “chumbo” em termos políticos – a oposição não deixará passar o ensejo de capitalizar o momento – e, ainda mais, em matéria económica. Quero com isto dizer que se aquele ditar a inconstitucionalidade de alguma ou algumas das questões sub júdice, será mais do que certo que será a já exaurida bolsa dos portugueses a coutada de caça dos milhões que ficarem a faltar.

Aos protestos usuais haverá a somar o facto de o futuro líder da UGT, Carlos Silva, ter já defendido o fim dos acordos com o Governo e patrões, prometendo poucas possibilidades de concertação social, ao invés do que, apesar dos dissensos, tem sucedido com João Proença, o actual Secretário-Geral. Seja ou não desta vez que se juntam CGTP e UGT, o termómetro social vai subir no registo da contestação.

Por fim, aguarda-se com incerteza o momento partidário que se situará, como está bem de ver, nas eleições autárquicas de 2013. Será um eventual desejo de castigar os partidos da maioria (a que não escaparão muitos, apesar das sucessivas demonstrações de que não há, de momento, alternativa à austeridade) mais forte do que o valor dos candidatos? Cá para mim tenho como quase certo uma abstenção enorme, independentemente dos desfechos dos vários sufrágios.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Quanto vai custar o medo em 2013?


Portugal precisa dar uma grande volta, a começar pelo medo instalado, que é transversal e nos leva ao insucesso nacional. No meio de tantas variáveis, estudos e relatórios que ouvimos falar ainda está para vir alguém explicar quanto custa o medo em economia? Uma sociedade dominada pelo medo não investe, não aposta, não se desenvolve.

Todos nós quereríamos governantes do tipo Macgyver, que conseguissem transformar caixões em jet-skis. Porém, à falta deles, era só o que faltava termos políticos que cultivem o medo e provoquem sucessivas avalanches. Isso seria a subversão completa do papel do Estado, onde o sinal que se transmitia era que não valia a pena investir em Portugal.

Vem isto a propósito do polémico relatório do FMI sobre a reorganização do Estado. Pedro Mota Soares, ministro indicado pelo CDS foi dos primeiros a colocar em causa a credibilidade do estudo. António Capucho escreveu no seu facebook que ficou “indignado com o teor”. Carlos Carreiras, alcaide de Cascais veio defender a demissão do Secretário de Estado Carlos Moedas, que entendeu dizer com toda a propriedade que era um trabalho “muito bem feito”.

Já percebemos que o coro de críticas irá muito além. À esquerda haverá naturalmente demagogia política escondida atrás de blocos, de foices e martelos. Mas também falta de comparência do PS, partido que nos levou ao estado caótico em que nos encontramos, naquele que será, porventura, o debate mais importante alguma vez feito na nossa história democrática.

A procissão vai no Adro, ainda muito será escrito e dito, mas desconfio que a montanha voltará a parir um rato. Ninguém quer cortes, está certo! Mas então não podemos ser contraditórios e há que reconhecer que o Estado como o conhecemos está excelente. É o chamado custo de oportunidade, com tudo o que daí advirá.

Até lá, não tenhamos medo de 2013! Sucesso e bom ano a todos.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Mundo a Alta Velocidade

Como muitos dos meus congéneres, dou uma volta frequentemente na Internet, pelos principais jornais mundiais de língua inglesa, alemã, francesa, italiana e portuguesa, esta ultima por ter sido a minha primeira língua, a da minha Pátria, e as outras por terem sido as que aprendi e utilizei na minha profissão comercial.

Quando viajava, lia logo de manha, no hotel , durante o pequeno almoço, as noticias vindas de longe, uma maneira de me aproximar, em pensamento, da minha casa e dos meus. Em Tokyo, foi no Asahi Shimbun,de língua inglesa, que soube da mini revolução francesa de Maio 1968, e da fuga de De Gaulle para a Alemanha. No meu regresso, a minha firma estava "ocupada" pelo pessoal!

Hoje, não sei se teria tempo para ler tudo o que o mundo proporciona como informação! 

Depois do homo erectos, o homo sapiens e o homo sapiens sapiens, veio a era do homo numericus!

Talvez pareça de mais, mas o salto para a frente da humanidade inteira, foi extraordinário.

