A ideia não é nova, mas para o Lodo é como se fosse! No passado fim-de-semana (4-6 de Setembro), os colaboradores Diogo Gaspar e João Morgado formaram uma delegação à 33ª Festa do Avante. Partilhe-se o testemunho! Passado o Pragal já se identificam na carruagem os companheiros da luta. Destino: Foros da Amora, onde um autocarro faz o transporte (devidamente subsidiado) até à Quinta da Atalaia. A instalação no parque de campismo não escapa à
burokracia. Mas o que importa? Estamos na festa onde todos são iguais. O
dress kode uniformizado das camaradas é prova disso.
A noite cai, e com ela a
Carvalhesa! Junto ao Palco 25 de Abril, imagens do Minho e de Trás-os-Montes pairam nos ecrãs, cruzados com vídeos de
manifs, discursos e comícios. E nisto, os presentes, correm, saltam e dançam. Pouco depois chegará a primeira edição da Grande Gala de Ópera, tido como o momento mais significativo desta Sexta-Feira (dia 4). E é uma sessão de luxo: confirme-o o
reportório, à atenção dos especialistas da casa. Mas nem só as obras (não encenadas) justificam a assistência. Aqui não há plateia, nem camarotes e muito menos “galinheiro” – haverá sala mais democrática? – Além disso, notamos uma relação de perfeita complementaridade entre a marijuana e as melhores árias – enfim, como nunca pôde sentir em São Carlos!
Finda a sessão e antes que o recinto feche, arranjamos tempo para uma ida à Área Internacional. Lá se encontram unidos os partidos comunistas de todo o mundo. É, por isso, uma boa oportunidade para conhecer a gastronomia da luta. A saber: FRETILIM (as pequenas espetadas de carne timorenses fazem as delícias de qualquer um; custam apenas um euro e já incluem o respectivo molho sassate); MPLA (o funje, confeccionado a partir da farinha de mandioca, pode ser a mais proletária das opções); Associação Portuguesa de Amizade e Cooperação Iúri Gagárin (Antiga Associação Portugal-URSS) (a Ração Kocmoc é um expoente do Internacionalismo Gastronómico: 3 cl de vodka russa acompanham a fatia de pão preto com uma rodela de pepino); Associação Partido Comunista de Cuba (aconselham-se os mojitos, com trave a hortelã de um qualquer campo colectivizado).
E por falar em colectivização, já é Sábado (dia 5) e o leitor pode acompanhar o pequeno-almoço com a apresentação do livro A Reforma Agrária é necessária, publicação de António Gervásio, pelas Edições Avante. E já que aqui estamos, continuemos para o Pavilhão Central. Das três exposições patentes a mostra 35 anos da Revolução, Abril de novo para Portugal com futuro «valoriza a luta e a resistência ao fascismo – quando aliás muitos o querem branquear» (assim reza o programa). E continua «Quando muitos dos visitantes da Festa já nasceram depois de 1974, aqui ficará uma oportunidade […] para revisitar a nossa história» – pena que a maioria da audiência passe em muito a idade da revolução. Pelo meio um vídeo que cruza Ary dos Santos a declamar As portas que Abril abriu com imagens da sempre exemplar Lisnave. Uma camarada mais velha emociona-se.
O contacto com os mais velhos é, aliás, uma riqueza da Festa. Diz-me uma militante não identificada que já acompanha o Avante! desde os tempos da FIL. Alto da Ajuda, depois. E a seguir participou no peditório dos 150 mil contos que (em 1990) compraram a Atalaia, na altura ainda com um palacete e zona de produção de fruta. Fala de uma ida à União Soviética (em 1978), de onde saiu triste com a corrupção, visível aos olhos de qualquer um - «Não foi para aquilo que tinha vindo o Aurora». Ainda assim não esconde as saudades da força do bloco comunista (tempos em que a Área Internacional da Festa era o dobro, e nunca faltava marisco). Burguesice, dizemos nós! Retenho algumas máximas: «os cubanos exportam saúde, os americanos exportam armas», «a falta de crítica cá dentro é uma invenção da comunicação social», «o BE pode andar à vontade, desde que não roube as medidas aos outros e vá para os jornais anunciar», «se quiser aderir à verdadeira causa humana e justa, já sabe…».
Domingo (dia 6). No Palco da Solidariedade realiza-se o debate Capitalismo, Repressão e Militarismo. Depois do comício com Jerónimo de Sousa, da Avante, Camarada, d’ A Internacional, do Hino de Portugal e da Carvalhesa, segue-se o jantar na região do Alentejo. As filas levam-nos a optar pelo Bar de Portalegre e, consequentemente, pela bifana em pão caseiro (pago com Multibanco). Sentamo-nos em mesa familiar – «ó filho, faz um favor ao pai, vai ali àquele camarada pedir a mostarda» – enquanto as cantigas da Brigada 14 de Janeiro (de Elvas), já enchem o ouvido: «Ao preço a que estão as casas quem aluga tem uma mina / Ai, ai, minha barraca clandestina!». Troco os alentejanos por uma Teresa Salgueiro (em versão popular), que actua no Pavilhão 1º de Maio. Para a despedida, David Fonseca, e uma passagem inevitável pelo Bar da Marinha Grande, um ponto de confraternização.
E a delegação voltará, camaradas! (quinquenalmente).
Expropriada. Na placa pode lêr-se «Devolvam os meus ténis, ok?»
Komércio tradicional. Uma montra bem alinhada.
Brinde do COMECON. Ideal para depois da Ração Cokmoc.