Basta olhar como as crianças de 5 anos se servem duma tablete numérica, ou dum iPhone...

Quem não se sentiu envelhecer ao ver os miúdos manipular esta técnica com agilidade e percorrer o ecrã táctil a toda a velocidade!

A maneira como trabalhamos, nos deslocámos, nos encontramos, comunicamos, analisada vinte anos atrás , ter-nos-ia parecido pura ciência ficção! Para o melhor ou para o pior, segundo o carácter de cada um.

Há quem considere, de facto, que a humanidade vive hoje sob a ditadura da tecnologia, escrava dos robots. Quantas vezes se consulta o telefone por dia? 150 vezes segundo um estudo recente! Melhor: Um estudo da universidade de Chicago, Booth Business School, diz-nos que os jovens de 18-25 anos estão mais interessados pelo Facebook ou Twitter que pelo álcool  o sexo ou mesmo o tabaco. E ainda melhor (ou pior !): 3% dos Australianos consultariam o Facebook durante uma relação sexual! Surpreendente!

Estar conectado em permanência, responder imediatamente, estar aqui e ...além .. ao mesmo tempo, tudo isto faz parte dos representantes da nova família dos "e-hominidios".

O cérebro do homo numericus é assim submetido a um fluxo constante de informação que acaba por modificar a sua maneira de pensar. Ele faz zapping sobre as informações, funciona por associação, sintetiza os dados, difunde-os, classifica-os e, o mais das vezes... esquece-os!

Como não tem tempo para esperar, dá o sentimento que não tem tempo para compreender.

Agora, tudo deve ser instantâneo, resumido, mastigado. Os jornais televisivos resumem excessivamente as situações e privilegiam a informação bruta com prejuízo da análise. Uma ideia, um pensamento é transmitido instantaneamente em SMS, deve comportar um máximo de 140 linhas (Twitter), deve fazer "mouche" e deve" buzzar". Senão, ela não existe! 

Os campeões da comunicação politica compreenderam muito bem o sistema. Eles contam sobre o reflexo, mais que sobre a reflexão.

Como nos jogos de vídeo: a rapidez é mais importante que a reflexão! O problema, é que toda esta rapidez, toda esta azáfama que impede a reflexão, é o tempo livre que se vai! Ora o tempo livre, como cada um sabe, é também o da reflexão, da contemplação, da introspecção. Este é um tempo útil para se conhecer e conhecer o mundo que nos envolve.

Tendo dito isto, mesmo se o perigo existe do desenvolvimento dum certo autismo social, de desconexão da realidade, também não há duvida nenhuma que aumentamos a nossa capacidade a tratar a informação. Por isso, vamos lá adaptar-nos, custe o que custar. Não vale a pena, portanto, arrancar-nos os cabelos ( aqueles que os têm !), pensando que as novas tecnologias vão matar o homem!

Não era Sócrates que dizia "O que faz o homem, é a sua grande faculdade de adaptação"? Aproveitando, pois, Internet no seu aspecto mais prático e porque no Natal o nosso espírito se abre à esperança, gostaria de deixar aqui , a todos os meus leitores e amigos, assim como à direcção e aos colaboradores do "LODO" e respectivas famílias, os meus votos dum Bom Natal, a festa da família por excelência, afastando assim por algum tempo, sem os esquecer, os problemas numerosos e preocupantes do momento e o espectro negro do mundo que nos prometem para 2013. 

E que o solstício de Inverno, que começa no próximo dia 21 de Dezembro, não nos traga o fim do mundo, que o Grande Ciclo Temporal Maya teria anunciado! Pela minha parte, como astrónomo amador, vou pegar no meu telescópio para observar, ao pôr do sol, a queda do planeta Vénus no horizonte ocidental e assistir, no leste, à nascença da constelação das Plêiades! 

 J. Freitas Pereira

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O chico esperto do Costa

O alcaide da capital é aquilo a que comummente se chama de chico esperto.

Só que o PSD é mais elegante  no trato, diria! Mas se assim não fosse, podia responder na mesma moeda, desafiando José Sócrates a concorrer contra o licenciado-equivalente.

António Costa não faria nada que não tivesse já feito. Apoiar o engenheiro, de quem foi n.º 2.

Como a democracia vive de alternativa, o resultado do conclave seria uma verdadeira incógnita.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Encarceramento

Aqui há umas luas dei comigo a especular nesta página sobre a influência que teria tido o colapso da União Soviética no desmando actual da economia de mercado.

Continuo a suspeitar de que, sendo um sistema cruel para os que viveram sob a sua égide, era a sua existência que obrigava as ditas democracias de estilo ocidental a manter padrões elevados de dignidade humana, que serviriam para demonstrar que nós é que sabíamos tratar bem dos nossos.

Sendo que a China está empenhada em, sem desmanchar o sistema político, demonstrar que a versão asiática da economia é tão liberal como as outras, a falta da “cortina de ferro” fez cair o último biombo de pudor que travava a descarada afirmação da posse e da propriedade sobre a própria existência. Somos o que temos, e a maioria de nós tem cada vez menos, pelo que…

…pelo que, entre outras coisas, arriscamo-nos a dar razão à teoria marxista, precisamente pela aplicação desenfreada dos pressupostos da construção teórica que a desmente. Vejamos: é ou não verdade que cada vez menos sujeitos lucram, enquanto os demais definham, contando tostões para pagar bens essenciais como comida, roupa, educação, saúde e habitação? O que nos leva ao jargão comunista e à “apropriação da mais-valia”…

E se a conflitualidade social que vemos nas ruas ainda não é “luta de classes”, nenhum de nós pode dizer que percebeu onde tudo isto vai parar se continuarem a apertar um cinto que, um dia destes, pode tornar-se forca.

Sublinho, entretanto, que não escrevo contra qualquer governo, mas sim sobre a percepção que tenho dos excessos em que caímos na época pantagruélica (em que tudo se comprava e vendia) e na era famélica (a de hoje, como está bem de ver…).

E se, por um lado, antevejo o perigo da recuperação de popularidade por parte de um ideal que, tendo componentes intelectualmente válidas, se provou já irrealizável, por outro lado, assistimos à sorrateira ascensão de outro flagelo: a extrema-direita.

De facto, nos países do Norte e Leste da Europa, integrem ou não os governos e parlamentos, cresce a demagogia populista de partidos tributários de algumas das mais sangrentas atrocidades cometidas em nome de uma ideologia. As razões, a meu ver, nem são tão inexpugnáveis: é muito fácil culpar os “outros” (leia-se imigrantes, mormente se a raça não for a mesma) quando escasseiam os empregos (mesmo quando estes desempenham tarefas que os nacionais se recusam a fazer). Por outro lado, é tão fácil ser adepto das organizações supranacionais (como, por exemplo, a União Europeia) quando a cornucópia jorra, como nacionalista e xenófobo quando chega altura de, nesse quadro, ser solidário… Todavia, a isso chama-se cinismo e cobardia.

E o pior é que o corredor entre estas duas assombrações está cada vez mais estreito…

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Descartáveis

Notícias do dia de escrita (na quinta-feira passada): duplicou o número de casais com ambos os cônjuges desempregados (creio que em relação ao ano transacto) e a DECO tem mais de cinco mil processos de pessoas que não conseguem pagar as suas dívidas.

Se somarmos isto ao chorrilho de notícias anteriores (e, aposto, ulteriores) sobre impostos, sobretaxas, falências, aumento do custo da Saúde e da Educação e pragas afins, fica a noção de falta de futuro…

Sendo o ser humano uma criatura que precisa de objectivos e que se norteia pelo estímulo de uma vida melhor, confesso-me desorientado no que a mim diz respeito e assustado pelo que toca aos que hoje são jovens.

Faz-me especial impressão as notícias de que o Estado tem “x” trabalhadores a mais ou que o sector industrial “y” vai dispensar “n” trabalhadores… E, dito isto, eis-nos chegados ao tema: não me entra na cabeça a noção de seres humanos descartáveis!

Passando o exagero mórbido, fica a sensação de que, com as cartas de despedimento, mais valia darem um revólver ou uma corda já com o laço feito para que os visados deixassem de ocupar um lugar no Mundo que, agora, parece indevido.

Com o recuo permanente da actividade económica e com a crescente e inexorável substituição de seres humanos por máquinas (por exemplo, pude constatar, recentemente, que as auto-estradas francesas, se bem vi, não têm já qualquer portageiro) torna-se premente pensar o que fazer a legiões de pessoas a quem, em termos práticos, estamos a dizer que já não prestam para nada, que não servem para o que quer que seja.

Que futuro tem um desempregado de quarenta e muitos ou cinquenta anos? Que lugar reservamos para pessoas sem habilitações específicas? Que dizemos a jovens que mandamos estudar e a quem, depois de altamente qualificados, dizemos que não estamos bem a ver que utilidade possam vir a ter?

A trama torna-se tétrica se a isto juntarmos o seguinte paradoxo: é normal que as pessoas não achem bem trazer crianças ao mundo, neste contexto; porém, se o não fizerem mais se arruína o já debilitado Estado Social, que carece de muita gente activa para sustentar os que, merecidamente, chegaram à idade de repousar ou os que ficam doentes ou perdem o emprego. Em relação aos primeiros ainda poderíamos especular sobre a injustiça do caminho contemporâneo que não apenas os priva de fatias consideráveis da sua pensão, como aponta para que se torne regra morrer a trabalhar, perdendo-se o justíssimo período de fruição a que costumamos chamar reforma.

Não sei mesmo o que pensar de civilizações que dizem a grande parte dos seus que estão a ocupar espaço. E vem-me à cabeça o filme “Soylent Green” (protagonizado por Charlton Heston), no qual as pessoas são incentivadas a morrer mais cedo (uma espécie de eutanásia sem doença), vindo a saber-se, mais tarde, que o propósito era reconverter os seus cadáveres no único alimento que o comum cidadão podia adquirir… Folgo com o facto de (ainda) ser ficção.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Glória em saldo

Tive o privilégio de assistir aos dois jogos entre a Académica e o Atlético de Madrid. Assim, com alguma ginástica financeira e guardando férias para o efeito, cá fui de África à Pátria, com a certeza de que iria presenciar momentos únicos de uma devoção de anos e com a sensação de que poderia ser em letra grande que se escreveriam mais umas páginas de uma gloriosa e briosa História recente.

Se em Madrid “estava bonita a festa, pá” (adaptando a canção do enorme Chico Buarque) e a prestação foi digna, já em Coimbra a coisa adquiriu contornos épicos. Efectivamente, os poucos espanhóis que foram ao Estádio Vicente Calderón viram uma equipa com um orçamento centenas de vezes menor mostrar que a beleza da competição desportiva está não apenas no potencial de cada atleta, mas na capacidade de superação que o grupo encontra, mormente quando enquadrado por uma instituição que transmite uma maneira peculiar de estar no desporto e na vida, designadamente através dos seus adeptos (destaque para a imensa e intensa Mancha Negra) e dirigentes.

Em Coimbra, este sortilégio ganhou foro de prova concludente; a incansável claque (e mais “meia dúzia” de adeptos individuais) transcendeu-se e a equipa jogou o que sabia e o que não sabia, derrotando nada mais nada menos que o detentor da Liga Europa. Alguém na Europa de Futebol (tirando os academistas) imaginaria uma noite assim? E nem vale, como cortesmente reconheceu o treinador adversário, brandir a carta da falta de cinco titulares (que, aliás, foram poupados em todos desafios europeus anteriores, sobretudo no caso de Falcão); esse é um problema do Atlético, que percebeu que a camisola em si não mete medo a ninguém…

O “senão” de tudo isto é vermos uma Cidade cheia de tradição que não sabe honrar uma das poucas instituições que ainda lhe dá projecção nacional. A assistência ao jogo em casa foi miserável, vergonhosa e mesmo acintosa para os atletas que, repito, foram extraordinários.

Ponhamos, porém, as coisas en su sitio: têm as pessoas de Coimbra obrigação de ir ao futebol? Obviamente, não. Valeria, todavia, a pena que não se reunissem, quase todos os dias, a pedir mais e a criticar o que é feito. É básica a lição de Cícero sobre a necessidade de envolvimento cívico para os que desejem influenciar positivamente uma colectividade. E note-se que, perante esta omissão, se torna legítimo concluir que a esmagadora maioria da Cidade e da Região “está-se nas tintas” para o escalão em que milita a equipa ou para o grau de fidelidade académica observado.

Chega a parte em que pode ser brandido o elemento da carência económica das pessoas, o que, em muitos casos, será sério e respeitável. Contudo, a deserção é muito anterior à crise, relembrando eu que há bilhetes de época mais baratos do que a assinatura de um mês da SportTv, desculpa comum para muitos que ficam a ver o Benfica ou o Real Madrid…

Voltaremos ao tema…

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Passado, Presente e Futuro

Esta coligação está ferida desde o primeiro dia quando aceitou coligar-se com o CDS sem a presença do PS. O CDS é predominantemente um partido populista, tal como o BE ou o PCP, se bem que em campos opostos e defendendo políticas diametralmente opostas, mas sua base de apoio é muito frágil e volátil e por isso muita adverso a medidas impopulares.
 
Com este ponto de partida, o governo até começou bem, apresentando um plano de reformas ambicioso, um caminho para ultrapassar as dificuldades existentes, um compromisso forte relativamente ao cumprimento do memorando da Troika e uma estratégia para reganhar a credibilidade externa, o que o fez, com muito sucesso.
 
Com mais ou menos percalços, o governo foi cumprindo, não seria o facto das primeiras reformas serem da responsabilidade de um Ministro com telhados de vidro, refiro-me a Miguel Relvas e a reformas como o fim dos Governos civis, a fusão/extinção de municipios e freguesias e a reestruturação do sector público de comunicação social, com especial destaque para a “vaca sagrada RTP”.
 
Este para mim foi o segundo erro do governo, a opção Miguel Relvas. Com dossiers tão importantes, esta pasta pedia alguém como Paulo Macedo, intocável, com créditos firmados, e com uma estratégia clara como temos visto na pasta da Saúde.
 
No verão do ano passado, num artigo que escrevi para este blog e a propósito deste tema, terminava a desejar que o período de férias fosse bom conselheiro e que na rentrée, Miguel Relvas já não fizesse parte do governo. Mais um vez o governo confundiu, autoridade, perseverança e linha de rumo, com fragilidade. Demitir Miguel Relvas nunca seria entendido como um sinal de fraqueza , mas sim uma correcção de trajectória, o reforço da autoridade e da coesão do governo e finalmente um sinal importante para Portugueses, mostrando uma forma diferente de fazer política.
 
Como sabemos não foi nada disto que aconteceu, a grande reforma autárquica ficou-se pelo elo mais fraco, as freguesias e no caso da RTP, tudo indica que a montanha pariu um rato.
 
Terceiro erro ou inabilidade, a comunicação. Sabíamos à partida, que a tarefa seria difícil, que a corrida contra o tempo seria um dos factores chave e que qualquer reforma contra-cíclica seria ostracizada e destruída pelos interesses instalados, pelas corporações e finalmente pelas lógicas partidárias.
 
Para o sucesso do programa de ajustamento e consequente reforma das funções do Estado, teria sido importante contar com um PS forte, seguro e cooperante. Convém neste caso, perceber porque é que o PS e António José Seguro, aparentemente fizeram tudo ao contrário. Recordemo-nos, que quando António José Seguro ganha as eleições internas, encontra um partido completamente fragmentado, Soaristas, Alegres, Socratistas e finalmente alguns Seguristas que na falta de uma alternativa melhor, lhe deram a vitória. Ora, é sabido também, que António José Seguro e Pedro Passos Coelho para além de serem da mesma geração, partilham convicções idênticas, tinham um boa relação pessoal e por isso tudo indicava que um ciclo de cooperação entre os dois mais importantes partidos da democracia Portuguesa pudesse ter sido uma realidade.
 
O que é que aconteceu então? Nada fora do habitual, apenas a velha forma de fazer política e porquê?
 
Desta vez a culpa não foi de Pedro Passos Coelho nem do PSD, foi da lógica partidária, que mais uma vez imperou sobre o interesse Nacional. Recordemo-nos que AJS ganhou as eleições não porque fosse o líder desejado, mas porque foi o único que se mostrou disponível e dadas as circunstâncias de partida, qual poderia ser a estratégia para unir o PS e afirmar a liderança ? Vem nos livros, encontrar um denominador comum, um inimigo contra quem todos se identifiquem, elaborar um discurso e uma retórica de ataque por forma a branquear o passado, reciclando assim, muitos dos responsáveis que levaram o País à bancarrota.
 
Perante esta estratégia irresponsável do ponto de vista do interesse Nacional, mas lógica do ponto de vista partidário, quem poderia substituir o PS nesta cooperação tão desejada? Apenas o Presidente da República, mas como também já escrevi, de Cavaco Silva pouco ou nada podemos esperar, pois a interpretação que faz dos poderes que na realidade tem, é minimalista, pequena e confinada à magistratura de influência. O silêncio tem sido o “modus operandis” e a verdadeira função, que era a de obrigar os partidos do arco da governação a um entendimento e à consensualização de um documento estratégico Nacional para a próxima década, tarda e nunca será uma realidade.
 
Com mais ou menos sucesso, passámos com nota positiva a 6ª avaliação da Troika, mas mais do que nunca, chegou o momento crucial para demonstrar aos nossos credores e parceiros internacionais, que Portugal cumpriu, com sangue suor e lágrimas, mas que os resultados estão muito aquém do esperado. Porquê? Porque as condições de partida estavam viciadas, o défice não era de 6% mas de quase 10%, porque a desorçamentação em quase todos os Ministérios era uma prática que uma vez reconhecida representaria grosso modo mais 1% do défice, que o BPN, RTP e Empresas públicas de transportes agravariam o défice, que a previsão quanto ao ambiente macro-económico falhou nomeadamente nos países da Zona Euro, afectando assim as exportações Portuguesas, etc, etc...
 
Portanto e perante estes factos, volto à questão do Presidente da República como um dos pilares da democracia Portuguesa.
 
Não tenho dúvida, de que ficaria na historia e prestaria um enorme serviço ao País e aos Portugueses, se conseguisse obrigar PSD, PS, CDS, UGT, CPP, etc..., a um entendimento, vertendo num documento estratégico para a próxima década, questões como, a revisão do memorando de entendimento, uma política de crescimento económico e emprego, a competitividade, a justiça, a revisão constitucional e finalmente a definição do estado social que o País tem capacidade para suportar.
 
Se bem que esta discussão deveria ser alargada à sociedade Portuguesa, pois trata-se de contratualizar um política para o futuro, a descrição e a reserva durante o processo negocial deveria ser mandatória e só no fim e depois de assinado por todos, deveria ser convocado um referendo, para o legitimar.
 
Só depois deste processo é que os partidos estavam autorizados a voltar à lógica partidária, à demagogia, à mentira e ao ilusionismo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ditadura do bota abaixo

Deixem-me ser do contra, num País em que só é bem aceite quem é contra este governo, contra a troika e contra a Alemanha da Sra. Merkel.
 
Com este início, já todos perceberam que não vou alinhar na crítica fácil, populista, seguidista e bem vista pelos principais comentadores, políticos e interesses na comunicação social. Esta atitude generalizada da parte de quem deveria ter um sentido crítico mais apurado, mais refinado e mais evoluído, tem-me deixado desiludido e discrente relativamente a certas personalidades da nossa vida política, que deveriam ter um sentido patriótico muito mais apurado e consolidado.
 
De repente consensualizou-se na vida política Portuguesa, a noção de que dizer mal, atacar e destruir, é politicamente correcto e mais grave ainda, esta classe de derrotistas está convencida de que o futuro lhes dará razão. E se não der?
 
Não sei se sou uma ilha em Portugal, mas há uns anos no ambito das funções que ocupo e a proposito de um exercicio sobre quadrantes cerebrais, o meu perfil encaixou em algo entre Germânico e o Latino, no fundo concluia o exercício que eu era racional, factual, quantitativo e algo criativo. Muitos acharão que é impossivel conciliar na mesma pessoa, atributos como racionalidade e criatividade, mas se imaginarmos um quadrado dividido em quatro partes e em que cada um dos cantos tem atributos e se no final desse exercício, ficarmos situados entre quadrantes é sinal de que temos atributos de um e de outro quadrante.
 
Tudo isto para dizer que sou racional e lido melhor com factos do que com meras intenções ou suposições e por isso, custa-me ouvir todos os dias na comunicação social, que há um caminho alternativo, só identificável e perceptível pelos iluminados e que só o governo é que não vê qual é. Pior ainda, é esta elite de iluminados, influenciar negativa e erradamente um franja da população, criativa, preguisosa e laxista, que acha que o estado social é uma obra divina, imutável, sustentável e eterna.
 
Estamos pois perante factos incontornáveis tais como, um País praticamente falido, com uma dívida insustentável, um desemprego alarmante, um enorme desiquilíbrio nas contas públicas e ausência do único factor que poderia inverter todo este descalabro, o crescimento económico.
 
Ora, não é preciso ser muito inteligente para perceber que o crescimento económico não se decreta, não se compra e prior ainda, não pode ser um mero processo de intenções. Muitos recordar-se-ão, que José Socrates ganhou umas eleições aumentando os funcionários públicos em 2,9%, quando o País crescia 0,5% e ainda prometendo a criação de 150.000 empregos. Pois é, quem pensava que injectando dinheiro dos nossos impostos e outro tanto emprestado pelos nossos actuais credores seria a solução, enganou-se e mais grave ainda, enganou o Povo Português, que hoje tem que devolver os aumentos fictícios que recebeu, mais os investimentos e negociatas ao longo destes anos e tudo isto, acrescido de juros.
 
Qual é então o caminho? É aqui que divirjo da maioria dos políticos e comentadores reputadados, quando digo que não há um caminho alternativo. Contudo, creio que simultaneamente e noutro palco, devemos pressionar a UE e os nossos parcerios internacionais a disponibilizar fundos europeus do tipo, QREN, PRODER, FEDER, etc..., insentando nesta fase, ou durante um determinado periodo, o Estado Português da comparticipação Nacional. Estes fundos deveriam ter finalidades muito específicas, abrangendo sectores em que somos deficitários, reconstruindo outros com vista à exportação e se possivel e ao mesmo tempo, proibindo a utilização destes fundos para à construção de auto-estradas, aeroportos e pontes, porque a tentação é grande. Esta no fundo, seria a grande medida para implusionar o crescimento económico e a criação de emprego.
 
Contudo, esta medida não chega, faltam muitas outras relacionadas com, a melhoria da justiça, com a eliminação da burocracia e do desperdício ao nível do Estado central e Autarquias.
 
Finalmente, o tema quente deste outono, “que funções queremos que o Estado Português assegure aos seus cidadãos”.
 
Novamente e tendo por base alguma objectividade, acredito que deveremos em primeiro lugar, atingir um consenso nacional quanto ao montante máximo que os nossos impostos suportam e que devem ser alocados a estas funções e só a depois definir quais as áreas ou funções que o Estado presta e em que os Portugueses estão mais disponíveis a abdicar. Neste aspecto não há volta a dar e falamos sempre do custo da saúde, educação, prestações sociais, segurança interna e externa, democracia parlamentar, instituições, etc...
 
Sem querer passar um cheque em branco e acreditando que o corte mínimo indispensável para atingirmos o equilibrio nas contas públicas, é de 4.000 milhões de euros, então sem demoras, sem demagogia e sem complexos, devemos iniciar esta caminhada longa e penosa, evitando assim rupturas muito mais dolorosas e forçadas, como aquela a que que fomos obrigados há um ano e meio, que culminou com a assinatura do famoso memorando de entendimento.
 
O risco de nada fazer ou de fingir que se faz não fixando objectivos, é o pior erro, o pior caminho e a hipoteca definitiva do nosso futuro.
 
Convenhamos que os aumentos de impostos a que já fomos sujeitos, aliados aos cortes já efecuados na despesa e aos que se avizinham, são o ingrediente ideal para a instalação da ditadura do bota abaixo, pois no fim não haverá ninguém que consiga passar incólume desta situação e o egoismo imperará sobre o interesse Nacional. A prova disso, é que enquanto os cortes nos salários se limitaram à função pública, comentadores, políticos e outros grupos de interesse, foram doseando as suas críticas, mas quando estes cortes se tornaram mais abrangentes, pedindo a cada um de nós um sacrifício adicional, aí instalou-se definitivamente a ditadura do bota abaixo.